Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 8 (Final)

V – IMPÉRIO TIMÚRIDA (1370-1507)


Reconstrução facial de Timur
a partir do crâneo
O Irã permaneceu dividido até a chegada de Amir Timur (ou Tamerlão, do turcomano Timur-i-Lenk, Timur, o coxo), de origem mongol ou turca, pertencendo à dinastia Timurid. O Império Timúrida, como seus predecessores, era também parte do mundo Persianato e no seu auge envolveu o Irã moderno, o Cáucaso, Mesopotâmia, Afeganistão, muito da Ásia Central, bem como partes do atual Paquistão, Síria e Turquia. Timur conquistou grandes partes da Ásia Central de 1363 em diante, com várias alianças, sendo reconhecido como líder entre eles em 1370.
Após estabelecer uma base de poder na Transoxiana, Timur iniciou sua campanha para o oeste em 1380, invadindo o Irã em 1381. Cerca de 1389 Timur havia adentrado o território principal da Pérsia onde teve muitos sucessos, acabando por conquistar sua maior parte. Em 1400-1401 ele conquistou Alepo e Damasco, na Síria e a área oriental da Anatólia; em 1401 ele destruiu Bagdá e em 1402 derrotou os Otomanos na Batalha de Ankara, tornando-se o mais proeminente governante muçulmano da época, com o Império Otomano mergulhando na guerra civil. Seu regime caracterizou-se pela inclusão de iranianos em posições administrativas e pela promoção da arquitetura e poesia e durou até a sua morte em 1405.
Timur indicara seus filhos e netos como líderes das diferentes partes do seu império. Após a sua morte a família caiu rapidamente em disputas e guerras civis e muitas das suas governanças tornaram-se efetivamente independentes. Entretanto os governantes timúridas continuaram a dominar muito daquela área, perdendo os territórios do Cáucaso e Anatólia cerca de 1430.
Com a destruição das cidades persas pelas guerras, o assento da cultura persa quedou-se em Samarkand e Herat, que se tornaram centros da renascença timúrida. As campanhas de Timur ficaram conhecidas por sua brutalidade: muitas cidades foram destruídas e estima-se que suas conquistas custaram a morte de 17 milhões de pessoas.
Seus sucessores Timúridas, mantiveram o poder sobre a maioria do Irã até 1452, quando perderam a maior parte para os Kara Koyunlu, que foram conquistados pelos Ak Koyunlu, liderados por Uzun Hasan, em 1468; Uzun Hasan e seus sucessores foram os governantes do Irã até a ascensão dos Safávidas.

V.1 – OS KARA KOYUNLU

Os Kara Koyunlu, também chamados “Turcomanos das Ovelhas Negras” foram uma federação tribal Oghuz Turca xiita que governou o território que compreendia os atuais Azerbaijão, Armênia, noroeste do Irã, Turquia Oriental e a região nordeste do Iraque, de 1375 a 1468. Em algum momento eles haviam estabelecido sua capital em Herat (Irã Oriental). Foram vassalos do Sultanato Jalairida, em Bagdá e Tabriz (extremo noroeste do Irã), cerca de 1375, quando o líder de sua tribo principal governava de Mosul (cidade do norte do Iraque, no rio Tigre). Eles então se rebelaram contra os Jalairidas, assegurando sua independência da dinastia com a conquista de Tabriz por Qara Yusuf. Em 1400, Timur derrotou Kara Koyunlu e Qara Yusuf fugiu para o Egito buscando refúgio com o Sultanato Mameluco. Cerca de 1406 ele reuniu um exército e tomou novamente Tabriz. Em 1410 os Kara Koyunlu capturaram Bagdá, onde instalaram uma linha secundária dos “Ovelhas Negras” que apressou a queda dos Jalairidas que eles haviam servido anteriormente. Embora a luta interna entre os descendentes de Qara Yusuf após a sua morte, em 1420, e a crescente ameaça da dinastia Timúrida, os Kara Koyunlu mantiveram um forte controle sobre as áreas que eles dominavam. Jahan Shah fez paz com o timúrida Shahrukh Mirza que durou pouco, pois quando este morreu, em 1447, os “Ovelhas Negras” anexaram porções do Iraque e a costa oriental da Península Arábica, além da região ocidental do Irã controlada pelos timúridas. Embora muito território tenha sido ganho durante o seu reinado, ele foi complicado por seus filhos rebeldes e os quase autônomos governantes de Bagdá, que ele expulsou em 1464. Em 1466, Jahan Shah tentou tomar Diyarbakir (na atual Turquia) dos Ak Koyunlu, sofrendo um catastrófico fracasso que terminou com a morte de Jahan Shah e o colapso do controle dos “Ovelhas Negras” turcomanos no Oriente Médio. Cerca de 1468, no seu auge, sob Uzun Hasan (1452-1478), os Ak Koyunlu derrotaram os Kara Koyunlu e conquistaram o Iraque, o Azerbaijão e o Irã Ocidental.

V.2 – OS AK KOYUNLU

Os Ak Koyunlu (ou Aq Qoyunlu), também chamados de Turcomanos das “Ovelhas Brancas”, foram uma federação tribal turca do Persianato Sunita Oghuz que governou os modernos Azerbaijão, Armênia, Turquia Oriental, parte do Irã e o norte do Iraque, de 1378 a 1501. De acordo com as crônicas sobre o Império Bizantino, os Ak Koyunlu foram os primeiros do distrito de Bayburt (região da Anatólia Nordeste da Turquia), ao sul das montanhas Pontic, pelo menos desde os 1340, e a maioria de seus líderes, incluindo o fundador da dinastia, Qara Osman, casaram com princesas bizantinas. Os turcomanos Ak Koyunlu compraram suas primeiras terras em 1402, quando Timur lhes garantiu todo Diyar Bakr, a sudeste da atual Turquia. Por muito tempo os “Ovelhas Brancas” não puderam expandir seu território pois seus rivais, “Ovelhas Negras”, os mantinham cercados. Isso mudou com o governo de Uzun Hassan que derrotou seu líder Jahan Shah em 1467. Após a derrota de Abu As’id, o líder timúrida, Uzun Hasan conseguiu tomar Bagdá com vários territórios em torno do Golfo Pérsico. Expandiu seu reino para leste do Irã até o Khorasan. Contudo, por esta época, o Império Otomano iniciava sua expansão para o leste, tornando-se uma séria ameaça que forçou os Ak Koyunlu a uma aliança com os Karamanidas da Anatólia Central. Desde 1464 Uzun Hasan havia solicitado ajuda de um dos mais fortes inimigos do Império Otomano, Veneza. Embora suas promessas, a ajuda veneziana nunca chegou e, como resultado, Uzun Hasan foi derrotado pelos Otomanos na batalha de Otlukbeli, em 1473, embora os Ak Koyunli não fossem destruídos. Uzun Hasan morreu no início de 1478 e foi sucedido por seu filho Khalil Mirza, derrotado por uma confederação sob o comando de seu irmão mais jovem Ya’qub, na batalha de Khoy, em julho do mesmo ano. Ya’qub reinou de 1478 a 1490 sustentando a dinastia ainda por algum tempo. Contudo, durante seus primeiros quatro anos de reinado, sete pretendentes ao trono tiveram que ser eliminados. Após a sua morte a guerra civil irrompeu e os Ak Koyunlus se destruíram em combates internos, a ponto de deixarem de ser uma ameaça a seus vizinhos.

VI - IMPÉRIO SAFÁVIDA (1501-1736)

O Império Safávida inaugura o que na história da Pérsia é denominada de “Idade Moderna Inicial” e que vai de 1502 a 1925. Por essa razão, este será o último item da nossa publicação sobre o assunto e só o estudaremos parcialmente. 
O Império Safávida à época de sua maior extensão
A Pérsia passou por uma espécie de renascimento com a Dinastia Safávida, que reinou de 1501 a 1736 e cuja figura mais proeminente foi Shah Abbas I. Alguns historiadores creditam à dinastia Safávida a fundação do moderno Estado-Nação do Irã.
A dinastia Safávida foi uma das mais significativas dinastias governantes da Pérsia. Eles governaram um dos maiores impérios persas após a conquista muçulmana da Pérsia e estabeleceram a Escola dos Doze do islamismo xiita, como a religião oficial do seu império, marcando um dos mais pontos críticos da história muçulmana. Os Safávidas governaram de 1501 a 1722 (experimentando uma breve restauração de 1729 a 1736) e no seu auge controlaram todo o atual Irã, Azerbaijão, Armênia, a maior parte da Geórgia, o norte do Cáucaso, Iraque, Kuwait e Afeganistão, bem como partes da Turquia, Síria, Paquistão, Turquemenistão e Uzbequistão. O Irã Safávida foi um dos “impérios da pólvora” muçulmanos, junto com seus vizinhos, o arquirrival e principal inimigo, o Império Otomano, e o Império Mughal (ou Mogul). 
Shah Ismail I, fundador da dinastia Safávida
O governo Safávida foi fundado por Ismail, que intitulou-se Shah Ismail I. Praticamente adorado por seus seguidores militantes xiitas do Azerbaijão, Anatólia e Curdistão (militantes Qizilbash), Ismail I invadiu o Xirvam (cidade do leste do Azerbaijão) para vingar a morte de seu pai Shaykh Haydar, morto durante o cerco de Derbente (cidade mais meridional da Rússia), na república do Daguestão, mar Cáspio. Posteriormente seguiu em campanha de conquista e logo após a captura de Tabriz (uma das capitais históricas do Irã), em julho de 1501, entronou-se como Shah do Azerbaijão e cunhou moedas com seu nome, proclamando o Xiismo como religião oficial de seus domínios.
Embora inicialmente apenas os mestres do Azerbaijão e sul do Dagestão, os Safávidas haviam, de fato, vencido a luta pelo poder na Pérsia, que persistia por quase um século entre as várias dinastias e forças políticas que se seguiram à fragmentação dos Kara Koyunlu e dos Ak Koyunlu. Após um ano de sua vitória em Tabriz, Ismail I proclamou a maior parte da Pérsia como seu domínio e rapidamente conquistou e unificou o Irã sob seu governo. Em seguida, o novo Império Safávida rapidamente conquistou regiões, nações e povos em todas as direções, incluindo a Armênia, Azerbaijão, partes da Geórgia, Mesopotâmia (Iraque), Kuwait, Síria, Dagestão, grande parte do atual Afeganistão, partes do Turquemenistão e grandes áreas da Anatólia, lançando a fundação do caráter multiétnico que influenciaria pesadamente o próprio Império (muito notadamente o Cáucaso e seus povos).
Durante o reinado de Tahmasp, ele realizou múltiplas invasões no Cáucaso, que havia sido incorporado ao Império Safávida desde Shah Ismail I e por muitos séculos adiante, e iniciou o movimento de deportação e movimentação de centenas de milhares de circassianos, georgianos e armênios para o território central do Irã. Inicialmente somente colocados nos haréns reais, guardas reais e seções menores do Império, Tahmasp acreditava que poderia eventualmente reduzir o poder dos militantes xiitas criando e completamente integrando uma nova camada na sociedade iraniana. Com essa nova camada caucasiana na sociedade iraniana, o poder indisputado dos Quizilbash seria questionado e muito diminuído à medida que a sociedade tornava-se totalmente meritocrática. 
Shah Abbas I, o maior dos
monarcas Safávidas
Shah Abbas I e seus sucessores expandiriam significativamente esta política e planejamento iniciado por Tahmasp, deportando, somente durante seu reino, cerca de duzentos mil georgianos, trezentos mil armênios e de cem a cento e cinquenta mil circassianos para o Irã, completando as fundações de uma nova camada na sociedade iraniana. Com isso e com a completa desorganização dos Qizilbash por suas ordens pessoais, ele acabou por ter um completo sucesso na substituição do poder dos Qizilbash pelo dos ghulams (soldados escravos nos impérios Abássida, Otomano, Safávida e, em menor extensão, Mughal, com plural ghilman) caucasianos. Estes novos elementos caucasianos seriam, após sua conversão ao xiismo e dependendo da função, quase sempre totalmente leais ao Shah, diferentemente dos Qizilbash. As demais massas de caucasianos foram organizados em todas as outras posições disponíveis no império, incluindo o harém, exército regular, artesãos, fazendeiros etc... Este sistema de uso em massa dos súditos caucasianos existiu até a queda da dinastia Qajar.
O maior dos monarcas Safávidas, Shah Abbas I, o Grande (1587-1629), chegou ao poder com 16 anos, lutando primeiro contra os Uzbeques (habitantes do Uzbequistão), recapturando Herat e Mashhad em 1598, perdidas por seu antecessor Mohammad Khodabanda com a Guerra Otomana-Safávida (1578-1590). Depois ele virou-se contra os Otomanos, arquirrivais dos Safávidas, recapturando Bagdá, o leste do Iraque e as províncias do Cáucaso e além, cerca de 1618. Entre 1616 e 1618, após a desobediência de seus mais leais súditos georgianos Teimuraz I e Luarsab II, Abbas realizou uma campanha punitiva nos seus territórios da Geórgia, devastando Kakheti (antiga província no extremo leste da Georgia) e Tbilisi (capital e maior cidade da atual Georgia), carregando consigo entre 130.000 e 200.000 cativos georgianos para o Irã. Seu novo exército, que havia sido grandemente melhorado de acordo com o modelo britânico, com o advento de Robert Shirley e seus irmãos, que se seguiram à primeira missão diplomática na Europa, infligiram sua primeira vitória sobre os otomanos, sobrepujando-os em poderio militar. Ele também usou sua nova força para expulsar os portugueses do Bahrain (1602) e de Ormuz (1622) com a ajuda da marinha inglesa, no Golfo Pérsico. Expandiu os laços comerciais com a Companhia das Índias Orientais, estabelecendo firmes laços com as casas reais europeias, iniciados por Ismail I, anteriormente, pela aliança Habsburg-Pérsia. Assim, Abbas I pôde quebrar a dependência dos Qizilbash de poderio militar, centralizando o controle. A dinastia Safávida já havia se estabelecido com Shah Ismail I, mas com Abbas I tornou-se uma das maiores potências mundiais, junto com seu arquirrival Império Otomano, com o qual ele pode competir em pé de igualdade. Foi iniciada a promoção do turismo no Irã e sob o seu governo a arquitetura persa floresceu novamente e viu muitos novos monumentos em várias cidades iranianas, das quais Isfahan tornou-se o mais notável exemplo.
Exceção feita a Shah Abbas, o Grande, Shah Ismail I, Shah Tahmasp I e Shah Abbas II, muitos dos governantes Safávidas foram ineficazes, muitas vezes com mais interesse em suas mulheres, álcool e outras atividades de lazer. O fim do reinado de Abbas II, em 1666, marcou o início do fim da dinastia Safávida. A despeito das receitas decrescentes e das ameaças militares, muitos dos últimos shahs tinham pródigos estilos de vida. O Shah Soltan Hosain (1694-1722), em particular, era conhecido por seu amor ao vinho e seu desinteresse pelas ações de governo.
O país em declínio era repetidamente atacado em suas fronteiras. Finalmente, o chefete Ghilzai Pashtun, nomeado Mir Wais Khanm, iniciou uma rebelião em Kandahar e derrotou o exército Safávida sob o governador georgiano iraniano sobre toda a região, Gurgin Khan. Em 1722, Pedro o Grande, da vizinha Rússia Imperial, lançou a Guerra Russo-Persa (1722-1723) capturando muito dos territórios caucasianos, incluindo Derbent, Shaki, Baku, mas também Gilan, Mazandaran e Astrabad. No meio de todo o caos, no mesmo ano de 1722, um exército afegão conduzido pelo filho de Mir Wais, Mahmud, marchou através do Irã oriental, sitiou e tomou Isfahan, com Mahmud proclamando-se Xá da Pérsia. Enquanto isso, os rivais imperiais da Pérsia, otomanos e russos, tiravam vantagem do caos no país para tomar mais territórios para si. Com esses eventos, a dinastia Safávida efetivamente terminava. Em 1742, de acordo com o tratado de Constantinopla, os otomanos e russos concordaram em dividir entre si os territórios recém conquistados do Irã.
A integridade territorial do Irã foi restaurada por um líder militar iraniano nativo de origem turca, da dinastia Afshar, do Khorasan, chamado Nader Shah. Ele derrotou e baniu os afegãos, derrotou os otomanos, reinstalou os Safávidas no trono e negociou a retirada russa dos territórios iranianos no Cáucaso, pelos tratados de Resht e Ganja. Por 1736, Nader tinha se tornado tão poderoso que pode destronar os Safávidas coroando-se Shah. Nader foi um dos últimos grandes conquistadores da Ásia e brevemente possuiu o que foi provavelmente o mais poderoso império do mundo. Para ajuda financeira em suas guerras contra seus arquirrivais otomanos, ele se dedicou ao fraco, mas rico Império Mughall a leste, na Índia. Em 1739, acompanhado por seus leais súditos caucasianos, ele invadiu a Índia Mughall, derrotou um exército numericamente superior em menos de três horas, saqueando e pilhando totalmente a sua capital, Delhi, levando uma imensa fortuna de volta à Pérsia. Em seu retorno também conquistou todos os canatos do Uzbequistão, exceto Kokand, tornando-os seus vassalos. Restabeleceu firmemente o domínio persa sobre todo o Cáucaso, Bahrain, bem como grandes áreas da Anatólia e Mesopotâmia. Sem sofrer derrotas por muitos anos, sua derrota no Daguestão, as rebeliões de guerrilha dos Lezgins que se seguiram e a sua tentativa de assassinato próximo de Mazandaran, é muitas vezes vista como o ponto crítico da impressionante carreira de Nader. Frustrante para ele, os dagestanis recorreram à guerrilha e Nader, com seu exército regular pode fazer pouco progresso contra eles. Na Batalha de Andalal e na Batalha de Avaria, o exército de Nader foi totalmente derrotado e ele foi obrigado a fugir para as montanhas. Em 1747 ele foi finalmente assassinado. Sua morte foi seguida por um período de anarquia no Irã com os comandantes rivais do exército lutando por poder. A própria família de Nader, os afsharidas, logo foram reduzidos a manter apenas um pequeno domínio no Khorasan. Muitos dos territórios caucasianos se dividiram em vários canatos caucasianos. Os otomanos recuperaram territórios perdidos na Anatólia e Mesopotâmia. Oman e os canatos do Uzbequistão de Bukhara e Khiva recuperaram sua independência. Ahmad Shah Durrani, um dos oficiais de Nader, fundou um estado independente que veio a tornar-se o atual Afeganistão. Erekle II, que havia sido indicado rei do Kakheti pelo próprio Nader em 1744, declarou-se independente e tomou para si o vizinho Reino de Kartli. Mais tarde ele uniria o Reino de Kartli-Kakheti e tornar-se ia o novo rei georgiano de uma Geórgia Oriental politicamente unida pela primeira vez em três séculos. De sua capital Shiraz, Kharim Khan, da dinastia Zand, fez uma ilha de relativa calma e paz no que anteriormente havia sido um período destrutivo e sangrento; contudo, a extensão do poder Zand foi confinado ao Irã contemporâneo e partes do Cáucaso. Entre 1747 e 1795, durante o período Zand, Erekle foi, portanto, pelos acontecimentos no Irã, capaz de manter a autonomia da Geórgia. A morte de Karim Khan em 1779 conduziu a uma outra guerra civil em que a dinastia Qajar acabou por triunfar transformando-se em reis do Irã. Durante a guerra civil, o Irã perdeu, permanentemente, Basra, capturada pelos persas durante a guerra persa-otomana em 1779 e Bahrain para a família Al Khalifa após a invasão Bani Utbah, em 1783.
A partir daí, já entramos na idade moderna do Irã, que foge do escopo de nossa apresentação do Império Persa, conforme explicitado na Introdução, razão pela qual aqui encerramos a nossa postagem.

VII - CONCLUSÃO

A história do Império Persa é bem mais complexa que a de outros impérios similares e sua pesquisa foi bem mais trabalhosa que outras publicações, por vários motivos.
Sua região física, banhada pelo Mar Báltico, ao norte, e pelo Golfo Pérsico, ao sul, rota estratégica entre os países asiáticos, o Oriente Médio e a Europa, através do Mar Mediterrâneo e a Turquia, sempre foi muito cobiçada por muitos outros povos conquistadores – quando ele mesmo não exerceu este papel. Com isso, foi inevitável que sofresse, enormemente, a influência dos gregos, romanos e muitas outras nações, mas principalmente dos árabes muçulmanos, durante todo o extenso período em que foi por eles ocupado.
Em função disso, o Irã moderno, embora tenha preservado, em muito, suas próprias origens culturais, não pode esconder a imensa influência sofrida durante os muitos anos em que foi ocupado por outras civilizações.
Prova disso, a religião do Irã é, oficialmente, o islamismo do ramo Xiita, estabelecida pela constituição do país, já que o islamismo não adota a separação entre Igreja e Estado, integrando o seu governo desde a islamização do Irã, cerca do ano 640. O islamismo é professado por 99,9% da população, sendo que 93,6 5 são adeptos do xiismo; outros 6,3% seguem a seita Sunita. Os remanescentes (0,1% da população) são seguidores de credos não islâmicos, que incluem os Zoroastrianos (religião original do Império Persa, com poucas dezenas de milhares de praticantes), Judeus, Cristãos e outros. Como vimos, antes da chegada do Islamismo ao Irã, a maioria da população era Zoroastriana, culto oficial do Império Sassânida; em 1986 estimava-se a existência de 32 mil zoroastrianos no Irã, residindo principalmente nas cidades de Teerã, Yazd e Kerman. A comunidade judaica no Irão remonta aos tempos do cativeiro da Babilônia; quando Ciro II autorizou o regresso dos Judeus a Jerusalém, muitos optaram por permanecer, adotando a língua e cultura persas. A outra minoria religiosa relevante no Irão é formada pelos cristãos, estimados em 300.000, em sua maioria ortodoxos armênios, seguidos por cristãos assírios, com autonomia nas instituições de ensino. O Cristianismo é também oficialmente protegido pela constituição iraniana.
Com relação à língua, os iranianos foram bem mais felizes e o Persa é, atualmente, o idioma oficial do país. Lembrando o que vimos anteriormente, o movimento Shu’ubiyyah, criado nos séculos IX e X em resposta ao status privilegiado dos árabes, primariamente com a intenção de preservar a cultura e a identidade persas, teve como seu mais notável efeito a manutenção da língua persa até os dias atuais. Persa, o nome mais utilizado para se referir ao idioma em português, é uma forma derivada do latim e uma forma helenizada do persa antigo Parsa. Os falantes nativos do persa iraniano chamam o idioma de Farsi, forma arabizada de Parsi já que o árabe não possui o fonema “p”.
Quanto à sua etnia, por tudo quanto dissemos anteriormente, é muito fácil entender que o Irã é hoje um país multirracial. A maioria da população do Irã (entre 67 e 80%) consiste de “povos iranianos”. O maior grupo dessa categoria inclui os persas (maioria da população iraniana) e os curdos, com comunidades menores que incluem os Gilakis, Mazandaranis, Lurs, Tats, Talysh e Baloch.
Os grupos turcos (caucasianos) constituem uma minoria substancial (cerca de 15 a 24%), cujo maior grupo é o dos Azerbaijani, segunda maior etnia do Irã bem como o maior grupo minoritário. Outros grupos turcos incluem os povos Turcomanos e Qashqai.
Os árabes respondem com cerca de 2 a 3% da população iraniana. Os restantes, compondo 1% da população iraniana, consistem de uma variedade de grupos menores, compreendendo principalmente Assírios, Armênios, Georgianos, Circassianos e Mandaeanos.
Esta a história resumida do Império Persa, iniciado há 7.000 anos AC e sobrevivendo com todos os seus percalços até hoje.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 1

I -INTRODUÇÃO

A história do Irã que nos propomos apresentar, registra os acontecimentos históricos no território correspondente aos atuais Irã, Afeganistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Azerbaijão e outras áreas vizinhas, ao longo de um período de tempo que começa com as primeiras civilizações pré-arianas, passa pelo Império Persa em todas as suas fases, prossegue com o período helenístico, domínio pelos muçulmanos, até o início da idade moderna. Em suas várias formas, trata-se de uma das mais antigas grandes civilizações de existência contínua. 
Localização de Anshan dentro do Império Elamita
A Pérsia é, oficialmente, admitida como um sinônimo para Irã, embora este último tenha se tornado mais usual, no Ocidente, após 1935. O país sempre foi chamado "Irã" (Terra dos Arianos, derivado de Aryanam, forma encontrada em textos persas antigos.) pelo seu povo, para se referir ao seu próprio país, pelo menos desde 600 AC, embora durante séculos tenha sido referido pelos europeus como Pérsia (Persis pelos gregos). Este termo provém do persa Pars ou Parsa ou ainda Fars, o nome do clã principal de Ciro (a ser visto com detalhe) e que também deu o nome à região onde habitavam os persas (hoje, a moderna província de Fars ao sul do Irã) principalmente devido aos escritos dos historiadores gregos. Em 1935 o governo especificou que o país deveria ser chamado Irã; entretanto, em 1959 ambos os nomes passaram a ser admitidos. No uso corrente, o termo Pérsia costuma ser reservado para referir-se ao Império Persa durante suas diversas fases históricas, uma sucessão de Estados que controlaram o Planalto Iraniano e os territórios adjacentes ao longo do tempo, a começar pela dinastia aquemênida, fundada por Ciro, o Grande, no século VI AC, fundado originalmente por um grupo étnico (os persas) a partir da cidade de Anshan (veremos adiante), no que é hoje a província iraniana de Fars, e governado por dinastias sucessivas (persas ou estrangeiras). 
Mapa topográfico do "Platô Iraniano"
O latim apanhou o termo do grego, transformando-o em Persia, forma adotada pelas diversas línguas européias. Em 1935, o Xá Reza Pahlavi solicitou, formalmente, que a comunidade internacional passasse a empregar o nome nativo do país, Iran (Irã ou Irão, em português). Em 1959, o mesmo governante anunciou que tanto Pérsia como Irã eram formas corretas de referir-se ao seu país.
O Planalto Iraniano ou Persa é uma grande formação geológica no Oriente Médio e na Ásia Ocidental e Central, parte da Placa Euroasiática meridional. Cobre a maior parte do Irã (aproximadamente 2/3 do país, da Cordilheira de Zagros para o leste), o Afeganistão (principalmente as porções meridional e oriental do país), o oeste do Paquistão (o Baluchistão e a Província da Fronteira Noroeste) e a parte sul do Turcomenistão, bem como uma pequena área do sul do Azerbaijão. Estende-se desde a Cordilheira Elburz (ou Alborz) na direção sul, até o mar. Seus extremos são marcados pela Cordilheira de Zagros, a oeste, pela Cordilheira de Hindu Kush, a leste, Mar Cáspio e a cadeia montanhosa Kopet Dag, ao norte, o Estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico, ao sul. 
Localização geral do Irã moderno
A figura ao mostra o mapa do Irã, oficialmente República Islâmica do Irã, um estado soberano da Ásia Ocidental, nos dias de hoje. Palco de inúmeras guerras, personagens controvertidos e uma das culturas mais antigas do mundo, uma área cheia de conflitos históricos que ainda permanecem, desde milhares de anos antes da Era Cristã. Uma das razões de sua conturbada história, reside exatamente em sua posição geográfica: o país em foco faz fronteiras com, nada mais, nada menos, Turquemenistão, Azerbaijão, Armênia e Mar Cáspio, ao norte, Turquia e Iraque a oeste, Afeganistão e Paquistão a leste, e Golfo Pérsico e Golfo de Omã ao sul. É a história deste país que nos propomos contar nesta postagem.
A história da Pérsia no mundo ocidental, está entrelaçada com a história de uma região mais ampla, até certo ponto conhecido como “Irã Maior” ou “Grande Irã”, compreendendo a área que vai da Anatólia[1], Estreito de Bósforo e Egito, no oeste, às fronteiras da antiga Índia e o Syr Darya (rio da Ásia Central[2]), no leste, e do Cáucaso (região na fronteira entre a Europa e Ásia, situada entre os mares Negro e Cáspio) e a Estepe Eurasiática (a Grande Estepe da Eurásia), no norte, ao Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, no sul.
O Irã é o lar de uma das mais velhas civilizações contínuas do mundo, com povoações históricas e urbanas que datam de 7.000 AC. As áreas sudoeste e oeste do Platô Iraniano, participaram do tradicional Antigo Oriente Próximo com o Elam (sudoeste do Irã moderno), do início da Idade do Bronze e, mais tarde, com vários outros povos, como os Cassitas, Manneanos (noroeste do atual Irã) e Gutianos. 
Localização das ruínas de Persépolis
Georg Wilhelm Friedrich Hegel diz que os persas foram o primeiro Povo Histórico. Os Medas (ou Medos) unificaram o Irã como nação e império em 625 AC. O Império Aquemênida (550-330 AC), fundado por Ciro II, o Grande, foi o primeiro dos impérios persas a reinar dos Balcãs à África Norte e também na Ásia Central, cobrindo três continentes a partir do seu trono de poder em Persis (Persépolis, cidade dos persas), capital cerimonial do Império Aquemênida, situada a 60 km da cidade de Shiraz, na província de Fars, Irã. Os mais antigos vestígios de Persépolis datam de 515 AC, exemplificando o estilo de arquitetura Aquemênida, tendo sido declarado pela UNESCO, em 1979, Sítio de Herança Mundial. A palavra portuguesa Persépolis é a própria palavra grega, composta de Perses e Polis e significando a “Cidade dos Persas”. Para os persas antigos, a cidade era conhecida como Parsa, palavra usada para “Persia” ou, mais precisamente, a região de Persis. Foi o maior império jamais visto e o primeiro império mundial. O Primeiro Império Persa foi a única civilização em toda a história a conectar mais de 40% da população global, avaliada em 49,4 milhões da população mundial de 112,4 milhões de pessoas, cerca de 480 AC. Eles foram sucedidos pelos Impérios Selêucida, Parta e Sassânida, que sucessivamente governaram o Irã por quase 1.000 anos e o fizeram novamente uma importante potência mundial. Seu arquirrival foi o Império Romano e seu sucessor, o Império Bizantino. O Império Persa, propriamente dito, iniciou na Idade do Ferro, seguindo o influxo dos povos iranianos, que deram origem aos impérios que o sucederam na antiguidade clássica.
Como um império de tais proporções, o Irã também resistiu a várias invasões, pelos gregos, árabes, turcos e mongóis. Ao longo dos séculos, o Irã continuamente reafirmou sua identidade nacional, desenvolvendo uma entidade política e cultural distintas.
A conquista muçulmana da Pérsia (633-656) encerrou o Império Sassânida, definindo um ponto de inflexão na história iraniana. A “islamização” do Irã teve lugar entre os séculos VIII e X, conduzindo ao declínio do Zoroastrismo[3] bem como de várias de suas crenças. Contudo, as conquistas das civilizações persas anteriores não foram perdidas, mas foram, numa grande extensão, absorvidas pelo novo sistema político e civilização.
O Irã, com sua longa história de culturas e impérios originais, havia sofrido muito, particularmente com o final da Idade Média e início do Período Moderno. Muitas invasões de tribos nômades, cujos líderes tornaram-se governantes deste país, afetaram-no negativamente.
O Irã foi mais uma vez reunido, como estado independente, em 1501, pela Dinastia Safávida (falaremos dela adiante), que converteu o Irã ao Islamismo Xiita (que também veremos em detalhe, oportunamente), como religião oficial do seu império, no ponto crítico da história do Islamismo. Novamente atuando como uma potência líder, desta feita na vizinhança do Império Otomano, seu arquirrival por séculos, o Irã havia sido uma monarquia comandada por um imperador, quase sem interrupção, de 1501 até a revolução iraniana de 1979, quando oficialmente tornou-se uma república islâmica em abril de 1979.
Ao longo da primeira metade do século XIX o Irã perdeu muitos dos seus territórios no Cáucaso (que ele havia governado intermitentemente por milênios), compreendendo hoje a Geórgia Oriental, Dagestão, Azerbaijão e Armênia (todos ao noroeste do Irã), para o seu rival vizinho, rapidamente emergente e em expansão, o Império Russo, após as guerras Russo-Persa, entre 1804-1813 e 1826-1828.

II – PRÉ-HISTÓRIA

II.1 – PALEOLÍTICO (2,5 milhões de anos a 10.000 AC)
Divisão da História
em Eras

Apenas para simplificar a vida dos nossos leitores que não estejam muito acostumados com o assunto, apresentamos ao lado uma tabela simplificada com as divisões da História em eras.
Os mais antigos artefatos arqueológicos no Irã foram encontrados nos sítios de Kashafrud e Ganj Par, que datam do ano 100.000, no Paleolítico Médio. As ferramentas de pedra Musteriana (ou Musteriense, nome dado por arqueólogos a um estilo de ferramentas ou indústria predominantemente de pederneira) feitas por homens de Neandertal[4], também foram encontradas. Há mais resíduos culturais dos homens de Neandertal datando do período do Médio Paleolítico que foram principalmente encontrados na região das montanhas Zagros e alguns poucos no Irã Central, em vários sítios arqueológicos. Em 1949 um rádio (osso do braço) Neanderthal foi descoberto por Carleton S. Coon, na caverna de Bisitun. Há também evidências dos períodos Paleolítico Superior e Epipaleolítico (final do Paleolítico Superior, já mergulhando no Mesolítico), principalmente nas Montanhas Zagros, nas cavernas de Kermanshah e Khorramabad e alguns sítios no Alborz e Irã Central.

II.2 – NEOLÍTICO AO CALCOLÍTICO

O Calcolítico é a transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze, também chamada de Idade do Cobre, porque aí surgiram o cobre e os monumentos megalíticos.
As mais antigas comunidades agrícolas começaram a florescer cerca de 10.000 AC na região das montanhas Zagros e entorno, no Irã ocidental. Pela mesma época, os mais antigos vasos de argila e figuras humanas e de animais, de terracota começaram a ser produzidas, também no oeste do Irã. O sudoeste do Irã era parte do “Fértil Crescente”[5], onde a maioria das primeiras culturas importantes foram realizadas, em vilas como Susa, um dos mais velhos povoamentos do Irã e do mundo, fundado, possivelmente cerca de 4.400 AC (próximo de Anshan) e povoamentos como Chogha Mish, datando de 6.800 AC; há jarras de vinho escavadas nas montanhas Zagros, com cerca de 7.000 anos de idade e ruínas de povoamentos da mesma idade. As duas povoações principais do Iraniano neolítico são a Cultura do rio Zayandeh e Ganj Dareh.

II.3 – IDADE DO BRONZE

O Elam foi uma das primeiras civilizações de que se tem registro no extremo oeste e sudoeste do que é hoje o Irã, sendo tradicionalmente considerada o ponto inicial da história do Império Persa (e, em decorrência, do Irã). Existiu cerca de 2700 AC até cerca de 539 AC, em seguida ao chamado Período Proto-Elamita, que teve início em cerca de 3200 AC (a cidade capital era Anshan), quando Susa, que viria a ser a capital dos elamitas, começou a ser influenciada por culturas do Planalto Iraniano. Baseado na busca de idade com o C14 (Carbono 14 ou radio carbono, é um isótopo radioativo do carbono, cuja presença em materiais orgânicos é a base do método para determinação de idades de amostras arqueológicas, geológicas e hidrogeológicas), a época de fundação de Susa é cerca de 4.400 AC, além da época de civilização da Mesopotâmia. A percepção geral entre os arqueólogos é que Susa foi uma extensão da cidade sumeriana de Uruk. Há também dúzias de sítios pré-históricos no platô iraniano indicando a existência de culturas antigas e povoações urbanas no quarto milênio. 
Área do Império Elamita, em vermelho, e áreas vizinhas
O Elam situava-se a leste da Suméria e da Acádia (atualmente, o Iraque). No período Elamita Antigo, constituía-se de reinos no Planalto Iraniano, cujo centro era Anshan, e, a partir do II milênio AC, Susa. Sua cultura desempenhou um papel fundamental no Império Persa, em especial durante a dinastia Aquemênida (que veio a suceder a civilização elamita na região), quando a língua elamita continuou a ser empregada oficialmente. O período elamita costuma ser considerado o ponto inicial da história do Irã (embora tenha havido culturas mais antigas no Planalto Iraniano). Os elamitas foram rivais dos sumérios e acádios e, posteriormente, dos babilônios, na disputa pela hegemonia no Oriente Próximo, até que finalmente foram dominados definitivamente por Nabucodonosor II da Babilônia, no século VII AC. Posteriormente, quando a Babilônia caiu ante os persas de Ciro, o Grande, os elamitas passaram a ser gradativamente absorvidos por outras populações iranianas e semitas.
A língua elamita não tem parentesco com as línguas iranianas (nem com as línguas indo-europeias ou as semíticas), embora alguns estudiosos enxerguem uma relação com as línguas dravídicas. O Elam conviveu com o Reino Jiroft, uma das mais antigas civilizações do platô iraniano, estabelecido no que são hoje as províncias orientais do Irã, enquanto que os elamitas controlavam a porção ocidental, na região da Cordilheira de Zagros; posteriormente sucedeu-o, estendendo-se por todo o platô iraniano. 
Taça de prata de Marvdasht
do terceiro milênio AC
Suas escavações arqueológicas conduziram à descoberta de vários objetos pertencentes ao quarto milênio AC. Há uma grande quantidade de objetos decorados com inconfundíveis gravações de animais, figuras mitológicas e motivos arquitetônicos. Os objetos e sua iconografia diferem de qualquer outra coisa já vista por arqueólogos. Muitos são feitos de clorita, pedra macia verde-cinza; outros são de cobre, bronze, terracota e até lápis-lazúli. Escavações recentes no local produziram a inscrição mais antiga do mundo, que antecede as inscrições da Mesopotâmia.
Há registros de numerosas outras civilizações antigas no platô iraniano antes da emergência dos povos iranianos durante a primitiva Idade do Ferro. O início da Idade do Bronze viu a ascensão da urbanização em cidades-estados organizadas e na invenção da escrita (Período Uruk) no Oriente Próximo. Enquanto o Elam da Idade do Bronze usou a escrita em tempos antigos, a escrita Proto-Elamita permanece indecifrada e registros da Suméria pertencentes ao Elam são escassos.
Há uma corrente teológica que afirma terem sido os elamitas descendentes de Elam, um dos filhos de Sem e neto de Noé nascido após o dilúvio bíblico.

II.4 – INÍCIO DA IDADE DO FERRO

O princípio do primeiro milênio AC testemunhou a segunda grande invasão do Planalto Iraniano por tribos indo-arianas provenientes da Transoxiana[6] e do Cáucaso, entre as quais os medos e os persas. O primeiro registro a respeito dos persas vem de uma inscrição assíria de cerca de 844 AC, que se refere aos parsu (Parsuash, Parsumash), localizando-os na área do Lago Urmia (noroeste do Irã), juntamente com outro grupo, os madai (medos).
Os registros tornam-se mais tangíveis com a ascensão do Império Neo-Assírio (911-612 AC), na Mesopotâmia, e seus registros de incursões do Platô Iraniano. A partir do século XX AC, tribos emigraram da estepe Ponto-Caspiana (hoje territórios da Ucrânia, Rússia e Cazaquistão) para o Platô Iraniano. A chegada no Platô Iraniano forçou os elamitas a renunciarem às suas áreas, buscando refúgio no Elam, Khuzistão ou Khuzestão (uma das províncias do Irã) e áreas vizinhas que só então se tornaram limítrofes com o Elam. Pelo meio do primeiro milênio AC, medas, persas e partas povoavam o Platô Iraniano. Até a ascensão dos medas, todos permaneceram sob dominação assíria, como o resto do Oriente Próximo.

[1] Anatólia, também conhecida como Ásia Menor, denota a protrusão ocidental da Ásia, que compõe a maior parte da Turquia. A região é banhada pelo mar Negro ao norte, o mar Mediterrâneo ao sul e o mar Egeu, a oeste. O mar de Mármara forma uma ligação entre os mares Negro e Egeu através dos estreitos de Bósforo e Dardanelos e separa a Anatólia da Trácia, no continente europeu. Aproximadamente corresponde a dois terços ocidentais da parte asiática da Turquia.
[2] A Ásia Central espalha-se do Mar Cáspio, no oeste, à China, no leste e do Afeganistão, no sul, à Rússia, no norte, mas nunca houve uma demarcação oficial da área. Coloquialmente, ela se refere também aos “stãos”, já que os países geralmente considerados dentro da região, possuem todos o sufixo persa “stão”, que significa “terra de”.
[3] O zoroastrismo, masdaísmo, masdeísmo ou parsismo é uma religião fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro. É considerada como a primeira manifestação de um monoteísmo ético. De acordo com historiadores da religião, algumas das suas concepções religiosas, como a crença no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda de um messias, viriam a influenciar o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Tem seus fundamentos fixados no Avesta (parte das escrituras sagradas do Zoroastrismo) e admite a existência de duas divindades (dualismo), as quais representam o Bem (Aúra-Masda) e o Mal (Arimã). Da luta entre essas divindades, sairia vencedora a divindade do Bem.
[4] O Neandertal (algumas vezes chamado de "Vale do Neander") é um pequeno vale do rio Düssel, no estado alemão do North Rhine-Westphalia, localizado cerca de 12 km a leste de Düsseldorf, a capital do estado. Em agosto de 1856 a área tornou-se famosa com a descoberta do Neanderthal 1, o primeiro espécime do Homo neanderthalensis a ser encontrado.
[5] Também conhecido como “Berço da Civilização”, o “Fértil Crescente” é uma região em forma de quarto crescente que contém a terra comparativamente úmida e fértil das terras áridas e semiáridas da Ásia Ocidental, o vale do Nilo e o Delta do Nilo. O conceito originou-se no estudo da história antiga e logo desenvolveu-se, retendo hoje significados nas relações geopolíticas e diplomáticas internacionais. No uso corrente, todas as definições do Fértil Crescente incluem a Mesopotâmia, as áreas dos vales dos rios Tigre e Eufrates e o Levante, a costa oriental do Mar Mediterrâneo. Os países atuais, com território significativo no Fértil Crescente, são Iraque, Síria, Líbano, Chipre, Jordânia, Israel, Estado da Palestina, Egito, bem como a borda sudeste da Turquia e as bordas do Irã ocidental. A região viu o desenvolvimento de algumas das mais antigas civilizações que floresceram graças às fontes hídricas e recursos agrícolas existentes no Fértil Crescente. Avanços tecnológicos da região incluem o desenvolvimento da escrita, o vidro, a roda, a agricultura e a irrigação.
[6] A Transoxiana é uma denominação obsoleta para uma região da Ásia Central correspondente aos atuais Uzbequistão, Tadjiquistão e sudoeste do Cazaquistão. Geograficamente, localiza-se entre os rios Amu Dária e Sir Dária. No período Aquemênida, a região chamava-se Sogdiana.

domingo, 23 de novembro de 2014

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 03)

IV – MESOPOTÂMIA

A palavra Mesopotâmia, etimologicamente, origina-se do grego, com o significado de “(terra) entre rios”. Geograficamente é o nome da área do sistema fluvial dos rios Tigre e Eufrates, correspondente ao atual Iraque, a região nordeste da Síria, uma parte menor ao sudeste da Turquia e partes menores do sudoeste do Irã e do Kuwait. As duas figuras que seguem (Figuras 1 e 2) mostram a localização da Mesopotâmia; na primeira, a região da Mesopotâmia é mostrada em verde escuro, iniciando um pouco ao sul da Turquia e terminando no Golfo Pérsico; na segunda, de forma mais esquemática, em amarelo (dentro do rosa), pode-se ver a sua localização em relação aos países atuais da região.
Figura 1
Mesopotâmia é o nome de uma área - e não de um país -, que possuiu, durante diversas épocas, fantásticas cidades e mesmo regiões que, a seu tempo, foram sedes de importantes impérios ou ricas culturas que floresceram no Iraque antigo, tais como: Suméria, Akkadiana, Assíria, Babilônia e muitas outras cuja influência estendeu-se a países vizinhos, a partir de 5.000 AC. Ela tem sido chamada de “o berço da civilização” porque a agricultura (irrigada ou não), criação e domesticação de animais se desenvolveram lá, muito antes do que em qualquer outro lugar.
Figura 2
A região da Mesopotâmia costuma ser dividida em duas partes: a Mesopotâmia Superior ou Norte, também conhecida como Al-Jezirah (a ilha), é a área entre o Eufrates e o Tigre, desde suas nascentes até Bagdá; a Mesopotâmia Inferior ou Sul consiste do sul do Iraque, Kuwait e partes do Irã Ocidental. Até as conquistas muçulmanas, a área era designada por Mesopotâmia; após aquela data, palavras como Síria, Jezirah e Iraque passaram a ser utilizadas para designar a área.
Há pelo menos duas formas de estudar a civilização mesopotâmica: (1) apreciá-la no conjunto de toda a região; e (2) analisar individualmente os vários impérios que a dominaram ao longo da antiguidade e que, mesmo dominantes no todo, sempre tiveram ascensões e quedas. Nós vamos tentar um misto das duas coisas; faremos, inicialmente, uma exposição sobre os aspectos gerais da Mesopotâmia, não influenciados pelo governo da época, sempre que isso for possível; posteriormente, faremos uma breve descrição dos maiores impérios que dominaram a região, no que se refere às suas mais importantes especificidades, considerando que os aspectos gerais da região já terão sido descritos.

IV.1 - GEOGRAFIA

A Mesopotâmia abarca a área entre os rios Tigre e Eufrates, ambos com as nascentes nas montanhas da Armênia, na Turquia moderna, alimentados por numerosos tributários e drenando uma vasta região montanhosa. As rotas terrestres na Mesopotâmia usualmente seguem o Eufrates, já que as margens do Tigre são frequentemente íngremes e difíceis. O clima da região é semiárido, com uma vasta extensão desértica ao norte que cede lugar a uma região de pântanos, lagoas, alagadiços e margens de juncos, com 15.000 km2, ao sul. No extremo sul, o Tigre e o Eufrates se unem para despejar suas águas no Golfo Pérsico. Trata-se de um ambiente árido, com terras ao norte onde a agricultura é mantida apenas com água da chuva, até a área ao sul onde apenas a agricultura irrigada subsiste, a partir do lençol freático alto e das águas nivais dos altos picos das Montanhas Zagros (noroeste do atual Irã) e da Cordilheira Armênia. A utilidade da irrigação depende da habilidade em mobilizar mão de obra suficiente para a construção e manutenção de canais, o que, nos tempos primitivos, foi fator fundamental para os assentamentos urbanos e sistemas centralizados de autoridade política.
Por toda a região, a agricultura foi complementada pelo pastoreio nômade que criava ovelhas e cabras (e mais tarde camelos) com as pastagens marginais, nos meses secos de verão e nas terras de pastagens das orlas desérticas dos invernos úmidos. A área sempre foi muito carente em pedras de construção, madeira e metais preciosos e, historicamente, foi obrigada a fiar-se a um comércio de produtos agrícolas de longa distância para garantir tais itens de áreas externas. Nas áreas pantanosas do sul, uma complexa cultura de pesca sempre existiu desde tempos pré-históricos, adicionada ao caldo cultural.
Interrupções periódicas no sistema cultural ocorreram por várias razões. A demanda por trabalho, de tempos em tempos, conduziam a aumentos de população que beiravam os limites da capacidade ecológica; se um período de instabilidade climática seguisse, sobreviria o colapso do governo central e a ocorrência do declínio da população. Por outro lado, a vulnerabilidade a invasões militares por tribos das colinas marginais ou pastores nômades, conduziu a períodos de colapso no comércio e ao abandono dos sistemas de irrigação. Da mesma forma, as tendências centrípetas entre as cidades estados sempre significou que a autoridade central sobre toda a região, quando imposta, tendia a ser efêmera e o localismo fragmentava o poder em unidades regionais tribais ou ainda menores, tendências que persistem até hoje no Iraque.

IV.2 - HISTÓRIA

A pré-história do Antigo Oriente Próximo[1]  inicia no período do Baixo Paleolítico, mas a escrita iniciou com a pictografia no período Uruk IV (quarto milênio AC) e o registro documentado de eventos históricos reais – e a história antiga da Mesopotâmia inferior – começou no meio do terceiro milênio AC, com registros cuneiformes dos primeiros reis dinásticos, terminando ou com a chegada do Império Aquemênida[2]  no final do século VI AC, ou com a conquista árabe islâmica da Mesopotâmia e o estabelecimento do Califado ao final do século VII DC, a partir da qual a região passou a ser conhecida como Iraque. Durante este período a Mesopotâmia abrigou alguns dos mais altamente desenvolvidos e socialmente complexos estados do mundo. A região foi uma das quatro civilizações ribeirinhas onde a escrita foi inventada, junto com o vale do Nilo, no Egito, o Vale do Indo, no subcontinente indiano, e o vale do rio Amarelo, na China. A Mesopotâmia abrigou cidades historicamente importantes (Figura 3), tais como Uruk, Nippur, Níneve, Assur e Babilônia, bem como grandes estados territoriais, como a cidade de Eridu, o reino Akkadiano, a Terceira Dinastia de Ur e os vários impérios assírios.
Figura 3
Alguns dos importantes líderes da Mesopotâmia foram Ur-Nammu (rei de Ur), Sargão (que estabeleceu o império Akkadiano), Hammurabi (que estabeleceu o estado da Velha Babilônia), Ashur-Uballit II e Tiglath-Pileser I (que estabeleceram os impérios Assírios).



CRONOLOGIA (essa cronologia ficará bem clara quando chegarmos aos impérios da Mesopotâmia)

• Pré e proto-história[3]
•             Neolítico A Pré-Cerâmico (10.000–8.700 AC)
•             Neolítico B Pré-Cerâmico (8.700–6.800 AC)
•            Culturas Hassuna (~6.000 AC–? AC), Samarra (~5.700 AC–4.900 AC) e Halaf (~6.000 AC–5.300 AC)
•            Período Ubaid (~5.900–4.400 AC)
•      Período Uruk (~4.400–3.100 AC)
•      Período Jemdet Nasr (~3.100–2.900 AC)
• Início da Idade do Bronze
•      Início do período Dinástico[4] (~2.900–2.350 AC)
•      Império Akkadiano (~2.350–2.100 AC)
•      Período Ur III (.2112–2.004 AC)
•      Início do Reino Assírio (Séculos XXIV a XVIII AC)
• Idade do Bronze Médio
•      Babilônia Inicial (Séculos XIX a XVIII AC)
•     Colapso da Primeira Dinastia Babilônica (Séculos XVIII a XVII AC): erupção Minóica[5].
•     Erupção Minóica(cerca de 1.620 AC)
• Final da Idade do Bronze
•     Período Médio Assírio (Séculos XVI a XI AC)
•     Império Assírio (cerca de 1.365 AC a 1.076 AC)
•     Colapso da Dinastia Kassita na Babilônia (cerca de 1.595 AC a 1.155 AC)
•     Colapso da Idade do Bronze (Séculos XII a XI AC)
• Idade do Ferro 
•     Estados regionais Novo-Hitita ou Siro-Hitita (Séculos XI a VII AC)
•     Império Novo-Assírio (Séculos X a VII AC)
•     Império Novo-Babilônio (Séculos VII a VI AC)
•      Antiguidade Clássica
•     Babilônia Persa, Assíria Aquemênida (Séculos VI a IV AC)
•     Mesopotâmia Selêucida (Séculos IV a III AC)
•     Babilônia Antiga Pérsia (Séculos III A.C a III DC)
•     Osroene (Séculos II AC a III DC)
•     Adiabene (Séculos I a II DC)
•     Hatra (Séculos I a II DC)
•     Mesopotâmia Romana, Assíria Romana (Século II DC)
• Final da Antiguidade
•     Mesopotâmia Persa, Assíria Persa (Séculos III a VII DC)
•     Conquista Árabe Muçulmana da Mesopotâmia (a partir do meio do Século VII DC)

IV.3 - LINGUA E ESCRITA

A primeira língua escrita na Mesopotâmia, foi sumeriana, embora dialetos semíticos[6]  também fossem falados originalmente. Subartuan, a linguagem dos Zagros, talvez relacionada à família de linguagem hurro-urartuana, aparece em nomes de pessoas, rios e montanhas e em vários ofícios. O akkadiano tornou-se a língua dominante durante os Impérios Akkadiano e Assírio, mas o sumeriano foi preservado para finalidades administrativas, religiosas, literárias e científicas. O aramaico, que já havia sido comum na Mesopotâmia, tornou-se então a língua da administração provincial do primeiro Império Novo Assírio e então do Império Aquemênida Persa. O akkadiano caiu em desuso, mas ele e o sumeriano ainda foram usados em templos durante alguns séculos. Os últimos textos akkadianos datam do final do século I DC.
No início da história da Mesopotâmia (pelo milênio IV AC), a escrita cuneiforme foi inventada para a língua suméria. Literalmente, “cuneiforme” significa em forma de cunha, devido à ponta triangular do buril usado para imprimir sinais na argila úmida. A forma padronizada de cada sinal cuneiforme parece ter sido desenvolvida de pictogramas. Os primeiros textos (sete placas arcaicas) vêm do templo E (palavra ou símbolo sumério para casa ou templo), dedicado à deusa Inanna (deusa do amor, fertilidade e da guerra), em Uruk (cidade da Mesopotâmia), de um prédio designado por Templo C por seus descobridores.
O primeiro sistema logográfico[7]  de escrita cuneiforme levou vários anos para dominar. Assim, somente um número limitado de indivíduos foi contratado como escribas para serem treinados no seu uso. Apenas após a disseminação da escrita silábica ter sido adotada, sob o governo de Sargão, porções significativas da população da Mesopotâmia se tornaram literatas. Arquivos maciços de textos foram recuperados dos contextos arqueológicos das escolas escribas da antiga Babilônia, pelas quais a arte da escrita foi disseminada.
Bibliotecas e templos do império babilônico proliferavam nas cidades; mulheres, como os homens, aprendiam a ler e escrever e para os babilônios semitas, isso envolvia o conhecimento da extinta linguagem suméria, além de um complicado e extensivo silabário. Um velho provérbio sumério afirmava que “aquele que quiser sobressair na escola dos escribas, deve levantar com a madrugada”.
Uma quantidade considerável de literatura babilônica foi traduzida de originais sumérios e a língua da religião e da lei, por muito tempo continuou a ser a velha linguagem da Suméria. Vocabulários, gramáticas e traduções foram compilados para o uso dos estudantes, bem como comentários sobre os textos antigos e explicações de palavras e frases obscuras. Os caracteres do silabário foram arranjados e nomeados e listas foram redigidas.
Muitos trabalhos literários babilônicos ainda são estudados hoje. Um dos mais famosos deles é o “Épico de Gilgamesh”, em doze volumes, traduzido do original sumério por Sin-liqe-unninni. Cada divisão contém a história de uma única aventura na carreira de Gilgamesh (de quem ainda falaremos). A história completa é um produto composto, embora provável que algumas das histórias sejam artificialmente conectadas à figura central.

IV.4 - RELIGIÃO E FILOSOFIA

A religião da Mesopotâmia foi a primeira a ser registrada. Os mesopotâmios acreditavam que a Terra era um disco plano, circundado por um imenso espaço vazio, com o céu acima. Acreditavam também que a água encontrava-se em todos os lugares e que o universo havia nascido desse enorme mar. Sua religião era politeísta e embora a crença geral, havia variações regionais. A palavra suméria para universo é an-ki, que se refere ao deus Na e à deusa Ki. Seu filho era Enlil, o deus do ar que acreditavam ser o deus mais poderoso, chefe do Panteon, equivalente aos posteriores Zeus grego e Júpiter romano. Os sumérios colocaram questões filosóficas, como: “Quem somos?”, “Como chegamos aqui?”. E deram respostas a essas questões como explicações fornecidas por seus deuses.
As origens da filosofia podem ser rastreadas à sabedoria da Mesopotâmia primitiva, que incorporava certas filosofias de vida, particularmente ética, nas formas de dialética, diálogos, poesia épica, folclore, hinos, letras, prosa e provérbios. O raciocínio e racionalidade babilônicos avançaram além da observação empírica. As primeiras formas de lógica foram desenvolvidas pelos babilônios, cujo pensamento era axiomático e comparável à “lógica ordinária” descrita por John Maynard Keynes. Tal lógica foi empregada, em alguma medida, à astronomia e à medicina babilônica.
O pensamento babilônico teve uma considerável influência na filosofia inicial grega e helenística, mormente no pensamento dos sofistas e na dialética e diálogos de Platão, bem como um precursor aos métodos de Sócrates; o filósofo jônico Tales, de Mileto, foi influenciado pelas ideias cosmológicas babilônicas.


[1] O termo “Antigo Oriente Próximo” usa uma distinção do século XIX entre “Oriente Próximo” e “Extremo Oriente” como regiões globais de interesse do Império Britânico, iniciada durante a Guerra da Crimeia. A última partição importante do oriente entre esses dois termos era corrente em diplomacia ao final do século XIX com os Massacres Hamidianos dos Armênios e Assírios pelo Império Otomano em 1894 – 1896 e a Guerra Sino-Japonesa de 1894-1895. Esses dois teatros de guerra eram descritos pelos estadistas e conselheiros do Império Britânico como “o Oriente Próximo” e o “Extremo Oriente”. Logo eles passaram a repartir o palco com o “Oriente Médio”, que prevaleceu no século XX e prossegue nos tempos modernos.

[2] Também chamado “Primeiro Império Persa, foi um império centrado na Ásia Ocidental, Irã, fundado no século VI AC, por Ciro, o Grande. O nome vem do rei Aquemenes, que governou a Pérsia entre 705 e 675 AC. Falaremos dele quando chegarmos ao final do Império Babilônico.
[3] A “Pré História” designa o período anterior à história escrita. A Proto-História refere-se ao period entre a pré-história e a história, durante o qual uma cultura ou civilização ainda não desenvolveu a escrita, mas outras culturas já havias notado a sua existência em seus próprios registros. Por exemplo, na Europa, as tribos Celtas e Germânicas podem ser consideradas terem sido proto-históricas quando começaram a aparecer nos textos gregos e romanos. Proto-histórico pode também se referir ao período de transição entre o advento da literatura numa sociedade e os escritos dos primeiros historiadores. Sítios coloniais envolvendo um grupo literato e outro iliterato, são também estudados como situações proto-históricas.
[4] A Dinastia implica numa sequência de governantes da mesma família, raça ou grupo, de que tivemos exemplos e ainda temos em algumas partes do mundo. Nesse caso, um período dinástico, significa dizer que, naquele período, começou a imperar uma dinastia. O governo de uma tal sequência chama-se também uma dinastia, da mesma forma, que uma série de membros de uma família que se distingue por seu sucesso, poder, riqueza etc ....
[5] A Erupção Minoica, também conhecida como erupção de Thera ou de Santorini, foi uma catastrófica erupção vulcânica que atingiu a escala 6 ou 7 da escala “Indicador de Explosão Vulcânica (IEV)”, ocorrida no meio do segundo milênio AC Um dos maiores eventos vulcânicos de que se tem registro, devastou a ilha de Thera (também chamada de Santorini), localizada no arquipélago grego entre Grécia e Turquia, e incluiu o assentamento minoico de Akrotiri, bem como as comunidades e áreas agrícolas das ilhas próximas e a costa de Creta. A civilização minoica foi uma civilização da idade do Bronze, no mar Egeu, que surgiu na ilha de Creta, florescendo de 2.700 a 1.450 AC; foi redescoberta no início do século XX
[6] Um Semita é um membro de qualquer dos vários povos antigos e modernos de língua semita, originários do Oriente Médio, incluídos os Akkadianos (Assírios/Siríacos e Babilônios), Amonitas, Amoritas, Arameus, Caldeus, Canaanitas (incluindo Hebreus/Israelitas/Judeus e Fenícios/Cartagineses), Eblaitas, Dilmunitas, Edomitas, Semitas Etiópios, Hicsos, Árabes, Nabateanos, Malteses, Mandeanos, Malamitas, Moabitas, Sabanitas e Ugaritas. A palavra “semítico” é derivada de “Sem”, um dos três filhos de Noé, da Gênesis. O conceito de povo “semítico” é derivado dos relatos bíblicos das origens das culturas conhecidas aos antigos hebreus. Em um esforço para categorizar os povos conhecidos deles, aqueles que lhes eram mais próximos em cultura e língua, foram geralmente considerados como descendentes de seu antepassado Sem.
[7] Um logograma é um grafema (a menor unidade semanticamente distinguível numa linguagem escrita, da mesma forma que um fonema na linguagem falada) que representa uma palavra ou morfema (a menor unidade com significado em uma língua). Logogramas são também conhecidos como “ideogramas”, embora os últimos representem mais ideias diretamente que palavras e morfemas. Sistemas logográficos, ou logografias, incluem os primeiros sistemas reais de escrita.


Continua com a PARTE 4.