Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

Mostrando postagens com marcador Richelieu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Richelieu. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de maio de 2024

A CONTURBADA FRANÇA PÓS-REVOLUÇÃO (Parte 2)

c) Segunda Restauração (1815)

Talleyrand foi novamente influente na segunda restauração dos Bourbon assim como Joseph Fouché, ministro da polícia de Napoleão durante os Cem Dias. Essa segunda restauração viu o início do “Segundo Terror Branco”, principalmente no sul, quando grupos não oficiais, apoiando a monarquia, buscaram revanche contra os que haviam ajudado o retorno de Napoleão, causando a morte de 200 a 300 pessoas e pondo milhares em fuga. Cerca de 70.000 funcionários do governo foram demitidos. Após um período durante o qual as autoridades locais assistiram à violência sem esperança, o Rei e seus ministros enviaram oficiais para restaurar a ordem.
Um novo “Tratado de Paris” foi assinado em novembro de 1815, com mais termos punitivos do que o tratado de 1814. A França foi obrigada a pagar 700 milhões de francos de indenizações e as fronteiras do país foram reduzidas ao seu estado de 1790 ao invés de 1792 como no tratado anterior. Até 1818 a França foi ocupada por 1,2 milhões de soldados estrangeiros que incluíram 200.000 soldados comandados pelo Duke de Wellington, com todas os custos de acomodação e alimentação pagos pela França. Com todas essas despesas, o prometido corte de impostos não foi cumprido, com tudo isso criando a Louis XVIII uma formidável oposição.
Inicialmente, os principais ministros de Louis, como Talleyrand, Duque de Richelieu (descendente do famoso Cardeal de Richelieu, ministro de Louis XIII, século XVII) e Élie, duque de Decazes, foram moderados, com o próprio Rei seguindo uma política cautelosa. A primeira Câmara de Deputados eleita em 1815 na Segunda Restauração Bourbon, cunhada pelo Rei “Câmara Oculta”, pela impossibilidade de cooperação entre as partes, foi dominada por uma maioria ultrarrealista que se recusava a reconhecer a Revolução Francesa e logo ganhou a reputação de ser “mais realista que o próprio rei”. A legislatura demitiu o governo Talleyrand-Fouché e procurou legitimar o “Terror Branco”, julgando inimigos do Estado, demitindo entre 50 e 80 mil funcionários públicos e dispensando 15.000 militares do exército. Richelieu, um emigrado de outubro de 1789, sem nada a ver com a nova França, foi nomeado Primeiro Ministro. A Câmara continuou a manter agressivamente o lugar da monarquia e da Igreja, sempre chamando por mais comemorações para figuras históricas reais. Decazes, talvez o ministro mais moderado, movimentou-se para sustar a politização da Guarda Nacional (criada durante a Revolução Francesa), proibindo demonstrações políticas pela milícia em julho de 1816.
Devido às tensões entre o governo do Rei e a ultrarrealista Câmara dos Deputados, esta começou a reivindicar direitos extraordinários. Após tentar obstruir o orçamento de 1816, o governo concedeu à Câmara o direito de aprovar as despesas do Estado; contudo, não conseguiu do Rei a garantia de que seus gabinetes representariam a maioria no Parlamento.
Em setembro de 1816 a Câmara foi dissolvida por Louis e manipulações eleitorais resultaram numa Câmara mais liberal em 1816. Richelieu serviu até 29 de dezembro de 1818, seguido por Jean-Joseph, Marquês Dessolles, até 19 de novembro de 1919 e então por Decazes (em realidade o ministro dominante de 1818 a 1820) até 20 de fevereiro de 1820. Esta foi a era em que os Doutrinários (grupo de centro-esquerda) dominaram a política, esperando conciliar a monarquia com a Revolução Francesa e o poder com a liberdade. No ano seguinte o governo alterou as leis eleitorais recorrendo a manipulações eleitorais dos limites distritais eleitorais, alterando o direito a voto para permitir que alguns homens ricos do comércio e indústria tivessem direito a voto e assim evitando que os ultrarrealistas vencessem a maioria nas eleições futuras. A censura da imprensa foi relaxada, algumas posições na hierarquia militar foram abertas à competição e escolas comuns foram estabelecidas para invadir o monopólio católico da educação primária pública. Decazes expurgou um bom número de prefeitos e sub-prefeitos ultrarrealistas e nas eleições que ocorriam, uma proporção incomumente alta de Bonapartistas e republicanos foi eleita.
Em 1820 os liberais da oposição – que junto com os ultrarrealistas haviam feito metade da Câmara – mostraram-se intratáveis e Decazes e o Rei buscaram a revisão das leis eleitorais para garantir uma maioria conservadora mais tratável. Em fevereiro de 1820 o assassinato do Duque de Berry, o ultrarreacionário filho do ultrarreacionário irmão e herdeiro presumido de Louis, o futuro Charles X, por um Bonapartista, precipitou a queda de Decazes do poder e o triunfo dos ultrarrealistas.
Richelieu retornou ao poder por um curto intervalo, de 1820 a 1821. A imprensa foi mais fortemente censurada, a prisão sem julgamento foi reintroduzida e os líderes doutrinários foram banidos da docência na Escola Normal Superior. Sob Richelieu, o direito de voto foi alterado para dar aos eleitores mais ricos um voto duplo, a tempo da eleição de novembro de 1820. Após uma vitória retumbante, um novo ministério Ultra foi formado, sob a liderança de Jean-Baptiste de Villèle, que serviu por seis anos, em condições favoráveis. A esposa de Berry, a Duquesa de Berry, deu à luz um “bebê milagroso”, Henry, sete meses após a morte do Duque; Napoleão morreu em Santa Helena em 1821 e seu filho, Duque de Reichstadt, permaneceu internado em mãos austríacas. Figuras literárias, como François-René de Chateaubriand, Victor-Marie Hugo, Alphonse de Lamartine, Alfred Victor, Comte de Vigny e Jean Charles Emmanuel Nodier, juntaram-se à causa dos ultrarrealistas; Hugo e Lamartine tornaram-se republicanos mais tarde e Nodier o fora inicialmente. Logo Villèle provou ser tão cauteloso quanto seu mestre e, até o final da vida de Louis, políticas abertamente reacionárias foram mantidas num mínimo. 
François-René Chateaubriand, o escritor romântico
que teve assento à Câmara dos Pares
Os Ultras ampliaram seu apoio colocando um ponto final numa crescente dissidência militar em 1823, com intervenção na Espanha em favor do rei Bourbon espanhol Ferdinand VII e contra o Governo espanhol liberal que fomentava o fervor popular patriótico. Embora o apoio militar britânico, a intervenção foi largamente vista como uma tentativa de recuperar a influência na Espanha, que havia sido perdida para os britânicos durante o governo de Napoleão. O exército expedicionário francês, chamado “Centena de Milhar de Filhos de São Louis”, foi conduzido pelo duque d’Angoulême, filho do conde d’Artois. As tropas francesas marcharam para Madri e então para Cádiz, desalojando os Liberais com pouca luta (abril a setembro de 1823), permanecendo na Espanha por cinco anos. O apoio aos Ultras entre os votantes ricos foi ainda reforçado pela doação de favores de forma similar à Câmara de 1816 e temores sobre os Carbonários[1]. Na eleição de 1824, outra grande maioria foi assegurada.
Louis XVIII morreu em 16 de setembro de1824, sendo substituído por seu irmão, o Conde d’Artois, que tomou o nome de Charles X.

II.6 – CHARLES X

a) 1824 – 1830: Período Conservador
Charles X, rei da França de setembro de
1824 a agosto de1830, irmão mais novo
dos reis Louis XVI e Louis XVIII

A ascensão ao trono de Charles X, o líder da facção ultrarrealista, coincidiu com o controle do poder pelos Ultra na Câmara dos Deputados, dando prosseguimento ao ministério do Conde de Villèle e sendo removido o controle que Louis havia exercido.
Como o país experimentou um reflorescimento cristão nos anos pós revolucionários, os Ultras trabalharam para elevar, uma vez mais, o status da Igreja Católica Romana. A Concordata de 11 de junho de 1817, entre o Estado e a Igreja, foi estabelecida para substituir a Concordata de 1801, mas embora assinada nunca foi validada. O governo de Villèle, sob pressão dos Cavaleiros da Fé, incluindo vários deputados, votou a favor do Ato Antissacrílego de janeiro de 1825, que punia com pena de morte o ladrão de hóstias consagradas. A lei não foi obrigatória e somente aprovada para finalidades simbólicas, embora a aprovação do ato tenha provocado um tumulto considerável, particularmente entre Doutrinários. Muito mais controversa foi a introdução dos Jesuítas, que estabeleceram uma rede de faculdades para a juventude da elite, fora do sistema universitário oficial. Os Jesuítas foram notados por sua lealdade ao Papa e deram muito menos apoio às tradições Galicanas, a crença de que a autoridade civil pública – muitas vezes representada pela autoridade do Rei ou do Estado – sobre a Igreja Católica, é comparável à autoridade do Papa). Dentro e fora da Igreja eles tinham inimigos e o Rei encerrou seu papel institucional em 1828.
Uma nova legislação, preparada por Louis, mas que teve em Charles importante figura para a sua aprovação, pagou uma indenização a realistas cujas terras haviam sido confiscadas durante a Revolução. Um projeto de lei para financiar essa compensação, pela conversão do débito governamental para bônus de 5% para 3%, proporcionando uma economia ao Estado de 30 milhões de francos em pagamento de juros, foi também encaminhado às câmaras. O governo de Villèle ponderou que os emprestadores haviam tido retornos majorados desproporcionais se comparados ao investimento inicial e que a redistribuição era justa. A lei final alocou fundos do Estado de 988 milhões de francos para compensação, financiados por bônus governamentais a um valor de 600 milhões de francos a juros de 3%, com cerca de 18 milhões de francos pagos por ano. Os beneficiários inesperados da lei foram cerca de um milhão de proprietários das antigas terras confiscadas, cujos direitos de propriedade foram então confirmados pela nova lei, conduzindo a uma forte subida em seu valor.
Em 1826, Villèle introduziu um projeto de lei para restabelecimento da primogenitura (direito, por lei ou costume, do filho primogênito legítimo herdar a principal ou todas as propriedades dos pais), ao menos para proprietários de grandes propriedades, a menos que decidissem contrariamente. Os liberais e a imprensa, bem como alguns dissidentes Ultra, caso de Chateaubriand, se rebelaram. Sua crítica violenta impeliu o governo a introduzir um projeto de lei para restringir a liberdade de imprensa, em dezembro, embora não houvesse praticamente qualquer censura em 1824. Tal foi a reação da oposição que a proposta foi retirada.
O gabinete de Villèle enfrentou crescente pressão da imprensa liberal em 1827, incluindo o “Jornal dos Debates” que patrocinava os artigos de Chateaubriand. O mais proeminente dos Ultra contra Villèle havia combinado com outros oponentes da censura de imprensa (uma nova lei a tinha reimposto em 24 de julho de 1827) formar uma “Sociedade dos Amigos da Liberdade da Imprensa. Outra sociedade influente foi a “Sociedade Ajuda-te que o Céu te Ajudará”, que trabalhou aos confins da legislação interditando encontros sem autorização de mais de 20 membros. O grupo, reforçado pela crescente maré da oposição, era de uma composição mais liberal e incluía membros mais importantes. Panfletos eram divulgados que burlavam as leis da censura e grupo forneceu assistência organizacional a candidatos liberais contra funcionários do estado pró-governo na eleição de novembro de 1827.
Em abril de 1827, o Rei e Villèle foram confrontados por uma Guarda Nacional (força militar e polícia reserva francesa fundada na Revolução em 1789) fora da lei. A guarnição, que Charles inspecionou, com ordens para expressar deferência ao Rei mas de desaprovação ao seu governo, gritava observações antijesuítas aviltantes à sua devota católica sobrinha e nora, Marie Thérèse, Madame a Delfina. Villèle sofreu pior tratamento quando funcionários liberais conduziram tropas para protestar ao seu escritório. Como resposta, a Guarda foi dispersada. Os panfletos continuaram a proliferar e incluíam acusações, em setembro, de que Charles, numa viagem a Saint-Omer, em conluio com o Papa planejava reinstalar o “dízimo” e tinha suspendido a Carta Constitucional sob a proteção de uma guarnição leal do exército. 
Victor Hugo, imortal autor de “Os Miseráveis”,
de Ultrarrealista da Restauração a Republicano
À época da eleição, os realistas moderados (constitucionalistas) começavam também a se virar contra Charles, em parte devido a uma crise financeira em 1825 cuja culpa atribuíam à lei governamental da indenização. Victor Hugo e bom número de outros escritores, descontentes com a realidade da vida sob Charles X, também começaram a criticar o regime. Na preparação para o encerramento de 30 de setembro para as eleições, os comitês de oposição trabalharam furiosamente para conseguir tantos eleitores quantos pudessem, contrariamente às ações dos prefeitos que começaram a remover certos eleitores que não tinham conseguido documentos atualizados desde a eleição de 1824. 18.000 eleitores foram adicionados aos 60.000 da primeira lista; embora os esforços dos prefeitos para registrar os eleitores que conseguiram o direito de voto e eram apoiadores do governo, não conseguiram, fato atribuído à atividade da oposição. A organização foi principalmente dividida entre “Os Amigos de Chateaubriand” e os “Ajuda-te”, que apoiavam os liberais, os constitucionais e a contra oposição (monarquistas constitucionais).
A nova Câmara não resultou numa clara maioria para qualquer lado. O sucessor de Villèle, visconde de Martignac, que começou seu termo em janeiro de 1828, tentou pilotar um curso moderado, acalmando liberais pelo afrouxamento dos controles da imprensa, expulsando jesuítas, modificando o registro eleitoral e restringindo a formação de escolas católicas. Charles descontente com o novo governo, cercou-se de homens dos “Cavaleiros da Fé” e outros Ultra’s conhecidos. Martignac foi deposto quando seu governo foi derrotado numa questão sobre governo local. O Rei Charles e seus conselheiros acreditavam que um novo governo pudesse ser formado com o apoio de Villèle, Chateaubriand e facções monarquistas de Decazes, mas escolheu Polignac para primeiro-ministro, em novembro de 1829, que era repelido pelos liberais e, ainda pior, por Chateaubriand. Embora Charles permanecesse indiferente, o impasse conduziu alguns realistas a clamar por um golpe e proeminentes liberais, por uma greve de impostos.
Na abertura da sessão em março de 1830, o Rei fez um discurso que continha ameaças veladas à oposição; em resposta, 221 deputados (uma maioria absoluta) condenaram o governo e Charles, subsequentemente, suspendeu e então dissolveu o Parlamento. Charles mantinha a crença de que era popular entre a massa não votante e ele e Polignac decidiram persistir numa ambiciosa política externa de colonialismo e expansionismo, com a assistência da Rússia. A França tinha intervindo várias vezes no Mediterrâneo após a resignação de Villèle e expedições eram agora enviadas à Grécia e Madagascar. Polignac iniciou também a conquista francesa da Argélia; a vitória foi anunciada ao Dey (nome dado aos governantes da Argélia, Túnis e Trípoli) de Algiers no início de julho. Planos haviam sido elaborados para a invasão da Bélgica logo após sua própria revolução. Contudo, a política externa provou-se ineficiente para desviar a atenção dos problemas domésticos.
A dissolução da Câmara dos Deputados por Charles, seus decretos de julho, que estabeleceram um rígido controle da imprensa e sua restrição dos eleitores, resultaram na “Revolução de Julho de 1830”. A maior causa da queda do regime, contudo, foi que enquanto ele gerenciava a manutenção do apoio da aristocracia, da Igreja Católica e muito do campesinato, a causa dos Ultras era profundamente impopular fora do parlamento e com aqueles que não possuíam o direito do voto, especialmente os trabalhadores industriais e a burguesia. A maior razão foi uma subida abrupta nos preços dos alimentos, causada por uma série de más colheitas entre 1827 e 1830. Trabalhadores vivendo com o salário-mínimo eram muito pressionados e furiosos com o governo que não dava a menor atenção às suas necessidades urgentes.
Charles abdicou em favor do seu neto, o Conde de Chambord e partiu para a Inglaterra. Contudo, a Câmara dos Deputados, liberal e controlada pelos burgueses, recusou-se a confirmar o Conde de Chambord como Henry V. Numa votação muito boicotada por deputados conservadores, o corpo declarou vago o trono francês, elevando ao poder Louis-Phillipe, Duque de Orléans.

b) 1827 – 1830: Tensões

Há ainda um debate considerável entre os historiadores com relação à real causa da queda de Charles X. Contudo, é geralmente admitido que entre 1820 e 1830, uma série de declínios econômicos, combinados com a ascensão de uma oposição liberal na Câmara dos Deputados, finalmente derrubou os Bourbon conservadores.
Entre 1827 e 1830 a França enfrentou um declínio econômico, industrial e agrícola possivelmente pior do que aquele que havia disparado a Revolução. Uma série de colheitas de grãos progressivamente piores ao final do anos 1820, empurrou para cima os preços em vários alimentos de subsistência e produtos comercializados. Como resposta, o campesinato rural de toda a França uniu-se para tentar o relaxamento das tarifas de proteção dos grãos para baixar os preços e facilitar sua situação econômica. Contudo, Charles X, curvando-se à pressão dos proprietários mais ricos, manteve as tarifas no lugar. Assim agiu baseado na resposta Bourbon ao “Ano Sem Verão” (nome pelo qual ficou conhecido o ano de 1816 pelas baixas temperaturas de verão sem precedentes) em 1816, durante o qual Louis XVIII relaxou as tarifas durante uma série de crises de escassez, causou um declínio dos preços e incorreu na ira de proprietários poderosos, fonte tradicional da legitimidade Bourbon. Com isso, entre 1827 e 1830, os camponeses de toda a França enfrentaram um período de relativa penúria econômica e preços em ascensão.
Ao mesmo tempo, pressões internacionais combinadas com um enfraquecido poder de compra nas províncias, conduziram a uma reduzida atividade econômica nos centros urbanos. Este declínio industrial contribuiu a uma ascensão nos níveis de pobreza entre artesãos parisienses. Assim, por 1830, praticamente todos haviam sofrido pelas políticas econômicas de Charles X.
Enquanto a economia francesa falseava, uma série de eleições trouxe um bloco liberal relativamente poderoso à Câmara de Deputados. O bloco liberal, com 17 membros em 1824, cresceu para 180 em 1827 e para 274 membros em 1830. Essa maioria liberal cresceu cada vez mais insatisfeita com as políticas do centrista Martignac e o ultrarrealista Polignac, que procuravam proteger as já limitadas proteções da Carta de 1814. Esses liberais buscaram a expansão do direito de voto e políticas econômicas mais liberais e exigiram o direito, como bloco majoritário, de indicar o Primeiro Ministro e o Gabinete. O crescimento do bloco liberal dentro da Câmara correspondeu, grosseiramente, à ascensão da imprensa liberal dentro da França. Geralmente centrada em Paris, essa imprensa proporcionava um contraponto aos serviços jornalísticos do governo e aos jornais da direita. Ela tornou-se cada vez mais importante na propagação das opiniões políticas e da situação política ao público parisiense, sendo vista como uma ligação crucial entre a ascensão dos liberais e as massas francesas crescentemente agitadas e economicamente sofredoras.
Por 1830, o governo da Restauração de Charles X encontrou dificuldades de todos os lados. A nova maioria liberal não tinha, claramente, qualquer intenção de mover-se em face das políticas agressivas de Polignac. O crescimento da imprensa liberal em Paris que excedia o jornal oficial do governo, indicava um deslocamento geral na política parisiense para a esquerda, quando a base do poder de Charles era certamente para a direita do espectro político, como eram suas próprias visões. Ele simplesmente não podia ceder às exigências crescentes da Câmara dos Deputados e a situação rapidamente chegaria à crise.

c) 1830: A Revolução de Julho

A Carta de 1814 havia feito da França uma monarquia constitucional. Embora o rei mantivesse poder extensivo para realizar as novas políticas, bem como fosse o único poder executivo, era dependente do Parlamento para aceitar e passar seus decretos legais. A Carta também fixava o método de eleição dos Deputados, seus direitos dentro da Câmara dos Deputados e os direitos do bloco majoritário. Assim, em 1830, Charles X enfrentou um problema importante: ele não podia ultrapassar seus limites constitucionais além de não poder perseguir suas políticas com uma maioria liberal dentro da Câmara dos Deputados. Ele estava pronto para uma ação severa e fez seu movimento após um voto de não-confiança final pela maioria liberal em março de 1830: alterar a Carta de 1814 por Decreto. Esses decretos, conhecidos como “Os Quatro Decretos”, dissolviam a Câmara dos Deputados, suspendiam a liberdade de imprensa, excluíam a classe média mais liberal das futuras eleições e convocava novas eleições. 
Adolphe Thiers, estadista e historiador francês, 
figura-chave na Revolução de Julho de 1830
Em 1º de julho de 1830, antes que o rei tivesse feito suas declarações, um grupo de proprietários de jornais e jornalistas liberais ricos, liderados por Adolphe Thiers, se encontraram em Paris para decidir sobre uma estratégia para conter Charles X. E foi decidido então, três semanas antes da Revolução, que no evento das esperadas proclamações do rei, o estabelecimento jornalístico de Paris publicaria cáusticas críticas às políticas do rei, como tentativa de mobilizar as massas. Assim, quando Charles X fez as suas declarações em 25 de julho, a máquina do jornalismo liberal mobilizou-se, publicando artigos e queixas, publicamente censurando o despotismo das ações reais.
A plebe parisiense também se mobilizou guiada pelo fervor patriótico e pela penúria econômica, montando barricadas e atacando a infraestrutura do rei. Em poucos dias a situação escalou além das habilidades de controle da monarquia. Enquanto a Coroa movimentava-se para fechar os periódicos liberais, as massas radicais parisienses defendiam aquelas publicações e atacavam a imprensa pró-Bourbon, paralisando o aparato coercitivo da monarquia. Aproveitando a oportunidade, os liberais do Parlamento começaram a minutar resoluções, denúncias e censuras contra o Rei, que finalmente abdicou em 30 de julho de 1830, último monarca da Casa dos Bourbon. Vinte minutos mais tarde, seu filho, Louis Antoine, Duque de Angoulême, que o tinha nominalmente sucedido como Louis XIX, também abdicou, partindo ambos para a Inglaterra. A Coroa recairia então nominalmente sobre o filho do irmão mais jovem de Louis Antoine, neto de Charles X, em linha para tornar-se Henry V; contudo, a recém-empossada Câmara dos Deputados declarou o trono vago e, em 9 de agosto, elevou Louis Philippe ao trono, uma monarquia constitucional. Começava assim a Monarquia de Julho.


[1] Os Carbonários eram uma rede informal de sociedades secretas revolucionárias ativa na Itália de 1800 a 1831 que influenciaram outros grupos revolucionários na França, Portugal, Espanha, Brasil, Uruguai e Rússia. Embora seus objetivos muitas vezes tivessem uma base patriótica e liberal, faltava-lhes uma agenda política imediata. Tiveram um importante papel na unificação da Itália, lutando contra a tirania e no estabelecimento de um governo constitucional.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 5


VI - DIFUSÃO DA REFORMA NOS VÁRIOS PAÍSES

VI.1 - ALEMANHA E SUÍÇA ALEMÃ
As 95 Teses de Lutero, que colocaram em dúvida e
repudiaram várias das práticas católicas

A Reforma foi inaugurada na Alemanha (então Prússia, como nação do Sacro Império Romano Germânico) quando Lutero afixou suas celebradas teses às portas da igreja de Wittenberg (cidade do estado da Saxônia onde fica a Universidade de mesmo nome, em que lecionava Lutero), em 31 de outubro de 1517. A partir das consequências da excomunhão papal e do banimento imperial, Lutero foi protegido pelo Eleitor Friedrich da Saxônia, seu soberano territorial. Friedrich da Saxônia teve, no episódio, participação bastante controvertida. Externamente, adotou uma atitude neutra, mas passou a encorajar a formação de comunidades luteranas dentro de seus domínios, após o retorno de Lutero a Wittenberg, onde assumiu a liderança da Reforma em oposição aos Anabatistas. Após a Dieta[1] de Worms, convocada pelo Imperador Carlos V em 1521, pela qual Lutero foi proclamado fugitivo e herege, tendo suas obras proscritas pelo édito correspondente, temendo pelo seu destino, Friedrich o abrigou no Castelo de Wartburg (Turíngia, Alemanha), onde ele permaneceu um ano, durante o qual traduziu o Novo Testamento para o alemão. Friedrich, fundador da Universidade de Wittenberg, entretanto, pouco contato teve com Lutero, tendo permanecido católico romano. 
Friedrich III, Eleitor da Saxônia

Foi Lutero que introduziu as regulações arbitrárias para a adoração Divina e funções religiosas; de acordo com tais regulações, comunidades luteranas foram estabelecidas formando um corpo herético que se opôs à Igreja Católica. Entre outros príncipes que logo se associaram a Lutero, apoiando seus esforços, estavam:
  • Johann da Saxônia (irmão de Friedrich);
  • Grande Mestre Albert da Prússia, que converteu as terras de sua ordem num ducado secular, tornando-se seu lorde hereditário ao aceitar o luteranismo;
  • Duques Heinrich e Albert de Mecklenburg;
  • Conde Albert de Mansfield;
  • Conde Edzard da Friesland Oriental;
  • Príncipe Philip de Hesse, que se declarou definitivamente pela Reforma após 1524.
Enquanto isso, em várias cidades da Alemanha Imperial o movimento da Reforma foi iniciado por seguidores de Lutero, especialmente em Ulm, Augsburg, Nuremberg, Nördlingen, Strasburg, Constance, Mainz, Erfurt, Zwickau, Magdeburg, Frankfort-on-the-Main e Bremen. Os príncipes luteranos formaram a Aliança de Torgau em 4 de maio de 1526, para sua defesa comum. Por sua presença na Dieta de Speyer em 1526, eles garantiram a adoção da resolução que, com relação ao Édito de Worms contra Lutero e sua errônea doutrina, cada um pudesse adotar uma atitude com a qual responder a Deus e o Imperador. A liberdade para introduzir a Reforma em seus territórios foi assim garantida aos governantes territoriais. Os estados católicos foram desencorajados enquanto os príncipes luteranos e suas demandas cresceram. Mesmo os decretos totalmente moderados da Dieta de Speyer de 1529 provocaram protestos dos estados luteranos e reformados.
As negociações na Dieta de Augsburg (1530), em que os estados, rejeitando a fé católica, elaboraram o seu credo (Confissão de Augsburg), demonstraram que a restauração da unidade religiosa não seria efetuada. A Reforma ampliou-se e o Luteranismo e o Zwinglianismo foram introduzidos em outros territórios germânicos. Além dos principados e cidades mencionados acima, por 1530 eles já haviam feito o seu caminho pelos principados de Bayreuth, Ansbach, Anhalt e Brunswick-Lunenburg; nos anos seguintes, na Pomerania, Jülich-Cleve e Wurtemberg. Na Silésia e no ducado de Liegnitz, a Reforma também fez grandes avanços. In 1531 a Liga Smalkaldic concluiu uma aliança defensiva e ofensiva entre os príncipes protestantes e as cidades. Especialmente após sua renovação (1535), a esta liga se uniram outras cidades e príncipes que haviam esposado a Reforma (Conde Palatine Rupert de Zweibrücken, Conde William de Nassau, as cidades de Augsburg, Kempten, Hamburg e outras.
Negociações adicionais entre as partes religiosas foram instituídas visando o fim do cisma, sem sucesso. Entre os métodos adotados para a difusão da Reforma, a força foi cada vez mais livremente empregada. Quando a diocese de Naumburg-Zeitz se tornou vaga, o eleitor Johann Frederick da Saxônia instalou, pela força, o pregador luterano Nicholas Amsdorf (no lugar do reitor da Catedral Julius von Pflug, escolhido por seus cônegos) que assumiu o governo secular. O duque Henry de Brunswick-Wolfenbuttel foi exilado em 1542 e a Reforma foi introduzida à força, como também em Colônia. O colapso da Liga Smalkaldic (1547) reduziu o progresso da Reforma: Julius von Pflug foi instalado em sua diocese de Naumburg, o duque Henry de Brunswick-Wolfenbuttel recuperou suas terras e Hermann von Wied teve de resignar à diocese de Colônia, onde a fé católica foi assim mantida.
A fórmula de união estabelecida pela Dieta de Augsburg, em 1547 (Augsburg Interim) não teve sucesso, embora introduzida em muitos territórios Protestantes. Enquanto isso, o Príncipe Moritz da Saxônia, fazia um tratado secreto com Henrique II da França, inimigo da Alemanha, formando uma confederação com os príncipes protestantes William de Hesse, John Albert de Mecklenburg e Albert de Brandenburg, para fazer Guerra contra o Imperador e o Império, quebrando o seu poder. Por sugestão de Carlos V, então Imperador do Sacro Império Germânico, seu irmão e sucessor, rei Fernando I, convocou a Dieta de Augsburg, em 1555 onde, após longas negociações, foi concluído o tratado conhecido por “Paz Religiosa de Augsburg”. Este pacto continha as seguintes disposições em seus vinte e dois parágrafos:
  • Entre os Estados imperiais católicos e os da Declaração de Augsburg (os Zwinglianos não foram considerados no Tratado) a paz e a harmonia deverão ser observadas;
  • Nenhum Estado do Império constrangerá outro Estado ou seus súditos a mudar de religião nem fará guerra por motivo religioso;
  • O dignitário eclesiástico que esposar a Declaração de Augsburg, perderá sua dignidade eclesiástica com todos os escritórios e salários a ele conectados, sem prejuízo, contudo, de sua honra e posses privadas. Contra este dispositivo eclesiástico, os Estados Luteranos protestaram:
  • Os proprietários da Declaração de Augsburg manterão todas as suas propriedades eclesiásticas possuídas desde o início da Reforma; após 1555 nenhuma parte poderá tomar nada de outra parte;
  • Até a conclusão da paz entre os corpos religiosos disputantes (a ser efetivada na próxima Dieta de Ratisbon) a jurisdição eclesiástica da hierarquia católica fica suspensa nos territórios da Declaração da Augsburg;
  • Se qualquer conflito surgir entre as partes relacionadas a terras ou direitos, uma tentativa inicial deve ser feita para ajustar tais disputas por arbitragem;
  • Nenhum Estado Imperial pode proteger seus súditos de outro estado das autoridades;
  • Cada cidadão do Império tem o direito de escolher qualquer uma das duas religiões reconhecidas e de praticá-la em outro território sem perda de direitos, honra ou propriedade (sem prejuízo, contudo, aos direitos do lorde territorial sobre classe camponesa);
  • Essa paz incluirá os cavalheiros livres e as cidades livres do Império; as cortes imperiais devem ser guiadas exatamente por estas provisões;
  • Os juramentos devem ser administrados ou em nome de Deus ou de seu Santo Evangelho.

Por esta paz, o Cisma religioso do Império Germânico foi definitivamente estabelecido; daí em diante os estados católicos e protestantes ficaram em campos opostos. Quase toda a Alemanha, da fronteira com a Holanda a oeste, à fronteira polonesa, a leste, o território da Ordem Teutônica na Prússia, a Alemanha Central com exceção da maior parte porção ocidental, e (no Sul da Alemanha) Wurtemburg, Ansbach, Pfalz-Zwibrucken e outros domínios menores, com numerosas cidades livres, haviam esposado o Luteranismo. Além disso, no sul e sudeste, que permaneceram predominantemente católicos, surgiram numerosos apoiadores. O Calvinismo também se espalhou amplamente.
Mas a Paz de Augsburg falhou em garantir a harmonia que se esperava. Desafiando suas expressas provisões, uma série de principados eclesiásticos (dois arcebispados, doze bispados e numerosas abadias) foram reformadas e secularizadas antes do início do século XVII. A “Liga Católica” foi formada para proteção dos interesses católicos e para compensar a “União Protestante”. Logo se seguiu a “Guerra dos Trinta Anos”[2], uma funesta luta para a Alemanha, que entregou o país aos seus inimigos do oeste e norte, destruindo o poder, riqueza e influência do Império Germânico. A Paz de Westphalia, concluída em 1648, com a França, em Munster, e com a Suécia, em Osnabrück, confirmando definitivamente o status do cisma religioso na Alemanha, colocou os Calvinistas e os Reformados no mesmo pé dos Luteranos e garantiu aos Estados imediatamente sujeitos ao imperador, o direito de introduzir a Reforma. Daí para a frente, os soberanos territoriais podiam obrigar seus súditos a adotar uma dada religião, sujeito ao reconhecimento da independência daqueles que, em 1624 tinham o direito de manter seus próprios serviços religiosos. O Absolutismo Estatal nas questões religiosas havia atingido seu mais alto desenvolvimento na Alemanha.
Na Suíça Germânica ocorreu algo similar. Após Zurich ter aceito e introduzido à força a Reforma, Basle seguiu o seu exemplo com John OEcolampadius e Wolfgang Capito associando-se a Zwingli, espalhando seu ensinamento e conquistando a vitória para a nova fé. Os membros católicos do Grande Conselho foram expulsos. Resultados similares foram obtidos em Appenzel Outer Rhodes, Schaffhausen e Glarus. Após longa hesitação a Reforma foi aceita também em Berna, onde um apóstata cartusiano (ordem religiosa), Franz Kolb, com Johann e Berthold Haller pregaram o Zwinglianismo. Todos os monastérios foram subjugados e uma grande violência foi usada para impor o Zwinglianismo ao povo do território. St. Gall, onde Joachim Vadianus pregava, e uma grande parte de Graubunden também adotaram as inovações. Por todo o Império o Zwinglianismo era um forte rival do Luteranismo e um violento conflito entre as duas profissões começou, a despeito das permanentes negociações pela união. As tentativas para terminar com a infeliz divisão da religião não eram desejadas na Suíça. Em maio de 1526 uma grande disputa religiosa ocorreu em Baden, com o catolicismo sendo representado por Johann Eckius (Eck), Johann Faber e Murner, e a Reforma por OEcolampadius e Berthold Haller. O resultado foi favorável aos católicos, com a maioria dos representantes dos Estados presentes declarando-se contra a Reforma e os escritos de Lutero e Zwingli sendo proibidos, o que veio a estimular a oposição dos Estados reformados. Em 1527 Zurich formou uma aliança com Constance; Basle, Berna e outros Estados reformados juntaram-se à Confederação em 1528. Como autodefesa, os Estados católicos formaram uma aliança em 1529 para a proteção da verdadeira fé dentro de seus territórios. Na guerra que se seguiu, os católicos obtiveram uma vitória em Kappel, com Zwingli morrendo no campo de batalha. Zurich e Berna tiveram a paz garantida sob a condição de não se perturbarem mutuamente por questões religiosas, com os serviços católicos podendo ser livremente mantidos nos territórios comuns. A fé católica foi restaurada em certos distritos de Glarus e Appenzell; a abadia de St. Gall foi retornada ao abade, embora a cidade tenha permanecido reformada. Em Zurich, Basle, Berna e Schaffhausen, contudo, os católicos não puderam garantir seus direitos. Os reformadores suíços logo compuseram declarações formais de suas crenças, sendo digna de nota a Primeira Profissão Helvética produzida por Bullinger, Myconius, Grynaeus e outros (1536), e a Segunda Profissão, composta por Bullinger em 1564, adotada pela maioria dos territórios reformados do tipo Zwingli.

VI.2 – OS REINOS DO NORTE: DINAMARCA, NORUEGA E SUÉCIA
Frederick I, rei da Dinamarca e Noruega

A Reforma Luterana fez uma penetração precoce na Dinamarca, Noruega (então unida à Dinamarca) e Suécia, principalmente devido a influências reais. O rei Christian II da Dinamarca (1513-1523) acolheu a Reforma como forma de enfraquecer a nobreza e, especialmente, o clero (que possuía extensas propriedades), por esse meio estendendo o poder do trono. Sua primeira tentativa de difusão dos ensinamentos de Lutero, em 1520, teve pouco sucesso: os barões e prelados logo o depuseram por tirania elegendo, em seu lugar, o Duque Frederick of Schleswig e Holstein (Rei Frederick I da Dinamarca e Noruega), secreto seguidor do luteranismo, que havia jurado, em sua coroação de 1523, manter a religião católica. Entretanto, assim que sentou no trono, favoreceu os reformadores, em particular o pregador Hans Tausen. Na Dieta de Odensee, em 1527, ele garantiu a liberdade de religião aos reformadores, permitiu o casamento ao clero e reservou ao rei a confirmação de 11 ordenações episcopais. O luteranismo difundiu-se por meios violentos e os fiéis da religião católica foram oprimidos. Seu filho Christian III, que já havia reformado Holstein, lançou às prisões os bispos dinamarqueses que haviam protestado contra sua sucessão, cortejando o apoio dos barões. Com exceção do bispo Ronow de Roskilde, que morreu na prisão (1544), todos os bispos concordaram em resignar e não mais opor-se à nova doutrina; com isso foram libertados tendo suas propriedades restituídas. Todos os padres que se opuseram à Reforma foram deportados, os monastérios fechados e a Reforma introduzida em todos os lugares à força. Em 1537, Johann Bugenhagen (Pomeranus), companheiro de Lutero, foi convocado de Wittenberg para a Dinamarca para estabelecer a Reforma de acordo com as ideias de Lutero. Na Dieta de Copenhagen, em 1546, os últimos direitos dos católicos foram retirados (direito de herança, elegibilidade para qualquer posto) e os padres católicos foram proibidos de morar no país sob pena de morte. 
Christian III, Rei da Dinamarca/Noruega
Na Noruega, o arcebispo Olaus de Trondhjem apostatou ao luteranismo, mas foi obrigado a deixar o país, como partidário do rei deposto, Christian II. Com a ajuda da nobreza dinamarquesa, Christian III introduziu a Reforma na Noruega à força. A Islândia resistiu mais tempo ao absolutismo real e às inovações religiosas. O inflexível bispo de Holum, Jon Arason, foi decapitado e a Reforma espalhou-se rapidamente após 1551. Algumas aparências do período católico foram mantidas – o título de bispo e, em alguma extensão, as vestimentas litúrgicas e formas de adoração.
Também na Suécia a Reforma foi introduzida por razões políticas pelo soberano secular. Gustavus Vasa, que havia sido dado a Christian II da Dinamarca, em 1520, como um refém e conseguira escapar para Lubeck, lá se familiarizou com o ensinamento luterano e reconheceu os serviços que ele poderia render-lhe. Retornando à Suécia, tornou-se o primeiro chanceler imperial e depois de ter sido eleito rei, com a deposição de Christian II na Dinamarca, tentou converter a Suécia numa monarquia hereditária, mas teve que curvar-se à oposição do clero e nobreza. A Reforma ajudou-o a atingir seus objetivos, embora sua introdução fosse difícil por conta da grande fidelidade do povo à fé católica. Indicou para altas posições dois suecos, os irmãos Olaf e Lorenz Peterson, que haviam estudado em Wittenberg e aceito os ensinamentos de Lutero; um capelão da corte em Estocolmo e o outro como professor em Upsla. Ambos trabalharam em segredo para a difusão do luteranismo, conseguindo muitos adeptos que incluíram o arquidiocesano Lorenz Anderson que o rei, a partir daí, nomeou seu chanceler. Em suas tratativas com o Papa Adriano VI e seus representantes, o rei simulava a máxima fidelidade à Igreja, enquanto fornecia às inovações religiosas o seu maior apoio. Os dominicanos, que ofereceram uma forte oposição aos seus projetos, foram banidos do reino e os bispos que resistiram foram sujeitos a todos os tipos de opressão. Após uma disputa religiosa na Universidade de Upsala, o rei concedeu a vitória a Olaf Peterson e procedeu à reforma da universidade, ao confisco da propriedade eclesiástica e ao emprego de todos os meios para compelir o clero a aceitar a nova doutrina. Uma revolução popular deu-lhe a oportunidade de acusar os bispos católicos de alta traição e, em 1527, o arcebispo de Upsala e o bispo de Westraes foram executados. Muitos eclesiásticos aderiram às vontades do rei; outros resistiram e tiveram de suportar violenta perseguição; um exemplo disso foi a heroica resistência das freiras de Wadstena. Após a dieta de Westraes, em 1527, grandes concessões foram feitas ao rei pelo medo da recente sujeição dos dinamarqueses, especialmente o direito de confisco da propriedade da Igreja, de indicações e remoções eclesiásticas etc. Alguns dos nobres logo se voltaram ao Rei quando da opção do retorno dos bens doados à Igreja pelo ancestral de alguém desde 1453. O celibato clerical foi abolido e o vernáculo foi introduzido no serviço Divino. O rei constituiu-se suprema autoridade em questões religiosas e rompeu a unidade religiosa do país. O Sínodo de Orebro (1529) completou a Reforma, embora muitos dos ritos externos, as imagens nas igrejas, as vestimentas litúrgicas e os títulos de arcebispo e bispo fossem mantidos. Em 1544 Gustavus Vasa tornou hereditário o seu trono. Os numerosos levantes contra ele e suas inovações foram debeladas com violência sangrenta. Mais tarde outras grandes revoltas religiosas surgiram, também de caráter político.
O Calvinismo também se espalhou e Eric XIV (1560-1568) dedicou-se a promove-lo. Foi, entretanto, destronado pela nobreza por sua tirania e seu irmão John III (1568-1592) nomeado rei. Este restaurou a Fé Católica e tentou devolver a terra à unidade da Igreja, mas com a morte de sua primeira esposa, Princesa Katherina, seu ardor declinou em face das numerosas dificuldades e sua segunda esposa favoreceu o luteranismo. Com a morte de John, seu filho Sigismund, já rei da Polônia e católico de sentimento, tornou-se rei da Suécia. Contudo, seu tio Duque Charles, chanceler do Reino, deu forte apoio à Reforma e a Confissão de Augsburg foi introduzida no Sínodo Nacional de Upsala, em 1593. Sigismund não teve poder contra o chanceler e a nobreza sueca; finalmente, em 1600, foi deposto como um apóstata da “verdadeira doutrina” e Charles foi coroado rei. Gustavus Adolphus (1611-1632), filho de Charles, usou a Reforma para aumentar o poder da Suécia pelas suas campanhas. A Reforma foi então oficializada em toda a Suécia.

VI.3 – FRANÇA E SUÍÇA FRANCESA

Em alguns círculos humanísticos[3] da França, muito anteriormente, originou-se um movimento favorável à Reforma. O centro desse movimento foi Meaux, onde o bispo Guillaume Briconnet favoreceu as ideias humanistas e místicas e onde ensinavam o professor Lefèvre d’Etaples, W. Farel e J. de Clerc, humanistas com tendências luteranas. Contudo, a Corte, a Universidade e o Parlamento se opuseram às inovações religiosas e a comunidade luterana de Meaux foi dissolvida. Centros mais importantes da Reforma foram encontrados ao sul, onde os Waldensianos[4] haviam preparado o terreno. Aqui muitos tumultos ocorreram, durante os quais imagens de Cristo e de Santos foram destruídas. Os parlamentos, na maioria dos casos, tomaram enérgicas medidas contra os inovadores embora em alguns lugares tenham encontrado protetores – especialmente em Margaret de Valois, irmã do rei Francisco I e esposa de Henrique d’Albret, rei de Navarra. Os líderes da Reforma na Alemanha buscaram derrotar Francisco I, aliado dos príncipes protestantes alemães por razões políticas; ele, entretanto, permaneceu fiel à Igreja e suprimiu os movimentos pró-reforma em todo o território. Nos distritos do sudeste, especialmente em Provence e Dauphine, os apoiadores das novas doutrinas cresceram em função dos esforços dos reformadores da Suíça e Strasburg, até que a profanação e o saque das igrejas obrigaram o rei a tomar medidas enérgicas contra eles. Após o calvinismo ter-se estabelecido em Genebra, sua influência cresceu rapidamente nos círculos da Reforma francesa. Calvino apareceu em Paris em 1533 como defensor do novo movimento religioso, dedicou ao rei francês Francisco I suas “Instituições das Religiões Cristãs” e foi para Genebra no mesmo ano. Expulso de Genebra ele retornou em 1541 e lá iniciou o estabelecimento final de sua organização religiosa. Com sua academia inaugurada por Calvino, Genebra era o principal centro da Reforma e afetou principalmente a França. Pierre le Clerc estabeleceu a primeira comunidade calvinista em Paris; outras foram estabelecidas em Lyons, Orléans, Angers e Rouen, onde medidas repressivas mostraram pouca valia. O bispo Jacques Spifamius, de Nevers, desviou-se para o calvinismo e, em 1559, ainda sob Henrique II, Paris testemunhou a reunião de um sínodo geral de reformadores franceses que adotou o credo calvinista, introduzindo a constituição presbiteriana suíça para as comunidades reformadas. Devido ao apoio dos waldensianos à disseminação da literatura reformista de Genebra, Basle e Strasburg, e ao permanente influxo de pregadores dessas cidades, os adeptos da Reforma cresceram na França. Com a morte do rei Henrique II (1559) os huguenotes[5] calvinistas pretenderam tirar vantagem da fraqueza do governo para aumentar o seu poder. A rainha viúva Catarina de Médici, ambiciosa e intrigante, perseguiu uma política oportunista. Logo aspirações políticas se emaranharam com o movimento religioso que assumiu proporções maiores e maior importância. De oposição à linha regulatória e aos poderosos e zelosamente católicos duques de Guise, os príncipes da linha Bourbon tornaram-se os protetores dos calvinistas, como Antoine de Vendôme, rei de Navarra e seus irmãos, especialmente Louis de Condé. A eles outros se juntaram, incluindo bispos e cardeais. 
O massacre do dia de São Bartolomeu, por François Dubois
A despeito de leis anti-heréticas, o calvinismo fazia constante progresso no sul da França, quando, em 17 de janeiro de 1562 a rainha viúva, regente de Charles IX, emitiu um édito de tolerância que permitia aos huguenotes a livre prática de sua religião fora das cidades e sem armas, mas proibindo toda a interferência e atos de violência contra instituições católicas, além de ordenar a restituição de todas as igrejas e propriedades eclesiásticas tomadas aos católicos. Os calvinistas ainda mais audaciosos, cometeram, especialmente no sul, revoltantes atos de violência contra os católicos, executando padres católicos até nos bairros de Paris. Em 1º de março de 1562, em Vassy, Champagne, a comitiva do Duque de Guise entra em conflito com os huguenotes inaugurando a primeira guerra civil e religiosa na França. Embora esta tenha encerrado com a derrota dos huguenotes, ocasionou grandes perdas aos católicos da França. Relíquias de Santos foram queimadas e espalhadas, igrejas magníficas reduzidas a cinzas e numerosos padres assassinados. O édito de Amboise garantiu novos favores a nobres calvinistas embora o édito de tolerância anterior tivesse sido retirado. Cinco outras guerras civis se seguiram, durante as quais ocorreu o massacre do dia de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), quando dezenas de líderes huguenotes foram assassinados numa série coordenada de ataques planejados pela família real católica. Esse foi o início de um massacre mais vasto que durou até outubro e envolveu doze cidades francesas.
Richelieu, cardeal da Igreja Católica
e primeiro-ministro da França
 
Somente com a extinção da linha de Valois com Henry III (1589) e a ascensão de Henry de Navarra (que abraçou o catolicismo em 1593) ao trono, as guerras religiosas chegaram ao fim pelo Édito de Nantes (13 de abril de 1598), que garantiu aos calvinistas plena liberdade religiosa, admissão a todos os serviços públicos e uma privilegiada posição no Estado. Dificuldades de natureza política surgiram e o Cardeal de Richelieu buscou acabar com a posição influente dos huguenotes. A captura de sua principal fortaleza, La Rochelle (28 de outubro de 1628), finalmente quebrou o poder dos calvinistas franceses como entidade política. Mais tarde, muitos deles retornaram ao catolicismo, embora ainda muitos adeptos do calvinismo na França tenham subsistido.




[1] A palavra dieta vem do latim dieta (de dies, dia, do primeiro significado, regime alimentício diário) e, no caso, significa uma assembleia política ou administrativa.
[2] A Guerra dos Trinta Anos (1618-48) iniciou quando Ferdinando II, Imperador do Sacro Império Romano, da Bohemia, tentou restringir as atividades religiosos de seus súditos, provocando a rebelião entre os protestantes. Incialmente envolvendo apenas alemães, a guerra incluiu as maiores potências da Europa: Suécia, França, Espanha e Áustria lutando em solo germânico. Com atrocidades cometidas por todos os lados, 20% da população alemã pereceu na guerra que terminou com uma série de tratados convertidos na Paz de Vestefália e redesenhou o mapa político e religioso da Europa Central.
[3] Humanismo é o nome dado ao movimento intelectual, literário e científico dos séculos XIV a XVI, um movimento que visava basear todo ramo do aprendizado na literatura e cultura da antiguidade clássica. Acreditando que apenas o treino clássico poderia formar um homem perfeito, os humanistas assim se auto denominaram em oposição aos escolásticos, adotando o termo humaniora (as humanidades) com o significado de sabedoria dos anciãos. Embora o intervalo entre o período clássico e os seus próprios dias fosse visto pelos humanistas como bárbaros e destrutivos com relação à arte e ciência, o Humanismo (como qualquer outro fenômeno histórico) estava ligado ao passado.
[4] Uma seita herética surgida na segunda metade do século XII e que, modificada de uma forma considerável, sobreviveu até os dias atuais. O nome é derivado de Waldes, seu fundador.
[5] Huguenote foi, originalmente, um termo político, não religioso, usado para descrever, entre 1520 e 1524, os patriotas de Genebra hostis ao Duque de Savoy que uniram a cidade à Confederação Suíça.

Prossegue com a PARTE 6