Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 4)

VI – O PERÍODO HELENÍSTICO E A CRISE DE IDENTIDADE (333 AC - 63 AC)

No império Persa, Artaxerxes I foi sucedido por seu filho Xerxes II que foi, por sua vez, assassinado e sucedido por seu meio irmão Soguediano, ambos reinando por períodos muito curtos. Dario II (424 – 404 AC) sucedeu a Soguediano e foi sucedido por seu filho Artaxerxes II, que reinou de 404 AC até a sua morte em 358 AC. Artaxerxes III o sucedeu no trono, sendo sucedido por Dario III, último rei do Império Aquemênida Persa, tendo reinado de 336 a 330 AC.
Alexandre, o Grande, da Macedônia
Por essa época Felipe, rei da Macedônia (norte da Grécia), foi assassinado em Egae, por Pausanias, filho de Cerastes, da família de Orestes, e Alexandre, seu filho, o sucedeu no trono.
Alexandre, passando pelo Helesponto (atual Estreito de Dardanelos) derrotou os generais do exército de Dario III na batalha travada em Cranicum, marchou sobre a Lydia (antigo nome da região oeste da Turquia asiática), subjugou a Ionia, Caria e Pamphylia, avançando para o leste da atual Turquia. Enquanto isso, Dario avançava com seus exércitos para o oeste, visando dar combate a Alexandre em Issus, Cilicia. Sanballat, certo de que Dario derrotaria Alexandre, reafirmou suas promessas a Massaneh. Entretanto, Dario foi batido por Alexandre que tomou a maior parte dos seus exércitos além de aprisionar sua mãe, esposa e filhos, e fugiu para a Pérsia. Alexandre invadiu a Síria, tomando Damasco, Sidon e sitiando Tiro, quando então buscou o alto sacerdote judeu para fornecer suprimentos a seus exércitos. Entretanto, o Alto Sacerdote respondeu-lhe que não transgrediria seu juramento a Dario enquanto este estivesse vivo, pois temia sua represália. Alexandre, evidentemente não gostou de sua resposta e prometeu represália aos judeus assim que tomado Tiro. Isso aconteceu rapidamente e Alexandre chegou a Gaza que foi sitiada e teve o governador da guarnição, Babemeses, preso.
Ao tempo do sítio de Tiro, Sanballat viu um boa oportunidade de atingir seus objetivos e, renunciando a Dario III, buscou Alexandre oferecendo-lhe cerca de sete mil de seus soldados e aceitando-o como seu lorde. Sanballat, sendo bem recebido por Alexandre, narrou-lhe seus próprios problemas e fez ver a Alexandre que dividindo Jerusalém com dois altos sacerdotes, dividiria também sua força. Contou com a anuência de Alexandre e apressou-se na construção do Templo prometido, fazendo Manasseh alto sacerdote. Entretanto, assim que Alexandre conquistou Tiro e Gaza, Sanballat morreu e Alexandre apressou-se a tomar Jerusalém (cerca de 329 AC), colocando o Alto Sacerdote Jaddua em pânico, fazendo com que adornasse a cidade e abrisse os seus portões para receber o Rei Alexandre. Recebeu Alexandre com toda a pompa, foi por ele muito bem aceito e conduzido ao Templo, onde ofereceu sacrifício ao Deus dos Judeus, tratando magnificamente o Alto Sacerdote e os demais sacerdotes. Tal foi a maneira como Alexandre atendeu a todas as reivindicações dos Judeus, que muitos deles se prontificaram a marchar sob suas ordens para as suas novas conquistas. Após Alexandre ter acertado todos os assuntos em Jerusalém, conduziu seu exército pelas cidades vizinhas que o receberam muito bem. A partir dessa época, a Palestina passou a ser chamada de Palestina Helenística. Vendo que os judeus o haviam recebido tão bem, os samaritanos, que tinham Shechem por sua metrópole (uma cidade situada no monte Gerizzim e habitada por apóstatas da nação judia), manifestaram, como de outras vezes, sua descendência judia, igualmente saudando o rei Alexandre.
A Província Helenística de Judá
O Império Persa, sob o qual os judeus haviam desfrutado de uma autonomia limitada, foi, portanto, conquistado por Alexandre, o Grande, da Macedônia, no século IV AC. Em 313 AC, Alexandre anexou a Terra de Israel ao seu crescente império, marcando uma nova fase de dominação estrangeira. A ascensão meteórica de Alexandre ao poder e a extensão de seu domínio por vastas regiões do mundo antigo, tudo antes de completar 30 anos, tiveram um impacto notável na história judaica.
A conquista de Alexandre não se deu apenas pela força militar, mas também pela disseminação da língua e cultura gregas num processo conhecido como helenização. O helenismo, a disseminação da cultura e língua gregas, teve um impacto profundo e complexo no judaísmo. A língua grega tornou-se um veículo de comunicação universal em todo o Oriente Médio, facilitando um diálogo cultural entre gregos e civilizações orientais. Em algumas comunidades da diáspora, notadamente em Alexandria, no Egito, os judeus se abriram à cultura helenística, assimilando-a em vários níveis, desde a língua até o pensamento e o modo de vida. Um dos produtos literários mais importantes desse contato foi a tradução da Bíblia hebraica para o grego, conhecida como a Septuaginta, realizada em etapas entre o século III e o século I AC em Alexandria. Essa tradução foi crucial para os muitos judeus da diáspora que haviam perdido o contato com a língua hebraica e para a difusão do pensamento judaico no mundo helenístico. No entanto, a influência helenística não foi uniformemente aceita. Enquanto os judeus dispersos, especialmente no Egito, mantiveram um diálogo fecundo com a cultura grega, os judeus residentes na Terra de Israel, rejeitaram fortemente a cultura helênica imposta, pois a viam como uma ameaça direta à sua identidade judaica. Dessa interação e confronto de culturas, surgiu uma rica produção literária, tanto de apoio ao helenismo (literatura de justificação) quanto de rejeição a ele (literatura de resistência). A interação entre o judaísmo e o helenismo não foi uma simples dicotomia de aceitação ou rejeição, mas um espectro de respostas que moldou profundamente a identidade judaica. A tradução da Septuaginta, por exemplo, não foi apenas um ato de adaptação linguística, mas um empreendimento que tornou as Escrituras judaicas acessíveis a um público mais amplo, incluindo os gentios, e que influenciaria profundamente o desenvolvimento do cristianismo. A resistência ao helenismo forçado, por outro lado, fortaleceu a convicção religiosa e a coesão identitária dentro da Judeia, culminando com a Revolta dos Macabeus. Essa dualidade de adaptação e resistência demonstra a capacidade do judaísmo de se engajar com culturas dominantes sem perder sua essência, um modelo de resiliência que se repetiria ao longo de sua história.

VII – DA MORTE DE ALEXANDRE, O GRANDE, À REVOLTA DOS MACCABEUS

Com a súbita morte de Alexandre, o Grande, em 323 AC, seus generais e sucessores, os “Diadochi” (Sucessores), lutando pela sucessão, acabaram por dividir o reino entre si: Seleucus I Nicator (que deu origem ao Reino Selêucida), obteve a Ásia (Ásia Menor, Síria, Mesopotâmia e Babilônia); Lysimachus governou a Trácia (Trácia propriamente e grande parte da atual Turquia); a Cassandro coube a Macedônia (que incluía a Macedônia e toda a Grécia); e a Ptolomeu I Soter coube o Egito (Egito propriamente dito, a região da Silícia, na Ásia Menor e parte da Palestina). 
Partição do reino de Alexandre entre seus generais
A Judeia, anteriormente sob o domínio persa e estrategicamente localizada entre os reinos ptolomaico e selêucida, tornou-se um ponto de disputa constante entre entre os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, sob o governo ptolomaico, as práticas religiosas judaicas foram toleradas. No entanto, a transição para o domínio selêucida, especialmente sob Antiocus IV Epifânio, traria uma nova e severa ameaça à identidade judaica. Essa instabilidade política e a subsequente mudança de controle de um império tolerante (Ptolomeu) para um opressor (Selêucida) demonstraram a vulnerabilidade contínua da comunidade judaica a forças externas. Essa sucessão de dominações estrangeiras, cada uma com suas próprias políticas e impactos culturais, forçou os judeus a desenvolverem estratégias de resistência e adaptação, que se manifestariam em movimentos religiosos e políticos distintos, preparando o terreno para a Revolta dos Macabeus.
Com as alterações das guerras durante os primeiros anos dos Diadochi, o Reino de Judá foi, inicialmente, para o comando dos Ptolomeus que governavam o Egito, seguido do comando Selêucida no segundo século AC, com Antiocus III, o Grande. A incorporação de Judá ao reino ptolomaico como uma unidade administrativa separada (Hiparquia) liderada pelos Alto Sacerdotes Judeus, que foram diretamente responsáveis pelo governo na Alexandria, foi responsável por isso. Em contraste, os hiparcas diretamente instalados pelo rei Ptolomaico, gerenciaram todas as outras hiparquias na Selesíria, tais como a Samaria, Galileia, Idumeia e Ashdod.
Ptolomeu I reinou sobre Jerusalém de maneira cruel, num certo momento tomando grande número de cativos das partes montanhosas da Judeia e de locais em torno de Jerusalém e Samaria e próximos do Monte Gerizzim e conduzindo-os para o Egito, onde se tornaram responsáveis pela região de Alexandria. Posteriormente outros judeus, por sua própria vontade, deslocaram-se para o Egito pela qualidade dos seus solos e pela liberalidade de Ptolomeu.
Em contraste com o que sabemos sobre as atividades dos Ptolomeus na Palestina, são virtualmente nulas as informações que se têm sobre as atuações políticas dos judeus ao tempo dos Diadochi. As províncias praticamente não se envolveram em eventos geopolíticos. Contudo, as variações no poder político também tiveram consequências significativas para Judá, que se refletiram mesmo na cunhagem de moedas. A Judeia continuou a ser governada pelo Alto Sacerdote e a aristocracia sacerdotal. Um dos poucos incidentes de que se tem notícia foi a questão sobre a taxação entre o Alto Sacerdote Onias e Ptolomeu III Euergetes (que reinou entre 246 e 221 AC) que frequentava o Templo de Jerusalém. O resultado da disputa foi a indicação do jovem José, filho de Tobias, um sobrinho do Alto Sacerdote, como coletor de impostos para todo o país. A rivalidade entre a família de Tobias e do Alto Sacerdote Onias acabou tendo um papel importante na tentativa radical da Helenização da Judeia no segundo século AC.
Quando Onias morreu, seu filho Simon, o Justo, tornou-se seu sucessor. Com a morte de Simon (que havia deixado um filho também com o nome Onias), seu irmão Eleazar tornou-se o Alto Sacerdote, sendo responsável pela libertação de mais de 100.000 judeus escravos no Egito, por ordem de Ptolomeu.
Durante os anos de conflito entre Ptolomeus e Selêucidas, cada um dos rivais era apoiado por uma facção judia. A Gerousia (Conselho dos Anciãos), mencionada pela primeira vez em fontes dessa época, apoiava os Selêucidas. Há registros de que o Alto Sacerdote Simon, o Justo, (cerca de 200 AC), que provavelmente liderou a Gerousia, teria apoiado os Selêucidas. Provavelmente ele teria recuperado o poder sobre a taxação, anteriormente entregue a José, filho de Tobias, agora encarregado da renovação do Templo e da Cidade.
Em 221 AC o rei Selêucida Antiochus III (223 a 187) invadiu a Palestina pela primeira vez, sem ter o sucesso da conquista. A morte do rei Ptolomeu IV Philopator, em 203 AC abriu o caminho a Antiochus III para novas tentativas e em 201 AC ele invadiu o país novamente, conquistando-o rapidamente.
Quando Antiochus III tomou o controle da Judeia, ele afirmou o direito dos judeus de viverem de acordo com suas leis ancestrais. Contudo, apenas 30 anos após, os judeus proponentes de uma helenização extrema veriam seu filho o rei Selêucida Antiochus IV Epiphanes, como o agente que poria em ação seus planos de helenizar Jerusalém e seu povo. Ao tempo em que o domínio dos Ptolomeus na Palestina terminou, cidades gregas haviam se estabelecido por todo o país e o helenismo havia firmado fortes bases a ponto de dividir a nação antes que a Judeia recuperasse sua independência. Cerca de 198 AC, os Selêucidas estavam solidamente no controle e assim permaneceriam até a revolta dos Macabeus (168-164 AC), que enfraqueceu o poder do Império Selêucida, preparando o caminho para o início da dinastia local Hasmoneana. Em seguida ao cerco de Jerusalém por Pompeu, o Grande, em 63 AC, a região foi anexada pela República Romana, marcando o fim da Palestina Helenística e o início da Judeia Romana.
Antiochus III devia uma grande quantia de dinheiro aos romanos e a fim de obter esses recursos ele decidiu roubar um templo. O povo do templo de Bel in Lam, para vingar-se, matou Antiochus e todos os que o ajudaram, em 187 AC. Antiochus III foi sucedido por seu filho Seleucos IV Philopater que simplesmente defendeu a área de Ptolomeu V antes de ser assassinado por seus ministros em 175 AC. Seu irmão, Antiochus IV Epiphanes, tomou seu lugar. Antes de matar o rei anterior, o ministro Heliodorus tentara roubar os tesouros do Templo em Jerusalém e Antiochus IV foi informado disso por um rival do atual Alto Sacerdote Onias III que proibira a entrada de Heliodorus no Templo. Onias III foi chamado para explicar por que um ministro do rei fora impedido de acessar as dependências do Templo. Em sua ausência, seus rivais colocaram um novo Alto Sacerdote em seu lugar, Jason (versão helenizada de Josué), irmão de Onias III. 
A Palestina à época dos Macabeus
A perseguição selêucida sob Antiochus IV Epifânio (175-164 AC) foi o catalisador para a Revolta dos Macabeus. Antiochus, que se autodenominava "deus manifesto", buscou impor uma assimilação cultural e religiosa forçada sobre os judeus. Ele proibiu práticas religiosas judaicas, como a observância das leis alimentares, a circuncisão e o Sábado, e ordenou a adoração do deus grego Zeus. O ápice de sua profanação ocorreu em 167 AC, quando ele sacrificou um porco no Templo de Jerusalém, transformando-o em um local de culto sincrético pagão-judaico.
Essa opressão desencadeou a Revolta dos Macabeus, uma rebelião judaica liderada por Matatias, um sacerdote judeu, e seus cinco filhos, notavelmente Judas Macabeu, um competente general judeu. A resistência ganhou força com revoltas populares e uma campanha militar contra as forças selêucidas. Um dos momentos mais simbólicos da revolta foi a recuperação e purificação do Templo de Jerusalém pelos Macabeus, um evento celebrado até hoje no festival judaico de Hanukkah.
A Revolta dos Macabeus foi uma resposta à tentativa de aniquilação cultural e religiosa, e seu sucesso em repelir os gregos e estabelecer um reino independente marcou uma fase importante na história judaica. A profanação do Templo por Antiochus IV não foi apenas um ato de tirania, mas uma violação do cerne da identidade judaica, que considerava o Templo como o centro de sua fé e unidade. A revolta, portanto, não foi apenas uma luta por independência política, mas uma defesa existencial da religião e da identidade do povo. O estabelecimento de Hanukkah como uma festa duradoura reforça a importância da memória histórica e da resiliência religiosa como elementos centrais da identidade judaica.
Os Macabeus começaram a chamar a atenção do rei Antiochus IV em 165 AC, que mandou seu chanceler Lysias pôr um fim à revolta. Para tanto, Lysias enviou três generais que foram todos derrotados pelos Macabeus. O próprio Lysias enfrentou a questão que foi então solucionada por negociação.
Após a morte de Antiochus IV em 164 AC, seu filho Antiochus V, tendo Lysias como regente, deu aos judeus liberdade religiosa.
Ao tempo da re dedicação do Templo, durante o cerco da fortaleza de Acre, Eleazor, um dos irmãos de Judas Macabeus foi morto. Os Macabeus tiveram que se retirar para Jerusalém onde foram totalmente batidos. Contudo Lysias teve que abandonar pela contradição sobre quem seria o regente de Antiochus V. Pouco depois ambos foram assassinados por Demetrius I Soter que se tornou o novo rei selêucida. O novo Alto Sacerdote, Alcimus, tinha vindo a Jerusalém em companhia de um exército conduzido por Bacchides. Judas Macabeus conseguira há pouco um tratado com os romanos, quando foi morto em Jerusalém lutando contra o exército de Bacchides. O irmão de Judas Macabeus, Jonathan, o substituiu e por oito anos não pode fazer muita coisa. Contudo, em 153 o Império Selêucida começou a enfrentar problemas. Jonathan aproveitou a oportunidade para oferecer suas tropas a Demetrius I, como tentativa para retomar Jerusalém.
Em 152 AC, Alexandre Balas, da família Selêucida, aportou no território Fenício (costa norte da Palestina) e iniciou uma guerra civil contra Demetrius I Soter, apoiado por mercenários e facções descontentes do Império Selêucida. Em batalha decisiva em julho de 150 AC, Demetrius I foi derrotado e morto por Alexandre Balas que governou o Império Selêucida de 150 a agosto de 145 AC como Alexandre I Theopator Euergetes. Jonathan foi indicado Alto Sacerdote por Alexandre Balas e quando os conflitos entre Ptolomeu do Egito e os Selêucidas reiniciaram, ele tomou o controle da fortaleza de Acre. Em 142 Jonathan foi morto e seu irmão Simão tomou seu lugar. (Parte 5 na próxima postagem)

terça-feira, 7 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 3)

 

IV – NABUCODONOSOR II E OS SUCESSORES DO SEU IMPÉRIO

O Levante Histórico em vermelho
Após ter reinado por quarenta e três anos, o rei Nabucodonosor morreu. Foi um homem ativo e mais feliz que os reis que o antecederam. Berosus menciona suas ações no terceiro livro de sua “História dos Caldeus”, onde diz: “Quando seu pai Nabopolassar foi informado de que o governador que havia colocado no Egito e as regiões da Coelesyria
[1] e Fenícia[2] haviam se revoltado, entregou parte do seu exército ao seu filho ainda jovem, Nabucodonosor, e enviou-o contra eles”. O jovem príncipe debelou todos os revoltosos e incorporou as regiões ao seu próprio país, ao mesmo tempo em que seu pai adoecia e morria na Babilônia, após reinar por 21 anos. Tendo acertado seus assuntos no Egito e outros países bem como os relativos aos transportes dos prisioneiros egípcios, fenícios, sírio e judeus bem como seu próprio exército, retornou à Babilônia assumindo o controle do reino. Construiu reforçadas muralhas em volta de toda a cidade e construiu um novo palácio para si mesmo em frente ao de seu pai.
O filho de Nabucodonosor II, Evil-Merodach, o substituiu, imediatamente colocando em liberdade e fazendo-o seu amigo íntimo, Jehoiachin, penúltimo rei de Judá, colocado por Nabucodonosor II.
Quando Evil-Merodach morreu, após um reinado de 18 anos, foi substituído por seu filho Niglissar que reinou por quarenta anos. A sucessão do reino passou para seu filho Labosordacus que reinou por apenas nove meses, sendo substituído por Baltasar, entre os babilônios, Naboandelus. Contra ele fizeram guerra Darius, o rei da Média e Ciro, o rei da Pérsia. Segundo Flavius Josephus, quando Baltasar se encontrava sitiado, teria tido um sonho que nenhum dos seus adivinhos teria conseguido interpretar. 
Mapa da região da Fenícia, em verde
Por interferência de sua avó, surge então a figura do cativo Daniel, judeu de nascimento trazido da Judeia por Nabucodonosor para a Babilônia, um sábio, que teria conseguido interpretar, apenas por influência de Deus, o sonho de Baltasar, recusando todos os presentes prometidos. Daniel teria então relatado a Baltasar que ele morreria em pouco tempo por terem, ele e Nabucodonosor blasfemado contra Deus e que, por isso, Deus partiria seu reino em pedaços dividindo-o entre Persas e Medos.
Pouco tempo depois, em 539 AC, a cidade e Baltasar foram tomados por Ciro (o primeiro general a entrar na Babilônia quando tomada pelos persas), encerrando, após um reinado de 17 anos, a posteridade de Nabucodonosor.

V – DO PRIMEIRO ANO DE CIRO ATÉ A ASCENSÃO DE ALEXANDRE, O GRANDE

Ciro II, o Grande, redentor dos Judeus
Ciro II, o Grande, filho de Cambises e neto de Ciro I, foi o fundador do Império Aquemênida, o primeiro Império Persa. Seu reinado durou 30 anos e foi criado a partir da conquista do Império Medo, do Império Lídio e, finalmente, do Novo Império Babilônio. Assumiu o trono da Pérsia em 559 AC, mas não como governante independente; como seus predecessores, teve que reconhecer a liderança dos Medos. Só após a conquista da Babilônia, em 539 AC, Ciro proclamou-se “Rei dos Quatro Cantos do Mundo”, com o maior império que o mundo tinha visto até então. 
Após a conquista persa da Babilônia, o rei Ciro, o Grande, emitiu um decreto em 538 AC (70º ano da remoção do povo judeu para a Babilônia) que não apenas permitiu, mas ativamente encorajou o retorno dos exilados judeus para Judá e a reconstrução do Templo em Jerusalém. Mais do que isso, providenciou junto aos mandatários da vizinhança da Judeia o ouro e a prata necessários para as despesas. Essa política persa de tolerância religiosa foi recebida com grande júbilo pelos exilados, a ponto de o profeta Dêutero-Isaías aclamar Ciro como "o ungido do Senhor".
A primeira onda de retornados, liderada por Zorobabel (que pode ter sido a mesma pessoa que Sesbazar) e incluindo mandatários das duas tribos, Judá (Reino de Judá após a cisão) e Benjamin, com os Levitas e sacerdotes, ocorreu por volta de 537 AC. Este grupo, composto por aproximadamente 42.360 indivíduos, além de 7.337 servos e servas e 200 cantores e cantoras, levou consigo os vasos sagrados do Templo. Contudo, é fundamental observar que este foi apenas um retorno parcial. Muitos judeus já haviam estabelecido novas vidas na Babilônia e em outras partes da diáspora, mas continuavam a considerar o Templo em Jerusalém como um poderoso símbolo de sua unidade coletiva.
A narrativa do "retorno" é central para o judaísmo pós-exílico, mas os registros históricos revelam uma contra-narrativa crucial: uma porção significativa da população judaica optou por não retornar. Isso indica que o exílio babilônico, embora traumático, também fomentou o crescimento de uma diáspora robusta e duradoura. A contínua reverência pelo Templo de Jerusalém por aqueles que permaneceram no exterior demonstra que a identidade judaica estava se tornando cada vez mais flexível, capaz de transcender as fronteiras geográficas. O estabelecimento precoce de uma grande e influente comunidade diaspórica moldaria profundamente o futuro do judaísmo, promovendo diversas expressões culturais e centros intelectuais fora da Judeia.
Os judeus que retornaram se dedicaram à reconstrução do Templo e de Jerusalém, mas foram retardados em seus esforços, pelos povos vizinhos, em especial pelos Cutheans ou Cuthitas, povo trazido da Média e Pérsia, por Nabucodonosor, para a região da Samaria, para povoar a região que ficara desabitada quando os judeus do Reino de Israel (após a cisão) foram levados para o cativeiro da Babilônia. Ciro não tinha conhecimento desses fatos porque participava de guerras contra outros povos, ocasião em que foi morto. Ciro II foi sucedido por Cambises II, em 530 AC, reinando até 522 AC, recebendo desses povos queixas contra os judeus, dizendo que assim que os seus trabalhos fossem concluídos, eles se rebelariam, deixando de pagar seus tributos. Cambises II ordenou que os judeus cessassem as construções em andamento para que os problemas anteriores ao cativeiro não voltassem a se repetir. Durante todo o reinado de Cambises II os trabalhos de reconstrução do Templo foram suspensos, só reiniciando no segundo ano de Dario I, o Grande. Cambises II foi sucedido por seu irmão mais moço Bardiya, filho de Ciro II com Atossa, sua esposa, que não era rainha. Bardiya foi assassinado por Dario I que assumiu o trono da Pérsia. Aqui a história não é bem clara e há quem diga que Bardiya não assumiu o trono, mas sim um Mago que por ele se fez passar e assim que descoberto foi assassinado por Dario I, filho de Histaspes, que assumiu o trono em 521 AC, reinando de Persépolis, capital do Império na Pérsia.
Na história de “Daniel na cova dos leões” (Daniel 6, do Antigo Testamento), Daniel continuou a servir na corte real sob Dario I, historicamente de reinado duvidoso, como alto dignatário. Seus rivais, com inveja, planejaram a sua queda, fazendo com que Dario emitisse um decreto pelo qual nenhuma oração poderia ser feita a qualquer deus ou homem além do próprio Dario, sob pena de morte. Daniel continuou a rezar ao Deus de Israel; Dario, embora profundamente desgostoso, teve que condená-lo a ser jogado na cova dos leões porque os decretos de Persas e Medos não podiam ser alterados. Ao nascer do dia o rei apressou-se ao lugar e Daniel disse-lhe que Deus havia enviado um anjo para salvá-lo. Dario então ordenou que aqueles que haviam conspirado contra Daniel fossem lançados aos leões em seu lugar, com suas esposas e filhos. Quando aqueles que tinham pretendido destruir Daniel, foram assim destruídos, o Rei Dario enviou cartas por todo o país louvando o Deus que Daniel adorava e dizendo que Ele era o único Deus verdadeiro.
A monumental tarefa de reconstruir Jerusalém e restabelecer a comunidade judaica foi reiniciada e liderada por três figuras distintas, mas complementares:

Zorobabel, o príncipe da casa de Davi que liderou a primeira leva de retornados e foi fundamental na colocação dos alicerces do Segundo Templo por volta de 536 AC. A construção do Templo foi finalmente concluída em 516 AC, durante o reinado do rei persa Dario I.
Esdras, um escriba e sacerdote altamente habilidoso, chegou mais tarde, após uma considerável lacuna cronológica. Seu foco principal era a restauração da adoração adequada e a rigorosa implementação da Torá. Ele iniciou reformas morais e espirituais significativas, incluindo a controversa condenação de casamentos mistos, tudo visando revitalizar a identidade religiosa e a devoção do povo judeu.
Neemias, que servia como copeiro do rei posterior persa Artaxerxes (cujo reinado se estendeu de 465 a 424 AC), assumiu a responsabilidade pela reconstrução das muralhas defensivas de Jerusalém, um projeto que enfrentou considerável oposição externa. Além da construção física, Neemias também se dedicou à edificação espiritual do povo e à garantia de sua adesão à aliança.

Os papéis de Zorobabel (reconstrução física e cultual), Esdras (reforma religiosa e legal) e Neemias (organização administrativa e social) ilustram uma evolução crítica na governança judaica. Com a ausência da monarquia tradicional, a liderança se diversificou. Essa divisão de autoridade, embora eficaz para uma restauração abrangente, também sinaliza uma nascente separação entre o poder religioso e o secular, com o Sumo Sacerdote ganhando influência significativa. A ênfase nas reformas espirituais e morais de Esdras e Neemias sublinha que a comunidade pós-exílica compreendia a "restauração" não apenas como um retorno a uma terra ou edifício físico, mas como uma profunda renovação espiritual e ética, centrada na Lei em vez de um rei. Esse modelo de liderança se tornaria fundamental para o futuro do judaísmo, especialmente após a destruição do Templo.
Zorobabel, feito governador dos judeus pós cativeiro, foi de Jerusalém à presença de Dario I, de quem tinha sido amigo e nas graças de quem havia caído antes mesmo que ele assumisse o reino, para solicitar-lhe o cumprimento de sua promessa de reconstrução de Jerusalém e do templo dos judeus, bem como a devolução dos vasos sagrados que Nabucodonosor havia roubado. Dario cumpriu todas as promessas feitas a Zorobabel e muito mais, isentando-o de impostos, proibindo outros povos de guerrearem contra os judeus e ainda obrigando-os a ajudarem na reconstrução da cidade e do templo. O povo saudou o retorno de Zorobabel a Jerusalém e celebrou durante sete dias o início da reconstrução e restauração do seu país.
Judá em amarelo e Israel em azul, século IX AC
A reconstrução do Templo e das muralhas foi um testemunho da fé e determinação judaica, superando adversários políticos significativos e o desânimo interno. O Segundo Templo, embora carecesse da Arca da Aliança e da Shekinah (presença divina) de seu predecessor
    e por isso fosse percebido por alguns como espiritualmente inferior, tornou-se, no entanto, o símbolo central da identidade judaica e o principal local de adoração, sacrifício ritual e reuniões comunitárias. O Templo é consistentemente destacado como um "símbolo central da identidade judaica". No entanto, a menção explícita de sua "falta de esplendor" e da ausência da Arca e da Shekinah introduz uma nuance crucial: o Segundo Templo, embora uma restauração física, não foi visto como um retorno espiritual completo à glória do Primeiro Templo. Essa sensação de imperfeição, combinada com as críticas proféticas à ganância interna e ao exclusivismo, indica que a restauração pós-exílica foi um empreendimento humano complexo, repleto de desafios internos e uma persistente sensação de incompletude espiritual. Essa tensão inerente contribuiria para as diversas expressões religiosas e expectativas que caracterizaram o período posterior do Segundo Templo.
Após dois anos e dois meses de seu retorno do cativeiro, os judeus estavam bem adiantados na construção do Templo e iniciaram as celebrações correspondentes. As nações vizinhas dos judeus, incluindo os samaritanos (da região da Samaria), voltaram a indignar-se e tentaram, de todas as nações da Síria obter novamente uma interrupção nos trabalhos dos judeus, sem tomar qualquer providência antes de saber como reagiria Dario I. Enquanto isso, os profetas Haggai e Zacarias encorajavam os judeus a não desistirem da obra nem das promessas dos Persas. Dario I não aceitou as reclamações dos vizinhos dos Judeus e voltou a hipotecar-lhes o seu apoio na reconstrução do Templo, que foi concluída em 7 anos. No nono ano de Dario I os israelitas festejaram a conclusão do novo Templo, sempre mantido o apoio persa em seu favor, sob o governo de Zorobabel, até a morte de Dario I, o Grande.
Império Persa em sua maior extensão sob Dario, o Grande
Sob o domínio persa, a comunidade judaica na província de Judá desfrutou de um grau de autonomia limitada. O principal vínculo com o vasto Império Persa era através de uma política tributária, que, embora impondo obrigação econômica, permitia uma significativa auto governança interna. Este período foi profundamente formativo para a identidade e cultura judaicas. Testemunhou o crucial processo de consolidação da liturgia judaica e a compilação dos textos que finalmente formariam o Tanakh (Bíblia Hebraica). A rigorosa observância da Lei, do Sábado e da circuncisão tornou-se elemento definidor e essencial da vida judaica.
A ausência de uma monarquia soberana e a limitada autonomia política sob a Pérsia forçaram uma reorientação fundamental da identidade judaica. A ênfase na "consolidação da liturgia e dos escritos histórico-religiosos" e a elevação da "Lei, Sábado e circuncisão" como "elementos distintivos" significam uma mudança de uma identidade nacional-política para uma identidade religiosa-textual. Os escribas tornaram-se figuras de suma importância, servindo efetivamente como os novos guardiões intelectuais e espirituais. Esse desenvolvimento foi crucial para a sobrevivência do judaísmo em um mundo sem rei e plena independência política.
Na ausência de um rei, o Sumo Sacerdote emergiu como o líder religioso preeminente e, em grande medida, líder político da comunidade judaica em Jerusalém. O cargo de Sumo Sacerdote era hereditário, traçando sua linhagem até Arão, irmão de Moisés, da tribo de Levi. Essa figura central, responsável pela mediação entre Deus e o povo através dos rituais do Templo, assumiu uma autoridade considerável na província de Judá. O surgimento de uma hierarquia sacerdotal centralizada no Templo, liderada pelo Sumo Sacerdote, foi uma resposta direta à ausência de uma monarquia e à necessidade de uma estrutura de governança interna sob o domínio persa. Essa concentração de poder religioso e, em parte, político no Sumo Sacerdote, embora garantisse a coesão da comunidade e a continuidade do culto, também plantou as sementes para futuras tensões. A dependência que tinha o sacerdócio da aprovação imperial, primeiramente persa e depois helenística e romana, para manter sua posição e privilégios, criaria divisões internas e comprometeria a independência religiosa, levando a conflitos e a uma busca por maior autonomia.
Com a morte de Dario I, seu filho Xerxes assumiu o reino persa, mantendo com os judeus o mesmo tratamento dispensado por seu pai. Por essa época, o grande sacerdote dos judeus era Joachim, filho de Jeshua. Na Babilônia, o principal sacerdote era Esdras, conhecedor das leis de Moises e bem relacionado com Xerxes. Pretendendo viajar a Jerusalém, com judeus que ainda se encontravam na Babilônia, Esdras conseguiu do rei Xerxes uma carta de recomendação que o permitisse passar com segurança pelos países do trajeto para a Judeia. Mais do que isso, permitiu à comitiva que levasse riquezas e bens da Pérsia, que servissem como sacrifícios dos judeus a Deus. Satisfeito com a boa vontade de Xerxes que o tornava responsável perante os judeus por tudo o que conseguira para levar à Judeia, Esdras organizou o povo que participaria da viagem, para o seu pleno sucesso, renunciando ao exército que Xerxes lhe oferecera como segurança. Partiram do Eufrates no 12º dia do 1º mês do 7º ano do reinado de Xerxes, chegando a Jerusalém no 5º mês do mesmo ano. Lá chegando, Esdras entregou aos tesoureiros, da família dos sacerdotes dos judeus, todos os presentes enviados por Xerxes bem como sua carta aos oficiais do Rei e aos governadores dos reinos vizinhos para que bem entendessem a boa vontade de Xerxes para com os judeus e os auxiliassem no que pudessem.
Logo começaram a surgir queixas contra alguns dos cidadãos que haviam se casado com mulheres estranhas à nação judaica, assim transgredindo as leis do seu país. Os acusadores argumentavam que Esdras deveria obrigar os faltosos a enviar de volta para os seus países, as mulheres estrangeiras com os filhos gerados, a fim de obter o perdão de Deus. Surge a figura importante de Jechonias depondo contra os faltosos, o que motiva Esdras a obrigar os chefes dos sacerdotes, dos levitas e dos israelitas a jurarem que mandariam embora as esposas e crianças. Isto feito e a fim de apaziguar Deus, ofereceram sacrifícios de animais e outros bens. Ao 7º mês tiveram início as Festas do Tabernáculo que duraram oito dias, após o que todos retornaram às suas casas cantando hinos a Deus e agradecendo a Esdras pelo conserto das faltas introduzidas. Após ter obtido tal reputação entre o povo, Esdras morreu velho e foi enterrado de maneira magnífica em Jerusalém. Ao mesmo tempo, morreu também o alto sacerdote Joachim, sucedido por seu filho Eliasib no alto sacerdócio.
Alguns anos depois, Neemias, um judeu em Susa, metrópole da Pérsia, que servia como copeiro de Xerxes, ficou sabendo que Jerusalém e o povo estavam novamente em péssimo estado, por ação de seus vizinhos. Neemias deu conhecimento do assunto a Xerxes que novamente escreveu carta aos vizinhos dos judeus, autorizando Neemias a voltar para Jerusalém com a carta que cobrava ajuda da Samaria e adjacências para a reconstrução da cidade e manutenção do templo. No 25º ano do reinado de Xerxes, Neemias retornou a Jerusalém com muitos judeus que voluntariamente o acompanharam. Em Jerusalém ele reuniu todo o povo e informou a razão de sua ida, conclamando os judeus a se reunirem por vontade de Deus e se dedicarem com ânimo à reconstrução das muralhas e à manutenção do Templo, sem se preocuparem com as afrontas dos reinos vizinhos. E após prometer que ele mesmo, com seus servos, assistiria aos judeus (assim chamados após o retorno da Babilônia, a partir do nome da tribo de Judá) na reconstrução, Neemias dissolveu a assembleia.
Logo os moabitas, amonitas, samaritanos e sírios reiniciaram suas provocações que incluíram ameaças de morte ao próprio Neemias, provocando de parte dos judeus medidas especiais para que pudessem prosseguir em seus trabalhos. Nesses moldes, a construção das muralhas demandou dois anos e quatro meses, sendo concluídas no nono mês do 28º ano do reinado de Xerxes. Encerrada a construção, Neemias e o povo ofereceram sacrifícios a Deus e festejaram durante oito dias, o que deixou indignadas as nações vizinhas. Neemias tomou ainda várias outras providências para garantir a vida tranquila da população e morreu velho e feliz por ter realizado a felicidade do povo de Jerusalém.
Com a morte do rei Xerxes, assumiu o trono da Pérsia seu filho Artaxerxes I (que alguns conhecem por Cyrus), que se casou com uma moça judia, de família real e que teve importante papel na preservação do povo judeu. O rei separando-se de sua primeira esposa, ordenou que fossem selecionadas um grande número de virgens para que escolhesse entre elas a sua nova esposa. Artaxerxes acabou apaixonando-se por Esther, uma jovem órfã judia criada por Mordecai, seu tio. O rei casou-se com ela e levou-a para habitar o seu palácio em Shushan, abandonando a Babilônia onde vivia, sem saber que Esther era judia.
Um complô contra o rei foi descoberto por Esther e denunciado por Mordecai ao Rei, que determinou a execução dos envolvidos, tornando Mordecai, que foi habitar no palácio, um de seus favoritos. Havia no reino um amalequita (inimigo dos judeus) de nome Haman que costumava ir ao rei e a quem Artaxerxes ordenara que persas e estrangeiros o adorassem. Mordecai, de origem judia, negou-se a tal procedimento e por isso Haman descobriu que ele e sua família eram judeus e resolveu aproveitar denunciando-os ao Rei para provocar a extinção de todos os judeus, propondo-se a pagar do seu bolso um valor equivalente ao tributo pago pelo povo judeu. O rei aceitou a proposta e Haman enviou decretos a todas as nações sob o jugo persa determinando a morte de todos os judeus, suas esposas e filhos, até o 14º dia do 12º mês daquele corrente ano. Mordecai e os judeus de todas as partes fizeram tais notícias chegassem aos ouvidos do Rei e da Rainha.
Essas intrigas envolvendo o Rei Artaxerxes, sua esposa Esther, Haman e Mordecai permaneceram durante algum tempo até que todas as artimanhas de Haman foram descobertas por Artaxerxes por meio de sua esposa Esther. O rei, que então ficara sabendo do parentesco de Esther com Mordecai, chamou-o e deu-lhe o anel que antes havia dado a Haman, bem como sua casa. A rainha solicitou também ao rei que liberasse totalmente a nação dos judeus do medo da morte, ao que o rei respondeu que nada faria que a desagradasse, mas que ela escrevesse tudo o que lhe agradasse sobre os judeus, em nome do rei, que lhe aporia o selo real e o enviaria a todo o seu reino.
Após aqueles dias, como celebração, os judeus realizaram vários dias de festivais que chamaram Phurim ou Purim, que continuam a ser celebrados até hoje. Mordecai tornou-se um grande e ilustre personagem junto ao rei, assistindo-o sempre no governo do povo. Com isso, os assuntos do povo judeu foram resolvidos ainda melhor do que se poderia esperar. Esta a situação dos Judeus sob o reino de Artaxerxes.
Quando o sacerdote Eliasib morreu, seu filho Judas sucedeu-o no alto sacerdócio e com sua morte, seu filho João assumiu aquela dignidade. Foi sob o seu comando que Bagoses, general de outro exército de Artaxerxes poluiu o Templo, impondo novos tributos aos Judeus. Jesus, irmão de João, era amigo de Bagoses, que lhe havia prometido o alto sacerdócio. Por isso os dois irmão brigaram no Templo e de tal forma violenta que João acabou assassinando Jesus, crime enorme principalmente considerada a sua situação de alto sacerdote. Quando Bagoses, o general persa, soube que João, o alto sacerdote dos Judeus havia assassinado seu irmão Jesus, no Templo, quis adentrar o templo, mas os judeus não permitiram, ao que ele respondeu: “Por acaso eu não sou mais puro que o assassino do templo?” E entrou, punindo os judeus por sete anos pelo assassinato de Jesus!
Quando João morreu, seu filho Jaddua o sucedeu no alto sacerdócio. Ele tinha um irmão de nome Manasseh. Na Samaria havia nesta época um homem chamado Sanballat, do mesmo estoque dos samaritanos, que havia sido enviado por Dario. Ele sabia que os reis de Jerusalém haviam dado muitos problemas aos assírios e ao povo da Selesíria, por isso deu sua filha Nicaso em casamento a Manasseh de modo a criar um compromisso com os judeus para que esses não lhe criassem problemas. Os anciãos de Jerusalém, com o alto sacerdote Jaddua, não viram com bons olhos o casamento de Manasseh com uma estrangeira, como já tinha ocorrido anteriormente, exigindo a sua separação da esposa ou o seu afastamento definitivo do altar sagrado. Manasseh buscou o auxílio de seu sogro, Sanballat, explicando toda a situação. Sanballat prometeu-lhe a manutenção de sua dignidade, bem como dar-lhe o governo de todos os locais que ele agora governava e também a construção de um templo como o de Jerusalém, no monte Gerizzini, a mais alta montanha da Samaria, com a aprovação de Dario, se ele não se separasse de sua filha. Foi por esse tempo que morreu Jaddua, o alto sacerdote, tomando seu lugar o seu filho Onias na Jerusalém daquele tempo. (Parte 4 na próxima postagem)


[1] A Coelesyria (Selesíria) era uma região da Síria na antiguidade clássica, na maioria das vezes aplicada ao vale do Beqaa, entre as cadeias de montanhas do Líbano e Ante-Líbano. É agora parte da Síria e Líbano dos dias modernos.

[2] A Fenícia foi uma antiga civilização na região do Levante, Mediterrâneo Oriental, primariamente localizada nos modernos Líbano e Síria costeira. O território dos fenícios estendeu-se e retraiu-se através da história, com o núcleo de sua cultura estendendo-se de Trípoli (norte do Líbano moderno) até o Monte Carmel (Israel moderno). Além de sua terra natal, os fenícios se espalharam através do Mediterrâneo, de Chipre até a Península Ibérica.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 2)

III – O NOVO IMPÉRIO BABILÔNICO


O Novo Império Babilônico ou Segundo Império Babilônico, historicamente conhecido como Império Caldeu, foi o último sistema governado por monarcas nativos da Mesopotâmia (região do atual Iraque). Iniciado com a coroação de Nabopolassar como rei da Babilônia em 626 AC e estabelecendo-se firmemente com a queda do Império Neo-Assírio em 612 AC, o Novo Império Babilônico foi conquistado pelo Império Persa Aquemênida em 539 AC.
A queda do Novo Império Assírio e a subsequente transferência de poder de Nínive para a Babilônia, marcou a primeira vez em que a cidade e, em geral, o sul da Mesopotâmia, havia se levantado para dominar o antigo Oriente Próximo desde o colapso do Antigo Império Babilônico sob Hamurabi, cerca de mil anos antes. O Novo Império Babilônico mantém uma posição notável na memória cultural dos dias atuais devido a um desagradável retrato da Babilônia e seu maior rei, Nabucodonosor II, pintados nos textos da Bíblia judaica. A cobertura bíblica de Nabucodonosor II foca em sua campanha militar contra o Reino de Judá e, particularmente, no cerco babilônico sobre Jerusalém em 587 AC que resultou na destruição do Templo de Salomão e o subsequente cativeiro babilônico do povo judeu. As fontes babilônicas descrevem o reino de Nabucodonosor II como uma idade dourada que transformou a Babilônia no maior império do seu tempo. 
Cidades importantes da Mesopotâmia no Novo Império
Ainda sob autoridade do rei do Novo Império Assírio na Babilônia, Sin-shar-ashkun, o então oficial do sul, general Nabopolassar, usou a política de instabilidade na Assíria, causada por uma breve guerra civil anterior entre Sin-shar-ashkun e o general Sin-shumu-lishir, para se revoltar. Em 626 AC Nabopolassar assaltou e dominou com sucesso as cidades da Babilônia e Nippur. A resposta de Sin-shar-ashkun foi rápida e decisiva, recapturando Nippur e sitiando Nabopolassar na cidade de Uruk em outubro do mesmo ano, mas sem conseguir retomar a Babilônia. Nabopolassar resistiu ao cerco de Uruk e expulsou o exército assírio. Em novembro de 626 AC Nabopolassar foi formalmente coroado Rei da Babilônia, como reino independente após mais de um século de direto mando assírio. Em 623 AC, Sin-shar-ashkun conduziu um contra-ataque maciço que poderia tê-lo tornado vitorioso, mas teve que abandonar a campanha devido a uma revolta na Assíria que ameaçava sua posição como rei. A ausência de exército assírio permitiu aos babilônios conquistar os remanescentes postos assírios na Babilônia e manter firme controle sobre Uruk e Nippur até 620 AC, assim consolidando o controle de Nabopolassar sobre toda a Babilônia, o que fez rapidamente desmoronar o Império Assírio.
Ao final de 615 AC, os Medos (da Média, Pérsia) sob o rei Cyaxares, também antigos inimigos da Assíria, conquistaram a região assíria em torno de Arrapha. No meio do ano de 614 AC, os Medos começaram a atacar as cidades de Kalhu e Nínive, além de sitiar, com sucesso, Assur, antigo coração político da Assíria, promovendo saque brutal. Nabopolassar chegou em Assur somente após o início do saque, encontrando-se com e aliando-se a Cyaxares, com quem assinou um pacto contra os assírios. Em abril ou maio de 612 AC, início do 14º ano de Nabopolassar como rei da Babilônia, o exército combinado Medo-Babilônio marchou sobre Nínive. De junho a agosto do mesmo ano sitiaram a capital assíria e em agosto as muralhas foram rompidas, conduzindo a um novo longo e brutal saque durante o qual supõe-se que Sin-shar-ashkun tenha morrido. Seu sucessor Ashur-uballit II, último rei da Assíria, foi derrotado em Harran em 609 AC. O Egito, aliado da Assíria, continuou a guerra contra a Babilônia por alguns anos, sendo finalmente derrotado pelo príncipe da coroa de Nabopolassar, Nabucodonosor, em Carchemish, em 605 AC. 
Nabucodonosor II, responsável pelo cativeiro Judeu

Nabucodonosor II sucedeu a Nabopolassar, seu pai, em 605AC. O império que herdou estava entre os mais poderosos do mundo e ele rapidamente reforçou a aliança de seu pai com os Medos, casando-se com a filha ou neta de Cyaxares, Amytis. Algumas fontes sugerem que os famosos “Jardins Suspensos da Babilônia”, uma das “Sete Maravilhas do Mundo Antigo”, foram construídos por Nabucodonosor, para sua esposa, para lembrá-la de sua terra natal. Os 43 anos do reinado de Nabucodonosor trouxeram uma idade de ouro para a Babilônia que a tornou o mais poderoso do Oriente Médio.
Suas campanhas mais famosas foram as realizadas no Levante, relativamente no início do seu reinado, para estabilizar seu reino e consolidar o seu império – a maioria dos reinos e cidades-estados recém independentes no Levante eram vassalos do Novo Império Assírio. Sua destruição de Jerusalém em 587 AC acabou com o Reino de Judá, então sob o reinado de Sedequias, e dispersou sua população, com a maioria de seus cidadãos de elite sendo enviados para a Babilônia, iniciando um período conhecido como “Cativeiro Babilônico”.
O exílio dos Judeus, de Canaã à Babiônia, segundo James Tissot, 1896
 Subsequentemente, ele sitiou o Tiro por 13 anos e embora não tivesse capturado a cidade, ela rendeu-se a ele em 573 AC, concordando em ser governada por reis vassalos. 
A partir desse ponto, a fonte principal da pesquisa passa a ser “As Antiguidades dos Judeus”, de Flavius Josephus. (Parte 3 na próxima postagem).

terça-feira, 30 de setembro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 1)


I – INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é o preenchimento de uma lacuna pessoal sobre a história do povo judeu, durante o período que vai do “Cativeiro na Babilônia” até o início da Era Cristã. O Antigo Testamento é farto de material quando se refere a assuntos anteriores ao mencionado; e o Novo Testamento, dentro das suas limitações, se encarrega de apresentar o período que segue ao período acima citado. Mas o período objeto da presente postagem, pelo menos para mim, sempre ficou um tanto nebuloso.
O Cativeiro Babilônico, ocorrido entre 586 AC e 538 AC, representou um dos episódios mais traumáticos e transformadores na história do povo judeu. Caracterizado pela destruição de Jerusalém e o Primeiro Templo, em 586 AC, e pelo exílio de uma parte significativa da população judaica na Babilônia, este período não foi meramente um deslocamento político ou demográfico. A perda da terra, da monarquia e do Templo, pilares da identidade e da fé judaica, desencadeou uma profunda crise teológica que, por sua vez, levou a questionamentos existenciais sobre a natureza, o poder e a bondade de Deus, forçando uma reavaliação fundamental do que significava ser judeu.
Apesar da desolação, o exílio também se tornou um cadinho para a redefinição da identidade judaica. A população exilada conseguiu preservar sua identidade cultural e religiosa por meio da manutenção de suas tradições, como a observância da Lei, do Sábado e da circuncisão. Este período de adversidade, em vez de levar à assimilação completa ou à dissolução, impulsionou uma profunda reavaliação interna, deslocando o foco de uma religião puramente geográfica e centrada no Templo para uma fé que podia ser praticada e mantida através da adesão à Lei e à identidade comunitária, mesmo em terras estrangeiras. Essa capacidade de adaptação, forjada na adversidade, foi crucial para a sobrevivência e evolução do judaísmo a longo prazo, estabelecendo as bases para seu futuro como uma religião global.
O presente estudo abrange o período que se inicia com o retorno do Cativeiro Babilônico, aproximadamente em 538 AC, e se estende até os primeiros anos da Era Cristã, convencionalmente definidos a partir do ano 1 DC, embora estudos indiquem que o nascimento de Jesus tenha ocorrido entre 7 AC e 4 AC. O recorte temporal escolhido não é arbitrário; ele inclui uma sequência contínua de transições imperiais – persa, helenística e romana – e as complexas respostas internas do povo judeu a essas dominações. Os registros históricos consistentemente destacam esta era como "crucial" e "formativa" para o judaísmo. É um período em que a identidade judaica, despojada de sua monarquia e de seu Primeiro Templo, foi reconstruída e redefinida por meio da Lei, de novas estruturas comunitárias como a sinagoga, e de uma evolução nas compreensões teológicas, incluindo a expectativa messiânica e o desenvolvimento da Lei Oral. As constantes pressões externas atuaram como catalisadores, forçando adaptações que, em última instância, garantiram a resiliência do judaísmo e, de forma talvez inesperada, criaram o ambiente propício para o surgimento do cristianismo como um movimento religioso distinto, embora intrinsecamente ligado.
Para tentar preencher este hiato, resolvi recorrer entre outras fontes, ao historiador Flavius Josephus, que viveu no primeiro século da Era Cristã e escreveu duas grandes obras: “As Antiguidades dos Judeus” e “As Guerras dos Judeus”, além de outras menores. Nossa pesquisa vai se basear na primeira delas. Quem foi Flavius Josephus?
Titus Flavius Josephus
Titus Flavius Josephus (36 a 100 DC) nascido Yosef ben Matityahu, tornou-se um historiador judeu do primeiro século da Era Cristã. Ele era membro de uma família sacerdotal por parte de seu pai (casa e ordem de Jehoiarib), em Jerusalém; sua mãe era descendente da realeza Hasmoneana. Foi educado em Jerusalém e muito provavelmente partilhou da ideologia e simpatia pelo partido dos Fariseus[1].
Os escritos de Flavius Josephus são crucialmente importantes para várias disciplinas: o Judaísmo do Segundo Templo no primeiro século da Era Cristã, fontes de fundo para a história da Cristandade em seus primórdios, detalhes históricos dos reis clientes do Império Romano no oriente e a linha dos Imperadores Julio-Claudianos em Roma. Nas últimas décadas do século I DC, ele escreveu “As Guerras dos Judeus” (cerca de 75 DC), “As antiguidades dos Judeus” (cerca de 95 DC), “Contra Apion” (cerca de 97 DC) e “A Vida de Flavius Josephus” (cerca de 99 DC).
Como membro da aristocracia de Jerusalém, em 64 DC, Josephus viajou para Roma para negociar com Nero, o imperador romano (que reinou de 54 a 68 DC) para a libertação de alguns sacerdotes judeus mantidos como reféns por várias razões. Quando ele retornou a Jerusalém, o partido dos Zelotes[2] tinha convencido a maioria dos judeus a se revoltarem contra Roma (primeira guerra entre judeus e romanos, 66 a 73 DC). Josephus foi indicado governador militar da Galileia[3] dado que as cidades estavam divididas, com algumas aderindo à autoridade do governo romano e outras que se juntaram às forças rebeldes. Teve algum sucesso na organização da Galileia, mas todas as suas vitórias foram perdidas quando Nero indicou o General Vespasiano para invadir a região. Josephus estava sitiado nas colinas da cidade de Jotapata e com mais 40 companheiros acabaram por ficar presos em uma caverna. De acordo com sua versão da história, ele sugeriu que cometessem suicídio coletivo para não se tornarem escravos de Roma. Ajudaram a matar-se uns aos outros e acabaram restando apenas Josephus e um companheiro, quando Josephus mudou de ideia e resolveu render-se. Enquanto aguardavam a execução, Josephus lembrou a Vespasiano que todos os judeus tinham o dom da profecia e previu que Vespasiano tornar-se-ia o próximo imperador de Roma, o que de fato aconteceu. Afirmou que tinha tido uma visão que explicava a maré da guerra, com Deus usando os romanos para punir os judeus e que o papel dele, Josephus, era agora explicar o que tinha acontecido aos judeus revoltosos
A partir daí, Josephus serviu como um consultor às forças romanas. Quando Vespasiano deixou a região para desafiar, com sucesso, outros pretendentes após a morte de Nero, seu filho Titus (que reinou entre 79 e 81 DC) retirou o cerco de Jerusalém, desenvolvendo com Josephus um bom relacionamento. Após a guerra, ele foi recompensado por seus bons serviços, mudando-se para uma casa de Vespasiano em Roma, quando adotou o nome de seu patrocinador (Titus Flavius Vespasiano). Enquanto em Roma, teve acesso a registros e arquivos de onde retirou as mais importantes fontes para suas histórias.
A partir do século XIX Josephus tornou-se figura central do movimento em busca do histórico Jesus. Como a fonte principal da história e cultura do judaísmo no primeiro século da era cristã, os arqueólogos referenciam a informação de Josephus em suas reconstruções de cidades e vilas na região. Em 2013 o arqueólogo israelense Ehus Netzer declarou ter descoberto a tumba de Herodes, o Grande, através de uma cuidadosa leitura da descrição de Josephus do território circundante. Mas como todos os historiadores antigos, Josephus não se ateve estritamente aos fatos, mas incluiu moralidade e psicologia atrás de atores e ações, por exemplo, com relação aos judeus. Entretanto, a despeito dos problemas e debates, sem os escritos de Josephus teríamos tido muito pouco acesso ao povo e eventos do seu tempo.
A obra principal de Flavius Josephus, “As Antiguidades dos Judeus” dedica-se, quase que integralmente, à história do povo judeu, desde as suas origens até o fim da sua vida. Mas dedica-se pouco aos eventos paralelos, espaciais e temporais, que tiveram importância fundamental na formação do povo judeu já que, embora fundamentalmente ligados à religião judaica, constituiu uma raça, com localização própria e sofrendo, como todos os demais povos da terra, influências dos povos que a cercavam, ao longo de toda a sua história. Por isso, antes de abordar a obra mesmo de Flavius Josephus, realizei uma pequena pesquisa para esclarecer, pelo menos, como chegou até o povo judeu, o grande responsável pelo cativeiro dos judeus na Babilônia, para bem poder situar os nossos leitores no tempo e no espaço dessa narrativa.

II – O NOVO IMPÉRIO ASSÍRIO

O Novo Império Assírio (912-612 AC) foi o quarto e penúltimo estágio do antigo Império Assírio, que se estendeu através da Mesopotâmia, Levante[4], Egito, Anatólia[5] e partes da Pérsia e Arábia. Iniciou com o reino de Adad Nirari II (912-891 AC) e, com seus reis assírios, forjou o maior império no mundo até aquele tempo. A real ascensão do Novo Império Assírio foi iniciada por Tiglath Pileser III (reinando entre 745 e 727 AC), que reorganizou o poder militar e a burocracia do governo, derrotando o reino de Urartu, que se havia revoltado contra os governantes assírios, e subjugando a região da Síria.
Tiglath Pileser III foi seguido por Shamaneser V (reinando entre 727 e 722 AC) que seguiu as políticas do rei, mas não foi tão efetivo nas campanhas militares. Seu sucessor, Sargão II (reinando entre 722 e 705 AC) foi um brilhante líder militar e administrador, que expandiu o Império além de qualquer rei anterior. Foi Sargão II que fundou a dinastia Sargônida (722-612 AC), que governaria o Império Assírio até a sua queda.
Senaqueribe foi rei do Império Neo-Assírio a partir da morte de seu pai Sargão II, em 705 AC, até sua morte em 681 AC. Portanto, segundo rei da dinastia Sargônida, Senaqueribe foi um dos mais famosos reis assírios, pelo papel que representou na Bíblia Hebreia, que descreve sua campanha no Levante. Conquistou Israel, Judá[6] e as províncias gregas da Anatólia. Seu relato é contestado pela versão dos eventos descrita no livro bíblico de “Reis II”, capítulos 18-19, “Crônicas II” e “Isaías 37”, que dizem ter sido Jerusalém salva por intervenção divina, com o exército de Senaqueribe expulso do campo, embora o relato bíblico confirme a conquista assíria da região. Foi assassinado por seus filhos e sucedido por seu filho mais novo Esarhaddon (Assaradão), que reinou entre 681 e 669 AC.
Maior extensão do Novo Império Assírio
Esarhaddon foi o terceiro rei da dinastia Sargônida do Império Neo-Assírio. Sua mãe não era a rainha, mas uma esposa secundária, Zakutu. Ficou conhecido por reconstruir a Babilônia, destruída por seu pai, Senaqueribe. Além de restaurar a babilônia, ele também ficou conhecido por suas campanhas militares no Egito e por garantir uma tranquila sucessão para seu filho Assurbanipal (que reinou entre 668 e 627 AC).
Assurbanipal foi o último dos grandes reis da Assíria. Os gregos o conheceram como Sardanapolos e os romanos como Sardanapulus e ele obteve a maior extensão territorial do Império Assírio, que incluía a Babilônia, Pérsia, Síria e o Egito (embora o Egito tenha sido perdido por uma revolta sob o faraó Psamtik I). Ao mesmo tempo em que reunia sua biblioteca, renovava Nínive, sua capital e maior cidade, ao norte do atual Iraque, a cidade de Mosul, margem oriental do rio Tigre, e governava o império, Assurbanipal continuou a conduzir suas campanhas militares, além de supervisionar as renovações na Babilônia. Deixou o império nas mãos de seu filho Ashur-etel-ilani, mas sua decisão foi desafiada pelo irmão gêmeo do novo rei, Sin-shar-ashkun, e uma guerra civil irrompeu. Os territórios do império Assírio tiraram vantagem desta divisão e começaram a exercer maior autonomia do que lhes tinha sido permitido anteriormente. Quando Assurbanipal morreu em 627 AC, de causas naturais, o Império desmoronou, com os Medos, Persas, Babilônios, Cimérios, Scyntians e Caldeus incendiando e saqueando as cidades assírias. Em 612 AC, com o saque e incêndio da capital Nínive e as grandes conflagrações que destruíram a região, a Biblioteca de Assurbanipal foi enterrada sobre as muralhas incendiadas do seu palácio e perdida para a história por mais de 2.000 anos. Sua descoberta, contudo, alterou a forma como as eras modernas entendiam a cultura e o passado. Antes da sua descoberta, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo e as histórias nela contidas, consideradas sem precedentes. Escavações do século XIX por Sir Austen Henry Layard, Hormuzd Rassam e traduções feitas por George Smith trouxeram à luz um mundo até então desconhecido. (Parte 2 na próxima postagem)


[1] Os Fariseus eram uma seita que emergiu cerca do ano 150 AC e promoveu a ideia da pureza sacerdotal para todos os judeus, a crença na providência ou destino e o conceito de ressureição dos mortos, além de ensinar que, além dos Mandamentos, a Lei Oral também tinha sido passada por Moisés. O Judaísmo Rabínico (judaísmo tradicional que aceita os textos escritos como revelação divina e a Torá Oral também como fonte de autoridade) do início do século II DC reivindicava descendência espiritual dos Fariseus.
[2] Os Zelotes formavam um movimento político no Judaísmo do Segundo Templo do primeiro século, que buscava incitar o povo da Província da Judeia a se rebelar contra o Império Romano e expulsá-lo da Terra Santa pela força das armas, principalmente durante a Primeira Guerra Romana-Judia (66 a 73 DC). Segundo Josephus, havia 3 principais seitas judias à época, os Fariseus (acima), os Saduceus e os Essênios. Os Zelotes seriam uma quarta seita.
[3] Galileia é a região localizada ao norte de Israel e sul do Líbano. Normalmente refere-se à área montanhosa, dividida em Galileia Superior e Galileia Inferior. A Galileia se refere a toda área localizada ao norte da cumeeira do Monte Carmel-Monte Gilboa e ao sul da seção Leste-Oeste do rio Litani. Na direção Leste-Oeste, a região se estende da planície costeira de Israel e as praias do Mediterrâneo com o Acre, no oeste, até o vale do Jordão a leste.
[4] O Levante é um termo geográfico histórico, aproximado, que se refere a uma grande área na região do Mediterrâneo Oriental da Ásia Ocidental. Em seu sentido mais estreito, hoje em uso na arqueologia e outros contextos culturais, é equivalente a Chipre e uma faixa de terra que margeia o Mar Mediterrâneo na Ásia Ocidental, isto é, a região histórica da Síria (Síria Maior), que inclui os atuais Israel, Jordânia, Líbano, Síria, os territórios palestinos e a maior parte da Turquia a sudoeste do médio Eufrates. Sua característica mais importante é que ele representa a ponte terrestre entre a África e a Eurásia.
[5] A Anatólia, também chamada de Ásia Menor, é a península que hoje constitui a porção asiática da Turquia. Por sua localização, no ponto em que os continentes da Ásia e Europa se encontram, a Anatólia foi, desde o início da civilização, a encruzilhada para numerosos povos que migravam ou conquistavam de qualquer dos continentes
[6] O Reino de Judá foi o reino israelita do Levante Sul formado cerca de 930 AC com a cisão das Doze Tribos de Israel. Centrado na Judeia, a capital do reino era Jerusalém. O outro sistema israelita formado, o Reino de Israel, ficava ao norte. Os judeus tiraram seu nome de “Judá” e descendem, primariamente, dele.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

MOONLIGHT SERENADE

Esta é outra daquelas melodias que me toca lá no fundo do coração. Composta 5 anos antes de eu nascer, sempre tive a impressão de que ela me acompanhou por toda a vida. Penso que, de novo, devo a sua lembrança e o enorme prazer que sinto ao escutá-la, àqueles tempos da “Pensão Viaduto”, quando eu tinha apenas 3 anos de idade, mas era levado para escutar as apresentações musicais no antigo auditório Araújo Viana, ao lado da Praça da Matriz, já objeto de minhas postagens. Vários anos depois disso, muitas vezes, na minha adolescência, tive o prazer de dançar esta melodia com a minha namorada ou alguma outra garota romântica que se apresentasse nos entreatos do meu namoro. Hoje, 76 anos após a sua criação, ainda sinto as mesmas emoções e o mesmo prazer que sentia ao escutá-la pela primeira vez. Penso que será assim até a última vez em que eu vier a escutá-la ...“Moonlight Serenade” (Serenata ao Luar) é uma composição popular americana composta por GlennMiller, com letra criada posteriormente por Mitchell Parish. Foi um fenômeno imediato quando lançada em maio de 1939, com um arranjo instrumental que logo transformou-se na melodia de assinatura de Glenn Miller. Em 1991, a gravação de Glenn Miller de “Moonlight Serenade” foi introduzida no “Grammy Hall of Fame”.
A canção, gravada em 4 de abril de 1939, pela RCA Bluebird, tornou-se um sucesso dos dez mais, nos quadros populares dos EUA em 1939, alcançando o número 3 nos quadros do Billboard, lá permanecendo por 15 semanas. Foi o sucesso número 5 de 1939 no registro de fim de ano do Billboard. Glenn Miller teve cinco discos entre as 20 melodias de mais sucesso de 1939, na mesma lista do Billboard.
No Reino Unido, “Moonlight Serenade” foi lançada como o Lado A de um 78 RPM da “His Master’s Voice” (marca registrada da RCA, aquela com o cachorrinho Nipper ouvindo o gramofone de uma vitrola), com a melodia “American Patrol” no Lado B. O disco atingiu o número 12 no ReinoUnido em 1954, permanecendo no quadro durante uma semana. Num pout-pourri com “Little Brown Jug” e “In the Mood”, “Moonlight Serenade” alcançou o número 13 no Reino Unido, em janeiro de 1976, numa sequência de oito semanas.
"Moonlight Serenade" em V-disk
A gravação foi também incluída num “V-Disc” No 39ª, em novembro 1943. V-Disc (V de “victory” – vitória) era uma iniciativa para elevar o moral dos soldados, envolvendo a produção de várias séries de gravações durante a era da Segunda Guerra Moral, através de arranjo especial entre o governo dos EUA e várias gravadoras privadas americanas. Os discos eram produzidos para uso do pessoal militar americano no exterior. Muito cantores populares, grandes bandas e orquestras da época, gravaram discos V-disc entre outubro de 1943 e maio de 1949.
A gravação original usou um conjunto de saxofones liderados por um clarinete, sendo considerada o clássico estilo Glenn Miller. Miller estudou a técnica “Schillinger” com Joseph Schillinger, que o ajudou a criar o “Som Miller” e sob cuja tutelagem Glenn Miller criou “Moonlight Serenade”.
Na verdade, essa melodia evoluiu de uma versão de 1935 intitulada “Now I lay me down to weep” (Agora eu me recosto para chorar), com música de Glenn Miller e letra de Eddie Heyman, para uma nova versão chamada “Gone with the dawn” (Levado pela madrugada), com letra de George Simon e, ainda, para “The Wind in the trees” (O vento nas árvores), com letra de Mitchell Parish. Em sua biografia de Glenn Miller, George T. Simon relatou como o vocalista Al Bowlly, da orquestra de Ray Noble, cantou-lhe a letra de Eddie Heyman para a música de Glenn Miller “Now I lay me down to weep”, em 1935. A orquestra de Ray Noble nunca gravou essa música. Finalmente, ela acabou como “Moonlight Serenade” quando a Robbins Music a comprou e soube que Miller estava gravando uma versão de “Sunrise Serenade”, uma música associada de Frankie Carle, para a RCA Victor. Pensaram que “Moonlight Serenade” seria uma associação natural para “Sunrise Serenade”.
Uma versão notável da música pode ser encontrada no vinil “Moonlight Sinatra”, com Frank Sinatra, lançado em 1965, que contém, além de “Moonlight Serenade”, “Moon Love”, Moonlight Becomes You” e “Oh, You Crazy Moon”, gravadas por Glenn Miller e sua orquestra. Várias outras gravações de “Moonlight Serenade” foram realizadas por Frank Sinatra, incluindo uma que aparece em seu último lançamento, de 2015, “Ultimate Sinatra”, com 100 músicas para celebrar os seus 100 anos de nascimento.
“Moonlight Serenade” teve incontáveis interpretações, e podemos citar, entre os mais conhecidos vocalistas: Barry Manilow, Carly Simon, Santo e Johnny, Thelma Houston, Mina, Laura Fygi, Ray Anthony, Ella Fitzgerald, Bobby Vinton e Carol Burnett. Entre as orquestras mais conhecidas, com vocalistas ou não, que gravaram “Moonlight Serenade”, podemos citar: Chet Baker, Count Basie and his Orchestra, Benny Goodman and his Orchestra, Bert Kaempfert, Ray Conniff, David Rose, Paul Mauriat, Tommy Leonetti, the Boston Pops com a regência de Arthur Fiedler, John Williams, 101 Strings, Lawrence Welk, Henry Mancini, James Last, George Melachrino, The Ventures (que aqui apresento, pela sua originalidade) e Mantovani (uma das minhas favoritas, que também apresento na postagem).
Mais de 30 filmes incluíram, num momento ou outro, a melodia “Moonlight Serenade”, entre eles, o que conta a história de Glenn Miller, “The Glenn Miller Story” (A História de Glenn Miller), de 1954, com James Stuart, June Allyson e Harry Morgan.
Glenn Miller com seu trombone
O autor de “Moonlight Serenade”, Glenn Miller, músico, arranjador, compositor e líder de orquestra, nasceu Alton Glenn Miller, em 1º de março de 1904, em Clarinda, estado de Iowa. Logo seus pais - Elmer e Mattie Lou Miller – se mudaram de Iowa, primeiro para Nebraska, depois para o Missouri e então para Fort Morgan, Colorado. Em cada uma dessas cidades, o desenvolvimento musical de Miller dava um novo passo. Durante a sua estadia em Nebraska, seu pai lhe trouxe um bandolim, que em seguida ele trocou por uma corneta velha. Enquanto no Missouri, ele começou a tocar trombone como membro de uma banda da cidade. E quando sua família mudou-se para Fort Morgan, em 1918, Miller alimentou seus talentos musicais ingressando na banda do segundo grau.
Logo após graduar-se no segundo grau, em 1921, Glenn Miller entrou na orquestra Boyd Senter, a primeira de uma série de grupos musicais aos quais ele se uniria. Deixou essa banda para ingressar na Universidade do Colorado, em 1923, mas logo abandonou-a para perseguir seu amor pela música. Pelos próximos anos ele mudou-se para Los Angeles onde tornou-se membro da orquestra de Bem Pollack e então seguiu para Nova York, em 1928, atuando como trombonista e arranjador. Nessa época ele casou-se com Helen Burger, sua namorada da faculdade. Glenn Miller começou então a trabalhar com a orquestra de Dorsey Brothers, organizou uma orquestra para Ray Noble e estudou teoria e composição musical com Joseph Schillinger.
A primeira gravação de Glenn Miller com seu nome surgiu em 1934 enquanto ele ainda trabalhava com a orquestra de Ray Noble. Em 1937 ele tentou formar sua própria banda, obtendo pouca popularidade. Dissolvendo esta e reorganizando outra, Glenn Miller finalmente teve sucesso em 1938, quando a Glenn Miller Orchestra assinou um contrato no Glen Island Casino.
A partitura de
"Moonlight Serenade"
Entre 1939 e 1942, Glenn Miller e sua Orquestra alcançaram enorme popularidade e sucesso comercial. Sua orquestra gravou 17 sucessos em 1939, 31 em 1940, 11 em 1941 e mais 11 em 1942. Tais sucessos incluíram clássicos como “In the Mood”, “A String of Pearls”, “At Last”, “American Patrol”, “Tuxedo Junction”, “Little Brown Jug” e “Moonlight Serenade”. Seus sucessos conduziram a outras empreitadas lucrativas, como suas séries no rádio, intituladas “Moonlight Serenade”, no ar pela CBS três vezes por semana. Sua orquestra também trabalhou no cinema, introduzindo sucessos como “Pennsylvania 6-5000”, “Chattanooga Choo Choo” no filme “Sun Valley Serenade (1941) e “Kalamazoo”, no filme “Orchestra Wives” (1942). Pelos anos 1940’s, Glenn Miller já faturava US$20.000,00 por semana.
O sucesso de sua orquestra deve-se ao seu estilo e som únicos. O próprio Glenn Miller dizia que “Uma banda deve ter um som próprio, uma personalidade”. A dele diferenciava-se de outras de muitas formas. A música de jazz é caracterizada por sua expontaneidade e uso de improvisação; a orquestra de Glenn Miller tocava “swing”, uma ramificação do jazz que favcorecia mais a orquestração do que a improvisação. Por isso, muitos aficionados do jazz desaprovaram seu estilo musical, sem apreciar a meticulosa preparação e estrutura, evidentes na música da dua orquestra. Combinando os sons do clarinete e do saxofone, Miller criou em sua orquestra uma ressonância que a distinguia de outras orquestras. Em sua música o clarinete e o sax tenor contribuíam para a melodia, enquanto os saxofones tocavam uma linha harmônica complementar, o que tornava a sua orquestra facilmente reconhecida e a distinguia de outros grupos.
"Moonlight Serenade em lado B
Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, Glenn Miller espontaneamente abandonou seu sucesso musical para servir ao seu país. Alistou-se na Força Aérea Americana deixando a sua vida civil, mas não a sua música. Contratado como Capitão no Corpo de Especialistas, devotou-se à elevação do moral dos soldados, modernizando a orquestra do exército. Após completar o treinamento básico, Miller organizou a Orquestra Glenn Miller da Força Aérea, aclamada por vários como o seu melhor grupo musical.
Como os esforços anteriores de Glenn Miller, a Orquestra foi um grande triunfo, realizando uma perfeita programação de tours e apresentações. Durante esse período, a orquestra realizou mais de 800 apresentações. Outras 500 apresentações foram transmitidas para milhões de ouvintes.
Sua orquestra preparava-se para embarcar em um tour pela Europa e Miller pegou um vôo para Paris em 15 de dezembro de 1944, num UC-64 Norseman, USAAF serial 44-70285, para fazer os arranjos preparatórios do grupo. Partiu da RAF Twinwood Farm, pequeno aeroporto para vôos noturnos em Clapham, a 7 km ao norte de Bedford, Inglaterra, e desapareceu em vôo sobre o Canal da Mancha, junto com o Coronel Norman Baesselll e o piloto John Morgan. O desparecimento do avião de Glenn Miller pode ter sido causado por mau tempo, mas registros também sugerem que bombas, lançadas por bombardeiros aliados retornando de uma missão abortada, podem, inadvertidamente, ter atingido o aeroplano. Até hoje, livros e artigos continuam a ser publicados na tentativa de explicar o trágico desaparecimento do grande músico.
Glenn Miller em tempo de guerra
Mesmo após o desaparecimento de Glenn Miller, sua orquestra militar continuou tocando para as tropas até agosto de 1945, quando retornou para Nova York e seus membros se dispersaram.
A música de Glenn Miller teve enorme popularidade e sucesso coma as audiências da década de 1940 e continua a nos encantar até hoje. “Alguns dos críticos”, disse Miller em 1940, “apontam seus dedos nos acusando de abandonar o jazz real”. E concluiu: “Tudo depende do que você define como jazz real”. Não obstante a crítica que enfrentou, Glenn Miller devotou a sua vida, não a saciar seus críticos, mas a entreter seus ouvintes. Embora morto com 40 ano de idade, Glenn Miller é lembrado hoje, não apenas pela apreciada música que produziu, mas também por sua influência na evoluição e sucesso comercial do “swing” e por sua patriótica devoção no tempo da guerra. Embora a era das grandes orquestras tenha passado e o centenário do nascimento de Glenn Miller tenha ocorrido em março de 2004, sua música ainda mantém o mesmo encanto que possuía quando ele era vivo, e as músicas e sons da Orquestra de Glenn Miller ainda encantam audiências de todas as idades.
O UC-64 Norseman em que Glenn
Miller desapareceu em ação
Glenn Miller teve três gravações que foram, postumamente introduzidas no “Grammy Hall of Fame”, um prêmio Grammy especial estabelecido em 1973, para honrar gravações com pelo menos 25 anos de idade e com “alto significado qualitativo ou histórico”:

1. “In the Mood”, gravada em 1939, jazz, com selo da RCA (Bluebird), recebeu o prêmio em 1983;
2. “Moonlight Serenade”, gravada em 1939, no gênero jazz e selo RCA (Bluebird), recebeu o prêmio em 1991;
3. “Chattanooga Choo Choo”, gravada em 1941, jazz, com selo RCA (Bluebird), recebeu o prêmio em 1996.
O monumento a Glenn Miller no
Cemitério Grove Street, New
Haven, Connecticut
Finalmente, para quem quiser cantar "Moonlight Serenade", no banheiro ou fora dele, acompanhando Frank Sinatra, ou fazendo um "karaokê" com as orquestras de Glenn Miller, Mantovani ou The Ventures, apresento a seguir a letra da maravilhosa melodia. Bom proveito!

MOONLIGHT SERENADE
(Glenn Miller & Mitchell Parish)

I stand at your gate and the song that I sing is of moonlight.
I stand and I wait for the touch of your hand in the June night.
The roses are sighing a moonlight serenade.

The stars are aglow and tonight how their light sets me dreaming.
My love, do you know that your eyes are like stars brightly beaming?
I bring you and sing you a moonlight serenade.

Let us stray till break of day
In love's valley of dreams.
Just you and I, a Summer sky,
A heavenly breeze kissing the trees.

So don't let me wait, come to me, tenderly, in the June night.
I stand at your gate and I sing you a song in the moonlight,
A love song, my darling, a moonlight serenade.