Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 04)

IV.5 – CULTURA E ARTE



A mesopotâmia antiga tinha cerimônias todos os meses, em que os temas dos rituais e festivais eram determinados por, ao menos, seis importantes fatores:



1. A fase lunar (o quarto crescente significava abundância e crescimento, ao passo que o quarto minguante era associado com o declínio e festivais do inferno);
2. A fase do ciclo agrícola anual;
3. Equinócios[1] e solstícios[2];
4. A mitologia local e seus patronos;
5. Os sucessos do monarca reinante;
6. Comemoração de eventos históricos específicos (fundações, vitórias militares, feriados do templo etc...

Algumas das músicas eram escritas para os deuses, mas muitas eram feitas para descrever eventos importantes e embora fossem feitas para a diversão dos reis, eram também gozadas pelo povo, que gostava de cantar e dançar em suas casas ou nos mercados, transmitindo-as para seus filhos, por muitas gerações, como tradição oral até que a escrita se universalizasse. Funcionaram, assim, como meio de transmissão de importantes informações sobre eventos históricos, através de séculos.
Oud: frente e verso
O oud (precursor do alaúde europeu e da viola) foi um pequeno instrumento de cordas usado pelos mesopotâmios e seu registro pictórico mais antigo data do período Uruk na Mesopotâmia do sul, há mais de 5.000 anos atrás. Encontra-se num selo cilíndrico mantido no Museu Britânico e a imagem mostra uma mulher abaixada, num barco, tocando o instrumento. Ele é mencionado centenas de vezes na história mesopotâmica e depois no antigo Egito, da 18ª dinastia em diante, em variedades de pescoço curto e longo.
A caça era popular entre os reis assírios. Box e luta-livre eram frequentes na arte e uma forma de polo era provavelmente popular, com os homens sentando nos ombros de outros homens ao invés de usarem cavalos. Praticavam também majore, um esporte similar ao rúgbi, mas jogado com uma bola feita de madeira. Jogavam também um jogo de tabuleiro similar ao gamão, agora conhecido como “Jogo Real de Ur”.
A Mesopotâmia, como indicado por sucessivos códigos de leis, (Urukagina, Lipit Ishtar e Hamurabi) através de sua história, tornou-se cada vez mais uma sociedade patriarcal, com os homens muito mais poderosos do que as mulheres. Estudiosos têm sugerido que a sociedade mesopotâmica primitiva era governada por um “conselho de anciãos”, em que homens e mulheres eram igualmente representados, com o progressivo status crescente dos homens em detrimento das mulheres. A frequência à escola era mais um privilégio dos filhos dos reis, ricos e profissionais, tais como escribas, físicos e administradores dos templos. A maioria dos meninos aprendia o ofício de seus pais ou eram iniciados fora em outro ofício. As meninas tinha que ficar em casa com suas mães para aprender a manutenção da casa e cozinha, bem como cuidar das crianças menores. Algumas crianças ajudariam na moagem dos grãos ou limpeza de pássaros. Inusitado, para a época da história, as mulheres na Mesopotâmia tinham direitos: podiam possuir propriedades e, se tivessem uma boa razão, conseguir o divórcio.
Centenas de túmulos têm sido escavados em partes da Mesopotâmia, revelando informação sobre os seus hábitos de sepultamento. Na cidade de Ur, a maioria das pessoas era enterrada em túmulos da família, sob suas casas, sempre com algumas posses e algumas foram encontradas embrulhadas em esteiras e tapetes. Crianças eram colocadas em grandes jarros que era postos nas capelas das famílias. Outros restos mortais foram encontrados em cemitérios comuns da cidade, 17 deles contendo objetos muito preciosos; supõe-se que fossem túmulos reais. Ricos de vários períodos procuraram enterro em Bahrein, identificada com a Dilmun sumeriana.
A arte da Mesopotâmia rivalizou com a do antigo Egito, como a maior, mais sofisticada e elaborada da Eurásia, do quarto milênio AC até a conquista da região, no século VI AC, pelo Império Persa Aquemênida. A ênfase principal localizou-se sobre várias esculturas em pedra e argila, felizmente muito duráveis; pouca pintura sobreviveu, sugerindo que a pintura era usada, principalmente, para esquemas decorativos geométricos e baseados em plantas, embora muitas esculturas fossem também pintadas.
O Vaso Warka

A Leoa Guennol
O Período Protoliterato viu a produção de obras sofisticadas, como os selos cilíndricos e o “Vaso Warka”, um vaso de alabastro esculpido, encontrado no complexo do templo da deusa Inanna, nas ruínas de Uruk, datado de cerca de 3.200–3.000 anos AC. A “Leoa Guennol” é uma pequena figura de calcário de Elam, parte homem, parte leão, de cerca de 3.000-2.800 AC. Pouco além, há uma grande quantidade de figuras de sacerdotes e adoradores com grandes olhos, a maior parte em alabastro e até 30 cm de altura, usadas como imagens de culto da deidade, mas pouco desses sobreviveram. Esculturas do período sumério e akkadiano, geralmente, tinham grandes olhos fixos e longas barbas nos homens. Muitas obras de arte também foram encontradas no cemitério real de Ur (cerca de 2.650 AC), incluindo duas figuras de um “Carneiro na Moita”, o “Touro de Cobre” e uma cabeça de touro em uma das “Liras de Ur”.

"Carneiro na Moita"
A partir dos muitos períodos subsequentes antes da ascendência do Império Mesopotâmio Novo Assírio a arte sobreviveu sob diferentes formas: selos cilíndricos, esculturas relativamente pequenas e relevos de vários tamanhos, incluindo placas de cerâmica barata do lar, alguns religiosos e outros não. O Relevo Burney é uma placa de terracota inusualmente elaborada e relativamente grande (50 x 38 cm), de uma deusa de asas com pés de ave de rapina e criados corujas e leões, do século XVIII ou XIX AC. Marcos de pedra, altares de oferendas ou comemorativos de vitórias, mostrando festas, foram também encontrados em templos, os quais, diferentemente de outros oficiais, não trazem inscrições que possam explicar do que se trata; o Marco dos Abutres é um exemplo antigo com inscrição, e o Obelisco Negro de Shalmaneser III, assírio, um grande e sólido mais novo.
O estudo da arquitetura da antiga Mesopotâmia é baseado na evidência arqueológica disponível, representação ilustrada de edifícios e textos sobre prática de construção. A literatura normalmente se concentra em templos, palácios, muralhas, portões e outros prédios monumentais, mas ocasionalmente pode-se também encontrar obras em arquitetura residencial. Observações arqueológicas superficiais também permitiram o estudo da forma urbana em cidades da Mesopotâmia inicial.
O Relevo Burney

O "Marco dos Abutres"
O Material dominante é o tijolo, cujo material encontrava-se localmente livre, ao passo que a pedra de construção tinha que ser trazida de longas distâncias, para a maioria das cidades. Os Zigurats, estruturas maciças em forma de pirâmides em degraus, com níveis progressivamente reduzidos, constituíam a forma predominante, e as cidades possuíam imensos portões, dos quais o mais famoso é o Portão Ishtar, da Nova Babilônia, decorado com bestas em tijolo colorido, atualmente no Museu Pergamon, em Berlim.
Zigurat da bíblica Ur de Abrahão
As mais notáveis ruínas arquitetônicas da Mesopotâmia antiga são os templos em Uruk, do quarto milênio AC, templos e palácios do período Dinástico Antigo, no vale do Rio Diyala, como o Khafajah e o Tell Asmar, as ruínas da Terceira Dinastia de Ur, em Nippur (Santuário de Enlil) e Ur (Santuário de Nanna, deus da Lua), as ruínas da Média Idade do Bronze nos sítios da Síria e Turquia (Ebla, Mari, Alalakh, Aleppo e Kultepe, os palácios do final da Era do Bronze, em Bogazkoy, Ugarit, Ashur e Nuzi, palácios e templos da idade do ferro em sítios assírios, babilônios, urartianos e novo hititas. As casas mais conhecidas vêm das ruínas da antiga Babilônia, em Nippur e Ur. Entre as fontes textuais sobre construção de edifícios e rituais associados, são notáveis os cilindros de Gudea, do final do terceiro milênio e as reais inscrições assírias e babilônias da Idade do Ferro.

IV.6 - CIÊNCIA E TECNOLOGIA

A matemática e a ciência mesopotâmica eram baseadas num sistema numeral sexagesimal (de base 60). Esta é a fonte da hora de 60 minutos, do minuto de 60 segundos e do círculo de 360 graus, também com seus submúltiplos minutos e segundos. É também dos babilônios o calendário baseado numa semana de sete dias de 24 horas, grandezas muito utilizadas na cartografia antiga. Os babilônios também tinham teoremas sobre como medir áreas e volumes de figuras e sólidos. Mediam a circunferência de um círculo como três vezes o seu diâmetro e a sua área como (1/12) do quadrado da circunferência. Essas formas, se trabalhadas, nos levarão, respectivamente, às nossas fórmulas conhecidas de (2*π*R) e (π*R2), desde que fixemos o valor de π como 3 no lugar do hoje conhecido valor de 3,14159 ... Aliás, uma recente descoberta revelou uma placa que usava para π o valor de 3,125, mais próximo do seu real valor do que 3. Os babilônios foram também conhecidos pela “milha babilônica”, uma medida de distância valendo 7 milhas modernas (cerca de 11,27 km).
Desde o tempo dos sumérios sacerdotes dos templos haviam tentado associar eventos correntes com certas posições dos planetas e estrelas. Tais tentativas prosseguiram ao tempo dos assírios quando listas de Limmus[3] foram feitas, com uma associação anual de eventos com posições planetárias que, sobreviventes até o dia de hoje, permitem precisas associações relativas e absolutas para o estabelecimento da história da Mesopotâmia. Os astrônomos da Babilônia eram adeptos da matemática e podiam prever eclipses e solstícios, imaginando que tudo possuía algum objetivo na astronomia, a maioria relacionada à religião e presságios. Os mesopotâmios desenvolveram um calendário de 12 meses baseado nos ciclos da lua, dividindo o ano em duas estações: verão e inverno. É dessa época a origem da astronomia e da astrologia.
Durante os séculos VIII e VII AC, astrônomos babilônios desenvolveram uma nova abordagem à astronomia. Começaram estudando a filosofia que tratava com a natureza do início do Universo, começando a empregar uma lógica interna nos seus sistemas planetários de previsão. Foi uma importante contribuição à astronomia e à filosofia da ciência; alguns estudiosos referiram-se a essa nova abordagem, que foi posteriormente adotada e mais desenvolvida pela astronomia grega e helenística, como a primeira revolução científica.
À época dos selêucidas[4] e partas[5], os relatórios astronômicos eram totalmente científicos sendo incerta a época em que seu avançado conhecimento se desenvolveu. A o desenvolvimento babilônico de métodos de previsão dos movimentos dos planetas é considerado um evento fundamental da história da astronomia.
O único astrônomo grego-babilônio que apoiou o modelo heliocêntrico de Aristarchus de Samos, em que a terra girava em torno do seu eixo, além de girar em volta do Sol, foi Seleucus de Selêucia (cerca de 190 AC), pelos escritos de Plutarco, biógrafo, historiador, e ensaísta grego (mais tarde adotou a nacionalidade romana) que viveu entre 46 e 120 DC. A astronomia babilônica serviu como base da astronomia da Grécia, Índia, Bizâncio, Síria, Islã medieval, Ásia central e Europa ocidental.
Os textos babilônicos mais antigos sobre medicina datam do período Antigo Babilônico, na primeira metade do segundo milênio AC, onde aparece o mais extenso deles, o Manual de Diagnóstico, escrito pelo principal estudioso, Esagil-kin-apli de Borsippa, durante o reinado do rei Adad-apla-iddina (1069 a 1046 AC). Junto com a medicina egípcia contemporânea, os babilônios introduziram os conceitos de diagnose, prognóstico, exame físico e receitas. O Manual de Diagnóstico introduziu os métodos de terapia e etiologia, bem como o uso do empirismo, lógica e racionalidade no diagnóstico, prognóstico e terapia. O texto contém uma lista de sintomas médicos e observações empíricas muitas vezes detalhadas, junto com regras lógicas usadas ao combinar sintomas observados no corpo do paciente com seu diagnóstico e prognóstico.
Os sintomas e doenças de um paciente eram tratados por meios terapêuticos como bandagens, cremes e pílulas. Se um paciente não pudesse ser curado fisicamente, os médicos babilônios confiavam no exorcismo para purificar o paciente de quaisquer maldições. O Manual de Diagnóstico era baseado num conjunto lógico de axiomas e hipóteses que incluíam a visão moderna de que, através do exame e da inspeção dos sintomas de um paciente, é possível determinar sua doença, origem, futuro desenvolvimento e as chances de recuperação do paciente. Esagil-kinapli descobriu uma variedade de indisposições e doenças, descrevendo seus sintomas no seu Manual; tais incluíam sintomas para variedades de epilepsia e males relacionados, junto com seus diagnósticos e prognósticos.
O povo mesopotâmio inventou muitas tecnologias, incluindo trabalhos com metal e cobre, confecção de vidro e lamparina, tecelagem, controle de enchentes, armazenamento de água e irrigação. Foi também um dos primeiros povos da Idade do Bronze no mundo. Desenvolveram do cobre, bronze e ouro ao ferro. Os palácios eram decorados com centenas de quilos desses caros metais. Cobre, bronze e ferro foram usados foram também usados para armaduras e armas como espadas, adagas, lanças e maças.
O Parafuso de Arquimedes
De acordo com uma hipótese recente, o “Parafuso de Arquimedes[6]” pode ter sido usado por Sennacherib, Rei da Assíria, para criar os sistemas hidráulicos dos Jardins Suspensos da Babilônia e Nínive, no século VII AC, embora a tendência atual seja admiti-lo como uma invenção grega mais moderna. Posteriormente, durante os períodos Parta ou Sassânida, a “Bateria de Bagdá” que pode ter sido a primeira bateria do mundo, foi criada na Mesopotâmia. 





[1] Na ocorrência dos dois equinócios anuais, a Terra, em sua órbita elíptica em torno do Sol, encontra-se à mesma e menor distância dele; são as épocas do ano em que dia e noite têm, teoricamente, a mesma duração.
[2] O solstício é o evento astronômico que ocorre duas vezes por ano, quando a Terra encontra-se à sua maior ou menor distância do Sol; o solstício de verão ocorre, no hemisfério sul, em 22 ou 23 de dezembro (solstício de inverno no hemisfério norte); o solstício de inverno ocorre, no hemisfério sul em 20 ou 21 de junho (no hemisfério norte, solstício de verão). Os solstício de verão e de inverno correspondem, respectivamente, aos dias mais longo e mais curto do ano.
[3] Limmu era um epônimo assírio. Ao início do reinado de uma rei assírio, o limmu, um servidor real contratado anualmente, presidiria o festival de Ano Novo na capital. Embora escolhido por sorteio, provavelmente haveria um pequeno grupo, tais como os homens das famílias mais proeminentes ou talvez membros co conselho da cidade. Os assírios usavam o nome do limmu daquele ano para designer o ano em documentos oficiais. Listas de limmus foram encontradas para todos os anos entre 892 e 648 AC Durante o Antigo Período Assírio, o próprio rei nunca foi um limmu, mas no Médio e Novo Assírio períodos, o rei poderia tomar esse posto.
[4] O Império Selêucida foi um estado helenístico (grego antigo) governado pela dinastia fundada por Seleucus I Nicator, resultado da fratura do império criado por Alexandre o Grande. Seleucus expandiu seus domínios até incluir a Anatólia Central, Persia, o Levante, Mesopotâmia e Kuwait
[5] Partia (em latim Parthia) é o nome dado historicamente a uma região do nordeste do atual Irã, conhecido por ter sido a base político-cultural da dinastia arsácida, soberanos do Império Parta.
[6] Também chamado de bomba de parafuso, o “Parafuso de Arquimedes” é uma máquina historicamente usada para transferir água de um ponto inferior de água, para valas de irrigação, por exemplo. A máquina é comumente atribuída a Arquimedes, na ocasião de sua visita ao Egito, mas tal tradição pode apenas refletir que ele era desconhecido aos gregos antes dos tempos helenísticos e que foi introduzido na sua época por engenheiros desconhecidos, pois alguns escritores têm sugerido que o dispositivo possa ter sido usado na Assíria 350 anos antes. O aparelho consiste de uma superfície helicoidal em torno de uma haste cilíndrica central, dentro de um tubo oco, girado por um moinho de vento ou trabalho manual. À medida que a haste gira, a extremidade do fundo eleva um volume de água até finalmente derramá-la fora do topo do tubo assim alimentando os sistemas de irrigação.

Segue com o "IMPÉRIO DA SUMÉRIA", na Parte 5

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