Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

terça-feira, 21 de julho de 2015

HISTÓRIA DO POVO HEBREU APÓS A CONQUISTA DE JUDÁ PELA BABILÔNIA (PARTE 1)

I - INTRODUÇÃO

A fonte histórica mais segura para acompanhar a saga do povo hebreu é, sem dúvida, o Antigo Testamento da Bíblia, ou o Tora, para os judeus. E aqui aproveito a oportunidade para apresentar o significado de algumas palavras básicas relacionadas.

O Tora (que em hebreu significa “instrução” ou “ensino”), ao qual muitas vezes nos referimos como “Pentateuco”, é o conceito central na tradição religiosa Judaica. Possui uma grande quantidade de significados: pode significar os primeiros cinco livros (Gêneses, Êxodos, Levíticos, Números e Deuteronômio) dos vinte e quatro livros do Tanakh (conjunto dos livros da Bíblia Hebreia), em geral incluindo os comentários rabínicos. O Tora pode significar também “instrução”, oferecendo uma forma de vida para aqueles que o seguem. Ele pode significar a narrativa continuada do Gêneses ao final do Tanakh. Pode até mesmo significar a totalidade do ensinamento, cultura e prática judeus. Comum a todos esses significados, o Tora consiste na narrativa fundamental do povo judeu: seu chamamento por Deus, suas provações e atribulações e seu pacto com seu Deus, que envolve seguir uma forma de vida personificada num conjunto de obrigações e leis civis morais e religiosas.

O Talmud (significando “instrução” ou “aprendizado”, é um texto central do Judaísmo Rabínico. O termo “Talmud” em geral se refere ao Talmud Babilônico, embora haja uma coleção anterior conhecida como o Talmud de Jerusalém. O Talmud tem dois componentes. A primeira parte é o Mishnah (cerca de 200 DC), o compêndio escrito do Tora Oral do Judaísmo Rabínico. A segunda parte é o Gemara (cerca de 500 DC), uma elucidação do Mishna e dos escritos Tanáticos relacionados, que muitas vezes se aventuram por outros assuntos e expõe amplamente a Bíblia Hebreia. O Talmud pode ser usado para significar apenas o Gemara ou o Gemara e o Mishna impressos juntos. O Talmud completo consiste de 63 tratados e, em impressão normal, possui mais de 6.200 páginas e é escrito em hebreu e aramaico. O Talmud contém os ensinamentos e opiniões de milhares de rabis sobre uma variedade de assuntos, incluindo o Halakha (conjunto das leis religiosas judias derivadas do Tora escrito e oral), a ética, filosofia, costumes e história Judia, além de muitos outros tópicos.
Entretanto, mesmo este fantástico documento, torna-se bem difícil de ser acompanhado - ao menos pelos leigos ou pouco conhecedores do assunto – a partir do momento em que o Estado Judeu é invadido pela Babilônia, Jerusalém é devastada, o Templo destruído e grande parte da sua população levada cativa para as longínquas terras da Mesopotâmia. Há muito as doze tribos de Israel já se haviam separado, chegara a época dos profetas e muito do Antigo Testamento passa para o plano figurativo e religioso, tornando a leitura difícil de ser acompanhada e entendida. A história dos Hebreus só volta a ser novamente narrada e entendida após o nascimento de Cristo, através dos Evangelhos (Novo Testamento da Bíblia); nesse caso, segundo o ponto de vista dos primeiros cristãos e de cunho eminentemente religioso, com ênfase em sua figura central, Jesus Cristo.
Certamente existem historiadores contemporâneos (Flavius Josephus – “Josephus” -, Gaius Plinius Secundus – “Plínio, o Velho” – e Philo Jadaeus – “Philo de Alexandria”) que escreveram a sua história à época e, posteriormente, uma grande quantidade de historiadores modernos, usando essas fontes, apresentaram as suas respectivas versões.
O objetivo desta publicação é exatamente tentar preencher essa lacuna. O período que vai da invasão de Israel pela Babilônia e exílio dos hebreus em cativeiro, até a revolta dos judeus contra o império romano, que acabou com a destruição do Templo, pela segunda vez, e a definitiva difusão dos hebreus por todo o mundo; visto pelo prisma exclusivamente histórico.
Como esse assunto vai envolver a participação de vários impérios, já quero deixar claro que não é objetivo deste trabalho o detalhamento individual das suas histórias, mas apenas mostrar as suas relações com a história do povo hebreu durante o período mencionado. Muitos dos impérios que serão mencionados, já foram motivo de outras postagens do pesquisador e podem ser examinados, quando necessário.

II – CONQUISTA DO REINO DE JUDÁ PELA BABILÔNIA

Antes do exílio, Judá era uma monarquia que havia mantido as tradições de Israel, a comunidade tribal uma vez unida sob o Rei Davi. Havia absorvido muito das tradições pan-israelitas, mas ainda era uma comunidade, uma entidade política sem outra finalidade que a de existir, sobreviver e prosperar como uma entidade política.
Entre as principais instituições da Judá pré-exílica, estavam:
  • Os reis davídicos, uma dinastia que reivindicava investidura divina;
  • O templo Salomônico que, com as reformas de curta duração introduzidas por Ezequiel e Josias, abrigou vários cultos;
  • Adivinhos proféticos ao serviço dos reis e também profetas críticos dos reis, advogando somente a adoração de Javé. 
    Nabucodonosor II da Babilônia

O cativeiro babilônico ou exílio babilônico foi o período da história judaica durante o qual um grande número de judeus do antigo reino de Judá permaneceu cativo na Babilônia. Em 605 AC, Nabucodonosor II, rei da Babilônia, sitiou Jerusalém que não lhe pode defrontar, o que ocasionou a criação de um tributo a ser pago pelo rei hebreu Eliaquim (ou Jeoiaquim). No quarto ano de Nabucodonosor II, Eliaquim recusou-se a pagar o tributo, o que motivou um novo sítio da cidade no sétimo ano do rei babilônico (597 AC), que culminou com a morte do rei de Judá e o exílio de seu sucessor Joaquim (ou Jeconias) - que reinou por apenas três meses -, sua corte e muitos outros, para a Babilônia. Seu sucessor, Zedequias (ou Sedecias ou Matanias), e outros, foram exilados no décimo oitavo ano de Nabucodonosor II (587 AC); uma deportação posterior ainda ocorreu no vigésimo terceiro ano de Nabucodonosor II (582 AC).
Império Babilônico Nabucodonosor II

A completa conquista do reino de Judá pela Babilônia, concretizou-se, portanto, em 587 AC, quando o rei de Judá era Zedequias. Os babilônios destruíram Jerusalém e seu Templo, expurgando os membros da elite da sua população para a Babilônia, aí incluindo Zedequias - cujos filhos foram mortos em sua frente e ele cego e jogado na prisão até a sua morte. Esse período ficou sendo conhecido como “Cativeiro da Babilônia”. A despeito da perda do Templo, o Judaísmo não morreu como religião, embora o culto e o sacrifício no Templo fossem impossíveis. Os judeus se consolidaram em torno dos seus documentos sagrados e o Tora tomou o lugar do Templo como um centro sagrado. O judaísmo tornou-se uma religião de livro, com um foco sagrado portátil. O exílio babilônico dos judeus tornou-se proverbial. Durante e após o exílio, eles desenvolveram uma energia criativa sem precedentes, do que resultou a edição definitiva do Pentateuco, dos livros de Samuel e Reis, de muitos dos livros proféticos e também na composição de uma nova literatura que refletia as preocupações dos que retornaram da Babilônia, muitas vezes mais diretamente, do que a antiga literatura. Durante este período eles editaram suas histórias e escritos sagrados com a visão de que os profetas estavam certos: as desditas das “crianças de Israel” eram devidas à sua desobediência ao pacto, o que resultou na edição definitiva do Tora. O estudo do Tora tornou-se o foco da prática, com encontros semanais em casas de estudo públicas. A ênfase foi colocada nas determinações do Tora que podiam ser seguidas longe do templo, tais como a circuncisão, a observância do Sabá, as leis da pureza e as prescrições de dieta.
Mapa da deportação do povo de Judá

Em 539 AC, o persa Ciro, o Grande, conquistou a Babilônia e por um seu decreto Judá retornou do exílio em 539 AC e foi politicamente reconstruído como uma província administrativa semiautônoma da Pérsia. Passou a ser governada por uma elite sacerdotal cujos pontos de vista e atitudes foram moldados pelos projetos religiosos para reconstrução delineados no exílio. Estavam em desacordo com a população, rigorosamente forçaram a separação da população heterogênea de Judá e governaram à base do Tora. Em 428 AC, Ezra trouxe, da Babilônia para Jerusalém, e promulgou, o Tora, que serviu como o ideal legal de um estado teocrático (governado por sacerdotes ao invés de reis), efetivamente marcando o início da moderna religião judaica. Ezra foi o sacerdote que reorganizou o estado Israelita politicamente e organizou o novo sistema religioso que incluía o estudo do Tora, ficando conhecido como o “Pai do Judaísmo”. Neemias, um funcionário da corte na Pérsia, retornou pouco mais tarde para reconstruir as muralhas da cidade e o templo de Jerusalém, isto é, o Segundo Templo, já que o primeiro havia sido construído por Salomão. A partir daí, a religião passou a ser conhecida como o “Judaísmo do Segundo Templo”. 
Ciro o Grande, Pérsia
A influência persa tornou-se notável na literatura apocalítica judia (simbolismo do bem contra o mal, angelologia, figura do demônio como ano caído e o mal personificado). A língua administrativa de Judá passou a ser o aramaico, língua do império persa, ao invés do hebreu. Uma importante nova instituição foi o uso dos Levitas como sacerdotes auxiliares.
O pouco que sabemos sobre a história do “Judaísmo do Segundo Templo”, de outras fontes, é aumentado por fragmentos de cartas escritas em papiro encontradas por modernos arqueólogos, em Elefantina, escavadas quando a barragem de Assuam, no Egito, foi construída durante a década de 1960.

III – A HELENIZAÇÃO DO ORIENTE MÉDIO E A REVOLTA DOS MACABEUS
Alexandre da Macedônia

Alexandre da Macedônia foi um dos grandes estrategistas militares do mundo e nunca perdeu uma batalha. Suas campanhas foram, basicamente, uma tentativa de vingança pelo fato da Pérsia ter invadido a Grécia em 490 e 480 AC. Cerca de 332 AC, Alexandre havia conquistado o Império Persa (ao qual Judá estava subordinado e praticamente sem expressão como potência militar, após ter retornado do Exílio Babilônico) e dela recuperado o Império do Egito, a costa grega da Ásia Menor ocidental e Tiro, seguindo rapidamente para o leste, até o Paquistão. Alexandre teria passado perto, mas provavelmente nunca visitado Jerusalém.
Após a morte precoce de Alexandre, em 323 AC, com a idade de 33 anos, seus vários generais lutaram entre si até 306-305 AC, quando os vencedores repartiram o Império de Alexandre em três, assim permanecendo até a conquista da região pelos romanos: a Ptolomeu I coube o Egito; a Antigonus I coube a Grécia e a Macedônia; e a Seleucos I coube a Ásia Menor. 
Seleucos I Nicator
Estes acontecimentos encerraram o tempo do poder persa e introduziram a helenização de todo o Oriente Médio. Os judeus continuaram falando aramaico e praticando a religião durante os tempos persas. Mas o período helenístico conduziu a conflitos culturais e políticos muito violentos, finalmente conduzindo à revolta contra o Império Romano (66 DC) durante a qual Judá, Jerusalém e o Templo (símbolo de independência político-religiosa) foram destruídos pela segunda vez.
Entre 332 e 167 AC, após a conquista de Alexandre, Israel foi primeiro governado pelo Egito e então pela Ásia Menor. Isso ocorreu quando Antíoco IV “Epifânio” (“um manifesto de Deus”), um rei selêucida (da dinastia Selêucida, grega, fundada por Seleucos I), invadiu o reino ptolomaico do Egito em 168 AC, aparentemente sem o apoio judeu. É preciso que se tenha em mente que, nessa época, o reino de Judá possuía mínima expressão política em todo o Oriente Próximo, apenas tratando de sobreviver entre o Egito, de um lado, e o império Selêucida, do outro, enquanto fazendo alianças ora com um, ora com outro e sofrendo as consequências de tais alianças.
Antíoco IV Epifânio
Tudo começou quando o Alto Sacerdote Simão II morreu, em 175 AC, e o conflito irrompeu entre os simpatizantes de seu filho Onias III (que se opunha à helenização e apoiava os Ptolomeus) e seu filho Jason (que apoiava a helenização e os Selêucidas). Seguiu-se um período de intriga política com sacerdotes como Menelaus subornando o rei para conquistar o Alto Sacerdócio e acusações de assassinato de disputantes ao título. O resultado foi uma breve guerra civil durante a qual os Tobias, um grupo de filosofia helenística, conseguiram colocar Jason na posição de Alto Sacerdote. Em 175 AC a crise chegou ao clímax quando Jason estabeleceu uma arena para jogos públicos próxima do Templo, segundo estudiosos “convertendo Jerusalém numa cidade grega com ginásios e efebos. 
Simão II Macabeu
Em 167 AC, Antíoco IV respondeu à guerra civil em Jerusalém atacando a cidade e ignorando a pressão da República Romana para se retirar. Ele colocou como fora da lei a prática da religião dos judeus, prometendo a morte a todos os que circuncisassem seus filhos, mantivessem as leis da alimentação “kashrut” (conjunto das leis religiosas judias sobre a alimentação) ou mantivessem o Sabá. Ele realizou o que, na profecia de Daniel, foi denominada a “abominação da desolação”: a profanação do Templo, em Jerusalém, com o sacrifício de um porco ao deus grego Zeus.


Na próxima postagem, continuação da HISTÓRIA DO POVO HEBREU .... com a PARTE 2.

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