Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sexta-feira, 31 de julho de 2015

HISTÓRIA DO POVO HEBREU APÓS A CONQUISTA DE JUDÁ PELA BABILÔNIA (PARTE 3 - FINAL)

IV.1 - FACÇÕES EXISTENTES À ÉPOCA

Este me parece o momento adequado para introduzir as facções surgidas em Israel, muito importantes para o bom entendimento dos desdobramentos consequentes, principalmente antes, durante e pouco após a época de Cristo.
Os essênios eram descendentes de Zadok, o sacerdote ao tempo de Davi, que se mantiveram fora do poder durante os períodos Hasmoneano e Romano. Consideravam o Templo impuro, se mudaram num exílio auto imposto para uma comunidade monástica em Qumran, no rio Jordão, e esperaram por uma batalha do fim dos tempos em que eles, como “filhos da luz”, seriam conduzidos pelo alto sacerdote e o “Mestre da Retidão” contra os filhos das trevas. Como isso aconteceu no rio Jordão, sua figura central era a reconquista de Canaã. Os essênios eram ascetas e formavam uma comunidade hierarquicamente organizada, uma seita apocalíptica fundamental. São conhecidos hoje pelos Manuscritos do Mar Morto, que contêm alguns dos seus escritos, mas a maioria são cópias dos trabalhos da Bíblia Hebreia. Os manuscritos foram descobertos no deserto da Judeia, próximo ao rio Jordão, em 1942.
É difícil dizer quando os fariseus, como uma facção, surgiram. Josephus os menciona pela primeira vez em conexão com Jônatas, o sucessor de Judas Macabeu. Um dos fatores que distinguia os fariseus de outros grupos, antes da destruição definitiva do Templo, era a sua crença de que todos os judeus tinham de observar as leis da pureza (aplicadas ao serviço do templo) fora do templo. A maior diferença, contudo, era a permanente aderência dos fariseus às leis e tradições do povo judeu com relação à assimilação. Formavam um movimento de reforma laica (não sacerdotal) e eram os guardadores do Tora oral, isto é, as interpretações orais do Tora, que eles criam foram dadas a Moisés no Monte Sinai e que ajudaram o povo a manter os mandamentos com menos possibilidade de transgressão. Transferiram muitos aspectos da pureza do Templo à esfera doméstica e enfatizaram os rituais domésticos e os serviços de sinagoga que poderiam ser feitos fora do Templo, em Jerusalém. Como Josephus observou, os fariseus eram considerados os mais versados e precisos expositores da lei judaica.
Os saduceus eram os líderes sacerdotais no poder durante a dinastia Hasmoneana, que se encontravam também em termos cordiais com Roma, quando ela dominou. Eram conservativos na crença: a autoridade era o Tora, sem interpretação oral, profetas nem escritos. Não acreditavam em ressurreição pessoal.
Durante o período hasmoneano, os saduceus e os fariseus funcionaram, primariamente, como facções políticas. Embora os fariseus tenham se oposto às guerras de expansão dos hasmoneanos e à forçada conversão dos idumeus, o racha político entre eles se tornou maior quando os fariseus exigiram que o rei Alexander Janeu escolhesse entre ser rei e ser o Alto Sacerdote. Como resposta, o rei alinhou-se abertamente com os saduceus, adotando os seus ritos no templo. Tais ações causaram um motim no templo, conduzindo a uma breve guerra civil que terminou com uma sangrenta repressão aos fariseus, embora em seu leito de morte o rei tenha pedido uma reconciliação entre as partes. Sua viúva e sucessora, Salomé Alexandra, tinha um irmão que era líder fariseu. Josephus atesta que Alexandra era favoravelmente inclinada aos fariseus, cuja influência cresceu muito durante o seu reino, especialmente na instituição denominada “Sinédrio” (uma espécie de assembleia ou conselho, famosa no tempo de Cristo). Seu filho mais velho, que a sucedeu, buscou o apoio fariseu e seu filho mais novo, Aristobulus, procurou o apoio saduceu. Como vimos, este conflito culminou numa guerra civil que terminou quando o general romano Pompeu capturou Jerusalém, em 63 AC, inaugurando o período romano da história judia.
Todas as facções mencionadas perduraram por todo o período romano, até a guerra dos Judeus, que culminou com a destruição do Templo de Jerusalém e a difusão dos judeus por todo o mundo.

V – PALESTINA ROMANA E FIM DOS HASMONEANOS

Retornamos ao assunto principal, no ponto em que os dois irmãos Hircano II e Aristobulus II disputavam o poder de Israel.
Pois ao tempo em que a guerra civil pelo poder se desenvolvia, o general romano Marcus Aemilius Scaurus chegou à Síria para tomar posse, em nome do Cônsul Gnaeus Pompeius Magnus (Pompeu), do reino dos selêucidas. Os dois irmãos apelaram a ele, com presentes para seduzi-lo. Inicialmente, Scaurus inclinou-se para Aristobulus, mas quando Pompeu chegou à Síria, as coisas mudaram, pois ele pretendia ter a Judeia sob o mando romano. E chegou à conclusão que para isso, seria muito mais fácil se Hircano estivesse no poder ao invés de Aristobulus. Este adivinhou as intenções de Pompeu e reuniu seus exércitos, mas foi derrotado por ele várias vezes, tendo suas cidades capturadas. Aristobulus entrincheirou-se na fortaleza de Alexandrium (entre Scythopolis e Jerusalém), mas concluindo sobre a impossibilidade de vencer, rendeu-se à primeira convocação dos romanos, comprometendo-se a entregar-lhes Jerusalém. Como os cidadãos relutavam em entregar a cidade, Pompeu teve que sitiá-la e finalmente penetrou na Cidade Santa em 63 AC. Com isso a Judeia tornou-se um protetorado de Roma, devendo-lhe impostos, sob a administração de um governador romano da Síria, mas com direito a manter um rei.
De 57 a 55 AC, Aulus Gabinius, proconsul da Síria, dividiu o reino hasmoneano anterior em Galileia (ao norte), Samaria (no centro) e Judeia (ao sul), com cinco distritos com conselhos legais e religiosos (os Sinédrios): Jerusalém, Gadara (na Jordânia, onde se encontram os limites com Síria e Israel), Amathus (sem localização), Jericó e Sepphoris (região central da Galileia, 3,7 km de Nazaré).
Com a vitória de Pompeu, Aristobulus foi levado para Roma como prisioneiro e Hircano novamente indicado Alto Sacerdote, mas com autoridade política. Entretanto, em 50 AC, Júlio Cesar, sucedendo a Pompeu, demonstrou interesse em usar Aristobulus e sua família como clientes para tomar o controle da Judeia de Hircano e Antipater, devedores de Pompeu, fazendo com que partidários de Pompeu envenenassem Aristobulus em Roma. 

No início da guerra civil entre Pompeu e Júlio Cesar, Hircano e Antipater preparavam-se para apoiar Pompeu, mas com o seu assassinato e a queda da República Romana para o Império Romano, conduziram as forças judias para apoiar Cesar, em dificuldades na Alexandria. Sua ajuda na hora certa, somada à sua influência junto aos judeus egípcios, recomendaram ambos a Cesar que os garantiu como extensão de sua autoridade na Palestina. A Judeia foi liberada dos tributos e taxas devidos a Roma e ganhou independência para administração interna.
A restauração de Hircano como etnarca (e alto sacerdote) em 47 AC, coincidiu com a indicação de Antipater como primeiro Procurador Romano da Judeia, permitindo-lhe promover os interesses de sua própria casa, colocando seus filhos Phasael, como governador de Jerusalém, e Herodes, como governador da Galileia. Com isso a tensão entre Hircano e a família de Antipater cresceu, culminando com o julgamento de Herodes por supostos abusos em seu governo e sua fuga para o exílio em 46 AC. Mas Hircano era tão incapaz e fraco que Herodes retornou em seguida e, quando defendeu-o contra o Sinédrio, frente a Marco Antônio, este retirou sua autoridade política nominal e seu título, entregando-as ao acusado Herodes, em 43 AC.
Herodes, o Grande, governador da Galileia e, posteriormente,
"Rei dos Judeus" pelo Senado Romano, em 40 AC 
Cesar foi assassinado em 44 AC e a confusão e intranquilidade se espalharam por todo o mundo romano, incluindo a Judeia. Antipater, o idumeu, foi assassinado por um rival em 43 AC, mas os filhos de Antipater assassinaram o rival, mantendo o controle sobre a Judeia e o fantoche de seu pai, Hircano.
Após o assassinato de Júlio Cesar, Quintus Labienus, um general romano republicano e embaixador junto aos Parta, alinhou-se com Brutus e Cassius (assassinos de Cesar) na guerra civil dos “Libertadores”. Com a sua derrota, Labienus uniu-se aos Partas, ajudando-os na invasão dos territórios romanos, em 40 AC. O exército parta atravessou o Eufrates e Labienus conseguiu a adesão das guarnições romanas de Marco Antônio em torno da Síria à sua causa. Os partas dividiram seu exército e, sob Pacorus, conquistaram o Levante da costa Fenícia até a terra de Israel.
Antigonus II Matatias, filho de Aristobulus II, instigou os partas a invadirem a Síria e a Palestina e os judeus apoiaram a descendência dos Macabeus, expulsando os odiados idumeus e seu fantoche rei judeu. A luta entre o povo e os romanos foi deflagrada e Antigonus, colocado no trono pelos partas, imaginou que uma nova era de independência havia chegado.
Phasael e Hircano II partiram em embaixada aos partas e foram presos por eles. Antigonus, presente ao evento, cortou as orelhas de Hircano II para impedi-lo de voltar a ser Alto Sacerdote e condenou Phasael à morte. Antigonus acumulou os cargos de rei e alto sacerdote por apenas três anos, porque não havia capturado Herodes, o mais perigoso dos seus inimigos. Herodes fugiu em exílio buscando o apoio de Marco Antônio e foi declarado “Rei dos Judeus” pelo Senado Romano, em 40 AC.
O conflito persistiu por alguns anos pois as forças romanas se ocupavam em derrotar os partas, faltando recursos para o apoio a Herodes. Finalmente, derrotando os partas, em 37 AC, Antigonus foi entregue a Marco Antônio e executado em seguida. Os romanos confirmaram a proclamação de Herodes, o Grande, como Rei dos Judeus, trazendo o fim da Dinastia Hasmoneana sobre a Judeia, 
mas não dos hasmoneanos, cujo destino foi ainda mais cruel.
O reino hasmoneano havia sobrevivido 103 anos antes de chegar à Dinastia Herodiana. Herodes, o Grande, casou com uma princesa hasmoneana, Mariane, tentando amenizar a situação. Aristobulus III, neto de Aristobulus II, por seu filho mais velho Alexander, foi feito alto sacerdote por muito pouco tempo e então executado em 36 AC, por ciúmes de Herodes. Sua irmã Mariane, esposa de Herodes, caiu também vítima dos seus ciúmes. Seus filhos, Aristobulus IV e Alexander, foram também executados por seu pai, Herodes, quando adultos.
Hircano II fora mantido pelos partas desde 40 AC e até 36 AC viveu entre os judeus babilônios que lhe prestavam todo o respeito. Naquele ano, Herodes, que ainda temia que ele pudesse reivindicar o trono, convidou-o a retornar a Jerusalém. Em vão os judeus babilônios o avisaram para não ir. Herodes recebeu-o com todo o respeito, deu-lhe o assento de honra em sua mesa e a presidência do conselho de estado, esperando por uma boa oportunidade para livrar-se dele. Em 30 AC, acusado de conspiração com o rei da Arábia, Hircano II, o último hasmoneano restante, foi condenado e executado. Como se vê, sua sede de matar não era pequena, sendo importante lembrar que esse Herodes, o Grande, é o mesmo Herodes da época do nascimento de Cristo que, segundo o Evangelho de Mateus, mandou matar todas os meninos com menos de um ano de idade, nascidos em Belém, com medo de perder o trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”, que lhe fora revelado pelos Três Reis Magos.



                                                                 VI - EPÍLOGO


Herodes Antipas, governador da Galileia na era de Cristo
 Com a morte de Herodes, o Grande, em 4 AC, o imperador romano de então, Augustus, respeitou seu testamento, dividindo seu reino entre seus três filhos. Arquelaus recebeu o título de “etnarca” e foi indicado para governar as três regiões geográficas de Samaria, Judeia e Idumeia. Ele foi deposto e exilado em 6 DC, quando Roma juntou essas regiões na província romana da Judeia. Herodes Antipas, designado “tetrarca” (governador de um quarto), recebeu a Pereia e a Galileia (até 39 DC), onde Jesus viveu o seu ministério de adulto. Felipe recebeu partes mais remotas do reino, que nada interessam ao nosso contexto.
Mas além dos governadores, o poder nas diferentes regiões da Palestina era dividido por mais duas figuras, ao final dos anos 20 DC e início dos anos 30. Pôncio Pilates, romano, com a queda de Arquelaus, era o prefeito romano da grande Judeia (onde ficava Jerusalém). Por isso foi o responsável pelo julgamento de Cristo. José Caifás, também figura importante ao tempo de Cristo, era o grande sacerdote em Jerusalém, lembrando que a Samaria (pertencente à grande Judéia) não era judia ao tempo.
Em 44 DC, Roma instalou o mando de um Procurador Romano, paralelo aos reis herodianos que seguiram, Herodes Agripa I (41 a 44 DC) e Agripa II (50 a 100 DC)
A queda do Reino Hasmoneano marcou o fim de um século de governo judeu independente, mas o nacionalismo judeu e seu desejo por independência prosseguiram sob o domínio romano. Iniciaram com o “Censo de Quirinius”, em 6 DC (ao qual o Evangelho de Lucas relaciona o nascimento de Cristo), e conduziram a uma série de guerras judia – romanas, nos séculos I e II DC, incluindo a “Grande Revolta” (66 a 73 DC), a “Guerra de Kitos” (115 a 117 DC) e a “Revolta de Bar Kokhba” (132 a 135 DC).
Durante tais guerras, comunidades temporárias foram estabelecidas, mas que acabavam por cair ao poder sustentado de Roma. As legiões romanas de Vespasiano e Titus sitiaram Jerusalém, saquearam e incendiaram o Templo de Herodes (no ano 70 DC) e fortalezas judias, como Gamla (63 DC) e Massada (73 DC), escravizando e massacrando grande parte da população judia. A derrota das revoltas judias contra o Império Romano, contribuíram notavelmente para os números e a geografia da “Diáspora Judia”, a dispersão dos judeus que perderam seu estado ou foram vendidos como escravos por todo o império romano. Mas isso já é um outro grande assunto ...

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