Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 13 de junho de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 6)

VII – A RECONQUISTA



VII.1 – A RESISTÊNCIA DOS REINOS DO NORTE

O declínio do domínio muçulmano, na Península Ibérica, começou praticamente após concluída a sua conquista, em 713.
A “Reconquista” é o período da história da Península Ibérica que abrange, aproximadamente, 770 anos, entre a conquista islâmica da Hispania, em 711, e a perda do último reduto do Estado Muçulmano, em Granada, em 1492, para os reinos cristãos em expansão. O fim da Reconquista coincidiu com a descoberta das Américas pela Espanha – o “Novo Mundo” -, prenunciando os impérios coloniais português e espanhol. A historiografia tradicional, especialmente os estudiosos espanhóis, têm enfatizado a existência da “Reconquista”, o fenômeno contínuo pelo qual os reinos cristãos ibéricos se opuseram e conquistaram os reinos muçulmanos, entendido como um inimigo comum que havia militarmente tomado territórios cristãos.
O Império Muçulmano cerca de 750
A figura ao lado mostra o Império Muçulmano pelo ano 750, logo após o início da Reconquista, de acordo com as épocas em que as conquistas islâmicas foram realizadas. Esse mapa serve para dar uma ideia da grandeza do conjunto de terras que haviam sido conquistadas pelos árabes muçulmanos até essa época.
Como em todos os impérios, também entre os muçulmanos conquistadores, atritos começaram a surgir, principalmente pela tensão étnica entre árabes e berberes, recém convertidos ao islamismo, mas que haviam fornecido muitos homens para os combates e sentiam a discriminação contra eles. Este conflito interno deteriorou a unidade muçulmana.
Península Ibérica cerca de 750 com o Reino das Astúrias
quebrando a hegemonia muçulmana
Após a conquista islâmica moura de quase toda a península ibérica, entre 711 e 718, e o estabelecimento do emirado de Al-Andalus, estados cristãos baseados no norte e oeste, lentamente começaram a estender o seu poder sobre o resto da Ibéria. Os Reinos de Navarra, da Galícia, de Leão, de Portugal, de Aragão, da Marca Hispânica e da Coroa de Castela, iniciaram o processo de expansão e consolidação interna durante os vários séculos que se seguiram, sob a bandeira da Reconquista. Seu início é, tradicionalmente, definido pela batalha de Covadonga (718 ou 722), primeira vitória das forças militares cristãs desde a invasão muçulmana em 710. Nesta batalha, um pequeno exército cristão, liderado pelo nobre visigodo Pelagius, derrotou o exército do califado nas montanhas do norte da Ibéria, estabelecendo o independente Reino Cristão das Astúrias em oposição à hegemonia muçulmana. A dinastia de Pelagius, nas Astúrias, sobreviveu e, gradualmente, expandiu os limites do reino até que o noroeste da Ibéria foi incluído, cerca de 775. Contudo, o crédito todo não foi devido apenas a ele, mas também aos seus sucessores. Alfonso I (rei de 739 a 757) convocou o apoio da Galícia quando de lá expulsou o exército mouro, bem como de uma área do que posteriormente tornou-se o Reino de Leão ou Galícia Leão.
Don Pelagius, primeiro rei das Astúrias
Uma expansão adicional do reino, do noroeste em direção ao sul, ocorreu durante o reino de Alfonso II (791 a 842) e, por um curto período, quase alcançou Lisboa. O reino tornou-se firmemente estabelecido com o reconhecimento de Alfonso II como rei de Astúrias, por Carlos Magno e pelo Papa. Durante o seu reinado, foi declarada a descoberta dos ossos de Tiago, um dos apóstolos de Jesus, na Galícia, em Santiago de Compostela; peregrinos de toda a Europa abriram um canal de comunicação entre as isoladas Astúrias e as terras Carolíngias (veremos a seguir) e ainda além. Embora numerosas batalhas, nem os omíadas nem os asturianos tinham poder suficiente para assegurar o controle desses territórios do norte. Alfonso III repovoou a estrategicamente importante cidade de Leão, estabelecendo-a como capital das Astúrias. Iniciou uma série de campanhas para estabelecer o controle das terras ao norte do rio Douro; reorganizou seus territórios em ducados principais (Galícia e Portugal) e condados importantes (Saldaña e Castela), fortificando as fronteiras com muitos castelos. Com a sua morte, em 910, a mudança no poder regional foi completada quando o reino tornou-se o Reino de Leão. Dessa base de poder, seu herdeiro Ordoño II pode organizar ataques contra Toledo e mesmo Sevilha.
Espanha ao tempo de Alfonso II com Astúrias e Galícia unidas
O Califado de Córdoba ganhava força e começou a atacar Leão. O rei Ordoño aliou-se com Navarra contra Abd-al-Rahman, mas foram derrotados em Valdejunquera em 920. Pelos próximos 80 anos o Reino de Leão sofreu com guerras civis, ataques dos mouros, intrigas e assassinatos internos e a independência parcial da Galícia e Castela, assim retardando a reconquista e enfraquecendo as forças cristãs. Só no século seguinte os cristãos começaram a ver suas conquistas como parte de um esforço de longo termo para restaurar a unidade do reino visigodo.
O único ponto deste período em que a situação tornou-se esperançosa para Leão, foi o reinado de Ramiro II, famoso pela legendária batalha de Clavijo. Em aliança com Fernán González de Castela, Ramiro derrotou o califa em Simanca, em 939. Após essa batalha, em que o califa mal escapou com vida, mas com seu exército destruído, o rei Ramiro teve 12 anos de paz, mas teve de conceder a González a independência de Castela. Sob o reinado de Ramiro, a fronteira deslocou-se lentamente em direção ao sul e as possessões asturianas em Castela, Galícia e Leão foram fortificadas, com um intenso programa de repovoamento no interior daqueles territórios. Os ataques dos mouros se atenuaram até que Almanzor iniciou suas campanhas. Alfonso V finalmente recuperou o controle de seus domínios em 1002. Navarra, embora atacada por Almanzor, permaneceu intacta.
Este reino do norte e outro de que vamos ainda falar, a Navarra Basca, embora seu pequeno tamanho, demonstraram habilidade para manter suas independências. Sem poder estender seu domínio além dos Pirineus, os governantes omíadas baseados em Córdoba resolveram consolidar seu poder na Península Ibérica. Forças árabes – berberes faziam incursões periódicas nas Astúrias mas falharam sempre em obter qualquer ganho duradouro contra os reforçados reinos cristãos.
Louis I, rei da Aquitânia e Imperador
do Sacro Império Romano Germânico
Da França, em 737 Charles Martel conduzira uma expedição para o sul ao longo do vale do Rhone para afirmar sua autoridade sobre as terras mantidas pelos omíadas do Al-Andalus. Atacou os omíadas na Septimânia até Narbone, mas teve de retirar o cerco e retornar para Lion e Francia (Reino dos Francos), após subjugar vários baluartes árabes, deixando atrás de si várias cidades e fortalezas em ruínas. Em 759, Pepino o Breve expulsou os muçulmanos, definitivamente, de Narbone, após 40 anos de ocupação e, empurrando-os de volta sobre os Pirineus, conquistou a Aquitânia (sudoeste da França, fronteira com a Espanha), numa implacável guerra de oito anos. Carlos Magno prosseguiu com o trabalho de seu pai, subjugando a Aquitânia pela criação de condados, tomando a Igreja como seu aliado, indicando condes do estoque franco ou burgundiano, como seu leal William de Gellone e tornando Toulouse a base de suas expedições contra Al-Andalus. Decidiu criar um sub-reino regional a fim de manter os habitantes da Aquitânia sob controle e garantir a fronteira sul do Império Carolíngio[1] contra incursões muçulmanas. Em 781 seu filho de três anos, Louis, foi coroado rei da Aquitânia, sob a supervisão de seu confiável William de Gellone, nominalmente encarregado da incipiente Marca Hispânica[2].
Entrementes, à tomada das franjas do sul do Al-Andalus, por Abd ar-Rahman I, em 756 opôs-se o seu governante autônomo ou rei, Yusuf ibn Abd al-Rahman. Este foi expulso de Córdoba por Abd, que ainda levou décadas para expandir aos distritos andaluzes do norte e oeste. Abd ainda sofreu a oposição externa dos abássidas de Damasco, que falharam em suas tentativas de detê-lo.
Em 778, Yusuf encerrou-se no vale do Ebro e os lordes governantes de Zaragoza, Girona, Barcelona e Huesca, inimigos de Abd ar-Rahman I, decidiram atrair os francos cristãos das proximidades, buscando o apoio de Carlos Magno em troca de sua reverência e fidelidade. Vendo uma boa oportunidade, Carlos Magno atravessou os Pirineus em 778 com uma expedição. Próximo de Zaragoza, Carlos Magno recebeu as homenagens de Salayman al-Arabi, mas a cidade, sob a liderança de Husayn, recusou submeter-se fechando os portões. Incapaz de conquistar a cidade pela força, Carlos Magno decidiu retirar-se, mas a caminho de casa a retaguarda de seu exército foi emboscada e destruída por forças locais, na Batalha do Passo de Roncevaux. “A Canção de Rolando[3]”, uma narrativa romantizada dessa batalha, tornar-se-ia mais tarde, uma das mais famosas canções de gesta (do latim, para feitos, façanhas) da Idade Média.
Cerca de 788, Abd ar-Rahman I morreu e foi sucedido por Hisham I que, em 792 proclamou uma jihad[4], avançando em 793 contra o Reino de Astúrias e os francos, e sendo derrotado por William de Gellone, Conde de Toulouse. Em 797, Barcelona, uma cidade importante, tornou-se um alvo potencial para os francos, quando seu governador Zeid rebelou-se contra o emir omíada de Córdoba. Um exército do emir recapturou-a em 799, mas Louis, no comando de um exército, atravessou os Pirineus e sitiou a cidade por dois anos, até que ela finalmente capitulou em dezembro de 801.
Os principais passos nos Pirineus eram Roncesvalles (Roncevaux), Somport e La Jonquera e através deles Carlos Magno estabeleceu as regiões vassalas de Pamplona, Aragão e Catalunha (região nordeste da Espanha), respectivamente; esta última formada de alguns pequenos condados. Elas protegiam os passos dos Pirineus orientais, sob o controle direto de reis francos, formando os remanescentes da Marca Hispânica. Quatro pequenos reinos logo hipotecaram sujeição a Carlos Magno, ao início do século IX (não por muito tempo): Pamplona (a tornar-se Navarra), e os condados de Aragão, Sobrarbe e Ribagorza (os dois últimos tornaram-se partes do condado de Aragão), todos ao norte da atual Espanha, fronteira com a França, nos Pirineus.
Ao final do século IX, sob o Conde Wilfred, Barcelona tornou-se de fato a capital da região, com controle sobre as políticas de outros condados em uma união que, em 948, conduziu à independência da Barcelona sob o Conde Borre II que declarou que a nova dinastia na França, os Capetos, não eram os legítimos governantes da França e, por consequência, deste condado.
Esses estados eram pequenos e, com exceção de Navarra, não possuíam capacidade para atacar os muçulmanos como fizera as Astúrias, mas sua geografia montanhosa provia-lhes relativa segurança para não serem conquistados e suas fronteiras permaneceram estáveis por dois séculos.
Espanha cerca do ano 1000, já com os reinos de Leão e Navarra
O reino de Pamplona estendia-se, originalmente, de ambos os lados dos Pirineus, para o Atlântico e foi formado quando o líder local Iñigo Arista conduziu uma revolta contra a autoridade franca regional e foi declarado rei em Pamplona (824), estabelecendo um reino intrincado, neste estágio ligado a seus parentes da dinastia Muwallad (muçulmanos descendentes de árabes, berberes e ibérios) Banu Qasi. Embora relativamente fraca até o início do século XI, Pamplona passou a ter um papel mais ativo após a ascensão de Sancho, o Grande (1004-1035), quando o reino se expandiu grandemente à medida que absorveu Castela, parte de Leão, Aragão, além de outros condados pequenos que se uniriam para formar o principado da Catalunha; essa expansão também conduziu à independência da Galícia bem como à regência sobre a Gasconha (então território francês). Contudo, no século XII, o reino se contraiu ao seu núcleo e, em 1162, o rei Sancho VI declarou-se rei de Navarra. Por toda sua história inicial, o Reino de Navarra envolveu-se em frequentes escaramuças com o Império Carolíngio, do qual sempre manteve sua independência, uma característica chave de sua história até 1513, já após a conclusão da Reconquista.
Ferdinando I de Leão (Reino de Leão após derrotar seu cunhado, em 1037) era o rei líder em meados do século XI. Ele conquistou Coimbra e atacou os reinos taifa[5], muitas vezes exigindo tributos com os quais ele as enfraquecia militar e financeiramente. Ele também repovoou as fronteiras com numerosos fueros[6]. De acordo com a tradição navarra, com a sua morte, em 1064, dividiu seu reino entre seus filhos. Seu filho Sancho II, de Castela, pretendeu reunir o reino de seu pai, atacando seus irmãos, em companhia de um nobre notável: Rodrigo Díaz, mais tarde cantado em verso e prosa, como Cid, o Campeador. Sancho foi morto no cerco de Zamora pelo traidor Bellido Dolfos (Vellido Adolfo), em 1072.
El Cid e Alfonso VI jurando não ter participado
do assassinato de seu irmão.
 Seu irmão Alfonso VI tomou conta de Leão, Castela e Galícia, deu mais poder aos fueros e repovoou Segovia, Ávila e Salamanca. Após ter reforçado as fronteiras, o rei Alfonso conquistou o poderoso reino taifa de Toledo, em 1085, primeira capital dos visigodos e importante marco, que lhe deu renome por todo o reino cristão. A conquista foi realizada de forma pacífica, durante várias décadas. Antes de tudo um monarca diplomata, Alfonso VI buscou entender os reis das taifas, empregando sempre medidas diplomáticas antes de considerar a força. Adotou o título “Imperador de Toda a Hispania”, referindo-se a todos os reinos cristãos da Península Ibérica e não apenas ao atual país da Espanha. A sua política mais agressiva, em relação às taifas, preocupou os governantes desses reinos, que buscaram ajuda dos Almorávidas
[7]. 
Espanha cerca de 1150, já com os reinos de Leão e Castela,
Navarra, Aragão e Portugal
O Reino de Aragão foi um desmembramento do Reino de Navarra, formado quando Sancho III de Navarra decidiu dividi-lo entre seus filhos. Aragão foi a parte do reino que passou a Ramiro I de Aragão, filho ilegítimo de Sancho III. Os reinos de Aragão e Navarra foram muitas vezes unidos em união pessoal, até a morte de Alfonso, o Batalhador, em 1135. O Reino de Aragão reuniu um grande número de territórios no Mediterrâneo, conhecidos como a Coroa de Aragão. James I de Aragão, também conhecido como James, o Conquistador, expandiu Aragão para o norte, sul e leste, assinando o Tratado de Corbeil (1258) que o liberava da suserania ao Rei da França. Antes disso, James tentara reunir as coroas Aragonesa e Navarra por um tratado com Sancho VII de Navarra, que não possuía filhos, mas os nobres do reino rejeitaram a proposta, escolhendo Teobaldo IV de Champagne para o seu lugar. Foi o seu descendente distante, Ferdinando II de Aragão, que trouxe o Reino ao pico do seu poder, com a conquista da Navarra Superior (ao sul dos Pirineus) e Granada.
Afonso I na Batalha de Ouriques
Em 1139, após uma esmagadora vitória na Batalha de Ourique, contra os Almorávidas, Afonso Henriques foi proclamado primeiro Rei de Portugal, por suas tropas e coroado pelo arcebispo de Braga. Pelo Tratado de Zamora, de 1143, Alfonso VII de Leão e Castela reconhecia a independência portuguesa do Reino de Leão. Em 1147, Portugal capturava Santarém aos mouros e sete meses depois, a cidade de Lisboa foi trazida dos mouros ao controle dos portugueses. Em 1179, pela bula papal “Manifestis Probatum”, o Papa Alexandre III reconhecia Afonso Henriques como Afonso I, do Reino de Portugal. Com Portugal finalmente reconhecido como reino independente por seus vizinhos, Afonso Henriques e seus sucessores, ajudados pelos Cruzados e as ordens monásticas militares dos Cavalheiros Templários e da Ordem de São Tiago, empurraram os Mouros até o Algarve, na costa sul de Portugal.
Espanha após 1250, com Portugal
independente e fronteiras consolidadas
Após várias campanhas, a parte portuguesa da Reconquista chegou ao seu final com a captura definitiva do Algarve, em 1249. Com Portugal sob o total controle de Afonso III, os grupos religiosos, culturais e étnicos se tornaram gradualmente homogeneizados.


[1] O Império Carolíngio (800–888) foi um imenso império da Europa Central e Oeste, da Idade Média, governado pela Dinastia Carolíngia que havia governado como reis dos francos desde 751 e como reis dos lombardos da Itália desde 774. Em 800, o rei franco Carlos Magno foi coroado imperador em Roma, pelo Papa Leão III, num esforço para reviver o Império Romano do ocidente durante a vacância do Império Romano do Oriente. Após uma guerra civil (840-843) com a morte do Imperador Louis, o Piedoso, o Império foi dividido em reinos autônomos, com um rei ainda reconhecido como imperador, mas com sua autoridade diminuída além do seu próprio reino. A unidade do império e o direito hereditário dos Carolíngios continuou a ser reconhecido.
[2] A Marca Hispânica foi uma zona de amortecimento além da Septimânia, criada por Carlos Magno em 795 como uma barreira entre os mouros omíadas de Al-Andalus e o Império Carolíngio franco. Com o passar do tempo ganhou independência do domínio imperial franco.
[3] “A Canção de Rolando” é um poema épico baseado na Batalha de Roncevaux, durante o reinado de Carlos Magno. É o mais antigo trabalho importante que sobrevive da literatura francesa, em várias versões manuscritas. A data da composição é tida como entre 1040 e 1115, com uma versão inicial de 1040 e adições e alterações feitas até 1115. Seu texto final tem ceca de 4.000 linhas de poesia. O poema épico é o primeiro e, junto com “O Poema do Cid”, um dos mais relevantes exemplos da canção de gesta, uma forma literária que floresceu entre os séculos XI e XV, celebrando feitos lendários.
[4] Jihad é uma palavra árabe que, literalmente, significa empenho, luta, especialmente com um objetivo louvável. Pode ter muitas nuanças de significado num contexto muçulmano, tais como luta contra as inclinações maldosas de alguém ou esforços para o aperfeiçoamento da sociedade. Na lei muçulmana clássica, o termo se refere à luta armada contra os infiéis (que não creem em Alá).
[5] Na história da Península Ibérica, uma taifa era um principado muçulmano independente, normalmente um emirado, embora houvesse uma oligarquia, dos quais um grande número foi formado no Al-Andalus, após o colapso final do Califado Omíada de Córdoba, em 1031.
[6] Originalmente, os fueros eram os estatutos jurídicos aplicáveis em uma determinada localidade, cuja finalidade era, em geral, regular a vida local, estabelecendo um conjunto de normas, direitos e privilégios outorgados pelo rei, o senhor da terra ou o próprio Conselho, isto é, as leis próprias de um lugar. Posteriormente passou a confundir-se com a própria localidade, vila ou cidade.
[7] Os almorávidas foram, originariamente, monges soldados saídos de grupos nômades provenientes do Saara. A dinastia almorávida abraçou uma interpretação rigorista do islamismo, unificando, sob o seu domínio, grandes extensões do mundo ocidental muçulmano, com as quais formaram um império, entre os séculos XI e XII, que chegou a estender-se pelas atuais Mauritânia, Saara Ocidental (sua origem), Marrocos e a metade sul da Península Ibérica.

A seguir, conclusão do artigo com a publicação da PARTE 7.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

BREVE HISTÓRIA DAS ORIGENS DE PORTUGAL - PARTE III (Última)

CONDADO DE PORTUCALE
Vímara Peres foi um fidalgo galego nascido em 820 e morto em 873, Cristão da Reconquista, cavaleiro e senhor da guerra, enviado por D.Afonso III, das Astúrias, ao vale do rio Douro, com a incumbência de expulsar dali os mouros, da linha natural cujo domínio os asturo-leoneses consideravam fundamental para a sua defesa. A ele se ficou a dever, entre outras coisas, o repovoamento cristâo das terras de entre Douro e Minho. Ajudado pelos cavaleiros cristãos da regiâo, conquistou Portucale aos mouros no ano de 868.
Nesse mesmo ano, de 868, receberia Vímara Peres (figura ao lado) o título de Conde de Portucale, dando assim início a uma dinastia condal que duraria até ao ano de 1071. Já nessa época o território designava-se Terra Portugalense. Pouco a pouco foram alargadas as fronteiras do território, que confinava com outros territórios (Braga, Lamego, Viseu, Terras da Feira e Coimbra). Entre as suas obras consta ainda a da fundação de um pequeno burgo fortificado, junto de Braga, a que deu o nome de Vimaranis - que então significava "terras de Vímara" - e haveria de se transformar na cidade de Guimarães e berço de Portugal.
A reconquista permitiu também a restauração diocesana, tendo os bispos de Portucale sido instalados numa pequena povoação chamada Magneto (a qual os especialistas fazem corresponder com a actual Meinedo, no conselho de Lousada).
Na segunda metade do século XI, reconstituiu-se, ao sul, o condado de Coimbra (que incluía não só a cidade do Mondego, como ainda as terras de Lamego, Viseu e Feira), sendo entregue ao conde Sesnando Davides, um moçárabe do rei Fernando I de Leão e Castela, que conquistara definitivamente a cidade em 1064 (este condado viria, mais tarde, a ser incorporado ao Portucalense).

CONDADO PORTUCALENSE
A ambição de Afonso VI de Leão e Castela, auto-denominado Imperador de toda a Hispânia, reconstituiu novamente a unidade dos Estados paternos e, quando Garcia morreu, em 1091, os territórios do Reino da Galiza, em sua posse, passaram, por mérito, às mãos do Cruzado Conde Raimundo de Borgonha, casado com D. Urraca, filha de Afonso VI. A partir daí, as chamadas terras de Portucale passam a ser um Condado (Condado Portucalense) dependente do Reino da Galiza, que por sua vez prestava vassalagem a Afonso VI de Leão e Castela. Nessas alturas, o vigor das investidas Almorávidas recomendava a distribuição dos poderes militares, para melhor reforçar o território. Assim, foram criados um comando na zona central, entregue ao próprio rei Afonso VI; outro, não oficial, exercido por El Cid em Valência, e o terceiro, no ocidente, entregue a Raimundo de Borgonha. Este último não conseguiu defender eficazmente a linha do Tejo — tendo já perdido Lisboa, que fora cedida aos Leoneses pelo reino Taifa de Badajoz, juntamente com Santarém, que estava também prestes a cair nas mãos dos Almorávidas.
Alguns anos mais tarde, em 1096, descontente com as políticas bélicas de Raimundo, Afonso VI entrega o governo do Condado Portucalense ao primo de Raimundo, Rei da Galiza, o Conde D. Henrique de Borgonha, casado com sua outra filha, D. Teresa, passando assim a ser Conde de Portucale. Na prática, o Condado Portucalense deixava de ser dependente do Reino de Galiza, para prestar vassalagem directamente ao Reino de Leão e Castela, o que provocou um grande descontentamento entre a nobreza galega. O conde D. Henrique, apoiado pelos interesses políticos clunicenses, introduz-se ambiciosamente na política do Reino, conquistando poder junto das cortes. Vendo-se na condição de subordinados ao rei, os condes ou governadores tinham amplos poderes administrativos, judiciais e militares, e o seu pensamento orientava-se, naturalmente, para a aquisição de uma completa autonomia quando, no caso português, as condições lhe eram propícias. Deste condado, nasceria o Reino de Portugal.
A fim de aumentar a população e valorizar o seu território, D. Henrique deu foral e fez vila (fundou uma povoação nova) em várias terras, entre elas Guimarães, na qual fez vila de burgueses, atraindo ali, com várias regalias, muitos francos seus compatriotas.
Em Guimarães fixou D. Henrique a sua habitação, em paços próprios, dentro do castelo que ali fora edificado no século anterior. Falecido o conde D. Henrique (1112), passa a viúva deste D. Teresa, a governar o condado durante a menoridade do seu filho Afonso Henriques.

INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL
Inicialmente, o pensamento de D. Teresa foi idêntico ao do seu marido: fortalecer a vida portucalense e conseguir a independência para o condado. Em 1121 intitula-se «Rainha», mas os conflitos com o alto clero e sobretudo a intimidade com Fernão Peres, fidalgo galego a quem entregara o governo dos distritos do Porto e Coimbra, trouxeram-lhe a revolta dos Portucalenses e do próprio filho, sistematicamente afastados, por estranhos, da gerência dos negócios públicos. D. Teresa planeja então uma união com a poderosa família galega dos Trava, unindo assim novamente o Condado Portucalense ao Reino de Galiza e inviabilizando toda e qualquer aspiração portuguesa à independência.
Aos catorze anos de idade (1125), o jovem Afonso Henriques, com o apoio da nobreza portuguesa, arma-se a si próprio cavaleiro – segundo o costume dos reis – tornando-se assim guerreiro independente. A posição de favoritismo em relação aos nobres galegos e a indiferença para com os fidalgos e eclesiásticos portucalenses por parte de sua mãe, D. Teresa, originou a sua revolta, sob chefia do seu filho, D. Afonso Henriques (figura acima).
Em 24 de junho de 1128, trava-se a Batalha de São Mamede (Guimarães) entre os partidários do infante Afonso e os de sua mãe. Esta é vencida e expulsa da terra que dirigira durante 15 anos. D. Afonso Henriques toma conta do condado, declarando-o reino independente, como neto de Afonso VI e dele vai fazer o Reino de Portugal.
Lutando contra os cristãos de Leão e Castela e os muçulmanos, Afonso Henriques conseguiu uma importante vitória contra os Mouros na Batalha de Ourique, em 1139, e declarou a independência. Continuou, entretanto, a luta contra as forças de Afonso VII de Leão e Castela (inconformado com a perda das terras portuguesas, pois, à semelhança de seu pai, Afonso VI, ele também se intitulava Imperador), enquanto, paralelamente, travava lutas contra os muçulmanos.
Em 1139, após uma estrondosa vitória na Batalha de Ourique, contra um forte contingente mouro, D. Afonso Henriques afirma-se como Rei de Portugal, aclamado pelos chefes portugueses. Nascia assim, o Reino de Portugal e sua primeira dinastia, com o rei Afonso I de Borgonha (Afonso Henriques). Somente a 5 de outubro de 1143 é reconhecida a independência de Portugal pelo rei Afonso VII de Leão e Castela, no Tratado de Zamora, assinando-se a paz definitiva. Desde então, D. Afonso Henriques procurou consolidar a independência por si declarada. Fez importantes doações à Igreja e fundou diversos Conventos. Dirigiu-se ao Papa Inocêncio II e declarou Portugal tributário da Santa Sé, tendo reclamado para a nova monarquia a protecção pontifícia. Em 1179 o Papa Alexandre III, através da Bula Manifestis Probatum, reconhece a existência de Portugal como país independente e vassalo da Igreja Católica Apostólica Romana.
Na continuação de suas conquistas, buscou também por terras ao sul, até então povoadas por Mouros e, após ver malograda a primeira tentativa de conquistar Lisboa em 1142, conseguiu o seu intento em 24 de Outubro do mesmo ano (a figura acima mostra D. Afonso I durante o sítio de Lisboa), após conquistar Santarém, no dia 15 de Março, com o auxílio de uma poderosa esquadra de 160 navios e um contingente de cerca de 13 mil cruzados que se dirigiam para a Terra Santa.
Em 1492, com a conquista do reino de Granada, a Reconquista chegava ao fim. Já os reinos da Galiza, Leão, Castela, Navarra e Aragão iniciavam uma relativa unificação ao possuir um único rei (embora mantendo a autonomia econômica, administrativa e comercial), que posteriormente recebeu o nome de reino de Espanha. Juntamente com o reino independente de Portugal, debatiam-se estes dois estados pelas conquistas marítimas. Ainda com o apoio da Igreja, ambos os reis estavam agora de olhos voltados para o Norte de África, nas praças comerciais de renome, como Ceuta e Tânger, sob o pretexto da cristianização. Caminhava-se, paralelamente, para a fase inicial dos Descobrimentos.
Nesse ponto da história encerramos o nosso artigo, que tem como objetivo único, apresentar as origens de Portugual como país, etnia e língua. Nele, foram apenas apresentados os fatos, sem nos determos nas suas causas e nas suas consquências, nem tampouco imprimindo qualquer forma de interpretação. Era importante, para o autor da pesquisa, mostrar a forma como Portugal se originou da mesma Península Ibérica da qual se originou a Espanha, indicar os povos que compuseram a sua etnia final, bastante complexa e, finalmente, apresentar as influências que sofreu na formação final da sua língua portuguesa. Com humildade esperamos ter atingido esse objetivo, que consideramos de alguma importância como descendentes que somos daquele povo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

BREVE HISTÓRIA DAS ORIGENS DE PORTUGAL - PARTE II

INVASÃO DOS BÁRBAROS
Em 409 DC, os chamados povos bárbaros, compostos principalmente por Suevos, Vândalos e Visigodos, todos de origem germânica, além dos Alanos, de origem persa, fixam-se na Hispânia. Em 411 DC estes povos dividem entre si o território: os Vândalos ocuparam a Galécia e a Bética, os Suevos, a região ao norte do Douro, enquanto os Alanos ocuparam as províncias da Lusitânia e a Cartaginense. Algum tempo depois, ocorreu a entrada dos Visigodos, na península, a serviço do Império Romano, com o objectivo de subjugar os invasores anteriores.
De todos estes povos, os Suevos e os Visigodos seriam aqueles que teriam uma presença mais duradoura no território que é hoje Portugal. Estabelecendo a capital do seu reino em Braga, os Suevos dominaram um território que também incluía a Galiza e chegam a dominar a parte ocidental da Lusitânia. Estabelecidos na condição de federados do Império Romano, os Suevos eram pagãos, tendo sido evangelizados por S. Martinho de Dume e convertidos ao catolicismo. A partir de 470 DC crescem os problemas do reino suevo com o vizinho reino visigodo. Em 585 DC o rei visigodo Leovigildo toma Braga e anexa o reino suevo. A partir daqui toda a Península Ibérica fica unificada sob o reino visigodo (com excepção de algumas zonas do litoral sul e levantino, controladas pelo Império Bizantino) até à queda deste reino em 711 DC. Os povos bárbaros sempre foram numericamente inferiores à população hispano-romana, razão pela qual foram obrigados à miscigenação étnica e cultural.

OCUPAÇÃO MUÇULMANA
Em 711 DC a Península Ibérica foi invadida pelos muçulmanos do Norte de África (basicamente Berberes com alguma componente de Árabes), comandadas por Tarik ibn-Ziyad, o que obrigou os seus ocupantes bárbaros a recolher-se, principalmente nas Astúrias, uma região no Norte da Península que, pelas suas características naturais, colocava grandes dificuldades ao domínio muçulmano. Estes dominaram partes da península por mais de cinco séculos: inicialmente sobre o controle do Califado de Damasco, Al-Andalus, mais tarde sob a forma de um emirado e califado e, devido ao colapso deste, em pequenos reinos (Taifas) com autonomias características. Durante um longo período, em nome da recristianização da região, ocorreu um longo processo de lutas, considerado por alguns como parte do movimento de cruzadas, resultando finalmente na completa reconquista do teritório por parte dos cristãos. Os muçulmanos que não foram expulsos ou mortos durante o processo de reconquista, tiveram de aderir aos costumes locais (incluindo o Cristianismo). Não se sabe ao certo o grau existente de mescla com estes berberes na população portuguesa actual, mas há um consenso de que esta mescla existe. É durante esta fase que ocorre o nascimento do Reino de Portugal e de diversos outros reinos na Península Ibérica, vindo estes últimos, posteriormente, a se unificar dando origem ao reino de Espanha.
Al-Andalus foi o nome dado à Península Ibérica pelos seus conquistadores islâmicos do século VIII, tendo o nome sido utilizado para se referir à península, independentemente do território politicamente controlado pelas forças islâmicas.
De início integrado na província norte-africana do império omíada, o Al-Andalus seria um emirado (756–929 DC) e posteriormente um califado independente do poder abássida (929–1031 DC). Com a dissolução do califado em 1031 DC, o território pulverizou-se em vários reinos Taifa.
Com a reconquista dos territórios pelos cristãos, descendentes dos godos, que se refugiaram na região das Astúrias, no norte da península, num processo que ficou designado historicamente por Reconquista, o nome Al-Andalus foi-se adequando ao cada vez menor território sob ocupação árabe-muçulmana, na metade sul da península, aproximadamente a mesma área da antiga província romana Hispânia Bética, cujas fronteiras foram progressivamente empurradas para sul, até à tomada de Granada pelos Reis Católicos, em 1492.

A RECONQUISTA
A Reconquista (também referenciada como Conquista cristã) é a designação historiográfica do movimento cristão, com início no século VIII que visava à recuperação, pelos Visigodos cristãos, das terras perdidas para os árabes durante a invasão da Península Ibérica.
Se rápida foi a ocupação muçulmana da Península Ibérica, a reconquista pelos Visigodos foi francamente mais lenta.
Este processo gradual originou o nascimento de pequenos reinos que iam sendo alargados à medida que a Reconquista era bem sucedida.
Primeiro, o Reino das Astúrias, que viria a dividir-se entre os filhos de Afonso III das Astúrias, após a sua morte. Assim nasciam os reinos de Leão e Galiza e, mais tarde, de Navarra e Aragão e de Castela, sendo que este compreendia já as terras de Portucale, que correspondia, mais ou menos, aos territórios que hoje fazem parte de Portugal, até à cidade de Coimbra.
A guerra tinha um só objectivo: a reconquista das terras com tudo o que nelas existia. A idéia de “cruzada” só veio a surgir na época das Cruzadas (1096). A reconquista de todo o território peninsular duraria cerca de oito séculos, só sendo completada, como dito acima, em 1492, com a reconquista do reino muçulmano de Granada pelos Reis Católicos. No então teritório de Portugal, a reconquista terminou com a conquista definitiva de Silves, pelas forças de D. Afonso III, em 1253. Mais tarde, a expansão marítima portuguesa, precedida pela conquista das praças africanas foi considerada, em parte, como uma continuação da Reconquista.

O NASCIMENTO DE PORTUGAL
Houve, no atual território de Portugal, ao longo do processo de reconquista, dois Condados Portucalenses ou Condados de Portucale distintos: o primeiro, fundado por Vímara Peres após a presúria de Portucale (Porto) em 868 e incorporado ao reino da Galiza em 1071, após a morte do conde Nuno Mendes (e que embora gozando de certa autonomia, constituiu sempre uma dependência do reino das Astúrias/Leão/Galiza), sendo sensivelmente equivalente ao actual Entre-Douro-e-Minho); o segundo, constituído em 1095 em feudo do rei Afonso VI de Leão e Castela e oferecido a Henrique de Borgonha, um burguinhão que veio auxiliá-lo na Reconquista de terras aos Mouros, tendo também recebido a mão de sua filha Teresa de Leão. Este último condado era muito maior em extensão, já que abarcava também os territórios do antigo condado de Coimbra, suprimido em 1091, partes de Trás-os-Montes e ainda do Sul da Galiza (mormente da diocese de Tui). Deve-se notar que Condado é um termo genérico para designar o Território Portucalense, já que os seus chefes eram alternativamente intitulados Comite (conde), Dux (duque) ou Princeps (Príncipe).
Por uma questão de comodidade aludir-se-á, ao longo deste artigo, ao primeiro condado portucalense como Condado de Portucale, e ao segundo como Condado Portucalense, dado serem essas as expressões mais consagradas.
O nome do condado vem do topônimo Portucale, com o qual desde o século IX se designava uma cidade situada perto da foz do Douro, designada de Portus Cale, "Porto de Cale", formado pelo termo latino portus ("porto") e pelo grego kalós ("belo"), donde qualquer coisa como "Porto Belo".
Data assim desse período a expressão terra portucalense ou província portucalense para designar um território distinto que era limitado, ao norte, pela terra bracarense, e ao sul, pelo rio Vouga, e tinha por centro e cabeça a povoação de Portucale.
Quando da invasão muçulmana da península Ibérica, Portucale era já, desde a segunda metade do século VI, a sede da diocese Portucalense, situada na província da Galécia, subordinado ao bispo de Braga. Com a invasão, a diocese não sobreviveu, tendo sido restaurada apenas após a reconquista do Porto, em 868.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

BREVE HISTÓRIA DAS ORIGENS DE PORTUGAL - PARTE I

Pois, de repente, enquanto eu realizava uma pesquisa para descobrir as origens do nome da minha família paterna, Azambuja, sabendo que nascera em Portugal, comecei a meditar sobre as origens do país que acabou descobrindo este nosso Brasil. O que mais aguçava a minha curiosidade era conhecer as razões pelas quais Portugal e Espanha, repartindo a antiga Península Ibérica e falando línguas tão semelhantes, não constituíam um só país. Espero que esse artigo possa ajudar os leitores a entender as razões que fizeram de Portugal o que ele é hoje, principalmente no que se refere ao seu espaço físico, língua e etnia. Para que se tenha o quadro completo, a figura que segue mostra, à esquerda, a Península Ibérica nos dias atuais, com a localização de Portugal e Espanha, no contexto da Europa e limitando-se com a África, através do Estrito de Gibraltar. 
Dada a extensão do artigo, que foi de todas as formas reduzido, sem prejudicar a essência do que pretende o autor esclarecer, faremos a sua publicação em  três capítulos, dos quais este é o primeiro. Mas vamos à história.

BEM NO INÍCIO
Pensa-se que a Península Ibérica foi habitada, primordialmente, por povos autóctones – oriundo da própria terra onde se encontra, sem resultar de imigração ou importação - que vieram a ser conhecidos como Iberos. Entre eles estão os Tartessos, considerados pelos gregos como a primeira civilização do Ocidente.
Cerca de 1.000 AC, mas provavelmente ainda antes, a região passou a ser habitada por povos Indo-Europeus, de origem Celta que coexistiram com os povos Iberos, habitando regiões distintas da Península Ibérica. Na zona Leste da meseta Central, os povos Celtas mesclaram-se com os povos Iberos dando origem aos Celtiberos, que não se devem confundir com os Celtas Ibéricos (Celtas da Península Ibérica) que em Inglês se denominam de Celtiberians. Em vista disso, vários povos habitavam a Península Ibérica, divididos em três ramos étnico-culturais primordiais: Os Celtas Indo-Europeus, os Iberos de origem desconhecida e os Celtiberos que viviam na Meseta Central. Influências mínimas exerceram os Gregos e os Fenícios-Cartagineses com as suas pequenas colônias-feitorias comerciais costeiras semi-permanentes de grande importância estratégica. Estes últimos dois povos não contribuiram virtualmente para a ascendência dos povos da Península.

ROMANIZAÇÃO
Cartago é uma antiga cidade, originariamente uma colônia fenícia no norte da África, situada a leste do lago de Túnis, perto do centro de Túnis, na Tunísia. A figura ao lado mostra um mapa do Mar Mediterrâneo Ocidental, no ano 279 AC, indicando as posições relativas de Roma, Cartago (Cartagine) no Norte da África e da Ilha da Sicília (Siracusa), bem como da Península Ibérica.
Fundada por colonizadores fenícios de Tiro, que a substituiu no ocidente, foi uma potência na Antigüidade, disputando com Roma o controle do mar Mediterrâneo. Dessa disputa originaram-se as três Guerras Púnicas, após as quais Cartago foi destruída. A antiga capital púnica é hoje um bairro de Túnis e uma estação arqueológica e turística importante, tendo sido classificado patrimônio mundial pela UNESCO em 1979 (abaixo, ruínas de Cartago).
Entre os séculos V e III AC Cartago envolveu-se em freqüentes hostilidades com a Grécia e a Sicília. Foi nesta última que Cartago teve seu primeiro choque com Roma. A meio caminho entre estas duas antigas cidades e capitais de império encontra-se a Sicília. O controle desta ilha foi determinante no decorrer das Guerras Púnicas porque a Sicília era o "celeiro" do mundo antigo.
A invasão romana da península Ibérica iniciou-se no contexto da Segunda Guerra Púnica (218 AC-201 AC), quando as legiões romanas, sob o comando do cônsul Cneio Cornélio Cipião, para ali se movimentaram taticamente, a fim de atacar pela retaguarda os domínios de Cartago na região. De facto, a influência cartaginesa na península Ibérica permitia um expressivo reforço, tanto de suprimentos quanto de homens, a Cartago. A estratégia do Senado Romano visava, desse modo, enfraquecer as forças cartaginesas, afastando os seus exércitos da Península Itálica.
Vários combates cruentos foram travados entre Roma e Cartago, com altos e baixos até o ano de 205 AC quando, apesar de todos os seus esforços, Aníbal foi obrigado a pedir paz aos romanos comandados por Cipião, o Africano e Roma tornou-se a senhora de todo o sul da Hispânia, dos Pirineus a Algarve, na costa e, no interior, de Huesca ao sul até o rio Ebro; a partir daí iniciou-se a administração romana da península, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, doravante integradas ao território controlado pela República.
Ao final da Terceira Guerra Púnica, Cartago foi finalmente destruída por Cipião Emiliano, em 146 AC, sendo arrasada até os seus alicerces e seu solo salgado para que nele nada mais crescesse, tal o ódio que se havia criado entre as duas nações.

A RESISTÊNCIA
A derrota dos cartagineses, entretanto, não garantiu a ocupação pacífica da península, pelos romanos. A partir de 194 AC, registraram-se choques com tribos de nativos, denominados genericamente como Lusitanos, conflitos que se estenderam até 138 a.C., denominados por alguns autores como guerra lusitana. A disputa foi mais acesa pelos territórios mais prósperos, especialmente na região da atual Andaluzia.
Ao se iniciar a fase imperial romana, a pacificação de Augusto também se fez sentir na península Ibérica: a partir de 19 AC, as suas legiões ocuparam a região norte peninsular, mais inóspita. Com esta ocupação, asseguravam-se as fronteiras naturais e pacificava-se essa região mais atrasada, de modo a que não constituísse ameaça para as populações do vale do rio Ebro e da chamada Meseta, já em plena fase de Romanização.
Na península Ibérica a Romanização ocorreu concomitantemente com a conquista, tendo progredido desde a costa mediterrânica até ao interior e à costa do Oceano Atlântico. Para esse processo de aculturação foram determinantes a expansão do latim e a fundação de inúmeras cidades, tendo como agentes, em princípio, os legionários e os comerciantes.
Os primeiros, ao se miscigenarem com as populações nativas, constituíam famílias, fixando os seus usos e costumes, ao passo que os segundos iam condicionando a vida econômica, em termos de produção e consumo. Embora não se tenha constituído uma sociedade homogênea na península, durante os seis séculos de romanização registraram-se momentos de desenvolvimento mais ou menos acentuado, atenuando, sem dúvida, as diferenças étnicas do primitivo povoamento.
A língua latina acabou por se impor como língua oficial, funcionando como factor de ligação e de comunicação entre os vários povos. As povoações, até aí predominantemente nas montanhas, passaram a surgir nos vales ou planícies, habitando casas de tijolo cobertas com telhas. Como exemplo de cidades que surgiram com os Romanos, temos Braga (Bracara Augusta), Beja (Pax Julia), Conímbriga e Chaves (Aquae Flaviae).
A indústria desenvolveu-se, sobretudo a olaria, as minas, a tecelagem, as pedreiras, o que ajudou a desenvolver também o comércio, surgindo feiras e mercados, com a circulação da moeda e apoiado numa extensa rede viária (as famosas "calçadas romanas", de que ainda há muitos vestígios no presente) que ligava os principais centros de todo o Império. A influência romana fez-se sentir também na religião e nas manifestações artísticas. Tratou-se, pois, de uma influência profunda, sobretudo a sul, zona primeiramente conquistada. Finalizado o processo de conquista, a província foi integrada ao Império, dividida em três partes, administrativamente:
  • Tarraconense, ao norte e nordeste, até os Pirineus;
  • Bética, ao sul; e
  • Lusitânia, com capital em Emerita Augusta (atual Mérida), que se estendia entre os rios Douro e Guadiana.
Nesse artigo, descreveremos apenas a região da Lusitânia, pois que foi dela que, no que se refere à etnia e geograficamente, originou-se o povo e o país de Portugal. Entretanto, é bom que se frise, ao longo da história da Península Ibérica muitas novas e diferentes divisões ainda ocorrerriam antes da completa definição dos países que hoje a compõem.

A LUSITÂNIA
Lusitânia (em latim Lusitania) é o nome dado, na Antiguidade, ao território onde viveram os lusitanos. O nome passou a designar, após a conquista romana, uma província da Hispânia Ulterior.
O historiador e geógrafo grego Estrabão (entre 63 AC e 24 DC) descreveu a Lusitânia pré-romana, numa primeira análise, como indo desde o Tejo à costa cantábrica, tendo a Ocidente o Atlântico e a Oriente as terras de tribos célticas. Quando em 29 AC foi criada por Augusto a província Lusitânia, o limite ao norte passou a ser o rio Douro e ao sul ultrapassou o Tejo, anexando a Extremadura espanhola, Alentejo e Algarve; e a oriente ocupou parte das terras dos célticos.
Apesar de as fronteiras da Lusitânia não coincidirem perfeitamente com as de Portugal de hoje, os povos que aqui habitaram são uma das bases etnológicas dos portugueses do centro e sul e também dos extremenhos da Extremadura espanhola.
Muitos dos povos antigos que entraram na Península Ibérica deixaram no território da Lusitânia vestígios bem marcados dos contactos comerciais e de influência cultural. Nomeadamente e perfeitamente acentuados e reveladores de uma assimilação mais profunda, são os vestígios da ocupação romana e também os das invasões dos visigodos e dos árabes.
Viriato foi o grande líder lusitano que conseguiu conter a expansão romana durante alguns anos, fazendo com que fosse dos últimos territórios a resistir à ocupação romana da Península Ibérica. Não obstante, seria morto à traição (140 AC) por três companheiros de armas comprados pelos romanos. A partir daí, a romanização do território que viria a ser português prosseguiu sem maiores dificuldades para Roma.
Os Romanos deixaram um importante legado cultural naquilo que é hoje Portugal, nos costumes, na arte, na arquitetura, na rede viária e nas pontes, algumas das quais servem até aos nossos dias, como a de Trajano sobre o rio Tâmega em Chaves (Aquae Flaviae) ou a de Vila Formosa (Alter do Chão). Uma variante do Latim (Latim Vulgar) passou a ser o idioma dominante da região. Surgiram novas cidades e desenvolveram-se outras, segundo o modelo habitual de colonização romana. Em 74 DC o imperador Vespasiano concedeu o "direito latino" (equiparação aos municípios da Itália) a grande parte dos municípios da Lusitânia, datando dessa época um importante surto urbano. Difundiu-se também a cidadania romana, que viria a ser atribuída a todos os súditos (livres) do império pela chamada Constituição Antoniniana, ou édito de Caracala (212 DC). Durante o Império Romano o Cristianismo difundiu-se em toda a Hispânia, pelo menos a partir do século III.