Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

BREVE HISTÓRIA DAS ORIGENS DE PORTUGAL - PARTE III (Última)

CONDADO DE PORTUCALE
Vímara Peres foi um fidalgo galego nascido em 820 e morto em 873, Cristão da Reconquista, cavaleiro e senhor da guerra, enviado por D.Afonso III, das Astúrias, ao vale do rio Douro, com a incumbência de expulsar dali os mouros, da linha natural cujo domínio os asturo-leoneses consideravam fundamental para a sua defesa. A ele se ficou a dever, entre outras coisas, o repovoamento cristâo das terras de entre Douro e Minho. Ajudado pelos cavaleiros cristãos da regiâo, conquistou Portucale aos mouros no ano de 868.
Nesse mesmo ano, de 868, receberia Vímara Peres (figura ao lado) o título de Conde de Portucale, dando assim início a uma dinastia condal que duraria até ao ano de 1071. Já nessa época o território designava-se Terra Portugalense. Pouco a pouco foram alargadas as fronteiras do território, que confinava com outros territórios (Braga, Lamego, Viseu, Terras da Feira e Coimbra). Entre as suas obras consta ainda a da fundação de um pequeno burgo fortificado, junto de Braga, a que deu o nome de Vimaranis - que então significava "terras de Vímara" - e haveria de se transformar na cidade de Guimarães e berço de Portugal.
A reconquista permitiu também a restauração diocesana, tendo os bispos de Portucale sido instalados numa pequena povoação chamada Magneto (a qual os especialistas fazem corresponder com a actual Meinedo, no conselho de Lousada).
Na segunda metade do século XI, reconstituiu-se, ao sul, o condado de Coimbra (que incluía não só a cidade do Mondego, como ainda as terras de Lamego, Viseu e Feira), sendo entregue ao conde Sesnando Davides, um moçárabe do rei Fernando I de Leão e Castela, que conquistara definitivamente a cidade em 1064 (este condado viria, mais tarde, a ser incorporado ao Portucalense).

CONDADO PORTUCALENSE
A ambição de Afonso VI de Leão e Castela, auto-denominado Imperador de toda a Hispânia, reconstituiu novamente a unidade dos Estados paternos e, quando Garcia morreu, em 1091, os territórios do Reino da Galiza, em sua posse, passaram, por mérito, às mãos do Cruzado Conde Raimundo de Borgonha, casado com D. Urraca, filha de Afonso VI. A partir daí, as chamadas terras de Portucale passam a ser um Condado (Condado Portucalense) dependente do Reino da Galiza, que por sua vez prestava vassalagem a Afonso VI de Leão e Castela. Nessas alturas, o vigor das investidas Almorávidas recomendava a distribuição dos poderes militares, para melhor reforçar o território. Assim, foram criados um comando na zona central, entregue ao próprio rei Afonso VI; outro, não oficial, exercido por El Cid em Valência, e o terceiro, no ocidente, entregue a Raimundo de Borgonha. Este último não conseguiu defender eficazmente a linha do Tejo — tendo já perdido Lisboa, que fora cedida aos Leoneses pelo reino Taifa de Badajoz, juntamente com Santarém, que estava também prestes a cair nas mãos dos Almorávidas.
Alguns anos mais tarde, em 1096, descontente com as políticas bélicas de Raimundo, Afonso VI entrega o governo do Condado Portucalense ao primo de Raimundo, Rei da Galiza, o Conde D. Henrique de Borgonha, casado com sua outra filha, D. Teresa, passando assim a ser Conde de Portucale. Na prática, o Condado Portucalense deixava de ser dependente do Reino de Galiza, para prestar vassalagem directamente ao Reino de Leão e Castela, o que provocou um grande descontentamento entre a nobreza galega. O conde D. Henrique, apoiado pelos interesses políticos clunicenses, introduz-se ambiciosamente na política do Reino, conquistando poder junto das cortes. Vendo-se na condição de subordinados ao rei, os condes ou governadores tinham amplos poderes administrativos, judiciais e militares, e o seu pensamento orientava-se, naturalmente, para a aquisição de uma completa autonomia quando, no caso português, as condições lhe eram propícias. Deste condado, nasceria o Reino de Portugal.
A fim de aumentar a população e valorizar o seu território, D. Henrique deu foral e fez vila (fundou uma povoação nova) em várias terras, entre elas Guimarães, na qual fez vila de burgueses, atraindo ali, com várias regalias, muitos francos seus compatriotas.
Em Guimarães fixou D. Henrique a sua habitação, em paços próprios, dentro do castelo que ali fora edificado no século anterior. Falecido o conde D. Henrique (1112), passa a viúva deste D. Teresa, a governar o condado durante a menoridade do seu filho Afonso Henriques.

INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL
Inicialmente, o pensamento de D. Teresa foi idêntico ao do seu marido: fortalecer a vida portucalense e conseguir a independência para o condado. Em 1121 intitula-se «Rainha», mas os conflitos com o alto clero e sobretudo a intimidade com Fernão Peres, fidalgo galego a quem entregara o governo dos distritos do Porto e Coimbra, trouxeram-lhe a revolta dos Portucalenses e do próprio filho, sistematicamente afastados, por estranhos, da gerência dos negócios públicos. D. Teresa planeja então uma união com a poderosa família galega dos Trava, unindo assim novamente o Condado Portucalense ao Reino de Galiza e inviabilizando toda e qualquer aspiração portuguesa à independência.
Aos catorze anos de idade (1125), o jovem Afonso Henriques, com o apoio da nobreza portuguesa, arma-se a si próprio cavaleiro – segundo o costume dos reis – tornando-se assim guerreiro independente. A posição de favoritismo em relação aos nobres galegos e a indiferença para com os fidalgos e eclesiásticos portucalenses por parte de sua mãe, D. Teresa, originou a sua revolta, sob chefia do seu filho, D. Afonso Henriques (figura acima).
Em 24 de junho de 1128, trava-se a Batalha de São Mamede (Guimarães) entre os partidários do infante Afonso e os de sua mãe. Esta é vencida e expulsa da terra que dirigira durante 15 anos. D. Afonso Henriques toma conta do condado, declarando-o reino independente, como neto de Afonso VI e dele vai fazer o Reino de Portugal.
Lutando contra os cristãos de Leão e Castela e os muçulmanos, Afonso Henriques conseguiu uma importante vitória contra os Mouros na Batalha de Ourique, em 1139, e declarou a independência. Continuou, entretanto, a luta contra as forças de Afonso VII de Leão e Castela (inconformado com a perda das terras portuguesas, pois, à semelhança de seu pai, Afonso VI, ele também se intitulava Imperador), enquanto, paralelamente, travava lutas contra os muçulmanos.
Em 1139, após uma estrondosa vitória na Batalha de Ourique, contra um forte contingente mouro, D. Afonso Henriques afirma-se como Rei de Portugal, aclamado pelos chefes portugueses. Nascia assim, o Reino de Portugal e sua primeira dinastia, com o rei Afonso I de Borgonha (Afonso Henriques). Somente a 5 de outubro de 1143 é reconhecida a independência de Portugal pelo rei Afonso VII de Leão e Castela, no Tratado de Zamora, assinando-se a paz definitiva. Desde então, D. Afonso Henriques procurou consolidar a independência por si declarada. Fez importantes doações à Igreja e fundou diversos Conventos. Dirigiu-se ao Papa Inocêncio II e declarou Portugal tributário da Santa Sé, tendo reclamado para a nova monarquia a protecção pontifícia. Em 1179 o Papa Alexandre III, através da Bula Manifestis Probatum, reconhece a existência de Portugal como país independente e vassalo da Igreja Católica Apostólica Romana.
Na continuação de suas conquistas, buscou também por terras ao sul, até então povoadas por Mouros e, após ver malograda a primeira tentativa de conquistar Lisboa em 1142, conseguiu o seu intento em 24 de Outubro do mesmo ano (a figura acima mostra D. Afonso I durante o sítio de Lisboa), após conquistar Santarém, no dia 15 de Março, com o auxílio de uma poderosa esquadra de 160 navios e um contingente de cerca de 13 mil cruzados que se dirigiam para a Terra Santa.
Em 1492, com a conquista do reino de Granada, a Reconquista chegava ao fim. Já os reinos da Galiza, Leão, Castela, Navarra e Aragão iniciavam uma relativa unificação ao possuir um único rei (embora mantendo a autonomia econômica, administrativa e comercial), que posteriormente recebeu o nome de reino de Espanha. Juntamente com o reino independente de Portugal, debatiam-se estes dois estados pelas conquistas marítimas. Ainda com o apoio da Igreja, ambos os reis estavam agora de olhos voltados para o Norte de África, nas praças comerciais de renome, como Ceuta e Tânger, sob o pretexto da cristianização. Caminhava-se, paralelamente, para a fase inicial dos Descobrimentos.
Nesse ponto da história encerramos o nosso artigo, que tem como objetivo único, apresentar as origens de Portugual como país, etnia e língua. Nele, foram apenas apresentados os fatos, sem nos determos nas suas causas e nas suas consquências, nem tampouco imprimindo qualquer forma de interpretação. Era importante, para o autor da pesquisa, mostrar a forma como Portugal se originou da mesma Península Ibérica da qual se originou a Espanha, indicar os povos que compuseram a sua etnia final, bastante complexa e, finalmente, apresentar as influências que sofreu na formação final da sua língua portuguesa. Com humildade esperamos ter atingido esse objetivo, que consideramos de alguma importância como descendentes que somos daquele povo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

BREVE HISTÓRIA DAS ORIGENS DE PORTUGAL - PARTE I

Pois, de repente, enquanto eu realizava uma pesquisa para descobrir as origens do nome da minha família paterna, Azambuja, sabendo que nascera em Portugal, comecei a meditar sobre as origens do país que acabou descobrindo este nosso Brasil. O que mais aguçava a minha curiosidade era conhecer as razões pelas quais Portugal e Espanha, repartindo a antiga Península Ibérica e falando línguas tão semelhantes, não constituíam um só país. Espero que esse artigo possa ajudar os leitores a entender as razões que fizeram de Portugal o que ele é hoje, principalmente no que se refere ao seu espaço físico, língua e etnia. Para que se tenha o quadro completo, a figura que segue mostra, à esquerda, a Península Ibérica nos dias atuais, com a localização de Portugal e Espanha, no contexto da Europa e limitando-se com a África, através do Estrito de Gibraltar. 
Dada a extensão do artigo, que foi de todas as formas reduzido, sem prejudicar a essência do que pretende o autor esclarecer, faremos a sua publicação em  três capítulos, dos quais este é o primeiro. Mas vamos à história.

BEM NO INÍCIO
Pensa-se que a Península Ibérica foi habitada, primordialmente, por povos autóctones – oriundo da própria terra onde se encontra, sem resultar de imigração ou importação - que vieram a ser conhecidos como Iberos. Entre eles estão os Tartessos, considerados pelos gregos como a primeira civilização do Ocidente.
Cerca de 1.000 AC, mas provavelmente ainda antes, a região passou a ser habitada por povos Indo-Europeus, de origem Celta que coexistiram com os povos Iberos, habitando regiões distintas da Península Ibérica. Na zona Leste da meseta Central, os povos Celtas mesclaram-se com os povos Iberos dando origem aos Celtiberos, que não se devem confundir com os Celtas Ibéricos (Celtas da Península Ibérica) que em Inglês se denominam de Celtiberians. Em vista disso, vários povos habitavam a Península Ibérica, divididos em três ramos étnico-culturais primordiais: Os Celtas Indo-Europeus, os Iberos de origem desconhecida e os Celtiberos que viviam na Meseta Central. Influências mínimas exerceram os Gregos e os Fenícios-Cartagineses com as suas pequenas colônias-feitorias comerciais costeiras semi-permanentes de grande importância estratégica. Estes últimos dois povos não contribuiram virtualmente para a ascendência dos povos da Península.

ROMANIZAÇÃO
Cartago é uma antiga cidade, originariamente uma colônia fenícia no norte da África, situada a leste do lago de Túnis, perto do centro de Túnis, na Tunísia. A figura ao lado mostra um mapa do Mar Mediterrâneo Ocidental, no ano 279 AC, indicando as posições relativas de Roma, Cartago (Cartagine) no Norte da África e da Ilha da Sicília (Siracusa), bem como da Península Ibérica.
Fundada por colonizadores fenícios de Tiro, que a substituiu no ocidente, foi uma potência na Antigüidade, disputando com Roma o controle do mar Mediterrâneo. Dessa disputa originaram-se as três Guerras Púnicas, após as quais Cartago foi destruída. A antiga capital púnica é hoje um bairro de Túnis e uma estação arqueológica e turística importante, tendo sido classificado patrimônio mundial pela UNESCO em 1979 (abaixo, ruínas de Cartago).
Entre os séculos V e III AC Cartago envolveu-se em freqüentes hostilidades com a Grécia e a Sicília. Foi nesta última que Cartago teve seu primeiro choque com Roma. A meio caminho entre estas duas antigas cidades e capitais de império encontra-se a Sicília. O controle desta ilha foi determinante no decorrer das Guerras Púnicas porque a Sicília era o "celeiro" do mundo antigo.
A invasão romana da península Ibérica iniciou-se no contexto da Segunda Guerra Púnica (218 AC-201 AC), quando as legiões romanas, sob o comando do cônsul Cneio Cornélio Cipião, para ali se movimentaram taticamente, a fim de atacar pela retaguarda os domínios de Cartago na região. De facto, a influência cartaginesa na península Ibérica permitia um expressivo reforço, tanto de suprimentos quanto de homens, a Cartago. A estratégia do Senado Romano visava, desse modo, enfraquecer as forças cartaginesas, afastando os seus exércitos da Península Itálica.
Vários combates cruentos foram travados entre Roma e Cartago, com altos e baixos até o ano de 205 AC quando, apesar de todos os seus esforços, Aníbal foi obrigado a pedir paz aos romanos comandados por Cipião, o Africano e Roma tornou-se a senhora de todo o sul da Hispânia, dos Pirineus a Algarve, na costa e, no interior, de Huesca ao sul até o rio Ebro; a partir daí iniciou-se a administração romana da península, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, doravante integradas ao território controlado pela República.
Ao final da Terceira Guerra Púnica, Cartago foi finalmente destruída por Cipião Emiliano, em 146 AC, sendo arrasada até os seus alicerces e seu solo salgado para que nele nada mais crescesse, tal o ódio que se havia criado entre as duas nações.

A RESISTÊNCIA
A derrota dos cartagineses, entretanto, não garantiu a ocupação pacífica da península, pelos romanos. A partir de 194 AC, registraram-se choques com tribos de nativos, denominados genericamente como Lusitanos, conflitos que se estenderam até 138 a.C., denominados por alguns autores como guerra lusitana. A disputa foi mais acesa pelos territórios mais prósperos, especialmente na região da atual Andaluzia.
Ao se iniciar a fase imperial romana, a pacificação de Augusto também se fez sentir na península Ibérica: a partir de 19 AC, as suas legiões ocuparam a região norte peninsular, mais inóspita. Com esta ocupação, asseguravam-se as fronteiras naturais e pacificava-se essa região mais atrasada, de modo a que não constituísse ameaça para as populações do vale do rio Ebro e da chamada Meseta, já em plena fase de Romanização.
Na península Ibérica a Romanização ocorreu concomitantemente com a conquista, tendo progredido desde a costa mediterrânica até ao interior e à costa do Oceano Atlântico. Para esse processo de aculturação foram determinantes a expansão do latim e a fundação de inúmeras cidades, tendo como agentes, em princípio, os legionários e os comerciantes.
Os primeiros, ao se miscigenarem com as populações nativas, constituíam famílias, fixando os seus usos e costumes, ao passo que os segundos iam condicionando a vida econômica, em termos de produção e consumo. Embora não se tenha constituído uma sociedade homogênea na península, durante os seis séculos de romanização registraram-se momentos de desenvolvimento mais ou menos acentuado, atenuando, sem dúvida, as diferenças étnicas do primitivo povoamento.
A língua latina acabou por se impor como língua oficial, funcionando como factor de ligação e de comunicação entre os vários povos. As povoações, até aí predominantemente nas montanhas, passaram a surgir nos vales ou planícies, habitando casas de tijolo cobertas com telhas. Como exemplo de cidades que surgiram com os Romanos, temos Braga (Bracara Augusta), Beja (Pax Julia), Conímbriga e Chaves (Aquae Flaviae).
A indústria desenvolveu-se, sobretudo a olaria, as minas, a tecelagem, as pedreiras, o que ajudou a desenvolver também o comércio, surgindo feiras e mercados, com a circulação da moeda e apoiado numa extensa rede viária (as famosas "calçadas romanas", de que ainda há muitos vestígios no presente) que ligava os principais centros de todo o Império. A influência romana fez-se sentir também na religião e nas manifestações artísticas. Tratou-se, pois, de uma influência profunda, sobretudo a sul, zona primeiramente conquistada. Finalizado o processo de conquista, a província foi integrada ao Império, dividida em três partes, administrativamente:
  • Tarraconense, ao norte e nordeste, até os Pirineus;
  • Bética, ao sul; e
  • Lusitânia, com capital em Emerita Augusta (atual Mérida), que se estendia entre os rios Douro e Guadiana.
Nesse artigo, descreveremos apenas a região da Lusitânia, pois que foi dela que, no que se refere à etnia e geograficamente, originou-se o povo e o país de Portugal. Entretanto, é bom que se frise, ao longo da história da Península Ibérica muitas novas e diferentes divisões ainda ocorrerriam antes da completa definição dos países que hoje a compõem.

A LUSITÂNIA
Lusitânia (em latim Lusitania) é o nome dado, na Antiguidade, ao território onde viveram os lusitanos. O nome passou a designar, após a conquista romana, uma província da Hispânia Ulterior.
O historiador e geógrafo grego Estrabão (entre 63 AC e 24 DC) descreveu a Lusitânia pré-romana, numa primeira análise, como indo desde o Tejo à costa cantábrica, tendo a Ocidente o Atlântico e a Oriente as terras de tribos célticas. Quando em 29 AC foi criada por Augusto a província Lusitânia, o limite ao norte passou a ser o rio Douro e ao sul ultrapassou o Tejo, anexando a Extremadura espanhola, Alentejo e Algarve; e a oriente ocupou parte das terras dos célticos.
Apesar de as fronteiras da Lusitânia não coincidirem perfeitamente com as de Portugal de hoje, os povos que aqui habitaram são uma das bases etnológicas dos portugueses do centro e sul e também dos extremenhos da Extremadura espanhola.
Muitos dos povos antigos que entraram na Península Ibérica deixaram no território da Lusitânia vestígios bem marcados dos contactos comerciais e de influência cultural. Nomeadamente e perfeitamente acentuados e reveladores de uma assimilação mais profunda, são os vestígios da ocupação romana e também os das invasões dos visigodos e dos árabes.
Viriato foi o grande líder lusitano que conseguiu conter a expansão romana durante alguns anos, fazendo com que fosse dos últimos territórios a resistir à ocupação romana da Península Ibérica. Não obstante, seria morto à traição (140 AC) por três companheiros de armas comprados pelos romanos. A partir daí, a romanização do território que viria a ser português prosseguiu sem maiores dificuldades para Roma.
Os Romanos deixaram um importante legado cultural naquilo que é hoje Portugal, nos costumes, na arte, na arquitetura, na rede viária e nas pontes, algumas das quais servem até aos nossos dias, como a de Trajano sobre o rio Tâmega em Chaves (Aquae Flaviae) ou a de Vila Formosa (Alter do Chão). Uma variante do Latim (Latim Vulgar) passou a ser o idioma dominante da região. Surgiram novas cidades e desenvolveram-se outras, segundo o modelo habitual de colonização romana. Em 74 DC o imperador Vespasiano concedeu o "direito latino" (equiparação aos municípios da Itália) a grande parte dos municípios da Lusitânia, datando dessa época um importante surto urbano. Difundiu-se também a cidadania romana, que viria a ser atribuída a todos os súditos (livres) do império pela chamada Constituição Antoniniana, ou édito de Caracala (212 DC). Durante o Império Romano o Cristianismo difundiu-se em toda a Hispânia, pelo menos a partir do século III.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

THE NETHERLANDS OU HOLLAND?

Há poucos dias atrás, comentando sobre a questão “Pequim ou Beijing?” e motivado por aquela discussão, lembrei-me de ter ouvido e freqüentemente ainda ouvir, muitas vezes, pessoas – incluindo autoridades - usarem indiscriminadamente as palavras “Holanda” e “The Netherlands” (em português, Países Baixos). E lembrei-me também do meu amigo Gilberto Valente Canali, que havia feito, logo após ter-se formado em Engenharia Civil, um curso em Delft, “The Netherlands”, casualmente localizada na região de “Holland”, e resolvi realizar uma pequena pesquisa para esclarecer o assunto. Vamos lá...
Netherlands é o país europeu, parte do "Reino das Netherlands", que consiste das Netherlands, propriamente ditas, das Antilhas das Netherlands e Aruba, no Caribe. As Netherlands são uma monarquia constitucional democrática parlamentar, localizada na Europa Ocidental. Faz fronteira com o Mar do Norte, ao norte e oeste, com a Bélgica, ao sul e com a Alemanha a leste. É, portanto, o País. A figura abaixo mostra as Netherlands (em vermelho) e sua relação com a Europa.





A Holanda (em língua inglesa e dutch, Holland) é uma região na parte ocidental das Netherlands. Uma importante potência marítima e econômica no século XVII, a Holanda hoje é constituída pelas províncias Holanda do Norte e Holanda do Sul (“dutch provinces”) e é, portanto uma parte das Netherlands. Por falar em “Dutch”, é oportuno lembrar que essa palavra é usada para se referir às pessoas, à língua e à qualquer coisa nativa das Netherlands (em dutch, Nederland); em conseqüência, é absurdo dizer “fulano é holandês”, a “língua holandesa” etc…, mas deveria ser dito “fulano é dutch”, a “língua dutch” etc.. Consequentemente, quando referindo-se às “Netherlands”, como um todo, o adjetivo a ser empregado é “Dutch”. Tal termo não pode ser usado para “Holanda” em um contexto moderno, porque ele se refere a toda Netherlands e não apenas à Holanda. A figura que segue mostra a Holanda (em laranja) dentro das Netherlands.
Com relação à língua falada nas Netherlands, é interessante registrar que tanto o “dutch” como o “frisian” são línguas oficiais daquele país.





As Netherlands são, muitas vezes, chamadas de Holanda, o que é, portanto, formalmente incorreto, uma vez que a Holanda do Norte e a Holanda do Sul são meramente duas de suas doze províncias. Esse exemplo de “pars pro toto” ou sinédoque é bem similar à tendência que existe em se referir ao Reino Unido como “Inglaterra”.
O nome Holland (tanto em inglês, quanto em dutch) apareceu documentado, pela primeira vez, em 866 AD, para caracterizar a região ao redor de Haarlem e, por volta de 1064, era usada para indicar o nome de todo o distrito. Nessa época os habitantes de Holland referiam-se a si próprios como “Hollanders”; Hoje em dia, esse termo refere-se, especificamente, ao povo das provícias de North Holland e South Holland. Portanto, estritamente falando, o termo “Hollanders” não se refere ao povo de toda as “Netherlands”, embora, coloquialmente, Hollanders (holandeses) seja muitas vezes e erradamente usado nesse contexto mais amplo.





A palavra Holland é derivada do termo “dutch” holtland (que significa “terra florestada”). Essa variação de escrita permaneceu em uso até mais ou menos o século XIV em cuja época o termo estabilizou-se como Holland. Popular, mas incorreta, a etimologia sustenta que Holland é derivada de hol land (“terra côncava”) e foi inspirada pela geografia de terras baixas predominantes na Holanda. Em contrapartida, a palavra “dutch” Nederland, significa terras baixas ou inferiores” e, essa sim, tem a sua razão de ser.
Como a maioria sabe, as Netherlands é, geograficamente, um país de terras baixas, com 60% de sua população vivendo abaixo do nível do mar. Áreas significativas do país foram obtidas através de aterro marítimo e preservadas através de um elaborado sistema de diques e “polderes”. Não é à toa que grandes e renomados centros de hidráulica surgiram exatamente naquele país e têm, por tanto tempo, atraído estudiosos de todo o mundo em busca de novos e eficientes conhecimentos nessa área.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

PEQUIM OU BEIJING?

Durante as Olimpíadas na China (das quais participei, como telespectador, até muito discretamente), chamou-me à atenção o fato de alguns canais de televisão, pelo menos, utilizarem o logo “Beijing 2008”. Há muitos anos que conheço as palavras Pequim e Beijing e penso que também já soube, um dia, que ambas se referiam à mesma cidade. Entretanto, com o evento e pela forma como o logo foi apresentado, sem maiores explicações, minha curiosidade foi aguçada e resolvi fazer uma pequena busca para melhor entender a questão.
Para começo de conversa, é muito importante que se alerte para o fato de que estamos escrevendo em português e, portanto, a grafia usada para as duas palavras acima, argumento do nosso comentário, é a grafia portuguesa, visto que em outras línguas elas, naturalmente, serão escritas diferentemente.
As duas palavras, Beijing e Pequim, referem-se à mesma metrópole localizada ao norte da China e sua atual capital ou, se preferirem, da República Popular da China (RPC), anteriormente conhecida, em inglês, por Peking. Pequim (Beijing) é uma das quatro municipalidades da RPC, que são equivalentes a províncias na estrutura administrativa daquele país. Pequim (Beijing) é uma das Quatro Grandes Antigas Capitais da China e limita-se com a Municipalidade de Hebei ao norte, oeste, sul e leste, e com a Municipalidade de Tianjin a sudeste. É a segunda maior cidade da China, apenas perdendo para Shanghai, constituindo-se num importante centro de transportes, com dezenas de estradas de ferro e para automóveis que a atravessam; é também o ponto focal de muitos vôos internacionais para o país. Pequim (Beijing) é reconhecido como o centro político, educacional e cultural da China, ao passo que Shangai e Hong Kong predominam no campo econômico. Como todos devem saber, presentemente, a cidade hospedou os Jogos Olímpicos de 2008.
Pequim (Beijing) significa “a capital do norte”, seguindo a tradição comum da Ásia Oriental pela qual as cidades capitais são explicitamente assim nomeadas. Por exemplo, Nanjing, na própria China, significa “a capital do sul”, Tokio no Japão e Hanói no Vietnam significam “capital do leste”, ao passo que Kioto no Japão e Seul na Korea significam, simplesmente, “capital”.
A cidade mudou de nome várias vezes. Durante a Dinastia Jin, a cidade era conhecida como Zhongdu e mais tarde, sob a Dinastia Mongol Yuan, como Dadu em chinês e Khanbaliq em mongol (registrado como Cambuluc por Marco Polo). Duas vezes na história da cidade, o nome foi mudado de Pequim (Beijing) para Peiping (Beiping), literalmente significando “Paz do Norte”, primeiramente, sob o imperador Hongwu, da Dinastia Ming e, posteriormente, em 1928, com o governo Kuomintang (KMT) da República da China; em ambas as ocasiões o nome removeu o elemento que significa “capital” (jing ou king) para indicar que a capital nacional havia sido transferida para Nanjing. Além disso, duas outras vezes a cidade mudou de Peiping (Beiping) para Pequim (Beijing); a primeira vez ocorreu quando o Imperador Yongle, da Dinastia Ming, moveu a capital de volta para Pequim (Beijing) e, novamente, em 1949, quando o Partido Comunista da China restaurou Pequim como a capital da China, após a fundação da República Popular da China. Finalmente, Yanjing é e tem sido outro popular e informal nome para Pequim (Beijing), uma referência ao antigo Estado de Yan, que existiu durante a Dinastia Zhou.





Entretanto, essas várias alterações do nome da cidade nada têm a ver com o motivo principal do nosso artigo, que refere-se à dúvida “Pequim ou Beijing?”.
Neste caso, não houve uma troca de nome, ilustra o Professor Cláudio Moreno, como no caso de Sião para Tailândia, ou de São Petersburgo para Leningrado, e de Leningrado de novo para São Petersburgo - casos em que existe uma pressão natural que nos leva a adotar a nova denominação. O que houve, neste caso, foi apenas uma troca de sistema de transcrição, o que termina sendo pouca coisa além de uma troca na grafia (já que a pronúncia é variável nas diferentes regiões da vasta China continental).
Pequim (em inglês Peking) é o nome da cidade de acordo com o sistema de Romanização do Mapa Postal Chinês e o tradicional nome costumeiramente usado para a cidade, em inglês (os passaportes emitidos pela Embaixada Inglesa ainda são impressos como sendo emitidos pela “British Embassy, Peking”. O termo “Peking” teve origem com os missionários franceses há quatrocentos anos atrás e corresponde a uma pronúncia mais antiga que antecede uma subseqüente mudança de som no Mandarim e que ainda é usado em muitas línguas. O sistema acima mencionado, de romanização para nomes de locais chineses, entrou em uso ao final da Dinastia Qing e foi oficialmente sancionado pela “Imperial Postal Joint Session Conference”, que teve lugar em Shanghai, na primavera de 1906. Este sistema de romanização foi retido após a queda da Dinastia Qing, em 1912, e uma vez que ficou em uso no atlas postal oficial da República da China, ele permaneceu como a forma mais comum de dar nome a locais chineses no ocidente (para cartógrafos, por exemplo) por uma grande parte do século XX. Com o estabelecimento da República Popular da China, o sistema tem sido gradualmente substituído pelo Pinyin, que é agora quase que universalmente aceito.


Explica o Professor Cláudio Moreno que o governo da China, pretendendo uniformizar as transliterações que o Ocidente faz de seus nomes, desenvolveu e divulgou o sistema PINYIN, que regula a transcrição fonética da língua chinesa para o alfabeto romano. Basicamente, esse sistema transformou a palavra Peking (em inglês) ou Pequim (em português) em Beijing. Ainda, segundo o Professor Moreno, "é útil e necessária a honorável iniciativa das veneráveis autoridades chinesas; a adoção desse sistema trará, finalmente, a serenidade aos leitores que, como eu, se sobressaltam a cada nova grafia do célebre presidente Mao (Mao Tse-Tung, Mao Tsetung, agora Mao Zedong) ou do não menos famoso Chiang Kai-Shek (Chang Kai-Chek, Tchang Kai Chek, parece que agora Jiang Jieshi)".
Ao final de tudo, me parece importante transcrever as idéias do professor Cláudio Moreno, quanto aos aspectos práticos da medida governamental chinesa. Diz ele:

“Para nós, os chineses da capital vivem em Pequim, mesmo que eles gritem todos juntos que vivem em Beijing. Nossos antepassados lusitanos entraram na China no século XVI; como herança deles, falamos uma língua que conhece o nome Pequim há quase 500 anos. Aliás, no início havia também algumas divergências quanto à sua pronúncia, mas sob outro enfoque: Fernão Mendes Pinto, o extraordinário escritor-viajante, fala, no capítulo CV da Peregrinação, desta ‘cidade que nós chamamos Paquim, a quem os seus naturais chamam Pequim’. Portugal manteve intenso intercâmbio com a China, enviando embaixadores, missionários, aventureiros, comerciantes e militares (não necessariamente nessa ordem) ao império dos "chins", como diziam, acabando por estabelecer uma base em Macau, até recentemente sob domínio ocidental. Por tudo isso, nosso idioma se acostumou a nomes como Pequim, Cantão e Nanquim, além de suas derivações: falamos da cozinha cantonesa, da tinta nanquim, do cachorro pequinês (aquele pequeno cãozinho doméstico de focinho achatado). Assim vivemos felizes por meio milênio, e não vamos trocar tudo isso apenas por causa de uma lei chinesa. Isso não significa, porém, que vamos abandonar os nomes já enraizados em nosso léxico. Para entender por que afirmo isso, basta comparar, no quadro abaixo, o nome tradicional com a nova versão PINYIN:

Cantão – Guangzhou
Xangai - Shanghai
Pequim – Beijing
Nanquim – Nanjing
Hong-Kong – Xianggang

É sabido que as leis ortográficas de um país não costumam ter repercussão nas outras línguas. Quando nós oficializamos a grafia Brasil, os países de língua inglesa continuaram a usar Brazil, a forma consagrada durante nosso regime imperial, enquanto a França, alheia a tudo, sempre usou alegremente o seu Brésil. Por isso, mesmo que um bilhão de chineses não concordem, devemos manter o Pequim do Português, da mesma forma que se mantiveram Pékin (Fr.), Pechino (It.), Pekín (Esp.) e Peking (Al.). Só os jornais de língua inglesa se apressaram em aderir à novidade; talvez, em nome da globalização, nossa imprensa pudesse adotar o hábito educativo de incluir, entre parênteses, o nome reformulado: Pequim (Beijing).” Isso explicaria a difusão fácil do logo Beijing, pelas televisões, durante os últimos Jogos Olímpicos.

Gostaria de concluir registrando que comungo com a opinião do Professor Moreno e até acho que ele foi mesmo muito ponderado em suas opiniões (ponderação é uma característica das pessoas cultas e experientes). Fico imaginando quão complicado poderia ser para nós, brasileiros, sairmos pelo mundo a fora, a ensinar a pronúncia correta de palavras tão brasileiras que nem mesmo nós conseguimos às vezes pronunciar - o que fará escrever e explicar -, a estrangeiros que mal conhecem seus próprios problemas muitas vezes insolúveis. E, reciprocamente, ficar escutando (entre incontáveis outros exemplos) porque os “welsh” chamam sua nação de Wales quando nós a chamamos de País de Gales, quando temos dentro da nossa casa assuntos muito mais importantes para resolver e nem de perto o conseguimos.