Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

domingo, 23 de junho de 2013

BREVE HISTÓRIA DO IMPÉRIO ROMANO - PARTE 7

IV.4.4 – O Segundo Triunvirato

Otaviano do Segundo Triunvirato
O segundo triunvirato foi estabelecido em 43 AC, ainda durante a vigência da República Romana, entre Marco Antônio, Otaviano e Lépido, prolongando-se até 33 AC. Menos tácito do que o Primeiro, este Triunvirato, foi uma aliança política formal, pela qual dividiam, oficialmente, o território romano, cada uma ficando com uma parte sob a sua jurisdição. Com o nome oficial de “Triunviros para a Organização do Povo”, o triunvirato foi legislado pela Lex Titia e aprovado pela Assembleia do Povo, conferindo poderes universais aos três homens por um período de cinco anos.
Caio Júlio César Otaviano Augusto (em latim Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus) nasceu patrício, em 63 AC, e morreu em 14 DC, como o primeiro imperador romano. Atia, sua mãe, era sobrinha de Júlio César que, orgulhando-se do sobrinho-neto, adotou-o politicamente. Quando César foi assassinado, Otaviano encontrava-se na Ilíria, servindo ao exército. Ao retornar à Itália, foi informado de que era o herdeiro adotivo de César. O testamento de César prometia a distribuição de terras à plebe e aos veteranos de guerra. Além disso, continha o nome do seu sucessor, seu sobrinho-neto Otaviano, pois tendo o Senado permitido a Júlio César utilizar o título imperator antes de seu próprio nome e sendo este título hereditário, Otaviano foi a Roma reivindicar sua herança com o nome de Imperator Caesar Caius Otavianus. O jovem Otaviano organizou legiões e entrou para o senado como pretor.
Marco Antonio, Segundo Triunvirato
Marco Antônio (em latim: Marcus Antonius), nascido patrício em Roma, em 83 AC, e morto em Alexandria, no Egito, em 30 AC, foi um célebre militar e político romano da fase final da República. Sua mãe, Julia Cesaris (conhecida como Júlia Antônia), era prima de Júlio César. Importantíssima foi a sua participação no cerco de Alésia, o último capítulo da conquista romana da Gallia. Durante quatro dias, o exército de César lutou em duas frentes, com Marco Antônio comandando várias legiões. No segundo ataque gaulês, realizado durante a noite, os homens de Antônio quase cederam, sendo salvos pela chegada de reforços. No dia seguinte, o chefe gaulês, Vercingetórix, à frente de 60 mil guerreiros, lançou seu derradeiro e desesperado ataque. Durante a luta, César e Antônio podiam ser vistos cavalgando de um lado para o outro das linhas romanas, incentivando os legionários e providenciando reforços. Quando a batalha terminou, com a rendição de Vercingetórix, Marco Antônio recebia todas as honras militares por sua destacada conduta na luta. A essa altura, na invejável condição de principal general de César, ao final de 51 AC, Marco Antônio tornara-se famoso, rico (graças aos despojos da guerra gaulesa) e homem de confiança de César, pronto para enveredar pelas estradas da política, rumo ao poder. Com o retorno de Otaviano a Roma, Antônio alia-se ao general Marcus Aemilius Lepidus, governador da Gallia.
Lépido, membro do Segundo Triunvirato
Marcus Aemilius Lepidus (Lépido), político romano, viveu entre 90 e 12 AC. Exercia a função de pretor em 49 AC, quando Júlio César, com seu apoio, foi proclamado ditador. Em 46 AC, foi eleito cônsul. Após a morte de Júlio César, apoiou Marco Antônio, que o designou para o cargo de Sumo Sacerdote (pontifex maximus) e o indicou para governar a Gália Narbonense. Quando, derrotado durante a guerra com o Senado, Antônio retirou-se para a Gália, Lépido acolheu-o e juntou-se a ele, sendo declarado inimigo público pelos senadores. Ao lado de Antônio marchou com seu exército para a península Itálica, onde se encontrou com as forças de Otávio e selaram a paz entre os três. Por proposição de Lépido, definiram a partilha do poder entre os três, ao final de 43 AC, num acordo que ficaria conhecido como o Segundo Triunvirato, para governar as províncias romanas e vingar a morte do tio, caçando todos os conspiradores da morte de Júlio César.
A constituição do segundo triunvirato e a atribuição de poderes excepcionais a Antônio, Otaviano e Lépido justificou-se no período de crise sem precedentes que se seguiu ao assassinato de Júlio César. A primeira ação dos triúnviros foi a de eliminar todos os homens que conspiraram contra César - Cícero uma das vítimas – e perseguir Brutus e Cássio que se haviam refugiado na Grécia: trezentos senadores e dois mil cavaleiros, oponentes dos triúnviros, foram proscritos e caçados até a morte; além disso, numerosas propriedades foram confiscadas.
Cerca de 40 AC o território romano foi dividido entre os três senadores. Otaviano assumiu a maior parte das províncias ocidentais; Marco Antônio ficou com a parte oriental da república e as províncias do Oriente Médio; e Lépido, com a África. Marco Antônio e Otávio, que disputavam o controle da Itália, resolveram suas diferenças e, para selar o acordo, no ano 37 AC, o segundo entregou sua irmã Otávia em matrimônio ao primeiro. Inaugurou-se, então, uma era de paz com a renovação do triunvirato por mais cinco anos.
Restava a ameaça de Sexto Pompeu, filho de Pompeu e o último opositor importante do triunvirato. Quando Sexto Pompeu refugiou-se na Lacetânia (nordeste da Hispânia) e, a partir de lá, reuniu tropas e derrotou Caio Asínio Polião, em Cartagena, Lépido, então governador da Hispânia, fez com ele um acordo para que Sexto Pompeu recuperasse as terras de seu pai. Tal acordo fora aprovado por Marco Antônio, por amizade a Lépido e hostilidade a Otaviano. Com uma esquadra fornecida por Antônio, Otávio derrotou e executou Sexto Pompeu - então estabelecido na Sicília e na Sardenha - em Nauloque, na Sicília, em 36 AC. Lépido havia invadido a Sicília, para combater Sexto, e ao fim da luta pretendeu conservá-la sob seu controle. Porém, Otávio apresentou-se na ilha e, obtendo a deserção das tropas de Lépido, acusou-o de traição, afastando-o do triunvirato. Desprovido de poder, Lépido contentou-se com o cargo de Sumo Pontífice, que exerceu até sua morte.
Entrementes, Marco Antônio devolve Otávia a Roma e desposa Cleópatra, então rainha do Egito. Com o reconhecimento de Cesarion (Ptolomeu XV) - filho de Cleópatra e César -, como seu co-dirigente, Marco Antônio passa a ameaçar a posição de Otaviano como único sucessor de César e a guerra entre ambos torna-se inevitável.
Otaviano consolida sua situação, pacifica a Ilíria e contribui para a prosperidade romana, com o desenvolvimento da agricultura. Usa as campanhas orientais de Antônio como pretexto para proclamar a traição do adversário e sua intenção de formar um reino independente de Roma. Esta declara guerra ao Egito e Otaviano é nomeado cônsul para combater Antônio e Cleópatra, cujos exércitos são vencidos na batalha de Áccio em 31 AC. Com a derrota, o território egípcio foi incorporado a Roma e no ano seguinte Marco Antônio e Cleópatra suicidam-se e Cesarion é assassinado. Em 29 AC, Otaviano retorna triunfalmente a Roma, como Senhor único do poder e recebe, com o nome de Augusto (posteriormente, Caesar Augustus), em 27 AC, os poderes repartidos até então, entre os magistrados, dando início ao Império Romano.

V – O IMPÉRIO ROMANO

Para simplificar o entendimento da matéria, diremos que o regime denominado “Império Romano” foi constituído por quatro distintas fases que ficarão, ao longo da jornada, perfeitamente claras: o “Principado”, o “Dominato”, o “Império Ocidental” e o “Império Oriental”.

V.1 – O Principado Romano

O Principado é a fase convencionada pelos historiadores para designar a primeira fase do Império Romano, desde 27 AC, quando o senado investiu Otaviano - o futuro Augusto - no poder supremo com a denominação de príncipe ou princeps (“primeiro” em latim), até 285 DC, quando iniciou-se o dominato por Diocleciano, mais próximo de uma monarquia absoluta. Durante esse período, a verdadeira natureza do regime permaneceu oculta atrás de conceitos republicanos e os imperadores eram muitas vezes relutantes, por falsa modéstia, em assumir-se como tal. O governo autocrático do imperador era ainda escrupulosamente mascarado por formas e convenções herdadas do período político da República Romana sob o lema Senatus Populusque Romanus ou SPQR.
O principado apresentava facetas diversas em Roma e nas províncias. Em Roma, era uma monarquia atenuada, pois o príncipe era apenas o primeiro cidadão, que respeitava as instituições políticas da república. Nas províncias imperiais, era uma verdadeira monarquia absoluta, porque o princeps, lá, possuía poderes discricionários. Mas o principado, como regime de transição da república à monarquia absoluta, encaminhou-se, paulatinamente, para o absolutismo.
Já em 29 AC, Otaviano recebera o poder de imperium vitalício, com o controle sobre todas as legiões romanas. Além de receber o título de “Augusto” (que acabou confundindo-se com o seu próprio nome) e “Princeps” em 27 AC, Otaviano foi também elevado a pontifex maximus em 12 AC, embora tenha recusado outros títulos, como a ditadura, temendo ter a mesma sorte de Júlio César; daí ter proposto esta nova forma de governo, o principado, que lhe dava o poder, mas mantinha a forma tradicional da república romana, que manteve até a sua morte em 14 DC. Na prática, detinha um poder absoluto!
O título, por extenso, Princeps Senatus /Princeps Civitaris (primeiro dos senadores, primeiro dos cidadãos), foi primeiramente adotado por Otaviano que decidiu não introduzir uma monarquia legal. O principal objetivo era restabelecer a estabilidade política perdida, desesperadamente necessária depois de exaustivas guerras civis, por meio de um regime ditatorial, de fato, dentro da estrutura constitucional da República Romana, como uma alternativa ao odiado predecessor Reino de Roma.
Imperador Augustus
Em face das peculiaridades que apresentou o principado, há controvérsia entre os autores modernos sobre a real natureza desse regime, mas tal discussão extrapola o escopo desta publicação e a deixaremos de lado.)
A obra de Augusto foi imensa, na paz como na guerra. Os quarenta anos do principado de Augusto marcaram uma das épocas mais brilhantes da história romana e descrever com detalhe todas as suas realizações – e haveria muito a contar -, novamente me desviaria do principal assunto desta postagem. Gostaria apenas de citar alguns fatos de sua época, para bem localizar o leitor em sua época, sem dúvida uma das mais brilhantes da história de Roma.
Virgilio, autor da "Eneida"
Por exemplo, sua foi também a época das figuras mais proeminentes do mundo romano no domínio da poesia, literatura, arquitetura e história; lembremos alguns de seus protegidos: Vergilius (Virgílio), Titus Livius (Tito Livio), Marcus Vitruvius Pollio (Vitrúvio), Quintus Horatius Flaccus (Horácio) e Publius Ovidius Naso (Ovídio). Além disso, fundou bibliotecas públicas e a literatura latina, primitivamente influenciada pelos gregos, adquiriu independência e tornou-se uma das mais brilhantes do mundo ocidental. Realizou um governo de ordem e hierarquia, lutando contra a decadência dos costumes, reorganizou a administração e as forças armadas, tornando-as permanentes e fixando-as nas fronteiras e criou organismos governamentais que facilitaram o censo e a cobrança de impostos e o aumento da centralização. Construiu o fórum de Augusto, no campo de Marte ergueu as primeiras termas, o Panteão de Roma e outros templos. Realizou expedições militares vitoriosas em várias partes do mundo e foi em sua época que a Judeia foi anexada; entretanto, sua campanha na Germânia fracassou.
Ovidio, autor de "Metamorfoses"
Escritores antigos e modernos discordam quanto à importância de Augusto. Alguns condenaram sua cruel luta pelo poder. Outros, dentre os quais se inclui o fiel partidário da república, Tácito (Publius Gaius Cornelius Tacitus), reconhecem suas boas ações como dirigente. Às vezes, pesquisadores atuais criticam seus métodos pouco escrupulosos e seu estilo autoritário, mas normalmente reconhecem suas realizações no estabelecimento de uma administração eficiente e um governo estável, bem como na obtenção de segurança e prosperidade para o Império Romano.
Augusto casou-se três vezes. Sua terceira esposa foi Lívia Drusilla, que já tinha dois filhos, Tibério e Druso, de um matrimônio anterior. Augusto, por sua vez, tinha uma filha, Júlia, também de um matrimônio anterior. Sua tentativa de conseguir um grande sucessor fracassou, pois seu sobrinho Marcelo morreu jovem. Agripa, cujo casamento com sua filha Júlia ele tinha forçado, morreu em 12 AC. Os filhos menores de Agripa morreram em 2 e 4 da era cristã. Druso e Júlia também faleceram. Restava Tibério. Adotando-o, Augusto deu-lhe participação cada dia mais ativa nos negócios do Estado. A partir de 13 DC, Tibério tinha poderes quase iguais aos do imperador. Quando Augusto morreu, em Nola, na Campânia, no ano 14 DC, já era o enteado quem de fato governava Roma.
O Panteão Romano

V.1.1 – Imperadores do Principado

Alguns historiadores, como Tácito, sugeriram que teria sido possível o retorno ao sistema republicano após a morte de Augusto, não permitindo a Tibério a acumulação dos mesmos poderes anteriores, o que não aconteceu. Os primeiros sucessores de Augusto retomaram a ficção de um governo em nome do senado e do povo romano enquanto continuaram a concentrar mais poder pessoal: as palavras "Imperator" e "Augusto" tornaram-se títulos dos imperadores.
A República Romana continuou com os seus magistrados, mas nomeados pelo imperador em vez de eleitos. O senado, composto por membros também escolhidos pelos mesmos imperadores, confirmava os títulos dos novos imperadores, que amiúde vinham das suas fileiras, e concediam a apoteose (elevação de alguém ao estatuto de divindade) aos "bons" imperadores, que se tornavam objeto de culto oficial. Inversamente, o Senado condenava os imperadores odiados ao esquecimento, declarando a sua damnatio memoriae (“danação da memória”, com o sentido de remover da memória)
O principado atingiu o seu apogeu sob os impérios de Trajano e Adriano, que permaneceram como era dourada onde reinava a paz e a prosperidade, a famosa Pax Romana. O fim do principado aconteceu com a chamada “crise do terceiro século” e o advento do dominato, de Diocleciano.
Ao longo do principado, os seus vários imperadores foram distribuídos por dinastias. Pelo menos três fatos surpreendem, de imediato, qualquer leitor menos avisado. O primeiro deles é a enorme quantidade de imperadores que governou durante o principado – e de modo geral ao longo de todo o império -, indicando curtos períodos de mando. O segundo é a existência de um grande número de nomes completamente desconhecidos dos nossos cursos de história, o que poderia indicar absoluta falta de documentação sobre esses personagens, mas que não parece plausível, dado o conhecimento de amplo material em épocas bem anteriores ao principado; o que nos deixa com a alternativa de que tais desconhecidos, tão pouco realizaram por Roma que a própria história encarregou-se de coloca-los no ostracismo. Surpreende também o número de imperadores que morreu de morte não natural, em geral assassinado por “amigos” (mas também por esposa), parentes ou, pelo menos, por relações que lhes eram próximas; o que nos leva a pensar sobre as imensas vantagens oferecidas ao posto mais alto da hierarquia do poder romano, de modo a justificar os esforços dispendidos (a própria vida) que, na maioria das vezes, não puderam ser gozadas.
Eu pretendia, neste ponto, introduzir uma relação dos Imperadores Romanos, que mostrou-se, entretanto, muito mais longa do que eu supunha, se formos incluir todos os que foram, historicamente, aceitos como tal. Em vista disto, desisti da minha ideia original, para não tornar o artigo por demais cansativo à maioria dos meus leitores. Entretanto, para não privar, aos que possuem um interesse maior no assunto, do conhecimento dessa grande relação, publicarei esta “Lista dos Imperadores Romanos” como Anexo ao artigo, através de “links” que os conduzirão diretamente a ela. A lista será subdividida em duas partes: Imperadores do Principado, inicialmente e, posteriormente, Imperadores do Dominato. É importante mencionar que esta lista inclui os imperadores romanos de todos os períodos do Império, até o seu final, com o Império do Oriente, apresentando sempre uma curta nota sobre cada um deles.
Imperador Nero
Até para manter a tradição, Nero é o primeiro dos imperadores do Principado que merece um registro especial, não pelas suas loucas mazelas, brevemente relatadas na lista dos imperadores, mas porque foi durante o seu tempo de governo que aconteceu o grande incêndio de Roma. Tal evento teve início na noite de 18 de julho do ano 64 DC e prolongou-se por nove dias até ser totalmente controlado, afetando 10 das 14 zonas da antiga cidade de Roma, três das quais foram completamente destruídas.
Existem várias versões sobre a causa do incêndio, a mais contada sendo a de que o povo que habitava construções de madeira, usando o fogo para aquecer-se e alimentar-se, por descuido teria permitido que o fogo perdesse o controle; os fortes ventos reinantes encarregaram-se de alastrar o fogo por toda a cidade. Outra versão famosa, desmentida pelos historiadores, é de que o imperador Nero teria ordenado o incêndio com o propósito de reconstruir a cidade de acordo com um novo e majestoso projeto arquitetônico. Há ainda a versão, também insustentável, concebida por romancistas pósteros que, atribuindo ao imperador a condição de demente, pretenderia que ele provocara o incêndio para inspirar-se, poeticamente, e poder produzir um poema, como Homero, ao descrever o incêndio de Troia. O fato de que, posteriormente, Nero teria usado seus agentes para adquirir, a preço vil, terrenos nas imediações de seu palácio, tornou-o suspeito, junto ao povo, como responsável pelo sinistro. Não se sabe exatamente o momento em que os cristãos passaram a ser acusados pelo incêndio, mas uma vez que a tese de "incêndio criminoso" se disseminara, poderia ter sido uma manobra de Nero transformar os cristãos em "bodes expiatórios", pelo fato de serem mal vistos em Roma, assim desviando as suspeitas de sua própria pessoa. Consequentemente, os cristãos foram ferozmente perseguidos por Nero e hoje a Igreja Católica celebra a memória desses "Santos Protomártires" no dia 30 de Junho. Entre os mais ilustres deles, encontram-se São Pedro, que foi crucificado de cabeça para baixo no circo de Nero, atual Basílica de São Pedro, e São Paulo que foi decapitado junto da estrada de Roma para Óstia.
O último ano do reinado de Nero foi caracterizado por um clima de terror e medo em que Roma e o senado foram submetidos ao poder do imperador e sofriam com sua paranoia. Em abril de 68, o senador Caio Júlio Víndice, governador da Gália Lugdunense, iniciou uma rebelião, com o objetivo de substituir Nero por Servius Sulpicius Galba, governador da Hispânia Tarraconense. Galba aceitou a proposta e imediatamente marchou para Roma. Em junho do mesmo ano, o senado declarou Nero persona non grata, reconheceu Galba como o novo imperador, aclamando-o na cidade, com suas legiões, e Nero suicidou-se.
Na história romana, o “Ano dos Quatro Imperadores” refere-se ao período aproximado de um ano, entre 68 e 69 D.C., no qual quatro homens sucederam-se como imperadores romanos. Entre junho de 68 D.C. e dezembro de 69 D.C., Roma testemunhou a ascensão e queda de Galba, Otão e Vitélio, e a ascensão final de Vespasiano, fundador da dinastia flaviana. Este período de guerra civil tornou-se emblemático dos distúrbios políticos cíclicos com várias implicações na história do Império Romano.
Com a queda da dinastia Júlio-Claudiana ("Imperadores do Principado"), o principado foi redefinido nos termos formais pelo imperador Vespasiano. A posição de princeps tornou-se uma entidade dentro da mais ampla — formalmente ainda republicana — constituição romana. Enquanto muitas das expectativas políticas e culturais permaneceram, o princeps não mais detinha uma posição ganha com base no mérito, mas permitindo a Vespasiano, e aos futuros imperadores, designar seus sucessores tendo que garantir sua posição mediante anos de sucessos e favores públicos. Sob a dinastia Antonina, foi normal o imperador apontar um general de sucesso e politicamente promissor como sucessor. Nas análises históricas modernas, isto é tratado por muitos autores como uma situação "ideal": o indivíduo mais capaz era promovido à posição de princeps. Segundo o historiador inglês Edward Gibbon, a dinastia Antonina teria sido o mais feliz e produtivo período da história humana, atribuindo o crédito, como fator chave, ao sistema de sucessão. Entretanto, a promoção de indivíduos à posição de princeps, baseada em sua bravura militar, é vista por muitos como tendo contribuído diretamente para a queda do principado, o caos da crise do terceiro século e a ascensão do dominato.
Imperador Nerva
Antes de entrar na “Crise do Terceiro Século”, uma breve referência ao chamado “Período dos Cinco Bons Imperadores” da história de Roma, compreendido entre os anos 96 e 180 DC Durante as administrações imperiais de Nerva (96 a 98), Trajano (98 a 117), Adriano (117 a 138), Antonino Pio (138 a 161) e Marco Aurélio (161 a 180), Roma desfrutou de relativa paz e prosperidade política, militar e econômica, atingindo o seu auge neste período. A prioridade do Império passou a ser, a partir de Adriano, a sua própria manutenção, em detrimento do expansionismo que o havia guiado anteriormente. Estabelecia-se, assim, a famosa Pax Romana.
Um dos fatores apontados como responsáveis por essa boa fase foi o método de sucessão escolhido por tais imperadores: em vez de simplesmente transferirem o poder aos seus descendentes, que não necessariamente possuíam capacidade administrativa para conduzir o Império, este era transmitido a um sucessor notadamente capaz. Foi assim em primeiro lugar com Trajano, que foi adotado e escolhido por Nerva a fim de sucedê-lo (Nerva não tinha filhos).
Imperador Trajano
Essa feliz política de sucessões só foi interrompida quando Marco Aurélio indicou, não o homem mais apto para substituí-lo no cargo após a sua morte (ocorrida em 180), e sim o seu filho, Cómodo, encarado como um dos piores imperadores que Roma teve e responsável pelo início das instabilidades políticas que abalariam o Império Romano.

CARTA À PRESIDENTE

Fugindo totalmente à rotina do meu blog, por não poder fugir à minha responsabilidade de brasileiro e nem  renunciar ao meu patriotismo, eu me uno aos jovens e velhos que têm participado das últimas manifestações populares em todo o país, e interrompo as minhas crônicas para escrever esta pequena carta à Presidente do Brasil.

"Senhora Presidente:
Indignado com a sua aparição, hoje e ontem, nos principais canais da TV brasileira, para dar uma resposta às manifestações recentemente realizadas pela população brasileira, escrevo-lhe estaa minha pequena resposta e do seu teor dou ciência aos meus amigos.
Assistindo à Globo News, hoje pela manhã, vi como é fácil, para um governante que tem o poder nas mãos, enganar o povo brasileiro. Pois a Senhora, Dona Dilma, encheu-se de brios – se é que os possui – e ontem à tarde, no Palácio do Planalto, reuniu-se com meia dúzia dos seus asseclas melhor classificados na arte da redação e da propaganda nazista, já sobejamente demonstrada através da mídia, para escrever um manifesto em que apoia as democráticas demonstrações pacíficas e repele, veementemente, os atos de vandalismo praticados em todo o Brasil, nos últimos dias. A senhora está certa quando diz que as manifestações devem ser realizadas dentro da ordem. Mas a primeira pergunta que me ocorre é a seguinte: essa ideia só é válida no momento em que a senhora é a mandatária suprema da Nação? Quando a senhora era oposição ao regime militar, também protestou dentro da ordem? Ou terá participou de assaltos a bancos e sequestros de embaixadores de outros países, armada de metralhadora? Nada como um dia atrás do outro para a gente pegar as mentiras deslavadas dos incoerentes.
Aí a senhora segue, dizendo todas as mentiras que o povo brasileiro quer ouvir: que todo o dinheiro arrecadado com os “royalties” do petróleo vai ser aplicado no sistema educacional brasileiro; que o sistema de transporte brasileiro vai, daqui para a frente, passar por uma completa reformulação; que vai enviar mensagem ao congresso solicitando total reformulação do sistema tributário brasileiro; etc, etc, etc, ....
Oh, Senhora “Presidenta”, tenho dó!!! A senhora vai, sim, continuar enganando a imensa maioria do povo brasileiro porque a senhora lhe nega o maior instrumento que poderia lhe dar, para saber e entender quando está sendo enganado pela senhora, seus asseclas e a imensa maioria dos atuais políticos brasileiros: a EDUCAÇÃO! Alguém já disse, neste país, que o maior inimigo de um mau governo é uma boa educação! E disso a senhora entende muito bem. É muito fácil apropriar-se dos microfones da atual mídia brasileira e vir despejar o monte de mentiras que a senhora despejou ontem e hoje, sabendo, muito bem, como sempre soube, que jamais vai cumprir sequer um décimo do que disse que fará, pela razão simples e cristalina, de que nunca cumpriu nada do que prometeu nos seus quase três anos de mandato e nos seus mais oito de cúmplice do Lula, quando ele era o primeiro mandatário do País. Minta quanto quiser ao povo, mas não esqueça de que, quem está inda às ruas, neste momento, é a classe média, mais esclarecida e responsável pela grande parcela do montante dos exorbitantes impostos recolhidos pelo seu governo; e essa classe média a senhora não engana com tanta facilidade. Ao povo a senhora está dando bolsas modestas de tudo que é tipo, a título de esmola e com isso o povo se satisfaz; aos ricaços, a senhora está dando, como Lula sempre deu, bolsas Louis Vuitton, célebre fabricante das bolsas de luxo que a senhora certamente usa, da mesma forma que o Lula usava os trajes do Giorgio Armani. E, assim agindo, a senhora compra, da mesma forma que o Lula comprou, o voto dos miseráveis do povo para se eleger e o poder dos verdadeiros donos do país para se manter no poder. Não há a menor dúvida de que é uma estratégia muito bem engendrada!

Se a senhora quisesse ter sido realmente honesta no seu pronunciamento de ontem, teria apoiado as legítimas manifestações que acontecem em todo o Brasil, se solidarizado com as suas reivindicações e feito as promessas – para depois cumprir – que o povo realmente quer ouvir. Por exemplo, a senhora poderia prometer que vai apoiar a queda da PEC–37, que pretende tirar do Ministério Público o direito de investigar crimes de todo tipo no Brasil; poderia prometer que vai apoiar, clara e irrestritamente, a inédita façanha do STF quando condenou todos os que participaram do ignominioso episódio do mensalão, muitos dos quais continuam exercendo cargos públicos; poderia prometer que vai fazer o que estiver ao seu alcance para alterar o artigo, da Lei Geral da COPA, que concede um prêmio/pagamento imediato de R$100.00,00 além de uma aposentadoria no teto máximo permitido a aposentados pelo INSS, a cada jogador e reserva participante das copas mundiais de futebol de 1958, 1962 e 1970, ou seus sucessores, na falta, tão pouco divulgado pela mídia brasileira.
Num pequeno parênteses, o que a senhora tem contra os jogadores brasileiros que venceram as demais Copas do Mundo? Eles não foram tão dignos quanto os primeiros? Esse dinheiro que a senhora vai dar sem qualquer razão para tanto, é seu? Esse dinheiro não é seu, dona Dilma, ele é do povo brasileiro, a quem a senhora votos, agora para a sua reeleição. A senhora poderia prometer que vai investigar o fato de ter gasto em estádios de futebol pelo Brasil afora, a quantia de 30 BILHÕES DE REAIS para a Copa do Mundo de 2014, enquanto que para a realização das últimas três copas do mundo somadas, em três diferentes países, foram consumidos 25 BILHÕES DE REAIS; poderia prometer que vai investigar e se posicionar, agindo da forma que a lei lhe permite, o fato de um congressista ter feito uma lista de adesão para incluir a CACHAÇA na famosa cesta básica brasileira de alimentos; poderia prometer que vai tentar, por todos os meios ao seu alcance, moralizar e tentar erradicar a corrupção que campeia no Congresso Nacional e na equipe do seu governo (a senhora sabe muito bem que pode agir, que tem força e meios para assim agir, como Presidente do Brasil); poderia prometer que vai lutar por uma reforma partidária dentro do país que permita uma política séria e sem “conchavos” e que não vise tão somente a perpetuação do seu partido no governo; poderia prometer que vai lutar por uma reforma séria no sistema tributário do país e não apenas ficar suprimindo, temporariamente, um imposto aqui e outro ali, para que as pessoas possam ficar comprando mais automóveis; poderia prometer que vai lutar para melhorar, e muito, o sistema educacional brasileiro, a segurança da nação, o sistema de saúde do Brasil; poderia prometer o fim dos cartões de créditos corporativos, um acinte à dignidade deste povo sofrido; poderia prometer a extinção desta famigerada “bolsa presídio”, ou seja o nome que se queira dar a mais essa indecência captadora de votos, que pelo menos obrigaria os criminosos a pensar um pouco mais, antes de cometerem seus crimes; poderia também prometer não trazer esses tais médicos do exterior, que todos já sabemos serem da Cuba do ditador mais velho do mundo, como se no Brasil não houvesse médicos capacitados e em quantidade suficiente para atender os brasileiros, num verdadeiro escárnio à medicina e aos médicos nacionais; e por aí afora, apenas para citar alguns dos males que afligem essa multidão que tem ido às ruas com tanta fome de justiça.

A senhora viu, “dona Presidenta”, quanta coisa honesta e sensata há para prometer e realizar para o bem desta nação? Não é necessário vir a público e mentir ao povo brasileiro. Torne-se uma pessoa, uma parte real e concreta desse imenso povo brasileiro, vista, como dizemos muito, a camisa do Brasil. Envergonhe-se do que tem feito e deixado de fazer quando tanto poderia, aja com seriedade e não com oportunismo, e verá como é possível fazer coisas por esse imenso Brasil!
Citei algumas vezes, nesta minha carta, o nome do Lula, seu companheiro de partido, seu cabo eleitoral, seu parceiro, como temos visto em muitas fotos suas. A senhora poderia nos dizer por que ele não aparece agora, como tanto gosta de fazer, para manifestar-se contra as passeatas que acontecem? Ele não era o rei das passeatas, não foi ele que tanto convocou passeatas e greves por esse Brasil afora? Onde ele anda escondido neste momento? Estará com medo de fazer alguma aparição pública e sofrer toda a raiva e repúdio público desse Brasil há tanto tempo calado? Eu fortemente lhe recomendaria mesmo, que, como sua amiga íntima, a senhora lhe aconselhasse a não aparecer, a ficar muito confinado à sua toca, como ele costuma fazer nesses tipos de situação, como fez recentemente, logo após a condenação de todo o seu bando, se pondo então a correr mundo, fazendo e vendendo bem caros discursos escritos por terceiros. Ou como fez quando descoberto o triste episódio do Escritório da Representação do Governo Federal na Avenida Paulista, em São Paulo, patrocinado por sua amante e sob a sua própria responsabilidade, pois que a manteve por lá enquanto as suas trampolinagens permaneciam ocultas.

E para concluir este meu desabafo de uma manhã de sábado, em solidariedade ao povo que tem ido às ruas protestar contra esse completo caos administrativo em que se transformou o Brasil, aproveito para ilustrar o que disse acima, aproveitando as fotos que me foram enviadas pelo meu querido amigo “cabra macho” da Paraíba, José do Patrocínio Tomaz Albuquerque (meu amigo, com um nome desses, eu teria tentado até a Presidência da República, e me corrija se faltou algo), como parte de uma mensagem a vários amigos, em que repudia a incoerência do discurso da Dilma, com relação às ações que endossa como Presidente da Nação, e que me serviu como mais um estímulo para escrever esta pequena e particular manifestação."



domingo, 2 de junho de 2013

BREVE HISTÓRIA DO IMPÉRIO ROMANO - PARTE 6

IV.3.2 - A expansão para o Oriente

O rei da Bitínia[1]  submeteu-se a Roma. O monarca selêucida  da Síria[2], Antíoco III, foi vencido em 189 AC na Magnésia, ao sudoeste da Ásia Menor (ou Anatólia, já comentada anteriormente).
Os romanos conquistaram a Grécia em 146 AC. Os gregos revoltaram-se contra Roma e o cônsul romano Lucius Mummius derrotou-os, incendiando Corinto. A Grécia tornou-se província romana em 129 AC com o nome de Aqueia (ou Acaia). Em seguida, Roma estabeleceu um protetorado romano no Egito. Logo, no ano de 133 AC, Roma obteve como herança, após a morte do rei Attalos III, de Pérgamo[3],  a cobiçada província da Ásia[4]. No mesmo ano, Numância, cidade do curso superior do Douro, já na Península Ibérica, foi conquistada por Cipião Emiliano, neto de Cipião, o Africano, que sitiando seus habitantes pela fome os induziu ao suicídio coletivo.
A partir do final do século II AC, Roma já era o império mais poderoso do mundo, estendendo-se por quatro mil quilômetros, da Hispânia (Península Ibérica) até a Ásia Menor, e dominando uma população estimada em 30 milhões de pessoas.
Com a conquista da Gallia Transalpina[5] , efetivada por Júlio César (52 AC), a Roma republicana transformou-se no maior império que já tinha existido até então, com população estimada em 55 milhões, quase 25% da população mundial.
Durante longos anos estas conquistas foram tratadas apenas como fonte de valiosas pilhagens. Os governos provinciais romanos não eram exatores (fiscalistas), pois a riqueza vinda das províncias conquistadas (junto com os lucros da exploração estatal das minas) permitia suprimir totalmente os impostos diretos aos habitantes da Itália.
Segundo o historiador Keith Hopkins, a população dominada por Roma aumentou de quatro milhões em 225 AC para 60 (sessenta) milhões após a queda da república.

IV.4 - A crise da República Romana

A crise da República Romana refere-se a um longo período, entre 134 e 27 AC, de instabilidade política e social, que culminou com a transformação da República Romana no Império Romano, e teve início quando o senado romano passou a ter seu poder desafiado pelo poderio militar de alguns generais.
A partir de 238 AC, Roma passou a ter províncias, sendo a primeira delas Córsega e Sardenha, seguida pela Sicília, em 241 AC. Além disso, o aumento do território e da duração temporal das guerras de conquista obrigou o senado romano a criar o pro-rogatio, que era a prorrogação do tempo do mandato do proconsul ou do pró-pretor provincial, que era o funcionário da administração central incumbido de governar a nova província. Com isso, a influência e o poder se concentraram nas mãos de alguns generais, o que lhes permitiu desafiar a tradicional classe senatorial.
Um dos melhores exemplos deste tipo de processo foi o general Caius Marius, que mesmo sendo rejeitado pelo senado para comandar a expedição ao norte da África com o intuito de solucionar a guerra contra Jugurta, foi enviado com o aval que a decisão popular lhe deu. Isso ilustra um exemplo de como os generais podiam aliciar militantes a seu favor, mesmo quando o senado decidia contra eles.
Pode-se afirmar que um dos momentos mais críticos da República Romana, até o “primeiro triunvirato”, teria sido a ditadura de Lucius Cornelius Sulla, que chegou a marchar com seu exército sobre Roma. Desde o fim das Guerras Púnicas, o cargo de ditador romano havia sido abolido, por ser considerado perigoso conceder a um único homem tanto poder. Porém, o cargo foi reintroduzido em 81 AC, por Sulla, ao fim da guerra civil com a facção de Caius Marius.
O filósofo e orador Cícero
Foi nessa época turbulenta que floresceu um dos mais importantes filósofos e políticos de toda a história de Roma, Marcus Tullius Cicero, um dos grandes defensores da República, tendo escrito vários tratados políticos e filosóficos. Na verdade, Cicero é figura merecedora de vários livros que, lamentavelmente, não poderão ser sequer relacionados aqui, para que possamos manter o foco em nosso assunto principal.
Além da reimplantação da ditadura em Roma, houve outros motivos para o colapso da República Romana, entre eles, o fracasso dos irmãos Tiberius e Gaius Sempronius Gracchus ao tentar realizar uma reforma agrária, guerras civis e revoltas populares, movimentos separatistas e insurreições de escravos. Devemos também salientar que a estrutura política da República era inadequada ao Império, no sentido de Estado conquistador.

IV.4.1 – O Primeiro Triunvirato
O General Júlio César

O Primeiro Triunvirato (governo de três pessoas) foi uma aliança política informal estabelecida em 59 AC, durante a República Romana, entre os três mais poderosos generais de Roma, Caius (ou Gaius) Iulius Caesar (Júlio César, o favorito da plebe), Cnaeus Pompeius Magnus (Pompeu, que triunfara na Hispânia) e Marcus Licinius Crassus Dives (Crasso, o homem mais rico de Roma), para dividir o governo. A palavra triunvirato origina-se de dois radicais latinos: trium (três) e vir (homem). O Primeiro Triunvirato prolongou-se até 53 AC e, ao contrário do Segundo Triunvirato, este acordo era informal e não continha nenhum valor jurídico. A única transação efetuada foi a de Júlia Cesaris, filha de César, que se tornou mulher de Pompeu num casamento que haveria de se revelar feliz. Como a cada um dos três faltava algo, juntaram esforços para se completarem.
O senador Pompeu
Recém eleito cônsul sênior em 59 AC com a ajuda de Crasso e Pompeu, embora sem histórico político, César foi encarregado da execução das medidas propostas pelos três. Distribuiu terras da Campânia para os soldados de Pompeu; apoiou os partidários de Crasso na expulsão de Cícero, senador inimigo de Crasso e contrário às reformas político-sociais em Roma. Também fez com que as soluções administrativas adotadas por Pompeu em suas conquistas no Oriente fossem confirmadas pela Assembleia Popular. Depois de um ano difícil como cônsul, César recebeu poderes proconsulares para governar as províncias da Gália e Ilíria[6] por cinco anos. Um governo pacífico não se adequava, no entanto, à sua personalidade e César iniciou as Guerras da Gália, conquistando a Gália, partes da Germânia e incursionando às ilhas Britânicas. Para si, garantiu o domínio das Gallias Cisalpina e Transalpina, onde iria buscar glória militar na luta contra as tribos rebeladas e riquezas para pagar seus credores em Roma e sustentar suas ambições políticas. 
Senador Crasso
As Guerras da Gallia duraram quase oito anos, durante os quais Vercingetórix[7], herói gaulês, bravamente resistiu a César, até que preso foi enviado a Roma e posto a definhar no Carcere Mamertino, onde foi finalmente degolado. Toda a Gallia foi então subjugada. Graças às vitórias e pilhagens, Júlio César conquistou a reputação militar, fortuna e glória que lhe faltavam para igualar-se a Crasso e Pompeu.
Pompeu era extremamente popular junto aos cidadãos, devido às suas conquistas militares, mas desprezado pela classe senatorial pela falta de sangue azul da sua família.
Em 55 AC, Pompeu e Crasso foram eleitos cônsules e honraram o acordo estabelecido com César ao prolongarem o pro consulado por mais cinco anos.
Crasso, mau militar, célebre pela luta na Terceira Guerra Servil contra Spartacus[8]  - em realidade aniquilado por Pompeu - e pela fabulosa fortuna que acumulou, mas sem influência política, foi nomeado governador da Síria. Logo após a vitória contra Spartacus, numa entrevista com o general do Império Parta[9], Surena, que o havia vencido em desastrosa campanha na Pérsia, condenada desde o início pela péssima planificação, e com o qual negociaria a sua rendição, foi assassinado em 53 AC.
A Ilíria (amarelo) no Império Romano
No ano 54 AC, Júlia Caesaris morreu em trabalho de parto, deixando pai e marido cobertos de desgosto. Sem Crasso e Júlia, Pompeu aproximou-se da facção conservadora. Ainda durante as guerras Gallicas, César procurou manter o Triunvirato e assegurar a aliança com Pompeu propondo-lhe casamento com uma das sobrinhas, mas este preferiu voltar a casar-se com Cornélia Metela, filha de Cipião Metelo, um dos maiores inimigos de César. Finalmente, após a morte de Crasso, César e Pompeu passaram a disputar o poder.
O Senado, temendo as ambições de César e seu controle absoluto sobre o experiente exército da Gallia, procurou se aproximar de Pompeu, julgado mais cordato aos interesses dos senadores. Pompeu, então considerado o mais ilustre cidadão de Roma desde a morte de Sulla, em 54 AC, exigiu de César o licenciamento do exército e a demissão do governo das Gallias. Em 50 AC, o senado, liderado por Catão[10], ordenou o regresso de César e a desmobilização de todas as suas legiões, ao mesmo tempo em que o proibia de candidatar-se ao segundo cargo de cônsul in absentia (ausente). César sabia que, sem o seu imperium de proconsul e o poder das suas legiões, perderia o seu poder de barganha e seria processado e eliminado da vida política assim que regressasse a Roma. A tradição romana não permitia que um general vitorioso entrasse na cidade acompanhado de seu exército, o que era uma forma de impedir que os militares pudessem sobrepor-se ao poder senatorial, devendo dispersar suas tropas quando se dirigiam para a capital. César recusou-se a obedecer e, em 49 AC, atravessou o rio Rubicão, ao norte da península Itálica, limite de sua jurisdição, dizendo, segundo a lenda, a famosa frase:

“Alea jacta est” (a sorte está lançada)

Quando soube que César havia atravessado o Rubicão com as tropas, Pompeu abandonou Roma. César invadiu a Itália e marchou sobre Roma.
Tempos depois, as tropas de César venceram Pompeu na Batalha de Farsalos; vencido, Pompeu fugiu para o Egito, onde foi assassinado pelos ministros do faraó Ptolomeu XII. César desembarcou no Egito, onde havia uma disputa pelo poder, e recebeu a cabeça de Pompeu, como ato boa de vizinhança, que não aceitou. Conquistou o país e depôs Ptolomeu, colocando em seu lugar Cleópatra[11] (que era irmã do faraó), ao lado de quem permaneceu, por nove meses, antes de deixar o Egito, em 47 AC.
Cleópatra, rainha do Egito.
Em 47 AC, César dominou regiões da Ásia que se mantinham fiéis aos seguidores de Pompeu. Ao vencer a Farnaces II, na Batalha de Zela, anunciou sua fácil vitória com a célebre frase:

“Veni, vidi, vici” (vim, vi e venci)

Na Batalha de Tapso, na África, César derrotou os partidários de Pompeu e foi, por isto, nomeado ditador por dez anos. Na Batalha de Munda, na Hispânia, César derrotou os filhos de Pompeu e foi então nomeado ditador vitalício, pontífice máximo, áugure e Pater Patriae (Pai da Pátria).

IV.4.3 – A Ditadura de Júlio César

Finalmente instaurado no poder, isoladamente, Júlio César reformou o Senado Romano, aumentando o número de senadores de sua orientação política. Além disso, aumentou o número de magistraturas, assentou seus veteranos de guerra em colônias fundadas por ele próprio. Além disso, para obter o apoio popular, César deu parte do espólio das novas conquistas para serem divididas entre os plebeus.
Entretanto, não durou muito a ditadura de Júlio César, pois o grupo que se lhe opunha, acreditando agir em defesa da República, tramou e executou o seu assassinato durante sessão do senado, nas próprias escadarias do edifício, em 44 AC. Entre os seus assassinos encontravam-se dois antigos protegidos: Marco Júnio Bruto (Brutus)[12] e Caio Longino Cássio. César teria caído aos pés de uma estátua de Pompeu e suas últimas palavras seriam descritas em várias versões, das quais a mais célebre teria sido a imortalizada por Shakespeare:

“Et tu Brutus?” ( Até tu, Brutus?)

Logo após o assassinato, o senado extinguiu a ditadura do grupo de magistraturas romanas. Entretanto, Marco Antônio, um dos aliados de César e seu principal general, provocou manifestações populares durante seu funeral, que assustaram os opositores de César. Com isso, mesmo com a morte de César, o senado foi obrigado a ratificar as medidas implementadas pelo ditador e Marco Antônio se tornou um dos mais influentes senadores, dado o seu poder junto ao povo, tendo o senado que aprovar todas as medidas por ele propostas.
Depois da morte de César, uma luta pelo poder rebentou entre o seu sobrinho-neto Otaviano (posteriormente conhecido como Augusto), adotado por seu testamento, e Marco António, que haveria de resultar na queda da República e na fundação do Império Romano.

[1] A Bitínia era um antigo reino situado no que agora é o noroeste da Turquia, estendendo-se para leste de Istambul, ao longo do litoral meridional do Mar Negro.
[2] O Império Selêucida foi um antigo estado grego que existiu após a morte de Alexandre, o Grande da Macedónia, quando seus generais entraram em conflito pela divisão de seu império.
[3] Pérgamo, atual Bergama, é uma antiga cidade grega que situava-se a noroeste da Anatólia, a mais de 20 km do Mar Egeu, numa colina isolada do vale do Rio Caicos.
[4] A província romana da Asia (sem confusões com o continente) foi organizada em 129 AC, governada por um procônsul e posteriormente ampliada, sem chegar a abranger a totalidade da Ásia Menor (ou Anatólia).
[5] Gallia Transalpina era o nome dado pelos romanos ao território que se estendia além dos Alpes, delimitado por estes, pelo Mediterrâneo, pelos Pirineus, pelo Reno e pelo Oceano Atlântico, correspondendo, grosso modo, ao território hoje ocupado pela França. Transalpina para diferenciar aquela região da Gallia Cisalpina, situada antes dos Alpes (da perspectiva romana), entre os Apeninos e a cordilheira alpina, na planície do rio Pó.
[6] A Ilíria (“terra dos livres”, em albanês) é a região mais a noroeste dos Bálcãs. Sua fronteira norte é a Ístria e a sul ela se estende até, aproximadamente, o Lago Scutari. Ao tempo, abrigaria os seguintes atuais países: Sérvia, Montenegro, norte daAlbânia, Bósnia e Herzegovina e Croácia.
[7] Vercingetórix foi o inspirador de Asterix, o herói gaulês das histórias em quadrinhos e do cinema.
[8] Spartacus (em português Espártaco), que viveu cerca de 120 a 70 AC, foi um gladiador de origem trácia, líder da mais célebre revolta de escravos na Roma Antiga, conhecida como "Terceira Guerra Servil", "Guerra dos Escravos" ou "Guerra dos Gladiadores". Espártaco liderou, durante a revolta, um exército rebelde que chegou a somar quase 100 mil ex-escravos.
[9] O Império Parta ou Parto, também conhecido como Império Arsácida, foi uma das principais potências político-culturais iranianas da antiga Pérsia.
[10] Catão (em latim Marcus Porcius Cato Uticensis), que viveu entre 95 e 46 AC, foi um político romano célebre pela sua inflexibilidade e integridade moral, avesso a qualquer tipo de suborno. Opunha-se, particularmente, a César e suicidou-se após a sua vitória na Batalha de Tapso.
[11] Cleópatra Thea Filopator, que teria vivido entre 69 e 30 AC, foi a última rainha egípcia da dinastia de Ptolomeu, general que governou o Egito após a conquista daquele país por Alexandre III da Macedônia. Cleópatra originalmente governou conjuntamente com seu pai, Ptolomeu XII Neos Dionisos, e mais tarde com seus irmãos, Ptolomeu XIII e Ptolomeu XIV, com quem casou-se, por costume egípcio; finalmente quedou-se como governante único. Como faraó, ela consumou uma ligação com Júlio César, com quem teve um filho, Cesário. Posteriormente, envolveu-se também com Marco Antônio, durante o Segundo Triunvirato. Cleópatra foi uma grande negociante, estrategista militar, falava seis idiomas e conhecia filosofia, literatura e arte gregas.
[12] Marcus Junius Brutus, também chamado Quintus Caepio Brutus, que teria vivido entre 85 e 42 AC, foi um político romano e um dos líderes da conspiração que assassinou Julius Caesar. Brutus era filho de Marcus Junius Brutus, o Velho, que fora assassinado por Pompeu e Servília, mais tarde amante de César.


Continua com a PARTE 7

quinta-feira, 9 de maio de 2013

BREVE HISTÓRIA DO IMPÉRIO ROMANO - PARTE 5


IV – A REPÚBLICA ROMANA

A República Romana, do latim res publica (coisa pública), é o termo utilizado, por convenção, para definir o Estado romano e suas províncias, desde o fim do Reino de Roma, em 509 AC, até o estabelecimento do Império Romano em 27 A.C. É desta época o surgimento da expressão Senatus Populesque Romanus (Senado e Povo Romano) ou sua sigla, mundialmente conhecida e ostentada em estandartes e bandeiras romanas, SPQR, que acabou por confundir-se com a República Romana. 
Símbolo da República Romana
Durante o período republicano, Roma transformou-se, de simples cidade-estado, em um grande império voltando-se, inicialmente, para a conquista da península Itálica e, mais tarde, para todo o mundo da orla do mar Mediterrâneo.

IV.1 - As Instituições Políticas da República Romana

Os patrícios organizaram o governo republicano de forma a, simultaneamente, monopolizar o poder político, em relação à plebe, e evitar qualquer tentativa absolutista. As instituições básicas da República eram o Senado, as Magistraturas e a Assembleia Centuriata.
O Senado era o órgão principal de governo, composto pelos patrícios mais ilustres. Conduzia a política interna e externa. Escolhia os magistrados e controlava o tesouro público. Os senadores eram vitalícios, mas não hereditários.
Os magistrados, escolhidos pelo Senado, eram referendados pela Assembleia Centuriata. Eram anuais (não podiam repetir a magistratura), de origem patrícia e nunca em número de apenas um para cada cargo.
Entre as magistraturas, o Consulado era a mais importante, com dois cônsules dotados de iguais poderes: dentro de Roma, o poder civil (potestas); fora de Roma, o poder militar (imperium). Assim, neutralizavam-se mutuamente, não havendo perigo de um deles assumir o poder absoluto. Em caso de crise, interna ou externa, excepcionalmente grave, os cônsules eram substituídos por um dictator (ditador). Na República Romana, o dictator (aquele que dita, sugere, inspira, impõe, prescreve) era um magistrado extraordinário (magistratus extraordinarius), com autoridade absoluta para realizar tarefas que iam além do magistrado ordinário (magistratus ordinarius). A ditadura era, portanto, uma magistratura legal e o ditador mantinha poderes absolutos delegados pelo Senado por um prazo máximo de seis meses, improrrogáveis.
Outros magistrados completavam o quadro das magistraturas: Questores, arrecadadores de impostos; Pretores, incumbidos da justiça civil; Edis, que cuidavam das obras públicas; Pontífices, encarregados das cerimônias religiosas oficiais. Estas magistraturas já existiam em 509 AC. Posteriormente, surgiram os Censores, que faziam o recenseamento da população e vigiavam a moral pública, e os Tribunos da Plebe, representantes da plebe junto ao Senado.
Como seria inevitável, o monopólio do poder, pelos patrícios, acarretou problemas para a plebe: constantes mobilizações para a guerra, impostos elevados, endividamento e escravidão por dívidas. Para os patrícios, a guerra trazia espólios em terras e escravos. E a plebe iniciou as suas reivindicações.
Para forçar os patrícios às concessões, os plebeus realizavam greves e ameaçavam abandonar a cidade, com isso obtendo, paulatinamente, várias concessões: os Tribunos da Plebe, a Lei das Doze Tábuas, que transformava as leis orais em escritas; a Lei Canuleia, que autorizava o casamento interestamental (casamento entre classes sociais diversas), até então proibido; mais tarde, os plebeus obtiveram o direito de ocupar as magistraturas inferiores até chegar ao consulado e à ditadura; a Lei Licínia Sextia proibiu a escravidão por dívidas; a Assembleia da Plebe (Comitium Plebis), enfim, escolhia os tribunos plebeus e discutia decisões senatoriais do interesse da plebe, votando o plebiscito.
As vitórias da plebe deram-lhe, praticamente, a igualdade política junto aos patrícios; mas isso ocorria nos meados do III século AC. Nessa época, os romanos já haviam conquistado toda a Itália e estavam iniciando as Guerras Púnicas (de que falaremos em seguida). Tais conquistas estavam mudando de tal maneira, a economia, a sociedade e a vida política de Roma, que o sentido da vitória política da plebe tornou-se praticamente nulo.
Como a expansão territorial provocou profundas transformações na vida econômica, social e política de Roma, costuma-se dividir esse período em duas fases: a primeira, que se estende até o século III AC, identificada com a conquista da península Itálica; e a segunda, que corresponde à formação do poderoso império mediterrâneo.

IV.2 – Conquista da Península Itálica

Durante a monarquia romana, Roma havia imposto o seu domínio no Lácio, conquistando Alba Longa e estendendo o seu território até a foz do rio Tibre.
No início do século V AC, o objetivo fundamental da aristocracia romana era manter sua hegemonia na região do Lácio, o que preocupava as cidades etruscas. Depois da queda da supremacia dos etruscos na península Itálica, em fins do período monárquico e início da República, aproximadamente 30 aldeias e tribos latinas, que ficavam próximas de Roma, formaram contra ela uma confederação, denominada Liga Latina, para fazer frente às suas pretensões expansionistas e assegurar sua mútua defesa.
Em 493 AC, na Batalha do Lago Regilo, Roma celebrou tratado de paz (denominado Foedus Cassianum, tratado de Cassio, em referência a Espurius Cassius, cônsul da República Romana no momento da assinatura do tratado) com a Liga, sem deixar claro se os latinos aceitavam Roma como mais um de seus membros ou se o tratado foi firmado entre ambos em pé de igualdade. Por ele, Roma e a Liga compartilhariam a pilhagem de suas conquistas militares (o que foi, mais tarde, um dos motivos para a Guerra Latina de 341 a 338 AC). O Tratado Também estabelecia que qualquer campanha militar conjunta seria comandada por generais romanos.
No entanto, pouco a pouco, foi-se afirmando a supremacia de Roma até que esta, em 338 AC, ao final da Guerra Latina, rompeu o tratado e dissolveu a Liga Latina. O território de algumas das cidades que a integravam foi incorporado a Roma, que as organizou sob a forma de tribos rurais. Com outras cidades foram firmados tratados (foedera), pelos quais, embora essas cidades mantivessem sua autonomia administrativa, não possuíam o direito de declarar guerra ou fazer paz (ius belli et pacis). Outras cidades mais próximas também foram incorporadas e organizadas em forma de tribos. Assim, além das quatro tribos urbanas criadas por Servius Tullius ao final do período monárquico, surgiram várias outras tribos rurais, perfazendo trinta e uma ao final do século III AC e atingindo o número final de trinta e cinco que não mais se alterou; novas tribos eram incorporadas a uma das 35 tribos já existentes.
De 327 a 290 AC, Roma guerreou três vezes contra os Samnitas[1] pelo domínio da fértil região da Campania. Na terceira guerra, os romanos enfrentaram e venceram uma coligação de samnitas, galos, etruscos e latinos, derrotaram-nos e acabaram com a independência samnita, passando a dominar totalmente o centro da península itálica. A maior parte dos samnitas acabou se aliando aos romanos.
Posteriormente, Roma controlou o norte da Etrúria, cujos domínios compreendiam a Itália central e parte da Itália setentrional. Quando a supremacia romana se estendeu ao Sul da Itália, algumas cidades gregas, como Nápoles, aliaram-se a Roma, enquanto outras, como a rica Tarento, próspera na indústria e comércio, declararam-lhe guerra. 
Efígie do Rei Pirro
Para conquistar essa região, os romanos atacaram Tarento, que pediu ajuda a Pirro, rei do Épiro (região da atual Albânia e parte da Grécia, sudoeste da península balcânica) e Macedônia (parte central da atual Península Balcânica, originalmente grega). Pirro chegou à península Itálica, em 280 AC, com um poderoso exército de 25.000 soldados e 20 elefantes de combate e derrotou os romanos em duas oportunidades, em Heracleia e Ásculo[2]. Mais tarde, os romanos reorganizaram suas forças e liquidaram o exército de Pirro durante a Batalha de Benevento. Em 272 AC, o Sul da Itália, incluindo Tarento, rendeu-se a Roma. Assim, toda a península Itálica, exceto o vale do rio Pó, no extremo norte, passou para o domínio romano.
Ao conquistarem uma região italiana, pelo menos um terço do território ocupado era apropriado pelo Estado, transformado em ager publicus (terras públicas) e depois distribuído aos cidadãos romanos, para várias finalidades: instalação de colônias, distribuição de lotes individuais ou ocupação pela aristocracia, que tinha os meios disponíveis para seu aproveitamento.
Graças ao enorme potencial humano e ao vasto império que dominava, Roma havia se convertido numa enorme potência. Sua influência viu-se fortalecida com a fundação de colônias estratégicas na Itália ligadas por uma importante rede de estradas. Estas colônias eram formadas por cidadãos romanos ou por latinos; os primeiros faziam parte do Estado romano, enquanto os demais eram seus aliados, independentes, porém com privilégios.

IV.3 – Expansão Externa

IV.3.1 Guerras Púnicas

A expansão de Roma fora do território da península Itálica teve início com as Guerras Púnicas, contra Cartago, antiga cidade-Estado fenícia[3], localizada no Norte da África, a leste do lago de Túnis, perto do centro de Túnis, na Tunísia.
Comércio dos fenícios e Cartago
 Foi uma potência na Antiguidade, disputando com Roma o controle do mar Mediterrâneo. Com as Guerras Púnicas, começa a fase verdadeiramente histórica de Roma, cujos acontecimentos possuem registros documentados pelo historiador grego Políbio, que conviveu com os protagonistas romanos do conflito.
Os ricos comerciantes cartagineses possuíam diversas colônias na Sicília, Sardenha, Córsega, Malta (ao sul Sicília) e Gozo (ao noroeste de Malta e parte desta república). Mais a oeste, eles tiveram colônias nas ilhas Baleares (a leste da Espanha), cujos nativos tiveram papel importante nas tropas cartaginesas. Na península Ibérica, colonizaram partes de Granada e Andaluzia (no sul da Espanha). Além do estreito de Gibraltar (saída do mar Mediterrâneo para o Atlântico, entre o sul da Espanha e o norte da África), eles conheciam, e talvez colonizaram as ilhas Canárias (costa africana a oeste do Marrocos) e conheciam a costa da África ocidental até o rio Senegal (que nasce na Guiné, penetra no Mali e deságua no Oceano Atlântico, já no Senegal). 
Império de Cartago pré Guerras Púnicas
Os conflitos entre Roma e Cartago iniciaram-se a partir da expansão romana pelo sul da península Itálica. O motivo da guerra foi o choque entre o expansionismo romano e o cartaginês. Quando Roma anexou os portos do Sul da península e os interesses de Nápoles e Tarento (colônias gregas rivais de Cartago) tornaram-se interesses romanos, a guerra passou a ser inevitável. Era quase certo que Roma, como líder dos gregos ocidentais, iria intervir na luta secular entre sicilianos e cartagineses.
A maior parte da ilha da Sicília era habitada por cartagineses, em luta constante com as colônias gregas ali existentes. Os romanos intervieram e uma de suas legiões, com o apoio de Siracusa, ocupou a cidade de Messina (ambas na Sicília). Os cartagineses declararam guerra a Roma[4].
As forças das duas potências eram bastante equilibradas, pois o poderio de ambas era sustentado por uma comunidade de cidadãos e um poderoso exército, fortalecido por aliados em caso de guerra. Nas três Guerras Púnicas (264 a 146 AC), os romanos venceram os cartagineses. Dominaram a Sicília, a Córsega e a Sardenha, além da península Ibérica, totalmente submetida a Roma após a vitória final, em 133 AC. Parte do Norte da África também foi subjugado pelos romanos, a partir da queda e destruição de Cartago, em 146 AC. Todo o Mediterrâneo ocidental passou ao domínio romano. 
As antigas ruínas de Cartago
Ao mesmo tempo em que se envolvia com as guerras púnicas, Roma voltou sua atenção para o Mediterrâneo oriental, onde o império formado por Alexandre, o Grande, havia se desagregado. Filipe V da Macedônia, aliado a Cartago na Segunda Guerra Púnica, apoiou Antíoco III, rei da Síria, contra Ptolomeu V Epifânio, rei do Egito e protegido de Roma. O cônsul Titus Quinctius Flamininus o derrotou na batalha de Cinocéfalo em 197 AC, tornando a Macedônia um protetorado romano. Mais tarde, seu filho, Perseu, reiniciou a luta contra os romanos, na chamada “revolta dos macedônios” e foi derrotado por Lucius Aemilius Paullus Macedonicus (168 AC), sendo então transformada em província romana.

Segue na PARTE 6

[1] Os samnitas eram um povo indo-europeu que se instalou no centro da península itálica, região montanhosa do Samnio, cerca do ano 800 AC.
[2] Apesar de ter derrotado duas vezes os romanos, Pirro sofreu tão pesadas baixas em seus exércitos, que teria exclamado: "Mais uma vitória como esta e fico sem soldados". Daí se originou a expressão: "Vitória de Pirro", para indicar uma batalha ou questão qualquer em que o vencedor perde quase tanto quanto o vencido.
[3] A Fenícia foi uma antiga civilização cujo epicentro se localizava ao norte da antiga Canaã, ao longo das regiões litorâneas dos atuais Líbano, Síria e norte de Israel. A civilização fenícia foi uma cultura comercial marítima empreendedora, que se espalhou por todo o Mediterrâneo, durante o período entre 1500 e 300 AC. Os fenícios realizavam comércio através da galé, um barco movido a velas e remos.
[4] É desta época a famosa frase latina “Delenda Cartago” ou “Delenda est Cartago” – Cartago deve ser destruída -, frequente e persistentemente proferida pelo senador romano Catão, de maneira quase absurda, ao encerramento de seus discursos.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

CHARLES TRENET - MAIS UM HUMILDE RECONHECIMENTO

Da mesma forma que um entreato é preenchido por uma curta melodia que, em geral, quebra o contexto de uma ópera, esta postagem aqui surge para alternar, de um assunto que pode, para alguns, ser um tanto pesado, para algo mais leve e relaxante. Surgiu ela para vir jogar ao lado dos tão pouco reconhecidos compositores de músicas populares, para não entrar no ramo erudito. Vejam se não é verdade.
Alguém já ouviu antes o nome de Charles Trenet? Quem sabe qual foi o autor de “La Mer”? Que canção é essa, “La Mer”? E que tal então "Beyond the Sea"? Nada ainda? Pois é, canta-se, assobia-se uma melodia, em francês, em inglês, por mais de 70 anos sem saber quem foi o gênio responsável por sua criação e sem nada saber desse gênio. É apenas por essa razão que, de vez em quando, ouvindo uma música conhecida, resolvo pesquisar e escrever sobre ela, na tentativa de "dar a Cesar o que é de Cesar", propagando um pouco mais da criatura e do criador. Então vamos lá, com calma, tentar resgatar um pouquinho dessa formidável criatura que foi Charles Trenet e suas criações. Eu recomendo esse artigo aos leitores que apreciam a velha e romântica música e boemia francesas, bem como as coisas simples da vida.
A alma do poeta voou como um anjo de Jean Cocteau, deixando ao mundo uma obra impressionante e variada: perto de 1000 canções, filmes, um punhado de romances, pinturas, uma vida longa, rica, apaixonada e apaixonante, que enriqueceu o século XX, legando à civilização, sobretudo, uma verdadeira filosofia de bondade.
Charles Trenet em pose característica
2013 é o ano em que os franceses comemoram o centenário de nascimento do compatriota Charles Trenet, o inventor da canção moderna, introdutor do suingue e da poesia, o poeta da juventude, da felicidade, da alegria de viver. Entretanto, atrás desta fantasia efervescente e desta máscara de Pierrô iluminado, o homem dissimulava seus abismos íntimos sob o verniz de uma enorme leveza. Assim, mais que qualquer outro, o “Insano Cantante”, como era chamado, também cantava a morte, a solidão, a tristeza, a desolação ou o abandono. “Onde estaria o preço da alegria se nós não a perdêssemos jamais?”, escreveu ele de certa feita.
Louis-Charles-Augustin-Claude Trenet nasceu em Narbonne, em 18 de maio de 1913, filho do tabelião Lucien, um melômano que orientou os filhos no caminho da música, e de Marie Louise. Teve um irmão mais novo, Antoine. A mãe abandonou a família quando Charles tinha 7 anos para seguir o famoso cenarista e diretor de cinema Benno Vigny.
Narbonne, ao sul da França, a cidade que viu nascer Trenet
Narbonne é uma cidade do sudoeste da França na região de Languedoc-Roussillon, a 849 km de Paris, no departamento de Aude, do qual é uma subprefeitura. Está ligada ao Canal du Midi e ao Rio Aude através do Canal de la Robine, que passa pelo centro da cidade. Narbonne foi a primeira colônia romana fora da Itália, estabelecida na Gália em 118 AC.
Em 1922, morando em Perpignan, onde cresceu, Charles é mandado para um internato em Beziers onde muito sofreu psicologicamente. Convalescendo de uma febre tifoide, volta para casa, quando emerge sua sensibilidade artística (modelagem, música e pintura).
Aos 15 anos, vai para Berlin viver com a mãe e o já segundo marido, Benno Vigny, que lhe oferece a possibilidade de frequentar uma escola de arte, onde passa a circular entre as celebridades do cinema alemão.
O jovem Charles Trenet
Em 1930 volta à França e, com a permissão do pai, entra para a "École des Arts Décoratifs". Terminado o curso, trabalha como assistente de direção e assessor nos estúdios cinematográficos franceses, onde conhece Antonin Artaud, Jean Cocteau e Max Jacob, e tem seus primeiros poemas e livros editados.
Benno Vigny volta a Paris com Marie-Louise, para rodar um musical. Para trabalhar na equipe, como compositor das quatro canções que faziam parte do roteiro, Charles se matricula e passa no exame da SACEM (espécie de sindicato francês de músicos, compositores e editores).
Em 1933, conhece um jovem pianista, Johnny Hess, com quem forma o duo "Charles et Johnny". A dupla compõe jingles publicitários para rádio e faz muito sucesso mesclando música francesa tradicional com as tendências modernas. Charles escreve, Johnny compõe. A parceria rende 16 títulos e um contrato com a gravadora Disques Pathé. O duo acaba com a chegada do serviço militar obrigatório para os dois artistas mas, antes de partir, deixam para Jean Sablon gravar uma canção feita em cinco minutos - letra rabiscada num guardanapo de papel -, a obra-prima “Vous qui passez sans me voir”, de 1937, aqui interpretada pelo autor. Para acompanhar a interpretação, com a letra da música e a sua tradução, clicar neste link.
Maurice Chevalier, impressionado com a popularidade de Trenet, decide colocar em seu repertório uma canção que achava "meio sem pé nem cabeça", "Y'a d'la Joie", sucesso estrondoso e imediato nos vaudevilles de Paris.
Em seguida Trenet passa a interpretar suas próprias canções e, para isso, cria um visual original usando sua experiência de artista plástico: aba do chapéu arredondada como uma auréola (para disfarçar o rosto redondo), terno vermelho e sorriso constante, iluminado pelos olho azuis: um showman de primeira qualidade. Ironicamente, entretanto, entre as “palhaçadas” do ato, ele realmente sofria de profundo pânico do palco, que nunca venceu totalmente, mas aprendeu a mascarar mais tarde. Em 1938 compõe e interpreta “Menilmontant”, uma linda canção que evoca um famoso bairro operário de Paris onde, entre outros boêmios, nasceu Edith Piaf e estreou Maurice Chevalier, um de seus primeiros grandes sucessos. A letra original e a tradução podem ser apreciadas neste clicando aqui.
Alistado na Força Aérea Francesa, raspou a cabeça e ostentava um monóculo, atributos que lhe davam uma aparência bizarra e que lhe granjearam o apelido de “O Insano Cantante”.
Durante a segunda guerra mundial, mesmo sendo um homem marcado pelas suas preferências sexuais e pela amizade com artistas judeus, Charles Trenet resolve continuar na França, onde suas canções, verdadeiros hinos à liberdade, são censuradas pelo governo de Vichy. Durante a ocupação nazista, "Douce France" torna-se o hino da Resistência (acompanhe a interpretação de Trenet clicando na letra de Douce France). A imprensa colaboracionista sugere então que o sobrenome Trenet seria um anagrama de Netter e Charles teve que provar que em quatro gerações de sua família não havia nenhum judeu.
Em 1943, Trenet compõe sua obra prima "La Mer", que ficou três anos nas paradas. Trenet escreveu a letra dessa canção em um trem, enquanto viajava pela costa mediterrânea francesa voltando de Paris para Narbonne. Supostamente, a composição demorou 10 minutos para ser finalizada, em papel higiênico fornecido pela SNCF (Société Nationale des Chemins de fer Français; Rede Ferroviária Francesa). Leo Chauliac o ajudou na composição da melodia, que foi originalmente publicado por Raoul Breton. A canção foi primeiramente oferecida à cantora Suzy Solidor, que a rejeitou dizendo que “canções sobre o mar me aparecem umas dez por dia”. Em 1946, Raoul Breton convence Trenet a cantar ele mesmo a composição e, claro, La mer foi sucesso imediato na França, entrando, de uma vez por todas, para o hall de clássicos da chanson française. Para ouvir essa maravilhosa melodia, interpretada em cena para o público, por seu autor Charles Trenet, acompanhado pela orquestra de Raymond Lefèvre, basta clicar em "La Mer" ... e sonhar. A letra original e sua tradução podem ser acompanhadas pelo link letra de La Mer. A canção possui mais de 400 versões nas mais diversas línguas. Uma das principais adaptações é a de Jack Lawrence, intitulada, na língua inglesa, "Beyond the Sea", interpretada notadamente por Bobby Darin (e também por Bing Crosby), em 1960, quando ficou internacionalmente conhecida, já tendo sido utilizada como trilha sonora de diversos filmes. Entre tantos cantores que gravaram essa inesquecível melodia, gostaria de mencionar uma francesa, Mireille Mathieu e um americano, Rod Stewart, embora a gravação original, com o compositor, seja imbatível. É do mesmo ano de 1943, sua linda composição "Que Reste-t il de nos amours", também vertida para o inglês com o título "I Wish You Love", gravada por Nat King Cole, Rod Stewart, The Bachelors, entre outros, e tendo servido de trilha sonora para, pelo menos, dois filmes, um dos quais “Terapia do Amor”. Os leitores podem acompanhar a melodia, interpretada por seu autor, clicando no link da letra correspondente.
Cantor, compositor, letrista de cerca de mil canções, artista plástico, poeta e escritor, Charles Trenet revolucionou a música francesa nos anos 40 com versos inspirados e estética semelhante aos poemas de Paul Éluard e Jacques Prévert. Por sua vez, influenciou compositores e intérpretes que lhe sucederam, como Charles Aznavour, Jacques Brel e Georges Brassens.
Terminada a guerra, Charles Trenet parte para conquistar os Estados Unidos, onde se torna amigo de George Gershwin, Duke Ellington, Louis Armstrong, Chaplin e da dupla "O Gordo e o Magro". E em seguida veio o resto do mundo. Esteve várias vezes no Brasil entre 1947 e 1955, onde sua popularidade era imensa. Em 1952 compôs a maravilhosa valsa “L’âme des poètes”, uma melodia triste, de reminiscências, onde demonstra todo o seu talento de poeta. Acompanhe a interpretação de Trenet com a letra original e sua tradução. Seu sucesso durou até os anos 60, quando a febre do rockn'roll alcançou a França dando lugar a Johnny Holliday, Richard Anthony e Françoise Hardy.
Charles Trenet na década de 50
Em 1963, foi vítima de uma armação, encenada pelo ex-cozinheiro-motorista-secretário que o acusava de recrutar jovens efebos para partcipar de festinhas íntimas. Ficou preso para averiguações por um mês e, depois do julgamento, foi condenado a um ano de prisão e multa de dez mil francos, sendo beneficiado com sursis. Durante a estadia na prisão escreveu uma prece para os prisioneiros e uma canção para o carcereiro.
A longevidade de Trenet foi uma surpresa até mesmo para ele que, pretendendo aposentar-se na década de 1970, fazia um tour de despedida pela França e concordou com o pedido de um concerto de despedida no Canadá; teve uma recepção tão encorajadora que preferiu continuar se apresentando.
Em 1977, a morte da mãe, com quem mantinha forte ligação, o deixou recluso por dez anos. Esta semi-aposentadoria aconteceu numa mansão do sul da França, onde escreveu muitos romances e um livro de memórias: "Mes jeunes années" (Meus anos de juventude).
Trenet na década de 1970
Em 1983, lançado candidato à Academia Francesa, sofreu duplo preconceito: foi impedido por não compor música "inteligente" e por ser homossexual declarado. Mas, como se servisse de compensação, recebeu muitas homenagens, como a Légion d'Honneur e o Grand Prix National des Arts et Lettres.
Retomando à carreira em 1987, lançou, dois anos depois, seu último disco sempre com a mesma temática - infância, alegria e amor - e se engajou na campanha de François Mitterrand e Jack Lang na eleição presidencial francesa de 1988.
Encontrava-se ainda trabalhando na década de 1990, um período em que pelo menos quatro CDs de seus trabalhos foram liberados, incluindo uma coleção “o melhor de” produzida pelo inglês Tony Watts. Aos oitenta anos de idade, ainda apresentava uma entusiástica aparência, um amplo sorriso coberto por escasso cabelo vermelho que o fazia parecer exatamente como o artista de teatro de variedades antigo que ele era.
Aos 85 anos, em julho de 1998, canta no festival de Nyon, na Suíça, para uma plateia de 20 mil pessoas, que faz coro (por conhecer de cor) ao seu repertório legendário. Depois, na Sala Pleyel, em Paris, o público emocionado também aplaude com emoção o ídolo que se movimenta com muita dificuldade, mas canta com o mesmo entusiasmo dos vinte anos. "Quem veio ao meu show está dispensado de ir a meu enterro", teria dito Charles Trenet, pouco antes de morrer, nesta sua última apresentação.
Em abril de 2000, o cantor sofre um acidente cardiovascular, se restabelece e comparece à inauguração do pequeno museu instalado na casa natal, em Narbonne, situada na Avenida Charles Trenet 13, onde objetos, partituras e fotos de seu percurso artístico levam o visitante a conhecer sua vida familiar, evocando em particular a figura da mãe, Marie Louise, que ali viveu muito tempo.
Charles Trenet desejava morrer como um poeta: "Eu quero ir voando", dizia, ao falar da morte. E assim foi: voou em paz, durante o sono, na madrugada do domingo 19 de fevereiro de 2001, na cidade de Créteil, França. Ao saber da sua morte, o presidente da França, Jacques Chirac, declarou: "Trenet era símbolo de uma França sorridente e criativa, figura muito próxima de cada um de nós".