Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

domingo, 24 de abril de 2011

I WILL FOLLOW HIM ou CHARIOT?

Ao aproximar-se o final dos domingos, sempre abateu-se sobre mim – e continua a ocorrer no presente - uma espécie de melancolia, nada grave, que nunca soube identificar. Inicialmente eu a creditava à proximidade de uma nova segunda-feira, com as aulas normais e todas as suas consequências e, posteriormente, às maiores responsabilidades profissionais que então se seguiram. Hoje, numa situação bem mais confortável e tranquila, já sem compromissos formais, essa sensação ainda ocorre, nesses momentos.
Durante o último fim de semana, vivenciando aquela espécie de melancolia, recebi, de uma amiga muito querida, de mil anos atrás, um “clip” maravilhoso que me motivou, formidavelmente, a escrever este “post”.
O “clip” a que me refiro apresenta a Orquestra de André Rieu com seu coral e o Harlem Gospel Choir, apresentando-se no Radio Music City Hall, em New York. Quem nasceu na década de 40 e viveu a sua adolescência nas décadas de 50 e 60, sem uma vez dançar a música “I Will Follow Him” ou “Chariot”, definitivamente não soube o que foi viver aquela época! Eu tive essa felicidade! E sempre fui muito curioso sobre as várias versões que ouvi da mesma melodia, em várias línguas, cantada por vários cantores, incluindo a brasileira Lana Bittencourt, e executada por várias orquestras. Satisfazer a curiosidade dos meus leitores, que conhecem – ou não - e se emocionaram com essa canção, é o principal objetivo deste artigo. Abaixo, o “clip’ de André Rieu, destacando-se que a terceira soprano a se apresentar, em seu lindo vestido rosa-choque, é a nossa brasileira Carla Mafioleti, iniciada aos 7 anos de idade em Porto Alegre, pela soprano brasileira Neyde Thomas. Ela estudou na Holanda, posteriormente, e desde 2002 é parte do conjunto de sopranos da orquestra do violinista André Rieu.
Essa maravilhosa melodia foi composta em 1961 por dois franceses dos quais, certamente, muito poucas pessoas já ouviram falar: J. W. Stole e Del Roma. Entretanto, se mencionarmos os nomes dos grandes Franck Pourcel e Paul Mauriat, poucos dirão não conhece-los. Pois ocorre que J. W. Stole foi o pseudônimo utilizado por Franck Pourcel, da mesma maneira que Del Roma foi o apelido usado por Paul Mauriat na composição conjunta de “Chariot”, melodia letrada, em seu original, por Jacques Plante e orquestrada por Raymond Lefèvre, ambos também franceses. A figura abaixo é a partitura original, para piano, de “Chariot”, composta pelos dois músicos franceses.

Petula Clark na capa que lhe deu o #1 na França
Partitura original de Chariot



















Essa melodia foi imediatamente gravada por Petula Clark, em 1962, em francês, de acordo com a letra original escrita por Jacque Plante, que apresentamos abaixo, para que os leitores possam acompanhar a gravação também original, que apresentamos a seguir. A capa do vinil que atingiu a primeira posição na França e a oitava na Bélgica, aparece acima. Petula Clark ganhou também um Disco de Ouro com sua gravação em italiano, “Sul mio carro”, que alcançou a quarta posição na Itália. Uma sua gravação em inglês, lançada nos EUA, fez muito pouco sucesso.


CHARIOT

Chariot, Chariot
Si tu veux de moi
Pour t'accompagner au bout des jours
Laisse-moi venir près de toi
Sur le grand chariot de bois et de toile

Nous nous en irons
Du côté où l'on verra le jour
Dans les premiers reflets du ciel
Avant la chaleur du soleil
Sous la dernière étoile

La plaine, la plaine, la plaine
N'aura plus de frontière
La terre, la terre, sera notre domaine
Que j'aime, que j'aime,
Ce vieux chariot qui tangue,
Qui tangue, qui tangue

Si tu veux de moi
Pour dormir à ton côté toujours
L'été sous la lune d'argent
L'hiver dans la neige et le vent
Alors dis-le moi, je pars avec toi

La plaine, la plaine, la plaine
N'aura plus de frontière
La terre, la terre, verra notre domaine
Que j'aime, que j'aime,
Ce vieux chariot qui tremble
Qui tremble, qui tremble

Si tu veux de moi
De ma vie et de mon fol amour
Le long des torrents et des bois
Au cœur des dangers et des joies
Alors dis-le moi, je pars avec toi.

No ano seguinte de 1963, uma americana, Little Peggy March, gravou a mesma melodia numa versão adaptada por Arthur Altman, em língua inglesa, criada por Norman Gimbel, com o título “I will follow Him”. Com essa gravação, Little Peggy March, então com 15 anos de idade, tornou-se a mais jovem intérprete feminina a colocar um simples em primeiro lugar no “US billboard”e em todo o mundo. Além dos EUA, essa gravação fez muito sucesso na Austrália, Nova Zelândia, Japão e Escandinávia. Abaixo, a capa do vinil que fez todo esse sucesso.
Little Peggy March, a mais jovem #1 no "billboard"

A letra original, em francês, não tem nada a ver com a sua versão inglesa, a começar pelo título. A primeira é uma canção romântica que transporta a pretendente em um carro (“chariot”), ao encontro do seu amado; a versão em língua inglesa é praticamente um “gospel” que proclama a intérprete como uma seguidora de Deus. Foi impossível encontrar um “clip” da época com a famosa interpretação que a tornou número 1 em todo o mundo. Entre apresentar um “clip” mais moderno e apenas escutar à interpretação original, apreciando a capa do disco que a fez famosa, optamos por esta última e a apresentamos a seguir. E logo a letra da versão em inglês para que o leitor possa bem acompanhar a brilhante gravação.



I WILL FOLLOW HIM

(Du-du-doot, du-du-doot, du-du-doot.)
(Du-du-du-du-du-du-doot, du-du-doot, du-du-doot.)
(Du-du-du-du-du-du-doot...)

Love him, I love him, I love him.
And where he goes I'll follow, I'll follow, I'll follow.

I will follow him.
Follow him wherever he may go.
There isn't an ocean too deep,
A mountain so high it can keep,
Keep me away.

(Du-du-doot, du-du-doot, du-du.)
I must follow him (follow him).
Ever since he touched my hand I knew,
That near him I always must be.
And nothing can keep him from me.
He is my destiny (destiny).

I love him, I love him, I love him,
And where he goes, I'll follow, I'll follow, I'll follow
He'll always be my true love, my true love, my true love,
From now until forever, forever, forever.

I will follow him (follow him).
Follow him wherever he may go
There isn't an ocean too deep,
A mountain so high it can keep,
Keep me away, away from my love

I love him, I love him, I love him,
And where he goes, I'll follow, I'll follow, I'll follow.
He'll always be my true love, my true love, my true love,
From now until forever, forever, forever.

I will follow him (follow him),
Follow him wherever he may go,
There isn't an ocean too deep,
A mountain so high it can keep,
Keep me away, away from my love.

(Du-du-doot, du-du-doot, du-du-doot...)
(And where he goes I'll) follow, I'll follow, I'll follow.
I know I'll always love him, I love him, I love him.
And where he goes I'll follow, I'll follow, I'll follow.
I know I'll always love him...
[baixando ...]




Vários outros intérpretes gravaram essa melodia, incluindo a nossa brasileira Lana Bittencourt, em inglês, e quiçá tenha sido essa a gravação mais cantada e dançada na década de 60, no Brasil, a dessa cantora de tantos outros sucessos à época.
Gravações instrumentais da mesma melodia também foram realizadas, destacando-se, evidentemente, as interpretadas pelas orquestras dos dois próprios compositores. De fato, Franck Pourcel iniciou a vitoriosa carreira da canção, como peça instrumental, no mesmo ano de 1961 e a colocou na quinta posição, aparecendo no LP de lançamento europeu “Amour Danse e Violons No 17”.




Paul Mauriat somente a gravou, com sua orquestra, no ano de 1976, no álbum “Paul Mauriat Plays the Hits of 1976”, usando um “Moog Synthesizer”.


Finalmente, no ano de 1992, a canção foi apresentada, com proeminência, no filme “Sister Act” (Mudança de Hábito), em que estreou Whoopi Golberg, quando executada pelo coro das freiras, numa homenagem ao Papa.

Como incondicional admirador que sou, das duas antológicas e míticas orquestras mencionadas, é com o maior prazer que apresento, como fecho ao meu artigo, uma curta biografia dos dois grandes músicos franceses, Franck Pourcel e Paul Mauriat, aqui realçados como compositores da sua canção título. Para não tornar ainda mais longa essa postagem, clique nos “links”, acima ou abaixo, se quiser conhecer algo da vida desses ilustres músicos franceses.

Um lindo Domingo de Páscoa aos meus leitores!


segunda-feira, 11 de abril de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (6) (Décima Quarta Parte)

O Terceiro Século
A morte de Commodus pôs em movimento uma série de eventos que finalmente conduziram à guerra civil. Após o curto reinado de Pertinax, muitos rivais emergiram visando o império, incluindo Septimius Severus e Clodius Albinus, o novo governador da Britain que havia, aparentemente, vencido os nativos em suas primeiras rebeliões e que controlava três legiões, tornando-o um forte pretendente. Albinus atravessou o Canal para a Gaul em 195 DC, onde as províncias lhe eram simpáticas e estabeleceu-se em Lugdunum (atual Lyon, França). Severus chegou em Fevereiro de 196 e a batalha que se seguiu foi decisiva. Albinus foi derrotado e suicidou-se. Severus eliminou os adeptos de Albinus e confiscou grandes áreas de terra na Britain como punição. Entretanto, Albinus havia claramente demonstrado a necessidade de três legiões para a boa defesa da província e a visão tradicional é de que a sua ausência levou o norte da Britain à total anarquia. A sucessão de governadores militarmente distinguidos sugere que os inimigos de Roma colocavam um difícil desafio e o relatório de Lucius Alfenus Senecio a Roma, em 207 DC descreve os “bárbaros” se rebelando, devastando a terra, saqueando e causando destruição por todo o lado. Senecio solicitou reforços ou uma expedição imperial que Severus adotou embora já tivesse 62 anos de idade. Evidência arqueológica mostra que Senecio havia reconstruído Muralha de Adriano e a chegada de Severus à Britain induziu as tribos inimigas a um pedido de paz imediata. Contudo, parece que o Imperador não faria tal viagem em vão e, além disso, quisesse fornecer aos seu filhos adolescentes Caracalla e Geta, uma experiência, ao vivo, de como controlar uma terra bárbara hostil. Severus conduziu uma expedição de 20.000 homens ao norte (208 ou 209 DC), atravessando a muralha e passando pelo leste da Scotland numa rota parecida com a de Agricola. Sabotados por ataques de guerrilha das tribos do norte e retardados por um terreno hostil, Severus nunca pode enfrentar os Caledonii em um campo de batalha. As forças romanas avançaram para o norte até, o rio Tay, pouco conseguindo com a invasão em vista dos tratados de paz com os Caledonii. Cerca de 210 DC Severus já havia retornado a York, e a fronteira, novamente à Muralha de Adriano. Como uma de suas últimas medidas, Severus tentou resolver o problema de poderosos e rebeldes governantes na Britain, dividindo a província em Britannia Superior e Britannia Inferior, mantendo as rebeliões potenciais em xeque por quase um século. Fontes históricas fornecem pouca informação sobre as décadas seguintes, um período conhecido por “Longa Paz”. Ainda assim, o número de grandes amontoados enterrados de bens encontrados deste período cresceu, indicando permanente agitação. Uma cadeia de fortes foi construída ao longo da costa da Britain sul, para controlar a pirataria, que cresceu em número pelos cem anos seguintes, tornando-se os “Fortes de Praia Saxon”.
 

A Bacia Hidrográfica do rio Tay, na Scotland, e meandrando no seu leito para o leste

Em meados do terceiro século DC, o Império Romano foi convulsionado por invasões e rebeliões bárbaras e por novos aspirantes imperiais. Com exceção do aumento dos assentamentos Frisian na costa do Mar do Norte (com aprovação das autoridades romanas para proteger a área contra os ataques Caledonian), a Britannia aparentemente evitou essas questões. Em 259 foi estabelecido o chamado Império Gallic, quando Postumus rebelou-se contra Gallienus e a Britannia fez parte desse Império até o ano de 274, quando Aureliano reunificou o antigo Império.
Ao final dos anos 270, um meio briton chamado Bononus rebelou-se para evitar a repercussão ao deixar sua frota ser incendiada por bárbaros em Cologne. Ele foi rapidamente destroçado por Probus, mas logo em seguida um governador anônimo na Britannia também tentou um levante. Tropas irregulares de Vândalos e Burgundianos foram enviadas pelos romanos através do Canal por Probus para abafar o levante, por volta de 278 DC.
A última das rebeliões que afetou a Britannia foi a de Carausius e seu sucessor Allectus. Carausius, um comandante naval, provavelmente no English Channel, foi acusado de manter, para si próprio, saque de pirataria, e sua execução foi ordenada pelo Imperador Maximiano. Em 286 DC ele proclamou-se imperador na Britain e norte da Gaul e permaneceu no poder enquanto Maximian tratava de sublevações em outros locais. Em 288 uma invasão para depor o usurpador falhou. Seguiu-se uma incômoda paz, durante a qual Carausius cunhou moedas, proclamando a sua legitimidade e convidando reconhecimento oficial. Em 293 DC Constantius Chlorus lançou uma segunda ofensiva, sitiando o porto do rebelde em Boulogne e cortou sua assistência naval. Após a queda da cidade, Constantius atacou os aliados Frankish de Carausius. Susequentemente, o usurpador foi assassinado por seu tesoureiro, Allectus que o sucedeu brevemente. Seu reino teve um fim quando Julius Asclepiodotus atracou próximo de Southampton e derrotou-o numa batalha em terra. Constantius chegou a London para receber a vitória e decidiu dividir a província ainda mais, em quatro regiões, cada uma com o seu próprio governador:
•    Maxima Caesariensis (com base em London) tirada da Britannia Superior;
•    Britannia Prima, também da Britannia Superior;
•    Flavia Caesariensis, da Britannia Inferior;
•    Britannia Secunda, da Britannia Inferior.
No mesmo ano, sob as reformas da Tetrarquia, do Imperador Diocleciano, a Britannia tornou-se uma das quatro dioceses – governada por um "vicarius" - da prefeitura pretoriana das Galliae (as Gauls), compreendendo as províncias da Gaul, Britannia, Germania e Hispania.

Quarto Século

Constantius Chlorus retornou em 306 DC para invadir o norte da Britannia embora sua saúde enfraquecida. Sabe-se pouco de suas campanhas, mas de fontes históricas fragmentárias parece que ele chegou ao extremo norte da Britain, vencendo uma grande batalha antes de retornar para York, ao sul. Ele permaneceu na Britain até a sua morte, sendo substituído em suas funções por seu filho Constantino I, que usou a sua base na Britannia como ponto de partida de sua marcha ao trono imperial.
No meio do século, por alguns anos a província foi leal ao usurpador Magnentius, que sucedeu Constans após a sua morte. Após a derrota e morte de Magnentius na batalha de Mons Seleucus, em 353 DC, Constantius II seu notário imperial chefe, Catena, à Britain a caça dos seguidores de Magnentius.
À medida que o quarto século avançava, crescentes ataques dos saxons se verificaram ao leste e dos irish a oeste da England. Uma série de fortes já estava sendo construída no início de 280 DC, para a defesa das costas, mas essas defesas não foram suficientes quando um assalto geral de saxons, irish e attacotti, combinado com uma aparente discórdia na guarnição da Muralha de Adriano, aniquilou a Britain Romana em 367 DC. Essa crise, muitas vezes chamada de “Conspiração Bárbara” ou “Grande Conspiração”, foi revertida por Flavius Theodosius com uma série de reformas civis e militares. Outro usurpador imperial, Magnus Maximus, possivelmente filho de Theodosius, levantou o bastião da revolta em Segontium (atual Caernarvon), ao norte de Wales, em 383 DC, e atravessou o English Channel. Maximus manteve muito do império ocidental e lutou uma campanha de sucesso contra os Picts e os Scots, em torno de 384. Suas proezas continentais exigiram tropas da Britain e parece que fortes em Chester e outros lugares foram abandonados neste período, causando ataques e assentamentos ao norte de Wales pelos Irish. Seu governo encerrou em 388 DC, mas nem todas as tropas British retornaram, pois os recursos militares imperiais estavam agonizando após a catastrófica batalha de Adrianópolis, em 378. Em torno de 396 houve crescentes incursões bárbaras na Britain e uma expedição, possivelmente conduzida por Stilicho, foi realizada contra os atacantes. Parece que a paz foi restaurada em 399 DC e nenhuma outra guarnição foi ordenada; ao contrário, em 401 DC mais tropas foram retiradas para ajudar na guerra contra Alarico I.

Fim do Domínio Romano
A visão tradicional dos historiadores é de que houve um declínio econômico geral no início do quinto século. Contudo, evidência arqueológica consistente conta outra história que tem reavaliado essa visão, embora algumas características tenham acordado: menos residências urbanas, embora mais opulentas, final de novos edifícios públicos e abandono de alguns existentes, com exceção de estruturas defensivas e a formação generalizada de depósitos de “terra negra”, indicando uma horticultura crescente nos limites urbanos. O abandono de alguns locais aconteceu posteriormente ao que se cria anteriormente e muitas construções alteraram o seu uso, mas não foram destruídas. Os ataques bárbaros cresceram, mas focados em assentamentos rurais vulneráveis e não em cidades. Algumas vilas tiveram novos pisos de mosaico construídos nessa época, sugerindo que os problemas econômicos foram limitados e irregulares, embora muitos tenham se deteriorado antes de ser abandonados no quinto século. Alguns centros urbanos, como Canterbury, Cirencester, Wroxeter, Winchester e Gloucester permaneceram ativos durante o quinto e sexto séculos, cercados por grandes estados agrícolas. A vida urbana, em geral, cresceu com menos intensidade pelo quarto final do quarto século e moedas cunhadas entre 378 e 388 DC eram muito raras, indicando uma combinação provável de declínio econômico, diminuição do número das tropas e problemas com os pagamentos de soldados e oficiais. É provável que cerca de 430 DC as moedas, como meio de troca, tenham sido abandonadas. A produção em massa de cerâmica provavelmente terminou uma ou duas décadas antes; os ricos continuaram a usar vasos de metal e vidro, ao passo que os pobres adotaram vasos de couro ou madeira.
Ao final do quarto século a Britain esteve sob crescente pressão dos bárbaros, por todos os lados e as tropas eram muito pequenas para uma defesa efetiva. O exército rebelou-se e após elevar dois usurpadores decepcionantes, escolheu um soldado, Constantino III, para tornar-se imperador em 407. Ele atravessou a Gaul com um exército e foi derrotado por Honorius; é incerto o número de tropas que permaneceu ou se alguma vez retornou ou, ainda, se algum comandante em chefe foi novamente nomeado para a Britain. Uma incursão Saxon foi repelida pelos Britons em 408 e, no ano seguinte Zosimus registra que os nativos expulsaram a administração civil romana. Um último apelo feito pelas comunidades British foi rejeitado pelo imperador Honorius em 410 DC. A aparente contradição é explicada como uma revolta camponesa contra as classes dominantes de terra, solicitantes da ajuda romana. Com a saída da maior parte do governo militar e civil, a administração e a justiça ficaram nas mãos das autoridades municipais e pequenos “senhores da guerra” gradualmente emergiram na Britain, ainda aspirando aos ideais e convenções romanas.

As ‘Idades das Trevas’
Na Britain oeste e norte, em torno dos mares ocidentais, o fim do poder romano viu a reafirmação dos antigos padrões, isto é, a continuidade das tendências culturais e linguísticas que vigoravam antes da Idade do Ferro. Contudo, no longo termo, o contínuo desenvolvimento de um mosaico mutável de sociedades, gradualmente tendeu (como em outros lugares da Europa) à formação de estados maiores. Assim, por exemplo, o reino de Dalriada, governado pelos Irish, no extremo noroeste, fundiu com o reino Pictish para formar a Scotland. As partes mais a oeste da velha província, onde a cultura romana não havia deslocado a tradicional, também compartilhou dessas tendências, criando pequenos reinos que se desenvolveriam, sob a pressão dos Saxons, nas regiões Welsh e Cornish.
O destino do resto da província romana foi muito diferente: após o colapso do poder imperial, cerca de 410 DC, a civilização romanizada prontamente definhou. Pelo século VI DC, a maior parte da Britannia era tomada pelos reinos ‘Germanic’. Aparentemente, houve uma completa descontinuidade entre a Britain romana e a England anglo-saxon; acreditou-se uma vez que os romano-british foram massacrados ou empurrados para o oeste por hordas invasoras de anglo-saxons, parte do grande movimento para o oeste de ‘bárbaros’ esmagando o império ocidental. Contudo, nunca houve tal deslocamento de ‘celtas’ por ‘germans’.
(No próximo episódio, a chegada dos Anglo-Saxons)

terça-feira, 29 de março de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (5) (Décima Terceira Parte)

II - OS ROMANOS NA GREAT BRITAIN - 43 DC – 410 DC

Introdução
Chamamos de Britain Romana, a parte da Great Britain controlada pelo Império Romano entre 43 DC e 410 DC, à qual os próprios romanos se referiam como Britannia. A conquista romana que iniciou em 43 DC, ilustra o profundo impacto cultural e político que pequenos números de pessoas podem proporcionar em algumas circunstâncias, já que os romanos não colonizaram as ilhas da Britain de forma significativa. Para uma população em torno de três milhões, seus exércitos, administração e aventureiros políticos adicionaram apenas uns poucos por cento.
As cidades e vilas da província foram, predominantemente, construídas por pessoas nativas adotando a nova cultura internacional do poder. A civilização greco-romana deslocou a cultura ‘celta’ da Europa da Idade do Ferro. Esses ilhéus, realmente, tornaram-se romanos, tanto cultural quanto legalmente (a cidadania romana era mais um status político do que uma identidade étnica). Pelo ano 300 DC, quase todos eram romanos na ‘Britannia’, legal e culturalmente, embora de descendência indígena, ainda a maioria falando dialetos ‘celtas'. O governo romano viu uma alteração cultural profunda, mas, enfaticamente, sem qualquer emigração de massa.
Antes da invasão romana, conforme vimos, a Idade do Ferro Britain já possuía laços culturais e econômicos com a Europa Continental, mas os invasores introduziram novos desenvolvimentos na agricultura, urbanização, indústria e arquitetura, deixando um legado ainda hoje aparente. Registros históricos, após a invasão inicial, eram esparsos, embora muitos historiadores romanos mencionassem, de passagem, a Britannia e os nomes de muitos de seus governadores fossem conhecidos. A maior parte do conhecimento da Britain Romana vem de investigações arqueológicas e, especialmente, de evidência epigráfica. Com a conquista romana surgiram os primeiros registros históricos da história da England.

A Invasão Romana
Como já mencionado, Julius Caesar havia visitado a England, em 55 e 54 AC¸ mas apenas para agradar ao seu público em Roma, como propaganda política (desde aquela época já utilizada). Realmente, em 43 DC o Imperador Claudius retornou ao trabalho de Julius Caesar, ordenando a invasão da England, sob o comando de Aulus Plautius. Não se sabe quantas legiões romanas foram enviadas; diretamente atestado, apenas a legião ‘II Augusta’, comandada pelo futuro imperador Vespasiano, tomou parte na invasão. Os romanos velejaram em três divisões e, provavelmente, desembarcaram em Richborough, Kent, embora alguns sugiram que pelo menos parte da invasão desembarcou na costa sul, na área de Fishbourne, West Sussex.
Os romanos derrotaram os Catuvelaunni e seus aliados em duas batalhas: no rio Medway e no Thames, onde teria morrido Togodumnus, um de seus líderes. Plautius suspendeu a campanha no Thames e pediu ajuda a Claudius que chegou com reforços, incluindo artilharia e elefantes, para a marcha final sobre Camulodunum - nome romano para o antigo assentamento hoje conhecido por Colchester, cidade do condado de Essex), - a capital dos Catuvelaunni.

Camulodonum, atual Colchester, próximo do estuário do Thames. entrada natural dos invasores romanos
O Estabelecimento do Governo Romano
Os romanos rapidamente estabeleceram controle sobre as tribos do sudeste da England. O chefe da tribo British Catuvellauni, Caractacus, irmão de Togodumnus, inicialmente fugiu de Camulodunum para o sul de Wales, onde esboçou alguma resistência, até a sua derrota e captura em 51 DC. Afirma-se que Camulodunum é a cidade mais velha na Britain, como registrada pelos romanos, tornando-se, posteriormente, a primeira cidade romana. De fato existe evidência arqueológica de assentamento de 3.000 anos atrás. Caractacus foi posteriormente enviado para Roma, onde fez amizades nos altos escalões, sendo finalmente libertado em reconhecimento por sua coragem e acabou morrendo em Roma. A resistência ao domínio romano continuou em Wales, particularmente inspirada pelos Druidas, chefes religiosos dos povos celtas nativos.
Por dez anos a England permaneceu calma, até a morte de Prasutagus, o rei da tribo Iceni. Boudicca, sua rainha, incomodada por ter suas terras tomadas e suas duas filhas violentadas pelos romanos, optou por uma ação afirmativa ao invés de uma abordagem diplomática. Sob a liderança de Boudicca, os Iceni, com os seus vizinhos do sul, os Trinovantes, se revoltaram, incendiando até as bases as cidades de Londinium (London), Verulamium (St. Albans) e Camulodunum (Colchester). Boudicca envenenou-se após seu exército ter sido virtualmente aniquilado pelas legiões romanas que retornavam do norte de Wales, após nova tentativa para subjugar os Druidas, em Anglesey.
Durante os anos 70’ e 80’ os romanos, sob o comando de Gnaeus Julius Agricola, estenderam seu controle ao norte e oeste da England, com legiões localizadas em York (ao norte), Chester e Caerleon (a oeste) marcando os limites da ‘Zona Civil’. Agricola ainda moveu-se em direção ao norte, derrotando as tribos Caledonian, sob a liderança de Calgacus, na batalha de Mons Graupius, ao norte da Scotland, mas gradualmente desistiu de suas conquistas na região.
Por muito tempo da história da Britain romana, um grande número de soldados formou a guarnição da ilha, fazendo com que os Imperadores colocassem um militar sênior como governador da província. Como resultado, muitos futuros imperadores romanos serviram antes como governadores ou embaixadores nessa província, incluindo Vespasiano, Pertinax e Gordian I.

Ruínas de teatro romano em Verulamium, atual St. Albans, Hertfordshire, Great Britain
 Não há fonte histórica descrevendo as décadas que se seguiram à retirada de Agricola, incluindo o nome do seu substituto. A arqueologia tem mostrado que alguns fortes romanos ao sul do istmo do Forth-Clyde foram reconstruídos e aumentados, embora outros tenham sido abandonados. Moedas e cerâmica romanas circularam em assentamentos nativos nas Lowlands scottish antes de 100 DC, indicando a crescente romanização. Contudo, em torno de 105 DC parece ter havido um sério recuo por conta dos Picts: vários fortes foram destruídos pelo fogo, indicando hostilidades nas áreas do sudeste da Scotland, embora os próprios romanos tivessem o hábito de destruir seus fortes durante retiradas ordenadas para negar recursos ao inimigo.
Ao visitar a Britannia, cerca de 120 DC, o Imperador Adriano dirigiu a construção de uma extensa muralha de defesa, conhecida como Muralha de Adriano, com comprimento de cerca 130 km, de Newcastle, na costa leste, a Carlisle, na costa oeste, projetada para marcar os limites do Império Romano. Ruínas desta muralha podem ser vistas até hoje.
Quando Adriano morreu em 138 DC, seu sucessor Antonius Pius (138-161 DC) abandonou a recém completada muralha e fez uma nova investida em direção ao norte, estabelecendo uma nova fronteira através da Muralha Antonina, construída entre as foz do rio Forth e do rio Clyde, na Scotland. Em torno de 160 DC a Muralha Antonina foi abandonada e a Muralha de Adriano novamente tornou-se o limite norte do Império Romano na Britain. Entretanto, os romanos não abandonaram totalmente a Scotland por essa época, mantendo um grande forte em Newstead com sete postos avançados menores, pelo menos até 180 DC. Enorme quantidade de prata romana foi encontrada na Scotland, a sugerir mais do que um comércio comum, sendo provável que os romanos estivessem reforçando acordos formais, pagando tributo aos seus implacáveis inimigos, os Picts.
Em 175 DC uma grande força de 5.500 homens de cavalaria da Sarmácia (atual Irã) chegou à Britannia, provavelmente para reforçar tropas lutando contra revoltas sem registro. Em 180 DC a Muralha de Adriano foi rompida pelos Picts e nessa batalha, morto o oficial comandante ou governador da Província.

Localização das Muralhas de Adriano e Antonina na Great Britain
 Ulpius Marcellus foi enviado como governador substituto e pelo ano 184 conseguiu uma nova paz, para enfrentar um motim de suas próprias tropas. Descontentes com a inflexibilidade de Marcellus, eles tentaram eleger um conselheiro chamado Priscus, como governador usurpador; ele recusou, e Marcellus deu-se por muito feliz por deixar a província com vida.

Ruínas da Muralha de Adriano na Great Britain atual
 O futuro imperador Pertinax foi enviado à Britannia para dominar o motim e teve sucesso, inicialmente. Contudo, um levante eclodiu entre as tropas e Pertinax foi atacado e deixado como morto. Enviado a Roma sucedeu, por breve período, a Commodus, como imperador, em 192 DC.
Os romanos nunca tiveram sucesso em subjugar totalmente a Britain, tendo sempre que manter uma presença militar significativa para controlar a ameaça das tribos não conquistadas. Mas a maior parte dos habitantes acatou a disciplina e a ordem romana. Cidades apareceram pela primeira vez na Great Britain, que incluíam York, Chester, St. Albans, Bath, Lincoln, Gloucester e Colchester. Todos esses centros maiores ainda encontram-se ligados pelo sistema romano de estradas militares, irradiando do grande porto de London, que também permitiam a distribuição de supérfluos romanos, como condimentos, vinhos, vidros etc., trazidos de outras regiões do império. É provável que a ‘romanização’ da Britain tenha afetado principalmente a aristocracia, que teria aumentado o seu ‘status’ adotando a forma e as práticas romanas, como por exemplo, o banho regular. A grande maioria da ‘populaça’ teria permanecido intocada pela civilização romana, vivendo da terra e ganhando a vida com dificuldade.

quinta-feira, 24 de março de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (4) (Duodécima Parte)

Antes de Roma: Os Celtas
Ao final da Idade do Ferro (os últimos 700 anos AC) encontramos nossas primeiras testemunhas oculares da Britain, através de autores Greco-romanos, incluindo Julius Caesar, que a invadiu em 55 e 54 AC. Essas revelam um mosaico de povos distintos mas há pouco indício de que tais grupos tivessem algum senso de identidade coletiva mais apurado do que os ilhéus do ano 100 DC, que se consideravam ‘Britons’. Contudo, há algo em que romanos, modernos arqueólogos e os próprios ilhéus da Idade do Ferro, concordariam: eles não eram celtas. Esta foi uma invenção do século XVIII; o nome nunca foi usado antes. A ideia veio da descoberta, cerca de 1700 DC, de que as línguas não inglesas da Ilha, se relacionam à     dos antigos Gauleses do continente, que realmente eram chamados Celtas. Este antigo rótulo étnico continental foi aplicado à mais ampla família das línguas. Mas ‘Celtic’ logo foi estendida para descrever monumentos, arte, cultura e povos insulares, antigos e modernos: a identidade ‘celtic’ nasceu, como ‘britishness’, no século XVIII. Contudo, a linguagem não determina etnicidade (o que faria os modernos ilhéus ‘Germans’, uma vez que a maioria deles fala inglês, classificada como língua ‘germanic’). De qualquer forma, ninguém sabe como ou quando as línguas que escolhemos chamar ‘celtic’, chegaram no arquipélago – elas já estavam estabelecidas há muito e tinham se diversificado em várias línguas quando nossa evidência começou. Certamente, não há razão para ligar a vinda da língua ‘celtic’ com qualquer grande ‘invasão celtic’ da Europa durante a Idade do Ferro porque não há qualquer forte evidência a sugerir que tivesse existido alguma. Os arqueólogos concordam plenamente sobre duas coisas na Idade do Ferro British: suas muitas culturas regionais se desenvolveram a partir da Idade do Bronze local precedente e não derivaram de ondas de invasores continentais ‘celtas’; em segundo lugar, chamar a Idade do Ferro British ‘celtic’ é tão enganoso que é melhor abandonar. Certamente há importantes semelhanças e conexões culturais entre Britain, Ireland e Europa continental, que refletem contatos íntimos e, sem dúvida, o movimento de algumas pessoas, mas o mesmo poderia ser dito para vários outros períodos da história. As coisas que rotulamos como ícones ‘celtas’ – tais como fortes de colina, arte, armas e joias – eram muito mais relacionadas a aspectos aristocráticos, políticos, militares e religiosos do que à etnia comum.

A Crescente Influência Romana

Pelo final do segundo século AC a influência romana passou a estender-se ao Mediterrâneo ocidental e sul da França, o que causou o crescente contato entre a Britain e o mundo romano através do English Channel (Canal da Mancha). Esse contato foi inicialmente confinado ao comércio de pequenas quantidades de bens supérfluos romanos, como vinho, provavelmente cambiados por escravos, minerais e grãos, através de locais como Hengistbury Head, em Dorset e Mount Batten, próximo de Plymouth, em Devon. Após 50 AC e a conquista da Gaul (França moderna) por Julius Caesar, esse comércio intensificou e focou o sudeste da England.
Além de relações comerciais intensas, parece que Roma estabeleceu relações diplomáticas com um bom número de tribos e pode ter exercido considerável influência política antes da conquista romana da England no ano 43 DC. No mesmo tempo, novos tipos de grandes assentamentos chamados ‘oppida’ apareceram ao sul da Britain, aparentemente para atuar como centros políticos, econômicos e religiosos. Outros apareceram como centros de produção de moedas da Idade do Ferro, que muitas vezes deram os nomes dos governantes, alguns se autodenominando ‘rex’, em latim, para ‘rei’.
Após 43 DC, todo o Wales e England, ao sul da linha da Muralha de Hadrian, tornou-se parte do império romano. Além dessa linha, na Scotland e Ireland, a Idade do Ferro e suas tradições permaneceram, com ocasionais incursões romanas na Scotland e algum comércio com a Ireland.

Tribos Nativas da Britain
As Ilhas British e as regiões tribais no primeiro século DC

Regiões Tribais Chaves

01: Caledones (Caledonii);
02: Taexali; 03: Carvetii; 04: Venicones; 05: Epidii; 06: Damnonii; 07: Novantae; 08: Selgovae; 09: Votadini; 10: Brigantes; 11: Parisi; 12: Cornovii; 13: Deceangli; 14: Ordovices; 15: Corieltauvi; 16: Iceni; 17: Demetae; 18: Catuvellauni; 19: Silures; 20: Dubunni; 21: Dumnonii; 22: Durotriges; 23: Belgae; 24: Atrebates; 25: Regni; 26: Cantiaci; 27: Trinovantes.

O mapa acima mostra a localização aproximada das principais tribos que viviam na Britain ao tempo da conquista romana, no primeiro século DC, unicamente de acordo com escritores romanos que visitaram a Britain. Um dos melhores observadores das tribos da Britain celta foi Tacitus, que escreveu sobre eventos hstóricos na Britain, seguido de um geógrafo chamado Ptolemy, que fez uma descrição da Britain, listando os nomes das muitas tribos british. Contudo, devemos tratar estes escritos com cuidado, pois os cronistas romanos muitas vezes mal entendiam os eventos british ou mesmo os nomes das tribos. Isso é especialmente verdade no que se refere às suas descrições de tribos ao norte, onde o conhecimento dos romanos era ainda mais limitado. De fato, uma informação precisa sobre onde essas tribos viviam, é inteiramente ausente de registros romanos contemporâneos.

sábado, 19 de março de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (3) (Undécima Parte)

A Idade do Bronze
O início da Idade do Bronze (2.500 – 1.500 AC) viu a produção regular de um trabalho de metal mais sofisticado, consistindo principalmente de machados, adagas e pontas de lança conectadas à haste por um pino. Os primeiros bronzes aparecem na Britain nos séculos imediatamente antes de 2.500 AC, que é, usualmente, aceito como o início da Idade do Bronze. Embora a aparência do metal marque um importante desenvolvimento tecnológico, especialmente no controle do fogo, ela não traz uma grande mudança na forma como as pessoas viviam no início da Idade do Bronze. “Henges”, por exemplo, continuam em uso, mas os túmulos comunitários maiores, tais como os túmulos longos e os de passagem são substituídos por túmulos redondos menores. Muitos desses continham um sepulcro inicial ou primário, muitas vezes de um importante homem ou mulher, que poderia ser enterrado com uma cerâmica distintiva e altamente decorada, junto com trabalhos de bronze ou estanho, como adagas ou machados. Algumas vezes os corpos eram adornados com anéis, braceletes e brincos de ouro. Esses locais eram, claramente, importantes locais de reunião de pessoas e eram cuidadosamente situados na paisagem, ou para serem vistos por uma vasta área ou para marcar o início ou fim do território de uma comunidade. As casas no início da Idade do Bronze eram normalmente redondas com um telhado cônico e uma entrada simples.

Mudança acelerada
A Média Idade do Bronze (1.500 – 1.250 AC) marca um importante período de alteração, crescimento e, provavelmente, também de expansão da população. Houve uma alteração importante na prática de sepultamento, do enterro em túmulos para a cremação em grandes cemitérios abertos, onde as cinzas eram colocadas em urnas de cerâmica, especialmente preparadas. Os assentamentos consistiam em casas redondas, muitas vezes agrupadas, possivelmente para defesa, mas também porque as pessoas preferiam viver próximas umas das outras. Durante este período são encontrados números crescentes de amontoados de trabalhos em metal, com centenas de pontas de lanças, machados e adagas colocados no solo, muitas vezes em um local úmido ou alagado, prática que prosseguiria através de toda a Idade do Ferro. A média Idade do Bronze também vê os primeiros sistemas campesinos, indicando uma crescente pressão sobre a terra á medida que o número de pessoas e animais crescia.
O final da Idade do Bronze é marcado pela chegada de novos estilos de trabalhos em metal e cerâmica, permanecendo invariável nos outros aspectos. A cavalgada tornou-se mais popular e as espadas eram projetadas como armas de corte. As casas eram ainda redondas, padrão que penetraria a Idade do Ferro, mas as primeiras casas retangulares começam a surgir. Os sistemas campesinos da média Idade do Bronze continuaram em uso e foram aumentados. Nas terras altas da Britain, o final da Idade do Bronze assistiu à construção dos primeiros fortes de colina e o início do chamado modo de vida ‘Celtic’.

Idade do Ferro, 800 AC – 43 DC
Crescimento e Desenvolvimento
A idade do ferro assistiu à gradual introdução da tecnologia do trabalho com ferro, embora a adoção generalizada de artefatos de ferro não tenha ocorrido até o período de 500 a 400 AC. À medida que a Idade do Ferro progredia pelo primeiro milênio AC, fortes grupos regionais emergiam, refletidos no estilo da cerâmica, objetos de metal e tipos de assentamentos. Em algumas áreas, estados tribais e reinos surgiram ao final do primeiro século AC.
Estudos antigos da Idade do Ferro British, tendiam a ver as invasões estrangeiras como sendo responsáveis pelas alterações em larga escala que tiveram lugar durante este período. Pesquisa moderna tem encontrado pouca evidência que apoie essas teorias e a ênfase mudou, principalmente, em direção a alterações econômicas e sociais nativas. Contudo, a arqueologia demonstra que os contatos de comércio e permuta, entre a Britain e o continente europeu, prosseguiram através de toda a Idade do Ferro.
A inovação tecnológica cresceu durante a Idade do Ferro, especialmente em direção ao final do período. Alguns dos maiores avanços incluíram a introdução do torno de oleiro (principalmente no sudeste da England), do torno mecânico (usado para trabalho com madeira e manufatura de objetos de xisto) e o moinho para moer grãos.
A população da Britain cresceu substancialmente durante a Idade do Ferro e provavelmente excedeu o milhão, parcialmente causado, esse crescimento, pela introdução de novas culturas, incluindo variedades melhoradas de cevada e trigo e plantações crescentes de ervilhas, feijão, linho e outras culturas. Técnicas de cultivo melhoradas e a introdução do arado de ferro forjado tornaram possível o cultivo de pesados solos argilosos.

Os Fortes de Colina

Os mais conhecidos e visíveis vestígios da Idade do Ferro são os fortes de colina. Cerca de 3.000 exemplos são conhecidos por todas as ilhas britânicas, variando em tamanho, desde pequenos muros fechados com menos de um hectare, a locais enormes, com múltiplos fossos, como o Castelo Maiden, em Dorset e o Old Oswestry em Shropshire. A função e forma desses monumentos variou, enormemente, com o tempo. Os primeiros exemplos datam do final da Idade do Bronze e início da Idade do Ferro (900 a 600 AC) e mostram pequena evidência de assentamento permanente, mas sim para reuniões sazonais, talvez para atividades comerciais ou religiosas, com a função adicional de centro de abastecimento para a comunidade mais ampla. Pelo ano 450 AC, muitos desses fortes ficaram fora de uso; os que sobreviveram ficaram sujeitos a fases importantes de reconstrução, muitas vezes com múltiplas barreiras e valas, entradas muito complexas e uma clara evidência de uma grande e permanente população.
A escavação de Danebury, em Hampshire, revelou, em considerável detalhe, o desenvolvimento de um forte do oitavo século AC, até o seu abandono, no primeiro século AC. Em torno de 450 AC, Danebury começa a se transformar em um assentamento maior e planejado, com zonas para armazenamento de alimentos, processamento das colheitas, habitações domésticas e mesmo prédios religiosos. Os artefatos recuperados mostram a perícia e diversidade dos ferreiros, ceramistas e outros “especialistas” da Idade do Ferro.
Em algumas partes do sul da Britain, os fortes de colina foram abandonados em torno de 100 AC, sem razões totalmente entendidas, mas talvez devido à emergência de estados tribais mais centralizados. Na Britain oeste e norte e Ireland, os fortes de colina continuaram a ser ocupados e ainda possuíam um importante papel na vida diária ao tempo da conquista romana no ano de 43 DC.
Afora os fortes de colina, a maioria dos assentamentos da Idade do Ferro era pequena e, possivelmente, abrigava simples famílias estendidas. Esses sítios individuais eram colocados dentro de paisagens de campos e trilhas muito extensas e ordenadas. Muitos eram cercados por barreiras e valas, embora fossem raramente largas o suficiente para serem consideradas como defensivas. Dois bons exemplos foram escavados ao sul da England, em Little Woodbury, Wiltshire e Gussage All Saints, em Dorset. A construção padrão da Idade do Ferro era a casa redonda, feita de madeira ou pedra, com um telhado de turfa, dependendo localmente do material disponível. Exemplos bem preservados em pedra ainda sobrevivem como baixas paredes circulares com entradas amplas, em muitas áreas altas das Ilhas British. As plataformas em nível para casas de madeira ainda sobrevivem dentro de fortes de colina não arados, tais como Hod Hill, em Dorset, British Camp, em Herefordshire e Braidwood, em Lothian. Em bordas de charcos e lagos, assentamentos conhecidos como ‘crannogs’ também foram encontrados. Eram ilhas artificiais construídas de pedra e madeira e podem ter sido localizadas por suas qualidades defensivas. Assentamentos abertos também são conhecidos, variando de uma só ou pequenos grupos de cabanas circulares a grandes assentamentos tipo vilas. As últimas são especialmente comuns a leste da England, por exemplo em Little Waltham, Essex.
As práticas de sepultamento na Britain da Idade do Ferro variavam grandemente, sendo raras em algumas regiões, como no sul da England, com apenas um pequeno número de enterros adultos, descobertos em poços em fortes de colina e outros assentamentos. Descobertas de ossos humanos fragmentários em muitos locais conduziram à sugestão de que a maioria da população nessa região era descartada pela exposição deliberada do cadáver. No sudoeste e oeste, os corpos eram muitas vezes enterrados em pequenos caixões de pedra, conhecidos como ‘cistas’. Os mais notáveis de todos eram os ‘bog bodies’ (corpos de brejos), exemplos dos quais são conhecidos por todas as Ilhas British e norte da Europa. A colocação desses indivíduos em locais úmidos pode também indicar uma relação com práticas rituais pré-históricas de depositar trabalhos de metal em rios, lagos e brejos. Tais locais têm produzido alguns dos mais perfeitos trabalhos de metal da Idade do Ferro nas Ilhas British, incluindo: o Elmo de Waterloo e o Escudo de Battersea, ambos do Rio Thames; o amontoado de Llyn Cerig Bach, de um brejo em Anglesey, North Wales; e a tocha de ouro de um brejo em Clonmacnoise, Ireland. Os ferreiros de bronze e ouro nativos produziram itens de alta qualidade, indicando contato próximo com seus contrapartidas do continente. A primeira cunhagem na Britain apareceu ao final do segundo século AC e pelo ano 20 AC moedas foram encontradas por todo o sudeste da England. O uso de moedas nunca se estendeu para o norte e oeste da Britain ou Ireland durante este período.