Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

domingo, 3 de janeiro de 2010

GUELFOS E GIBELINOS

Ao cabo do “Canto X” do “Inferno” da “Divina Comédia” de Dante, com todas as anotações muito mais do que necessárias e suficientes, de uma edição muito bem cuidada, as dúvidas se acumulavam na minha cabeça, de parcos conhecimentos. Não apenas sobre o objetivo propriamente dito da obra, que é ainda mais grave, mas também sobre personagens e suas localizações dentro do contexto da obra. Daí nasceu a idéia desse artigo, que não se propõe a analisar (nem seria preciso dizer) a “Divina Comédia”, mas apenas conhecer um seu pequeno porém importante detalhe, para uma melhor compreensão do Poema, que descreve a jornada do autor para encontrar Deus. Trata-se de um detalhe da sua faceta política.
Dante ou Durante Alighieri, nascido em Florença (Firenze, em italiano) numa época em que a Itália não existia como nação, mas seu atual território era apenas um conjunto de cidades-estado então perfeitamente autônomas, denominadas comunas, viveu durante o período de 1265 a 1321, em plena Idade Média.

Os Guelfos e os Gibelinos constituíam facções políticas que, a partir do século XII, estiveram em luta na Itália, especialmente em Florença. Os conflitos se intensificaram sobretudo a partir do século XIII. Em sua origem, tratava-se de uma disputa entre os partidários do Papado (os guelfos) e os partidários do Sacro Império Romano-Germânico (os gibelinos).
O Sacro Império Romano-Germânico foi a união de territórios da Europa Central durante a Idade Média, durante toda a Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea sob a autoridade do Sacro Imperador Romano. Embora Carlos Magno seja considerado o primeiro Sacro Imperador Romano, coroado em 25 de Dezembro de 800, a linha contínua de imperadores começou apenas com Oto o Grande em 962. O último imperador foi Francisco II, que abdicou e dissolveu o Império em 1806 durante as Guerras Napoleônicas. A partir do século XV, este estado era conhecido oficialmente como o “Sacro Império Romano da Nação Germânica”.
A extensão territorial do Império variou durante sua história, mas no seu ápice englobou os territórios dos modernos estados da Alemanha, Áustria, Suíça, Liechtenstein, Luxemburgo, República Tcheca, Eslovênia, Bélgica, Países Baixos e grande parte da Polônia, França e Itália. Na maior parte da sua história, o Império consistiu de centenas de pequenos reinos, principados, ducados, condados, Cidades livres imperiais, e outros domínios. Apesar de seu nome, na maior parte da sua existência o Sacro Império Romano-Germânico não incluiu a cidade de Roma em seus domínios. No que se refere ao Sacro Império Romano-Germânico, paremos por aqui, visto ser este, isoladamente, assunto para vários livros.
As denominações "guelfos" e "gibelinos" originaram-se após a morte de Henrique V, Sacro Imperador Romano-Germânico (1125), sem deixar herdeiros diretos. Criou-se então um conflito na disputa pela sucessão do Império. Os guelfos e o Papa apoiavam a casa da Baviera e Saxônia dos Welfen (de onde provém a palavra guelfo), enquanto os gibelinos eram partidários da casa da Suábia dos Hohenstaufen, senhores do castelo de Waiblingen (de onde provém a palavra gibelino).
No interior das cidades, a mesma dicotomia se reproduziu, mas acabou perdendo o significado tradicional da luta politica entre o Papado e Império, para transformar-se em luta entre as facções da população, pelo domínio da cidade. Para aumentar sua força, as cidades, tanto guelfas quanto gibelinas, reuniam-se em ligas opostas. E, muita vezes, dentro de uma própria cidade, dominada por uma das duas grandes facções políticas, formavam-se pequenas sub-facções que frequentemente lutavam entre si.
Assim, a partir da segunda metade do século XIII, a cidade guelfa de Florença combateu a liga gibelina formada pelas cidades toscanas de Arezzo, Siena, Pistoia, Lucca e Pisa. Foi um longo conflito, cujos momentos mais dramáticos foram as batalhas de Montaperti (1260) e de Altopascio 1325. Na segunda metade do século XIII, após a batalha de Benevento, em 1266, houve nas cidades gibelinas, uma verdadeira crise, quando perderam o seu maior apoio - a dinastia suábia. Essa crise teve início com Frederico Barbarossa para concluir-se com as derrotas de Corradino e Manfredi da Sicília, entre 1266 e 1268.

Disso resultou o fortalecimento dos guelfos que, finalmente, predominaram na Península Itálica, apoiados militarmente tanto pelo Rei de Nápoles, Carlos I da Sicília, como pelos vários Papas. Com isso, os guelfos chegaram a se reapoderar de Florença, a partir de 1269, quando derrotaram os gibelinos de Siena.
Ao final do século XIII, o partido guelfo se dividiu em duas facções: os Guelfos Brancos (Guelfi Bianchi), liderados por Vieri dei Cerchi, e os Guelfos Negros (Guelfi Neri), liderados por Corso Donati, que, de certa forma, seriam Gibelinos, numa versão tímida. Na origem dessa divisão existia uma querela de clãs que opunha os Cerchi aos Donati. A divisão era também social, sendo os Cerchi - uma antiga família patrícia florentina - mais próximos do povo, enquanto os Donati - uma das famílias mais numerosas e importantes da Florença medieval – eram mais ligados à elite florentina.
As cores foram atribuídas primeiramente por Vieri dei Cerchi, que apoiou a família Grandi, de Pistoia, conhecida localmente como la parte bianca (o partido branco). Corso Donati, por consequência, protegeu o partido oposto, la parte nera - a parte negra. Em 1300, na Praça da Santíssima Trindade, em Florença, explode uma batalha que marcará a clivagem definitiva entre os dois partidos. Os guelfos negros, muito próximos do Papa Bonifácio VIII, levam vantagem sobre os brancos, incapazes de se defender, e Carlos de Valois (1270-1325), vindo da França para apoiar o Papa, ataca Florença sem encontrar resistência. A partir de janeiro de 1302, começa o exílio dos brancos, dentre os quais Dante Alighieri. Cante Gabrielli de Gubbio reinará sobre a cidade.
Até pouco antes disso, Dante se havia mantido neutro em suas atividades cívicas, em face das lutas travadas entre Brancos e Negros. Deixou entretanto de ser neutro, e de forma muito coerente, quando se tratou de defender Florença contra o Papa Bonifácio VIII, fazendo então causa comum com o sBrancos, quando a sorte não lhe sorriu. Com a vitória dos Negros, Dante foi condenado por seus adversários políticos a pagar multa de 5.000 “liras de florins pequenos” e a passar dois anos no exílio. Como se tivesse auto-exilado antes e nunca se tivesse defendido de qualquer das acusações contra si, o Poeta foi novamente condenado, desta feita a ser queimado vivo em praça pública. Em consequência, durante mais de vinte anos, Dante preferiu viver no exílio – com uma alternativa dessas ... -, nunca mais voltando a Florença, mas ainda desenvolvendo atividades políticas, desta feita convertido aos Gibelinos. Alguns anos mais tarde, não desejando mais ser guelfo ou gibelino, fez “parte per sé stesso”, ou seja, tornou-se o “partido político de um homem só”. O roteiro do exílio de Dante ainda não foi totalmente esclarecido. Tem-se notícia de que o Poeta apareceu em várias cidades da Itália e que, numa certa época, esteve em Paris onde morou por algum tempo. Posteriormente passou a viver em Verona e, por último, em Ravena, onde finalmente morreu na noite de 13 para 14 de setembro de 1321.

Nenhum comentário: