Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A ÚLTIMA PRAIA DA ILHA

Como muitos já devem saber, cheguei com a família, em Florianópolis, em dezembro de 1976, há quase 38 anos atrás. E, para não quebrar a regra, nunca tive a menor pressa em conhecer a Ilha da Magia, justamente por saber que, não estando como turista, teria a vida inteira para desbravar as suas belezas. E é bem aí que reside o engano do habitante, pois acaba por ir postergando muitos dos passeios e, quando se dá conta, passaram-se 38 anos e ele ainda não viu tudo o que havia para ver.
Pois bem, no dia passado 21 de agosto deste ano da Graça, fui conhecer a última das praias da ilha, que ninguém sabe ao certo dizer quantas são, visto que algumas delas são subdivididas em duas e até três quando, fisicamente, é fácil constatar que é somente uma e mesma praia. Sem querer aqui polemizar, encontrei uma lista da Wikipédia que relaciona as 43 (quarenta e três) praias do Município de Florianópolis. A praia a que me refiro é a Praia da Lagoinha e o título do meu texto nada tem a ver com a sua posição geográfica na ilha, nem com a sua importância como balneário, mas refere-se, tão somente, àquela que fui conhecer após ter conhecido todas as demais.

A Praia da Lagoinha é, realmente, a última da extremidade norte da Ilha, a 34 km do centro da cidade e tem apenas 800 metros de extensão, uma faixa de areia que varia com a maré, de 12 a 35 metros, com um mar ainda tranquilo – pois que se encontra numa baía bastante fechada protegida por costões - de águas muito claras, já quase faceando o “mar bravo”, como dizem os ilhéus. Localizada entre as Praias de Ponta das Canas, a oeste, e Praia Brava, a leste, abriga uma tradicional colônia de pescadores, mas tornou-se, com a chegada da “civilização”, quase que uma praia particular dos condomínios e casas luxuosas que inibem em muito o acesso ao mar. Na sua extremidade leste, um pequeno rio lança suas águas ao mar; periodicamente, sua foz é assoreada pelas areias do mar, bloqueando o seu escoamento e formando a pequena lagoa de água doce que dá nome à praia. A primeira foto, acima, emprestada do Google Maps, mostra a Ilha de Santa Catarina, com o Norte para a esquerda, onde pode-se ver a Praia da Lagoinha. Na segunda foto (abaixo), da mesma fonte, já com o norte orientado para cima, podemos ver a Praia da Lagoinha, entre as praias de Canasvieiras, Cachoeira do Bom Jesus e Ponta das Canas, a oeste, e Praia Brava e início da Praia dos Ingleses, a leste. A foto seguinte, mais abaixo, ainda da mesma fonte, ampliada, mostra a Praia da Lagoinha em detalhe, que permite ver alguns dos seus condomínios, as acessos e o pequeno rio que nela deságua, em sua extremidade leste.

O povoamento da Praia da Lagoinha teve início por colônias de pescadores, pois o mar, aberto para o norte, propicia a entrada das tainhas; como o mar apresenta ondas suaves, não é difícil para os barcos, quebrarem a arrebentação, tornando-a um ambiente bastante favorável à pesca. Algumas atividades agrícolas também integravam o modo de vida dos primeiros habitantes, tendo como exemplo o cultivo da mandioca, milho e café. Até hoje a área permanece como núcleo pesqueiro, embora a quantidade e qualidade dos frutos do mar tenha se reduzido drasticamente. Os poucos peixes e crustáceos retirados do mar vão direta e rapidamente transportados aos pouco restaurantes e hotéis dispostos à beira da praia, onde pratos típico, com ingredientes frescos, podem ser degustados à moda típica da cultura pesqueira açoriana, como a tainha frita, o peixe grelhado e o pirão.

Na oportunidade em que fomos conhecer a praia da Lagoinha, tiramos algumas fotos que aproveito para incluir nesta postagem. A primeira delas, abaixo, mostra uma montagem para reproduzir a extremidade leste, já com a “civilização” invadindo os costões. A foto seguinte, mais abaixo, mostra a extremidade oeste da Praia da Lagoinha.
No retorno para casa, testemunhamos e protagonizamos um evento “sui-generis”, que faço questão de incluir na postagem, por ser demais ilustrativo da evolução da fauna marítima da Ilha. Passando em frente a uma placa na beira da estrada, no caminho de Praia da Lagoinha para Ponta das Canas, que oferecia “Camarões Frescos e Vivos”, paramos para tentar comprar alguns camarões. O proprietário da casa, o Sr. Francisco, muito atencioso e gentil, nos conduziu para mostrar um enorme recipiente de isopor, repleto de camarões e gelo fundente. Os camarões eram enormes, e seu aspecto e a total ausência de aroma, dispensavam totalmente a pergunta sobre a qualidade dos camarões, mormente para quem viveu na ilha durante 38 anos.
 A curiosidade sobre o tamanho dos camarões, entretanto, me levou a perguntar ao Sr. Francisco, sobre a sua origem, ao que ele me respondeu, com uma inacreditável e simplista honestidade: do Rio Grande do Norte, Natal! Eu não podia acreditar no que estava escutando e coloquei mais algumas perguntas sobre os antigos camarões da Lagoa da Conceição, Barra da Lagoa e outros pontos conhecidos da Ilha, e mesmo de Laguna.
Não houve jeito de alterar a resposta do Sr. Francisco, que afirmou, categoricamente, não haver mais camarão da Ilha ou mesmo de Laguna, complementando que a Lagoa da Conceição ainda produzia uns poucos camarões, consumidos pelos restaurantes à sua volta e que os de Laguna mal eram suficientes para o abastecimento daquela região costeira do estado; porém, todos os demais vinham do Rio Grande do Norte. E eu, tristemente, retornei ao passado, para mim ainda tão vivo e recente de 1977, quando chegava a SC, em que um funcionário do extinto DNOS, onde eu exercia as minhas funções, saía à noite, armado de sua redinha (coca) e do liquinho (lampião a gás), em direção à Lagoa da Conceição, como “hobby”, para retornar algumas horas depois com cerca de dez quilos de maravilhosos camarões! Ou quando em nossas viagens a serviço, na região de Tubarão, Laguna e Imbituba, ao retornar fazíamos uma breve parada na Caputera, para comprar a baixos preços, quilos e mais quilos de pura carne de siri que eram apanhados no complexo lagunar de Mirim, Imaruí e Santo Antônio, naquela região. Quanta diferença faz a “civilização”, num curto espaço de menos de 40 anos! E imaginei a cena inusitada, de alguém observando, em Natal, no Rio Grande do Norte, o embarque dos famosos camarões em caminhões frigoríficos, a perguntar: “Para onde estão indo esses camarões?” E a resposta do encarregado: “Para Florianópolis, SC” E o primeiro, incrédulo: “Para Florianópolis? Para aquela ilha no sul do país, totalmente cercada por água do mar, a quase 6.000 km de distância?” Coisas desse nosso Brasil!
Para encerrar, um lindo entardecer na última praia da Ilha.

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