Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

HISTÓRIA DOS REIS DA INGLATERRA A PARTIR DE 1066 (PARTE 10)

CHARLES II (1660-1685)
Charles II, o rei tolerante

A restauração oficial de Charles II ao trono inglês, em maio de 1660, foi marcada por maciças celebrações.
Charles II, segundo filho de Charles I e Henrietta Marie de França, nasceu em 1630. Casou-se com Catherine of Braganza, mas não procriou filhos legítimos. Foi extremamente tolerante com os que haviam condenado seu pai à morte, executando apenas nove dos conspiradores. Foi também tolerante nas questões religiosas, por sabedoria política.
Embora feliz por ter a monarquia de volta, a Inglaterra havia, através do seu Parlamento, limitado severamente os poderes e privilégios reais. Charles II foi obrigado a sustentar sua administração por meio de taxas alfandegárias e uma saudável pensão que lhe pagava Louis XIV da França. Este foi um momento decisivo na história política inglesa, com o Parlamento mantendo uma posição superior à do rei e com o moderno conceito de partidos políticos formados das cinzas dos Cavaliers e  Roundheads. Os primeiros evoluíram para o partido Tory(1) , com os realistas pretendendo preservar a autoridade do rei sobre o Parlamento, enquanto os segundos evoluíram para o partido Whig(2) , homens de propriedades dedicados a expandir o Mercado exterior, mantendo a supremacia do Parlamento no campo político.
Os anos iniciais do novo reinado foram perturbados por sérios problemas. Em 1665 Londres foi devastada pela “Grande Praga”(3) ; um ano mais tarde, grande parte da cidade foi destruída no “Grande Incêndio de Londres”(4) ; em 1667, os holandeses subiram o rio Medway (durante a segunda guerra entre Inglaterra e Holanda), afundaram cinco navios de batalha e rebocaram para a Holanda o Royal Charles, o porta bandeira da armada,  na maior derrota da frota inglesa.
A década de 1670 viu Charles fazendo uma nova aliança com a França, contra os holandeses. O apoio francês foi concedido baseado numa promessa de que Charles reintroduziria o catolicismo na Inglaterra, o que nunca aconteceu, embora tenha se convertido ao catolicismo em seu leito de morte.
Os Whigs usaram o catolicismo para solapar Charles, criando uma sorte de incidentes que levaram à execução de várias pessoas. Dois dos principais responsáveis por essa onda de ante catolicismo foram Titus Oates, um padre anglicano exonerado de suas ordens e Anthony Cooper, conde de Shaftsbury e fundador do partido Whig. O Parlamento, dominado pelos Whigs, tentou pressionar, através de um “Exclusion Bill” (Projeto de Lei de Exclusão), proibindo Católicos de assumir serviços públicos (e mantendo James Stuart fora do trono); Charles foi abatido por uma febre e a opinião o dominou. Seus últimos anos foram ocupados para assegurar a reivindicação de seu irmão James ao trono e reunir o apoio dos Tories.
A era Charles é lembrada como o tempo da “Alegre e Velha Inglaterra”. A monarquia, embora limitada em escopo, foi restaurada com sucesso – os onze anos da Comunidade foram oficialmente ignorados, apenas como um interregno entre os governos de Charles I e Charles II. Contudo, o rei era um político astuto, e quando morreu, em fevereiro de 1685, de complicações que se seguiram a um derrame, a posição da monarquia Stuart parecia segura, embora as coisas tenham mudado com a ascensão de seu irmão James II, abertamente católico,

JAMES II (1685-1688)
James II, rei da Inglaterra,
Escócia e Irlanda

James II nasceu em 1633, o terceiro filho de Charles I e Henrietta Maria. Como seu irmão, envolveu-se na Guerra Civil e fugiu para a França em exílio, com a criação da Comunidade de Cromwell. Casou-se duas vezes: Anne Hyde deu-lhe 4 filhos e quatro filhas (Charles, Mary, James, Anne, outro Charles, Edgar, Henrietta, e Catherine) antes de sua morte em 1671; Mary de Modena deu-lhe dois filhos e cinco filhas (Catherine, Isabella, Charles, Charlotte, Elizabeth, James Francis Edward, e Louisa).
James esteve em total contraste com o seu predecessor Charles: embora um valente soldado em batalha até os seus últimos anos, faltou-lhe a sabedoria do irmão e permaneceu um leal católico romano. Sua ascensão foi saudada com entusiasmo, pois Charles lhe havia deixado um forte gabinete executivo e um leal Parlamento dominado pelos Tories. James, contudo, atuou estouvadamente tentando restaurar a prerrogativa real e trazer a Inglaterra, novamente à fé católica, o que lhe custou a coroa.
Logo após assumir, em julho de 1685, com o objetivo de tomar o trono de James II, o filho bastardo de Charles II, James Scott, Duke of Monmouth, atracou em Lyme Regis, Dorset. Em sua marcha para o leste, centenas se uniram a ele, mas seus inexperientes soldados do oeste rural provaram não ser capazes de vencer os treinados soldados de James II. No encontro principal, em Sedgmoor, Somerset Levels, os rebeldes foram feitos em pedaços, Monmouth foi capturado e executado na Torre de Londres.
Em três anos, a velha nobreza e a emergente classe comercial haviam sido totalmente alienadas por James. Quando Mary of Modena deu à luz um herdeiro homem, James Francis Edward, em 1688, as coisas pioraram muito, pois interferiu com o desejo do Parlamento de que Mary, sua filha protestante mais velha, sucedesse no trono à morte do seu pai. Em seguida, um grupo de protestantes ingleses e membros protestantes do Parlamento, desgostosos com James, convidaram Mary, casada em 1677 com o Stadholder(5)  holandês, William of Orange, a tomar o trono. William, que há tempos havia antecipado tal convite, velejou para a Inglaterra com uma frota. James, assombrado pelas lembranças de Richard II e Henry IV, preferiu abandonar Londres antes de ser capturado, mas William assegurou-lhe uma viagem segura para a França.
Em março de 1689, encorajado por Louis XIV da France, James II singrou para a Irlanda esperando que, a tendo sob seu controle, seria capaz de recuperar a Inglaterra e a Escócia. Atracando à frente de 20.000 franceses, James rapidamente foi reforçado por milhares de impetuosos católicos irlandeses. Logo a maior parte da Irlanda estava nas mãos de James o que provocou a ida do próprio William III para enfrentar o seu oponente. Os exércitos encontraram-se no rio Boyne, onde as tropas de James foram postas em fuga e ele retornou à França, onde permaneceu até o fim da sua vida. Em menos de dois anos as forças de Williams haviam completado a reconquista da Irlanda.
Na Escócia, muitos partidários do católico James ainda o apoiaram contra o protestante William III e obtiveram muitas vitórias, mas foram finalmente batidos pelas forças de William.
As tentativas de James ao forçar o catolicismo na Inglaterra e tentar impor a prerrogativa real, destruíram o seu reinado. O Parlamento emergiu supremo; a linhagem real era ainda uma preocupação, mas o protestantismo tornou-se o fator principal na escolha de um monarca, uma decisão agora deixada às mãos do Parlamento.
James foi deposto em 1688 e morreu de uma hemorragia cerebral em 1701. William e Mary foram coroados como monarcas conjuntos em 1689.

WILLIAM E MARY (1689 – 1702)
William III of Orange

A chamada "Revolução Gloriosa" de 1688-1689 substituiu o rei James II pela monarquia conjunta de sua filha protestante Mary e seu marido holandês, William of Orange. Ela foi a viga-mestra da história Whig que se opôs à sucessão católica da Bretanha. De acordo com a versão Whig, os eventos da revolução foram sem sangue e estabeleceram a supremacia do Parlamento sobre a Coroa, colocando o país no caminho da monarquia constitucional e democracia parlamentar. Entretanto, ela parece ignorar à que extensão tais eventos constituíram uma invasão estrangeira por outra potência europeia, a República Holandesa. Embora as mortes tenham sido limitadas na Inglaterra, na Irlanda e Escócia só foram asseguradas pela força e com perda de muitas vidas.
Mary II, nascida em 1662, era filha de James II e Anne Hyde. Ela e William não tiveram filhos e Mary morreu de varíola em 1694. William III (William of Orange), nascido em 1650, era filho de William, príncipe de Orange, e Mary Stuart (filha de Charles I). Mary e William eram, portanto, primos irmãos, ambos netos de Charles I. William, um dos atores mais significativos do continente, esforçou-se permanentemente para espalhar o protestantismo e diminuir a influência católica da França e Espanha. Morreu em 1702 de complicações consequentes de uma queda do cavalo.
Mary II, a rainha inglesa
que depôs o pai
Na verdade, o Parlamento queria que o trono fosse ocupado apenas por Mary, William atuando como Príncipe Consorte, o que Mary recusou por sua natural subserviência ao seu marido. William, por seu turno, relutou em aceitar o trono como conquista, preferindo ser nomeado rei pelo Parlamento, pelo direito de nascimento. O Parlamento sucumbiu aos desejos de William e Mary, mas à medida que o reinado desenvolveu-se, o plano original do Parlamento tornou-se a realidade da situação, uma vez que William estava muito mais preocupado com suas propriedades e os conflitos entre católicos e protestantes no continente, deixando Mary a governar só, na Inglaterra. William e o povo inglês eram indiferentes, um ao outro, mas Mary amava a Inglaterra e o povo inglês a amava.
Whigs e Tories, no Parlamento, divididos no que se referia ao comércio inglês e às tensões Puritano-Anglicano, uniam-se em dois objetivos: manter a supremacia sobre a monarquia e eliminar, definitivamente, a influência católica sobre o governo. O caráter da monarquia foi alterado para sempre, pois o governo oligárquico alimentava a reforma parlamentar do governo. A Bill of Rights (Lei dos Direitos), aprovada em 1689, foi mais uma lei de limitações: o uso dos direitos e prerrogativas reais (criação da autoridade Tudor-Stuart) foi proibida, o rei podia manter um exército ativo apenas com o consentimento parlamentar, e uma quantia anual de £600,000 (seiscentas mil libras) foi concedida ao monarca, com objetivos específicos também apropriados pelo Parlamento. Tal Lei permanece como um documento básico da lei constitucional inglesa e padrão para outras constituições em todo o globo. O Mutiny Act assegurou a prorrogação anual do Parlamento pela exigência da aprovação parlamentar das forças armadas em base anual.
A Inglaterra adicionou um considerável débito nacional por conta das caras guerras de William III. O mercador escocês William Paterson fundou o Bank of England para ajudar a Coroa no gerenciamento deste débito. O Banco tornou-se a reserve nacional e, em 1697 sua posição de proeminência foi assegurada quando o Parlamento proibiu a formação de quaisquer outros bancos de capital social na Inglaterra, sendo o banco emissor de notas bancárias desde 1694. Um Bank of Scotland, separado, foi criado em 1695.
A morte de Mary, em 1694, deixou William como governante único dos três reinos e em 1700 todos os olhos se voltavam ao problema da sucessão, pois William não tinha herdeiro, nem Anne, a filha sobrevivente de James II. Os protestantes estavam aterrorizados ante a possibilidade do trono reverter a James II, ainda vivo, para seu filho ou qualquer outro reclamante católico. Para acabar com esse perigo, o Settlement Act (Ato de Instalação), de 1701, foi o ato final que estabeleceu a supremacia do Parlamento. Uma série de batalhas continentais lutadas por William, primariamente para impor o protestantismo, havia sobrecarregado pesadamente os recursos econômicos ingleses. Como retaliação, o Ato proibiu guerras sem o consentimento do Parlamento, proibiu membros da Casa dos Comuns, bem como não nativos, de manter cargos públicos e sujeitou indicações ministeriais à aprovação parlamentar. Como declaração final de supremacia, ao Parlamento foi garantido o direito de nomear a sucessão. Assim, o rebento católico de James com Mary of Modena foi barrado do trono. Após as mortes de William e Anne, o trono retornaria aos descendentes da filha de James I, Elizabeth Stuart, a esposa do Elector Palatine(6) , Frederick V. Assim, a Coroa passaria a Sophie, Electress of Hanover, filha de Elizabeth, neta de James I, e sobrinha de Charles I, e aos seus descendentes, assim impedindo a ascensão de quaisquer reis católicos.
As políticas expansionistas de Louis XIV da França ameaçavam romper o balanço de forças na Europa e suas tentativas para concretizar a união das coroas espanhola e francesa causaram, em setembro de 1701, a união de ingleses, holandeses e austríacos contra si. A chamada “Guerra da Sucessão Espanhola” iniciou no ano seguinte.
Em 1702, William morreu e foi sucedido por Anne, a irmã mais jovem de Mary e segunda filha de James II e Anne Hyde. Cinco anos após, uma união formal dos reinos da Inglaterra e Escócia foi cogitada a fim de assegurar, também na Escócia, a sucessão por um protestante.

ANNE (1702 – 1714)
Anne Stuart, rainha da
Grã Bretanha

Anne, nascida em 1665, representou importante papel no reinado do seu pai, mas alinhou com sua irmã e cunhado durante a Revolução Gloriosa. Casou com George, Príncipe da Dinamarca, mas não tiveram filhos. Morreu aos 49 anos de idade, após uma longa batalha contra a porfiria (doença hereditária do sangue, oriunda dos casamentos de mesmos grupos).
 A morte precoce de William III anulou, no efeito, o Settlement Act de 1701: filha de James por seu casamento protestante, Anne não apresentava conflito com o Ato. Evitou antagonizar-se politicamente com o Parlamento, mas foi compelida a atender à maioria dos encontros do Gabinete, para manter sob controle seu meio irmão James, o velho pretendente. Anne foi o ultimo soberano a vetar um ato do Parlamento e o último monarca Stuart. O ato constitucional mais significativo do seu reinado foi o “Ato da União” de 1707, que criou a Great Britain, final e totalmente unindo a Inglaterra e a Escócia (a Irlanda juntou-se à União em 1801).
O traço Stuart de confiar em favoritos, foi tão pronunciado em Anne como havia sido no reinado de James. Sarah Churchill, a mais próxima confidente de Anne, casada com John Churchill, Duque de Marlborough, que conduziu habilmente os ingleses a várias vitórias na Guerra da Sucessão Espanhola, exerceu grande influência sobre o reino. Anne e Sarah eram virtualmente inseparáveis; nenhuma amante de rei possuiu o poder outorgado à duquesa. Entretanto, ela tornou-se demasiadamente confiante em sua posição, desenvolvendo uma conduta arrogante em relação a Anne, chegando a repreendê-la em público.
Entrementes, os líderes Tories “plantaram” na casa real, Abigail Hill, para capturar a necessidade de afeição de Anne e, à medida que esta se voltava para Abigail, a questão sucessória novamente surgiu, colocando a rainha e os Marlborough em acalorados debates. Essa relação ruiu e, a despeito de seu registro de guerras, Marlborough foi dispensado de seus serviços e Sarah afastada em favor de Abigail.
Muitos dos conflitos internos na sociedade inglesa eram causados pelo sistema de governo de dois partidos. Os Whigs e Tories, totalmente emancipados durante o último ano do reinado de Anne, lutaram pelo controle do Parlamento e pela influência sobre a rainha. Anne foi dividida, pessoal e politicamente, pela questão sucessória: sua formação Stuart a compelia a escolher como herdeiro, seu meio irmão, o velho pretendente, e favorito dos Tories, mas ela já havia escolhido alinhar-se com os Whigs ao apoiar Mary e William contra James II. Ao final, Anne, aceitou o Ato de Instalação com os Whigs aplainando o caminho para a sucessão do seu candidato, George of Hanover.
Em abril de 1713, os ingleses e seus aliados holandeses chegaram a um acordo pelo Tratado de Utrecht, encerrando dez anos de guerras. Por ele, os franceses concordaram em abandonar seu apoio às reivindicações dinásticas de James II ao trono da Grã Bretanha, reconhecendo a sucessão Hanoveriana na Inglaterra, estabelecida pelo Act of Settlement de 1701.
Quando Anne, a última monarca Stuart, morreu, em 1714, sem deixar herdeiros, o trono do Reino Unido da Grã Bretanha foi ocupado por George I, Elector of Hannover(7) , o primeiro dos Hanoverians.


(1) A palavra "tory" deriva do irlandês antigo tóraidhe, que significa fora da lei, ladrão ou arruaceiro e do irlandês tóir, significando "perseguir", uma vez que os fora da lei eram homens perseguidos. Foi originalmente usada para se referir a um irlandês for a da lei e posteriormente aplicada aos realistas em armas. Assim, o termo foi de início usado como um termo de abuso, antes de ser adotado como marca política, da mesma forma que “whig”.
(2) O termo Whig foi originalmente encurtado de “whiggamor”, palavra que significava "condutor de gado", usada para descrever os escoceses que iam a Leith em busca de cereais. O termo "Whig" entrou no discurso politico inglês durante a crise de 1678–1681, quando da controvérsia sobre o direito de sucessão de James, irmão de Charles II, ao trono inglês. "Whig" foi também um termo de abuso aplicados aos que desejavam exluir James por ser, supostamente, um católico romano.
(3) Ao fim do inverno de 1664-1665, a peste bubônica irrompeu no distrito londrino, abatido pela pobreza, St Giles-in-the-Fields. O contagion espalhou-se rapidamente e pelos meses seguintes mais de 100.000 pessoas morreram. Quando a epidemia acabou, em dezembro de 1665, um quarto da população da capital havia morrido.
(4) O fogo irrompeu numa padaria em Pudding Lane, Londres, e espalhou-se rapidamente. Em quarto dias dois terços da cidade haviam sido destruídos e 65.000 pessoas estavam sem lar. O incêndio teve um lado positivo: em três semanas o arquiteto Christopher Wren apresentou planos para reconstrução de boa parte da cidade. Embora não totalmente implementados, Wren foi responsável pela reconstrução de mais de 50 igrejas, incluindo a Catedral de São Paulo.
(5) Nos Países Baixos (Holanda) o Stadholder era uma função medieval que, durante os séculos XVI a XVIII, desenvolveu-se num tipo raro de chefe de estado hereditário, de fato, da “coroada” República Dutch (holandesa).
(6) O Palatinato do Reno, posteriormente, Eleitorado do Palatinato (Elector Palatine), foi um território histórico do Sacro Império Romano-Germânico, administrado por um conde palatino.
(7) A Casa de Hanover (os Hanoverians ) é uma dinastia real germânica que governou o Ducado (Electorate) de Braunschweig-Lüneburg e Reino de Hanover, além de, posteriormente, o Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (7) (Décima Quinta Parte)

III – OS ANGLO-SAXONS NA GREAT BRITAIN
É durante a dominação anglo-saxon que surge a figura lendária de Arthur. Por essa razão, esse período será descrito com maior detalhe que os anteriores; e antes de entrarmos na descrição da Britain ao tempo desses invasores, propriamente dita, faremos uma boa análise de como ocorreu a sua chegada à grande Ilha. A data da chegada dos primeiros colonizadores germânicos na Britain é matéria de considerável debate. É, contudo, crítica para datar eventos chaves entre a partida da autoridade romana em 410 DC e a chegada da missão de Santo Augustine em 597 DC. Exemplos desses eventos incluem: a ascensão de Vortigern ao poder e a duração do seu reinado; suas relações com Ambrosius; a revolta saxônica; o surgimento de Arthur e Badon. Esse influxo germânico é conhecido, historicamente, pela frase latina “Adventus Saxonum”, a chegada dos Saxons (Saxões). Pelo menos dois autores importantes são considerados dignos de confiança para testemunhar essa chegada, considerando-se a proximidade da época em que viveram: Bede e Nennius. Entretanto, um terceiro, de nome Gildas, aporta também significativas informações.

O Venerável Bede
A primeira tentativa de datar o “Adventus Saxonum” foi feita pelo insigne escritor e historiador eclesiástico, Bede (se desejar, clique aqui para chegar a uma curta biografia de Bede). A sua “Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum” (“História da Igreja e Povo Ingleses”), além de perseguir esse objetivo, fornece um sumário histórico do que foi tornar-se ‘England’, baseado nos registros que lhe eram disponíveis. Completada em 731 DC, ela é uma fonte primária dos primeiros eventos na estruturação da England. Não apenas um estudioso, Bede leva também os créditos por introduzir alguns conceitos notavelmente modernos em sua abordagem à história. Foi ele que popularizou o processo de datar conhecido por “Anno Domini” (A.D.) – Ano do Senhor -, em nossos dias, aceito incondicionalmente. Ele identificou suas fontes, em forma escrita e oral, e foi seletivo em seu uso. Sempre que possível e desejável, incrementava algumas de suas fontes primárias mais escassas com outro material. Um bom exemplo disso é o seu tratamento de “De Excidio Brittaniae” – Da Ruína da Britain -, de Gildas. Olhemos algumas referências relativas ao “Adventus Saxonum” encontradas em sua História.
No Capítulo 24, onde ele apresenta um sumário cronológico do seu livro, no ano 597 DC – chegada de Augustine e sua missão cristã – afirma que eles teriam chegado aproximadamente 150 anos após a chegada dos English. Isso nos dá como data de sua chegada, o ano 447 DC.
Em outro lugar, quando descrevendo eventos sobre o batismo do rei Edwin, em 627 DC, Bede diz que Edwin recebeu a fé e o renascimento no décimo primeiro ano do seu reinado, isto é, no ano 627 do Senhor e 180 anos após a chegada dos English à Britain. Por essa referência, novamente chegamos ao ano de 447 DC para o Adventus.
Um terceiro cálculo é encontrado na seção que conclui um sumário do estado da Britain no momento, 731 DC: “Este é o estado de toda a Britain no momento, em torno de 285 anos após a chegada dos English à Britain, no ano 731 do Senhor”. Nesse caso, chegamos a 446 DC como o ano do “Adventus Saxonum”, consistente com as duas datas precedentes.
Indo ao corpo principal de sua História, onde a chegada dos Saxons é realmente descrita, encontramos:
“No ano 449 DC, Marcian, o 46º depois de Augustus, tornou-se imperador com Valentinian e governaram por sete anos. Àquele tempo, a raça dos Angles ou Saxons, convidados por Vortigern, chegaram à Britain.”
Aqui, a cronologia de Bede está defasada de um ano visto que o governo conjunto de Marcian e Valentinian foi de 450 a 455 DC, durante o qual chegaram os Angles ou Saxons. Esta sequência é repetida novamente no sumário cronológico ao final da História de Bede e também em outro trabalho chamado “A Grande Crônica”, encontrado como um apêndice em algumas traduções da História.
As razões para a aparente discrepância – 446 ou 447 versus 450-455 – residem nas duas fontes primárias que Bede usou para datar o Adventus. A primeira delas confia na obra “De Excidio”, de Gildas, na seção onde um apelo feito a Aetius é registrado:
“Então os miseráveis remanescentes enviaram uma outra carta, desta vez ao comandante romano Aetius, nos seguintes termos: ‘A Aetius, três vezes cônsul, os gemidos dos British’. Posteriormente, chegou a queixa: ‘Os bárbaros nos empurram de volta ao mar, o mar nos empurra de volta aos bárbaros;  entre essas duas espécies de morte, ou seremos afogados ou seremos massacrados.’ Mas eles não obtiveram qualquer ajuda.”
Informado historiador dos tempos romanos, Bede sabia que o terceiro consulado de Aetius começara em 446 e por isso concluiu que o Adventus teria ocorrido após esse apelo, isto é, em 446-447 DC.
O segundo conjunto de datas, 450-455 DC, veio de uma velha tradição Kentish de que a sua dinastia havia sido fundada durante o governo conjunto de Mauricius e Valentinian. No prefácio de sua História, Bede alude a essa fonte, aparentemente idêntica à usada na Crônica Anglo-Saxon muitos anos mais tarde, com o nome Mauricius em lugar de Marcian, que era o Imperador do Oriente àquela época. A tradição Kentish certamente confundiu o imperador Marcian com o posterior imperador Maurice Tiberius Augustus, durante a missão de Augustine em Kent, em 597 DC.
 
A ‘Historia Brittonum’ – A História da Britain
A outra fonte escrita, que nos ajuda a datar o Adventus Saxonum, é a ‘Historia Brittonum’, atribuída ao monge Nennius (se desejar, clique aqui para chegar a uma curta biografia de Nennius
) e que reflete uma tradição British desses eventos, da mesma forma que a História de Bede a preserva. Em sua forma original, ela parece ter sido compilada em torno de 830 DC, mas foi sucessivamente editada nos últimos séculos. Várias versões latinas, no todo ou na parte, foram identificadas por toda a Great Britain e no resto da Europa.
A ‘Historia Brittonum’ contém várias referências à chegada inicial dos Saxons, mas uma, em particular, é mais exata, ao datar este evento. A partir de datas bem documentadas do início do reino de Vortigern e os consulados de Theodosius II e Valentinian III, ocorrido em 425 DC, além de dois outros consulados, Nennius chega à conclusão que Vortigern teria iniciado seu reinado em 425 DC e que o Adventus Saxonum seria datado de 428 DC.
Há várias outras seções da ‘Historia Brittonum’ relativas à nossa indagação; de uma delas, distinta e independente da seção anterior de Nennius, chega-se facilmente aos anos 423-428 e o reino de Vortigern. Em outro lugar lê-se algo que, corrigido de erros grosseiros de revisão no que se refere à numeração romana, conduziria à data de 425-429, que se ajusta muito bem aos cálculos prévios para Vortigern e o ‘Adventus Saxonum’.

Um Conto de Duas Culturas
Como reconciliar as duas diferentes tradições de Bede e Nennius? Embora separadas no tempo por algo em torno de 20 anos, elas compartilham pontos comuns:
•    ambos os relatos estabelecem que a sua vinda ocorreu a convite de Vortigern;
•    ambos relatos contam que o assentamento saxon inicial foi na ilha de Thanet (sudeste da England e a leste de Kent, hoje não mais uma ilha) e somente mais tarde na terra principal kentish (Kent);
•    a última revolta saxon ocorreu sob a instigação de Hengest e Horsa e iniciou em Kent.
Localização do Condado de Kent na England


 
A Ilha de Thanet (então uma ilha), a leste, no condado de Kent
Claramente, as tradições referem-se aos mesmos eventos. Será que eles diferem por causa da perspectiva cultural das partes envolvidas? Após a fase inicial dos saques e pirataria saxon, os British contra-atacaram. Um relato geral da guerra que se estendeu por vários anos é fornecido por Nennius:
“Finalmente Vortimer, o filho de Vortigern, valentemente lutou contra Hengist, Horsa e seus povos; empurrou-os à ilha de Thanet e três vezes confinou-os nela e sitiou-os pelo lado oeste. Os saxons então despacharam delegados à Germany para solicitar grandes reforços e um número adicional de navios; obtidos esses reforços, eles voltaram a lutar contra os reis e príncipes da Britain...”
Duas crônicas gallic relatam grandes seções da Britain cedendo sob controle saxon em 441. A data provável da revolta saxon é portanto 439/440. Após cerca de 10 anos de luta, como indicado pela ‘Crônica Anglo-Saxon’ e por Nennius, Vortimer obteve a vitória após rebelar-se contra a política anglo-saxon adotada por seu pai e fundar um reino paralelo. Aparentemente, a vitória global de Vortimer foi seguida por um período de paz em torno de 5 anos. Este foi seguido por invasões saxon ainda mais violentas, aparentemente defendidas por Ambrosius Aurelianus, após derrotar Vortigern, visto que, segundo a História de Nennius, Vortimer teria morrido logo após derrotar os saxons.
Esse período inicial de invasões renovadas e permanente assentamento, provavelmente ocorreram entre 450 e 455 DC, como estabelecido na velha tradição Kentish. Pode-se assim constatar que duas culturas podem selecionar um diferente ponto de partida, mas ainda estar falando do mesmo evento. Os British olhando para trás à inicial e fatal asneira de Vortigern em 428 DC, viram esse fato como a primeira vinda dos saxons, ao passo que seus contrapartidas Kentish viram o período de permanente assentamento (450-455 DC) como a fundação do seu reino.

segunda-feira, 7 de março de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (1) (Nona Parte)

INTRODUÇÃO
Essa pretensiosa idéia de escrever uma história da Inglaterra foi motivada pela minha curiosidade sobre a figura histórico-lendária de um dos seus personagens mais ilustres, o Rei Arthur. Desde muito jovem peguei gosto pela literatura Arthuriana e só depois de velho consegui o almejado direito ao “ócio produtivo”, para poder dedicar-me a uma pesquisa mais aprofundada sobre a vida desse personagem. Ora, a vida do Rei Arthur está diretamente ligada à vida da Great Britain que, por sua vez, é um dos países de história mais complexa do mundo, por pelo menos dois motivos principais: (1) trata-se de uma grande ilha, permanentemente (bem, tudo tem o seu limite) socialmente separada do continente europeu, por própria e veemente opção; (2) a sua peculiar origem e a forma de colonização que sofreu ao longo do seu estabelecimento como uma só nação. Uma coisa leva a outra e chegamos à conclusão que, para contar uma pequena história do Rei Artur, deveríamos contar um pouco da história da Inglaterra, que não é pequena e começou há muito, mas muito tempo atrás. Ora, o assunto começou a ficar muito mais longo do que eu imaginava (e gostaria) que ficasse, é muito fácil de imaginar. Em consequência, transformou-se em mais uma das minhas tarefas que, possivelmente, não verei concluída antes do encerramento do meu curto estágio neste nosso mundo. O que não quer dizer que não iremos persegui-la até o nosso próprio limite.
Desse reconhecimento, algumas consequências brotaram imediatamente. Uma delas é que a matéria que eu pretendia fosse uma simples crônica para o meu “blog”, transformou-se numa missão de aprendizado particular – meu aprendizado -, que estarei publicando, periódica, parcelada e parcimoniosamente, à medida que consiga ir fechando as partes que comporão o todo pretendido; principalmente porque há outros assuntos pelos quais tenho interesse e dos quais não abdicarei de ir, também, publicando. Uma segunda consequência é que o trabalho jamais será desenvolvido com a profundidade desejável e servirá então para satisfazer à curiosidade daqueles que nada sabem - e aqui me incluocomo eu próprio-, sobre assunto, podendo ter, para eles, algum interesse semelhante; muitas partes serão pinceladas aqui e ali, de pesquisa realizada nas fontes disponíveis.
Esta etapa do nosso trabalho foi dividida em três partes, em ordem cronológica, para bem situar o leitor. Na primeira delas descrevemos, superficialmente, o período que vai do ano 8.000 AC até o início da Era Cristã, que coincide com a invasão da Britain pelo poderoso Império Romano, englobando a Idade da Pedra Polida (Neolítico), a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. Na segunda etapa, descrevemos aquilo que chamamos de “England Romana”, período de aproximadamente 400 anos, em que a Ilha esteve ocupada pelos soldados romanos. Finalmente, na terceira parte, com mais detalhes que nas anteriores, descrevemos a “England Anglo-Saxônica”. Evidentemente, e por razões óbvias, é nesse período que concentraremos nossos maiores esforços; no período que descreve a chegada e dominação dos povos anglo-saxons, época durante a qual teria vivido o nosso herói, o Rei Arthur, que merece um capítulo todo especial. Antes disso, terão sido breves referências, necessárias para localizar o leitor sobre as origens dos povos da Britain.
À guisa de “introdução”, para um assunto tão amplo quanto o escolhido, é o que basta. Seria tolice uma apresentação mais volumosa, quando o futuro reserva um material que, para muitos, já poderá constituir um tremendo exagero. Vamos, portanto, ao que de fato interessa...

 
I -DA IDADE DA PEDRA AO INÍCIO DA ERA CRISTÃ


Do Neolítico à Idade do Bronze, 8.000 - 800 AC
O alvorecer da exploração agrícola 

A Terra existe há uns cinco bilhões de anos, mas na imensa maior parte desse longuíssimo tempo não houve sinal de vida sobre o planeta. As primeiras formas de vida que surgiram através de milhões de anos (já dividimos a coisa por mil!) foram se tornando mais completas e evoluídas, até chegarem aos grandes animais e ao aparecimento dos grandes “hominídeos” - todas as espécies de primatas em que se inclui o homem moderno -, por volta de 2 milhões de anos atrás. Os cientistas pensam que foi, aproximadamente, há um milhão e meio de anos que algumas espécies de hominídeos começaram a se distinguir dos outros animais por sua capacidade de fabricar armas rudimentares, de pau e pedra (para se defenderem e para caçar), e descobriram que certas coisas da natureza podiam ser utilizadas como utensílios.
O mais antigo hominídeo, com sinais de inteligência, foi descoberto no sul da África, numa gruta onde se encontravam ossadas fósseis, de vários hominídeos da mesma espécie, dando a entender que já viviam em grupo. Juntamente foram recolhidas pedras que tinham sido trazidas de rios bem distantes, já com intenção de aproveitá-las como utensílios. Em 1868, foram descobertos esqueletos na França, em Cro-Magnon.
 
 Abri de Cro-Magnon, local da primeira descoberta em 1868
Foram encontrados também fósseis do mesmo estágio de civilização numa gruta em Grimaldi (Itália), na República Tcheca e em muitos outros lugares. Trata-se do nosso ancestral mais direto, que apareceu por volta de 40.000 anos atrás (já dividimos novamente por mil!). Pelos utensílios e sinais de civilização que deixou, já demonstrava uma inteligência mais evoluída. Por isso foi também chamado de “Homo Sapiens” ("homem sábio"). Este teria fabricado mais de uma centena de objetos diferentes com as mais variadas utilidades, inclusive ornamentais. Usava sepulturas coletivas, tendo sido grande pescador e caçador. Daí por diante, os seres-humanos foram se aperfeiçoando, melhorando suas técnicas de domínio sobre a natureza, desenvolvendo sua cultura e se organizando em sociedades que foram as civilizações antigas.
A Pré-história corresponde ao período da história que antecede à invenção da escrita, evento que marca o começo dos tempos históricos registrados e que terá ocorrido, aproximadamente, em torno do ano 4000 AC. Assim definido, seu término torna-se muito elástico, pois ele também pode ser contextualizado, para um determinado povo ou nação, como o período da história desse povo ou nação sobre o qual não haja documentos escritos. Assim, no Egito, a pré-história terminou aproximadamente em 3500 AC, enquanto que no Brasil terminou em 1500 DC e na Nova Guiné, ela terminou, aproximadamente, em 1900 DC. Para muitos historiadores o próprio termo "pré-história" é errôneo, pois não existe uma anterioridade à História e sim à Escrita.
A Idade da Pedra é o período da Pré-História, durante o qual os seres humanos criaram ferramentas de pedra, tornando então a tecnologia mais avançada. A madeira, os ossos e outros materiais também foram utilizados nesse período, mas a pedra foi utilizada para fabricar ferramentas e armas, de corte ou percussão. Contudo, esta é uma circunstância necessária, mas insuficiente para a definição deste período, já que nele tiveram lugar fenômenos fundamentais para o ser humano, no que se refere às aquisições tecnológicas (fogo, ferramentas, moradia, roupa, etc), à evolução social, às mudanças do clima, à diáspora do ser humano por todo o mundo habitável, desde o seu berço africano, e à revolução econômica de um sistema caçador-coletor até um sistema, parcialmente, produtor (entre outras coisas). O intervalo de tempo que abrange a Idade da Pedra é ambíguo, disputado e variável segundo a região em questão. Por exemplo, escavações mostraram que enquanto em certos lugares, como a Grã-Bretanha, se vivia na Idade da Pedra, em outros, como Roma, Egito e China, já se usavam os metais e conhecia-se a escrita. Alguns grupos humanos nunca desenvolveram a tecnologia do metal fundido e, portanto, ficaram numa “idade de pedra” até se encontrarem com culturas tecnologicamente bem mais desenvolvidas.
Tradicionalmente, a Idade da Pedra é dividida em Paleolítico (ou Idade da Pedra Lascada), com um sistema econômico de caça-coleta e Neolítico (ou Idade da pedra Polida), em que se produz a revolução para o sistema econômico produtivo: agricultura e pecuária.
O Neolítico, também chamado de Idade da Pedra Polida, é período da Pré-História que começa em 8000 AC. Durante este período surge a agricultura; a fixação, resultante do cultivo da terra e domesticação de animais para o trabalho, cria o sedentarismo (moradia fixa em aldeias).
Seres humanos têm vivido no local ao norte da Europa, atualmente chamado de Grã-Bretanha, por cerca de 750.000 anos. Durante a maior parte deste tempo eles sobreviveram através da coleta de alimentos como nozes, bagas, folhas e frutas de origem selvagem, bem como da caça. Por milênios, ocorreram fases de frio extremo, quando vastas áreas da Grã-Bretanha ficaram cobertas com gelo, seguidas de períodos mais quentes. Após o final da Era Glacial, ocorrida a cerca de 10.000 anos atrás, os níveis do Mar do Norte começaram a subir a partir do momento em que as águas anteriormente represadas em enormes lençóis de gelo começaram a derreter. Em algum momento após 8.200 AC, a última “ponte de terra” seca, ligando Lincolnshire e East Anglia à Holanda (futuro British Channel), foi inundada pelo brejo de água salgada. Em torno de 6.000 AC até mesmo os brejos já haviam terminado em sua maior parte, submersos pelo mar, e a Great Britain então separou-se do continente europeu.
As pessoas que viviam nas novas ilhas da Great Britain eram descendentes dos primeiros humanos modernos ou “Homo Sapiens”, que chegaram ao norte da Europa em torno de 30.000 a 40.000 anos atrás. Como seus ancestrais, viviam da caça e da coleta. A introdução da exploração agrícola, quando os povos aprenderam a produzir ao invés de adquirir sua alimentação, é vista, pela maioria dos cientistas, como uma das maiores mudanças na história da humanidade. Essa mudança ocorreu em várias épocas em diferentes locais ao redor do mundo. No Paleolítico os povos eram nômades, caçando e coletando plantas selvagens. Em torno da metade do quinto milênio AC, uma nova forma de vida, baseada na exploração agrícola e de animais, foi introduzida através do continente. A substituição da caça e da coleta foi gradativa e não se completou até o final do terceiro milênio AC na Grã-Bretanha. Assim que a exploração agrícola foi estabelecida, as comunidades começaram a se instalar. O conceito de cultura que alcançou a Grã-Bretanha entre 5.000 AC e 4.500 AC, havia se espalhado pela Europa, com origem na Síria e Iraque, entre cerca de 11.000 AC e 9.000 AC.