Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (12) (Vigésima Parte)

NOVOS ELEMENTOS SOBRE O ARTHUR HISTÓRICO

Mais modernamente, muitos autores escreveram sobre o mesmo tema, procurando de todas as formas separar a história da lenda. Alguns, com má disfarçada intenção de demonstrar que o Rei Arthur realmente existiu, cercado de todo o mito com que hoje nos é apresentado, pesquisa que, de fato, até agora ainda não apresentamos. Seria impossível apresentar e discutir todos esses autores, razão pela qual vamos apenas discutir alguma coisa de uma dupla deles.
Em 1992, Graham Phillips e Martin Keatman publicaram um trabalho denominado “King Arthur – The True Story” (O Rei Arthur – A Verdadeira História), em que realizaram um profundo trabalho de pesquisa sobre o personagem e o mito, estudando durante muito tempo todas as obras mencionadas em nossa publicação, além de um sem número de outras pesquisas realizadas anteriormente por outros estudiosos do assunto. Gostaríamos de tocar em um ponto, que nos parece muito importante, do personagem Arthur, que é justamente a sua possível origem e a sua localização geográfica.
A tribo dos Votadini, já mencionada quando apresentamos as tribos nativas da Britain - gostaria de lembrar aos leitores que o nosso blog possui um mecanismo de busca ou pesquisa, que pode ser acionado sempre que os leitores tiverem interesse em algum assunto passado -, durante o domínio romano, era a tribo do norte mais favorável aos romanos, porque seu reino situava-se dentro de uma área que, de fato, nunca foi nem romana nem pictish, entre as Muralhas de Adriano e Antonina. Como já vimos anteriormente, a palavra Pict não denota uma tribo particular, mas era um termo romano – que significava “homens pintados” – usado para referir-se a qualquer das tribos British que ficasse fora dos limites do Império. Os Votadini e os Romanos mantinham ótimas relações: os romanos oferecendo-lhes apoio contra os hostis Picts e os Votadini ajudando os Romanos a policiarem a zona de conflito entre as duas muralhas.
Assim que as legiões romanas abandonaram a Britain, os Votadini passaram a sofrer ataques em três frentes: os Angles atacando sua linha costeira, os Picts saqueando do norte e os Scotti (da Ireland) tentando a invasão pelo oeste. Foram os Votadini, certamente, notáveis guerreiros, pois conseguiram suportar o assédio das forças combinadas até o início do século VII. Em consequência, não teria sido difícil, para Ambrosius, convencer os Votadini a se estabelecerem a noroeste de Wales, para contar com o seu apoio contra os Irish. A colonização do noroeste de Wales pelos Votadini, na segunda metade do século V, é comprovada por evidência cerâmica daquela tribo, descoberta em Gwynedd, o reino que teria sido então criado por seu líder Cunedda, durante o período de Ambrosius. A migração dos Votadini é também reconhecida pela Historia Brittonum, do Welsh Nennius, e pelos Annales Cambriae, como um evento histórico, apresentando enorme importância no que se refere ao levantamento da linhagem de Arthur. Teria o pai de Arthur sido um dos Votadini, talvez o seu próprio líder Cunedda ou um de seus filhos?
Gwynedd era, sem dúvida, o mais poderoso reino à época de Gildas (em torno de 545) - o que torna razoável supor que fosse um legado de Arthur – sendo quase certo admitir que Ambrosius daí emergiu; e como Arthur aparece como sucessor de Ambrosius e não um seu usurpador, tudo indica que fosse também do mesmo reino. Isso não conflitaria com o nome do pai de Arthur, segundo Geoffrey of Monmouth, em sua Historia Regum Britanniae, Uther Pendragon, considerando que este fosse um título e não o seu próprio nome, significando “terrível dragão chefe”. Além disso, Nennius menciona que Arthur não era um rei British, embora “um igual dos reis British”, uma descrição que caberia a um rei dos Votadini que, embora não bretões, eram um povo confiável, com inimigos comuns. Sendo Arthur um Votadini, seria um comandante em chefe ideal das forças British, vindo de uma raça de guerreiros com muita experiência original na luta não apenas contra os Anglo-Saxons, mas também contra os Scotti e os Picts e, mais importante que tudo, teria permanecido alheio às disputas que sempre haviam dividido os povos naturais da Britain.
Localização do Reino de Gwynedd, noroeste de Wales

Uma outra forte evidência de que Arthur era um dos Votadini de Gwynedd, vem daquela que pode ser a mais antiga de todas as referências Arthurianas, um antigo poema chamado Gododdin, aceito como composto ao final do século VI, originário dos Votadini e tratando de um grupo de guerreiros estabelecido no extremo norte para lutar contra os Anglo-Saxons. Em uma passagem o poeta louva a coragem de um herói que, embora lutando bravamente, “não chegava próximo de Arthur”, certamente indicando que ele era um membro estimado da mesma tribo.
Agora, se Arthur era da casa real de Gwynedd, porque o seu nome não aparece registrado nas genealogias? Possivelmente pela mesma razão que Vortigern e Uther, o nome Arthur teria sido apenas um título ou apelido. Na língua Brythonic, a primeira sílaba Arth significava urso, sendo prática comum à época, os senhores da guerra Celtic assumirem um nome de batalha de um animal. Inscrições remanescentes do século V atestam que os reinos pró Britain falavam o Brythonic, ao passo que simpatizantes dos romanos continuavam a falar o Latim. A palavra ursus, em latim, significa urso, o que indica que o seu título original possa ter sido Arthursus, mais tarde abreviado para Arthur. Ou seja, o líder de Britons divididos, para personificar a unidade, poderia ter adotado um nome formado pelas duas línguas, significando a mesma palavra “Urso”.
Em um discurso sobre Cuneglasus, primo de Maglocunus, Gildas, em sua obra já mencionada “De Excidio et Conquestu Britanniae”, o chama de condutor da “Fortaleza do Urso”. Como Cuneglasus era um rei de direito, ao tempo em que Gildas escrevia (cerca de 545), a passagem implica que ele estava no comando do que tinha sido, uma vez, a fortaleza do Urso, isto é, a capital do comando de Cuneglasus parece ter sido a fortaleza de Arthur. Ao tempo de Gildas, cinco reinos eram suficientemente poderosos para terem sido o reino de Cuneglasus, mas três deles podem ser descartados porque Gildas deixa muito claro por quem eram eles governados. Como um deles era Gwynedd, parece que, embora Arthur tenha se originado aí, ao tempo em que se tornou líder dos Britons, tivesse estabelecido sua base em outro lugar, restando apenas Gwent ou Powys para o reino de Cuneglasus. Como Powys limita com Gwynedd (ver mapa acima) e as inscrições e genealogias do período mostram que a família de Cunedda governava lá, tudo indica, que Powys seria a fortaleza de Arthur, o que possui senso histórico: o reino de Powys, fortaleza de Vortigern, líder da tribo vizinha dos Cornovii, teria sido conquistada pelas forças de Gwynedd, sob a liderança de Ambrosius.

Localização de Viroconium, nos limites entre Wales e England
As incursões dos invasores germânicos do leste, dos Picts ao norte e dos Irish ao oeste, enfraqueceram consideravelmente as fronteiras das tribos costeiras, fazendo com que a posição central dos Cornovii lhes tenha propiciado uma posição estratégica única de resistência, após a partida dos romanos, muito antes de todos os seus vizinhos, como reino autônomo. Foi assim que Vortigern tornou-se o chefe supremo das várias tribos satélites que se uniram à sua própria tribo, os Cornovii, constituindo o reino de Powys, cuja capital permaneceu sendo a antiga cidade romana de Viroconium, a quarta maior cidade da Britain romana. Situada no atual condado de Shropshire, tudo o que resta hoje de Viroconium, antiga metrópole com ruas calçadas, abastecimento de água e sistemas de drenagem, suas próprias cortes de justiça, mercado e outros prédios públicos, são ruínas descansando em terras agrícolas, muito próximas da diminuta vila de Wroxeter, a sudeste de Shrewsbury.

Vista aérea das ruínas de Viroconium, muito próximo de Wroxeter
Uma extensa escavação arqueológica iniciada ao final da década de 1960, mostrou que durante a primeira metade do século V a cidade de Viroconium foi totalmente reconstruída, de maneira altamente sofisticada, o que só poderia ter sido alcançado a custos altíssimos e com poderosa liderança. A época e local batem exatamente com o que se sabe sobre Vortigern, consubstanciando os escritos de Gildas, Bede, Nennius e as Crônicas, que registraram a existência do poderoso líder na Britain após o período romano. Além disso, evidência de que os Votadini governaram Viroconium ao final do século V é fornecida por uma lápide, datada de 480 DC e encontrada nas escavações de 1967, com o nome Cunorix, carregando o prefixo “Cun”, da família Cunedda. Finalmente, as escavações mostraram ainda que a cidade não foi abandonada em favor de um local mais seguro, até cerca de 520 DC, tendo permanecido como a capital do reino de Powys até essa data. Nesse caso é seguro admitir que, se a fortaleza de Arthur tivesse sido Powys, então Viroconium teria sido a sua capital, ou a Camelot real.

Ruínas em Viroconium (2)
Ruínas de casa de banhos em Viroconium (1)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (11) (Décima Nona Parte)

A HISTÓRIA DE ARTHUR E SEUS CAVALHEIROS (2)

Como introdução a este “post”, para reavivar a lembrança dos nossos leitores, apresentaremos um breve resumo do que aconteceu até aqui.
Os britons (bretões), povo de origem celta, habitantes da Britain (Bretanha), viviam em tribos rivais entre si, liderados por um chefe ou rei. Por sua falta de unidade política, essa população celta sofreu conquistas sucessivas.
No século I foram invadidos pelos romanos, que pouco interferiram na cultura celta, mas protegeram os bretões de outros atacantes, apesar de terem perseguido os druidas.
Com o fim da dominação romana, no início do Século V, os bretões passaram a sofrer ataques de outros povos que pretendiam conquistar a Ilha: Scots (da Ireland), Picts (da Scotland) – povos também de origem celta com os quais os bretões sempre estiveram em conflito - e os Anglo-Saxon que conseguiram dominar a Bretanha no Século VI.
No Século XI viria a ocorrer a invasão Norman (Normanda), a última em grande escala que acometeria a Ilha.
A fonte latina mais antiga sobre os bretões (540 DC) é a obra “De Excidio et Conquestu Britanniae” - “Sobre a Destruição e Conquista da Bretanha” -, do clérigo bretão Gildas, cujo objetivo principal foi chamar a atenção para os pecados morais do povo, razão principal da sua decadência. O autor menciona a vitória dos bretões no Monte Badon, contra os anglo-saxon, atribuindo-a ao descendente de romanos Aurelius Ambrosius, sem mencionar uma só vez o nome de Arthur.
A “Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum” – “História Eclesiástica da Nação Inglesa” -, (731 DC), do monge saxon nascido na Bretanha, o Venerável Bede, exerceu grande influência por toda a Idade Média, mas também nunca mencionou o nome de Arthur.
A “Historia Brittonum” (História da Britain), cerca de 800 DC, do historiador Nennius, foi a primeira fonte latina a mencionar o nome de Arthur, apresentado com “dux bellorum” (senhor das guerras). Segundo Nennius, Aurelius Ambrosius, enquanto ainda jovem, teria tido com Vortigern um encontro e aí lhe teria revelado seu nome e também ser filho de um Cônsul Romano (certamente Constantine, também pai de Constans e Uther Pendragon, futuro pai de Arthur). Também a morte de Vortigern e a morte de Vortimer, seu irmão, são narradas por Nennius. Logo em seguida, surge a figura de Aurelius Ambrosius já adulto e denominado de Grande Rei entre os Reis da Britain. E surge, finalmente, a figura de Arthur e Nennius narra, de imediato, as doze batalhas contra os saxões vencidas pelos bretões sob o seu comando, culminando com a Batalha de Monte Badon - um lugar talvez em Sussex ou, possivelmente, próximo de Bath, embora haja muitos candidatos à sua localização -, batalha que teria retardado o avanço Saxon por meio século, pelo menos. Nennius nada comenta sobre a morte de Arthur.

Solsburi Hill, um Forte de Colina da idade do Bronze e uma das possíveis localizações da Batalha de Monte Badon, segundo Gildas e Nennius, condado de Somerset
 
Condado de Somerset na England
 A “Anglo Saxon-Chronicle” – Crônica Anglo Saxon – foi originalmente compilada sob as ordens do Rei Alfred, o Grande, cerca de 890 DC e subsequentemente mantida por gerações de escrivães anônimos até meados do Século XII, na língua Anglo-Saxon (Old English). Considerada como um todo, a Chronicle é a fonte histórica mais importante para o período da England entre a partida dos Romanos e as décadas que se seguiram à conquista Normanda, sendo que a maior parte da informação nela fornecida não é registrada em qualquer outro lugar. Infelizmente, a Chronicle, em lugar algum faz qualquer referência ao nome de Arthur, visto que o seu objetivo principal era exaltar os feitos Anglo-Saxon.
Por volta de 950 DC, os “Annales Cambriae” (para quem tiver maior interesse, seguir o link) confirmam as vitórias de Arthur e afirmam que Arthur e Mordred teriam morrido na Batalha de Camlan. É a primeira menção do que se tornará mais tarde a última batalha entre Arthur e Mordred, sem que se saiba se, para os autores dos “Annnales Cambriae”, os dois eram adversários e mataram um ao outro, como contará Geoffrey de Monmouth, ou se morreram lutando juntos.
Somerset onde se encontra Solsbury Hill, na Vila de Batheaston, próximo a Bath

A obra de William of Malmesbury (siga o link para uma curta biografia), “Gesta Regum Anglorum” – “Os Feitos dos Reis dos English” – também apresenta Arthur como o guerreiro vencedor da batalha de Monte Badon. Menciona o túmulo de Walwen (Sir Gawain), sobrinho de Arthur, mas diz que o seu túmulo não foi encontrado e escreve, literalmente: “como o túmulo de Arthur não é encontrado em lugar algum, as velhas lendas dizem que ele voltará”. À época em que William escrevia a sua Gesta, cerca de 1125 DC, havia uma grande quantidade de contos Arthurianos sendo oralmente espalhados por todo o país. William menciona o fato e, bem mais sensatamente, simplesmente os descarta como puro mito. O trabalho de William é provavelmente a primeira vez em que os contos Arthurianos foram reunidos e a última vez em que o folclore foi separado do que era então aceito como fato histórico. A Gesta identifica Arthur na ajuda a Ambrosius Aurelianus na luta contra os Anglo-Saxons e refere ao seu triunfo na batalha de Monte Badon, onde Arthur portava a imagem da Virgem Maria por toda a batalha. Como William não menciona Camlann, suspeita-se que ele não tenha consultado os Annales Cambriae, seu contemporâneo, ao passo que Geoffrey certamente o fez.
A obra que realmente favoreceu a difusão das lendas Arthurianas na Europa Ocidental, foi a “Historia Regum Britanniae” – História dos Reis da Britain - (escrita entre 1135 e 1138), do clérigo Geoffrey of Monmouth. Na verdade o texto mistura ficção com história, mas cita as obras de Gildas, Bede e Nennius. O objetivo maior da obra foi a exaltação dos “britons”, criando uma genealogia que exaltasse e legitimasse a nobreza British , identificando-a à Normanda, como sua continuadora, através do seu representante mais legítimo que seria Arthur. Esse personagem briton portava elementos pagãos e cristãos: uma espada – Caliburn (Excalibur) –, forjada no outro mundo, e um escudo – Pridwen – a quem sempre apelava nas batalhas, contendo a imagem da Virgem Maria. Até então invencível, Arthur é mortalmente ferido por seu sobrinho Mordred – que é morto por ele – indo à Ilha de Avalon para curar seus ferimentos. A “História dos Reis da Britain” é composta por doze Livros. Do Livro VIII ao Livro XI, Geoffrey faz um relato completo sobre Aurelius Ambrosius, a continuação do seu reinado sob seu irmão Uther Pendragon e o nascimento de Arthur e sua irmã Anne, de Uther Pendragon e sua esposa Igerna. Aqui ele relata um episódio interessante sobre como Uther teria se apaixonado por Igerna, esposa de Garlois, Duque da Cornwall, e como sendo impossível concretizar seus desejos por ela, Merlin o teria transformado, por mágica, à semelhança de Garlois e assim ele teria feito amor com Igerna, de onde teria nascido Arthur e Anne. Posteriormente, com a morte de Garlois, Uther se casaria com Igerna. Geoffrey também relata como Arthur teria sucedido a Uther Pendragon, com a idade de apenas 15 anos, mas “uma juventude com coragem e generosidade tão sem paralelo, unida com uma tal doçura de temperamento e bondade inata, que lhe granjearam um amor universal”.
A obra de Geoffrey of Monmouth também cita, textualmente, a Ilha de Avalon e a espada Excalibur (Caliburn): “E então, cingindo sua Caliburn, que era uma espada excelente, feita na Ilha de Avalon, ele agraciou seu braço direito com sua lança, que era forte, longa e adequada para matar”. Além disso, em certo ponto de sua narrativa menciona também as figuras de Mordred e de Guinevere (Guanhumara). Mordred como sendo seu primo, filho de Aurelius Ambrosius, a quem teria deixado encarregado do governo do reino quando seguindo para uma de suas batalhas, e Guanhumara com sendo a sua esposa descendente de uma nobre família de romanos, educada pelo Duque Cador e considerada como de uma beleza não ultrapassada por nenhuma outra mulher. Mais tarde ele demonstraria os desencontros de Arthur com Mordred, através do texto: “Mas no início do verão seguinte, quando seguia para sua marcha contra Roma, iniciando a passagem pelos Alpes, Arthur teve notícias de que seu sobrinho Mordred, sob cujo cuidado havia deixado a Britain, havia, por práticas tirânicas e traiçoeiras, colocado a sua coroa sobre a sua própria cabeça, e que a rainha Guanhumara, violando seu primeiro casamento havia, pecaminosamente, se casado com ele.
Todas as conquistas de Arthur, que incluem Iceland, Dinamarca, França e uma guerra prolongada contra os romanos, da qual sai vencedor, são então detalhadamente narradas, até a sua luta contra Mordred, em que o mata, mas é por ele ferido mortalmente, sendo transportado à Ilha de Avalon para ser curado de suas feridas. E transfere o controle do seu reino a Constantine, Duque da Cornwall, no ano de 542 DC.
O primeiro dos trabalhos de Monmouth foi “As Profecias de Merlin”, que apareceu, primeiro, independentemente, e depois incorporado à “História dos Reis da Britain”. Essa obra consistiu, basicamente, de uma série de obscuras declarações proféticas atribuídas a Merlin, segundo ele, traduzida de língua não especificada. A sua “História” é o primeiro trabalho que apresenta uma ligação entre Merlin e o Rei Arthur. Monmouth ainda teria escrito outra obra, intitulada “A Vida de Merlin”, também composta em latim, em torno do ano 1150 DC, em que ele reconta incidentes da vida do mago bretão, baseada em material tradicional. No texto, Merlin é descrito como um profeta, muito mais fiel às tradições Welsh sobre Myrddin Wilt, o original que teria inspirado a complexa figura de Merlin criada por Monmouth; e o trabalho é o primeiro a apresentar a feiticeira Arthuriana, Morgan le Fay, como Morgana.

domingo, 29 de maio de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (9) (Décima Sétima Parte)

CONSOLIDAÇÃO DO DOMÍNIO ANGLO-SAXON
A história do Rei Arthur se confunde com o início da dominação anglo-saxon na Britain. Por essa razão, iniciaremos a sua narrativa, pelo rei bretão Vortigern, o grande facilitador da entrada dos invasores anglo-saxon.

O REI VORTIGERN VORTENEU
As estimativas sobre o período em que Vortigern teria reinado na Britain, variam drasticamente: possivelmente em torno de 425 DC, talvez cerca de 440-445 DC. Ele pode ter sido um “alto rei” e Vortigern pode não ter sido o seu nome, mas apenas um título significando “over king” (um rei superior). De acordo com fontes disponíveis, Vortigern era um homem fraco e de pouco caráter, com poucas qualidades pessoais comprovadas. Sendo essas fontes corretas, é difícil imaginar que sua ascensão ao trono tenha sido por aclamação dos membros do conselho reinante na Britain, sendo mais fácil acreditar que ele assumiu o poder por força de traição e crimes.
Em sua “História dos Reis da Britain”, Geoffrey of Monmouth (para uma curta biografia de Geoffrey of Monmouth, siga o link) fala de um rei Constantine, com três filhos: Constans, Aurelius Ambrosius (Ambrosius Aurelianus da história real) e Uther Pendragon (o lendário futuro pai do rei Arthur). Segundo Geoffrey, Constantine foi assassinado por um pictish, deixando seu filho mais velho, Constans, como rei.
Vortigern teria achado seu caminho casando-se com Severa, a filha do herói nacional e antecessor de Constantine, Magnus Maximus, e se instalado como conselheiro do rei Constans, então muito jovem; em seguida teria conspirado para matar o jovem rei. Com o rei fora do caminho e sendo Aurelio Ambrosius e Uther Pendragon apenas bebês, sem qualquer poder para frustrar seus projetos, Vortigern deteve para si a coroa. Felizmente para os jovens irmãos, eles teriam sido agasalhados e enviados à corte de seu primo, Budic I, na Brittany (região noroeste da França).
De acordo com a “Historia Brittonum” de Nennius, Vortigern subiu ao poder sob três fortes ameaças: os Picts e Scots, uma nova invasão romana e o temível Ambrosius. O medo dos Picts e Scots era perfeitamente natural uma vez que as defesas British do norte eram ineficazes e em total desordem. O medo de uma invasão romana sugere uma grande paranoia da parte de Vortigern – já que os romanos há anos não tinham presença na Britain – ou que havia uma boa razão para se preocupar com o reaparecimento de soldados romanos nas costas da Britain, das quais somos hoje ignorantes. O medo de Ambrosius teria fatais consequências, em alguns anos, já que ele era ainda jovem para reações imediatas. Mesmo com o apoio de seus cunhados, então poderosos governantes em Wales, o poder de Vortigern no país era ainda inseguro, piorando com a morte de Severa.
Para ajudar na defesa contra os ataques crescentemente brutais das tribos do norte, Vortigern autorizou o uso de mercenários Saxon e Jutish, liderados pelos príncipes Hengist e Horsa, que chegaram com uma pequena frota, em Kent, através da mesma prática adotada pelos romanos, qual seja, a cessão de terras para assentamentos em troca dos seus serviços. E assim foi feito.
A estratégia anti Pict/Irish adotada por Vortigern provou ter sucesso, dado que essas tribos nunca voltaram a ser problema e os arranjos entre os Saxons e Vortigern foi agradável por algum tempo. Contudo, mais tarde, os saxons mais uma vez enganaram Vortigern: bêbado durante uma celebração, Vortigern apaixonou-se por Rowena, filha de Hengist que lhe concedeu casar-se com ela se lhe entregasse o sub-reino de Ceint (Kent), com o que ele concordou. As Crônicas Anglo-Saxon registram a ascenção de Hengist ao trono de Kent em 455 DC e embora registre também a fuga dos Britons daquele reino para o de London, provavelmente refere-se a um exército e não a um povo. Os invasores, Jutes, chamaram a capital do novo reino de Canterbury, o burgo do povo do Cantii.
Localização de Canterbury no Reino de Kent

O Reino de Kent na England
 


















VORTIMER E AMBROSIUS AURELIANUS
Ameaçado pela traição de seus patrícios, Vortimer, o filho mais velho de Vortigern, declara-se um líder British rival, forma um exército e, por um curto período, consegue impedir o avanço saxon; contudo, ferido em batalha, é envenenado por sua madrasta. De sua base fortificada, os saxons então demandam mais alimentos e roupas para suprir o número sempre crescente de soldados, o que Vortigern recusa; a resposta não é aceita pelos saxons, que rasgam a terra, deixando devastação por onde passam. Muitos morrem nas batalhas que se seguem, entre eles, Horsa e o filho de Vortigern, Catigern. Finalmente Hengist pede por uma conferência de paz em Salisbury Plain, dizimando os British onde estavam, assim que chegam. Essa atitude dos Saxons resultaria em várias gerações de guerra contra os Britons.
Desiludidos, os British finalmente se rebelam contra o alto-rei. Ambrosius Aurelianus, retornando do seu exílio na Brittany e agora transformado num jovem corpulento, toma seu lugar nos eventos da época, para liderar o seu conflito. Merlin lhe teria legado o sítio montanhoso onde Vortigern não havia logrado construir o seu castelo e lá constrói seu forte de Dinas Emrys. Vortigern refugia-se no reforçado forte de colina de Ter’r Ceiri em Yr Eifl (Os Rivais), em Lleyn, mas Ambrosius persegue-o e expulsa-o para o sul, via Nant Gwrtheyrn e o mar, para Ergyng e um castelo de madeira no velho forte de colina de Caer-Guorthigirn. Aí o castelo teria sido atingido por um raio e Vortigern queimado até a morte. Posteriormente ele teria sido enterrado em uma pequena capela em Nant Gwrtheyrn.
Com isso, passa para Ambrosius Aurelianus a tarefa de impedir o avanço dos saxons, como líder da facção pro-romana na Britain. Logo (460-470 DC) ele tem o completo controle da Britain, liderando os britons por anos de luta contra os saxons.
Assim, o primeiro reino Anglo-Saxon na Britain, foi na verdade um reino Anglo-Celtic, povoado por Anglo-Celtas. A dinastia fundada por Hengist, durou por três séculos, mas apenas trinta anos passados de sua chegada, outro líder chamado Aelle veio para estabelecer-se, tornando-se o líder dos South-Saxons no reino chamado Sussex. Outros reinos surgiram: Essex, o dos West-Saxons, Middlesex, o dos Middle-Saxons e Wessex, dos West-Saxons, este destinado a tornar-se o mais poderoso de todos e que acabaria por reunir os diversos povos da England (nome vindo dos Angles) em uma só nação. Nossa história não pretende avançar tanto.
A partir do ano 460-470 DC, além das fontes já mencionadas de Gildas, Bede e Nennius, tudo com que podemos contar, sobre a história da Anglo-Saxon Britain, para o objetivo que nos interessa, são linhas esparsas, fornecidas pela “Anglo-Saxon Chronicle”. Trata-se de um relato de autor desconhecido, elaborado por ordem do Rei Alfred, O Grande, aproximadamente pelo ano 890 DC.
Após a morte de Vortigern, Ambrosius mostrou-se conciliatório com relação aos seus filhos e deixou-os manter suas propriedades em Buelt, Gwerthrinyon, Gwent e Powys. A despeito dessa magnanimidade, o rei Pasgen, de Buelt e Gwerthrinyon, mais tarde rebelou-se contra Ambrosius e duas vezes tentou destruir a Britain, com ajuda dos Saxons e Irish. As principais forças Anglo-Saxon haviam se retirado ao norte do Humber e Ambrosius encontrou Hengist na batalha em Maesbeli e então Conisburgh (Caer-Conan). Mais tarde ele sitiou Octa e Osla em York (Caer-Ebrauc). Todos foram derrotados, mas Ambrosius deixou-os assentar o seu povo em Bryneich (Bernicia).
Apenas para constar, Geoffrey of Monmouth (do qual ainda muito falaremos) conta que Ambrosius teria construído um monumental círculo de pedras, o “Círculo do Gigante” (possivelmente Stonehenge ou Avebury), no Monte Ambrius, como um memorial aos massacrados pelos Saxons na “Noite das Longas Facas”, durante o reinado de Vortigern. O próprio Ambrosius teria sido enterrado aí após ser envenenado por um Saxon em Winchester.
Ambrosius foi, certamente, uma figura histórica, como registrado por seu narrador contemporâneo próximo, São Gildas. Em sua “Sobre a Ruína e Conquista da Britain”, o monge descreve como os Saxons violentaram o país antes de retornar para casa:
“Os sobreviventes (dos British) ... pegam nas armas e desafiam seus vencedores à batalha, sob Ambrosius Aurelianus. Era um homem de caráter modesto que, sem par na raça romana, teve a sorte de sobreviver à tempestade em que seus pais, pessoas sem dúvida vestidas de púrpura, haviam sido mortos. Sua descendência em nossos dias grandemente degenerou da sua nobreza ancestral. Depois daquele tempo, os cidadãos foram algumas vezes vitoriosos, algumas vezes o inimigo ... até o ano do Cerco do Mons Baudonicus”.
Adicione-se a isso os comentários do cronista do século IX, Nennius, que, alinhado com Geoffrey, registrou Ambrosius como um dos principais pavores de Vortigern. Nennius também descreve Ambrosius como um jovem sem um pai, chamado a auxiliar Vortigern. Ele amarra o período admitindo que o reino de Vortigern começou, pelo menos, em 425 e que Ambrosius lutou em Guoloph, doze anos mais tarde. Isso é muito interessante porque cria um grande problema. Muita gente considera a referência de Gilda a Mons Badonicus para deduzir que foi Ambrosius, e não o Rei Arthur, o comandante da famosa batalha de Monte Badon, a vitória decisiva British sobre os Saxons, em torno de 495-500. No ano 495, Ambrosius teria, pelo menos 74 anos de idade e seria, de fato, difícil imaginar um homem desse período vivendo até essa idade, deixado só a brandir uma pesada espada como as da época, conduzindo uma carga a cavalo contra as posições dos Saxons. Nesse caso, qual seria a solução?
Não há uma solução definitiva, mas alguns resolveram o problema postulando dois homens chamados Ambrosius: o mais velho, que apavorava Vortigern e o mais moço, herói da resistência British da segunda metade do século V e o vitorioso de Mount Badon. Isso é certamente possível, visto que havia muitas pessoas com o mesmo nome naqueles dias; por que não dois Ambrosii?
Entretanto, a mais provável possibilidade, é que havia apenas um Ambrosius. Arthur poderia, nesse caso, ter sido o real comandante da vitória de Mount Badon; ou, talvez, “o grande rei entre os reis da nação British”, Ambrosius Aurelianus, pudesse ter sido o idoso comandante supremo do batalha, deixando a função de líder da linha de frente da batalha para um homem mais jovem, que poderia ser Arthur.
Após a batalha de Monte Badon, cerca do ano 500 DC, teriam transcorrido quarenta e quatro anos de relativa paz, durante cujo período, os bretões dividiram-se em cinco ou mais reinos tribais na região ocidental.
Enquanto isso os reinos e a instabilidade aumentavam entre os anglo-saxões no Leste. Por sua vez, os jutes, a partir de Kent, tomavam a ilha de Wight. Só em 570 DC haveria uma nova forte invasão dos anglo-saxons.


A ilha de Wight no contexto da England e vista em detalhe, ao lado.









Daí para a frente, a dominação anglo-saxon se consolidaria com reis de várias dinastias se sucedendo, no prosseguimento, mais ou menos uniforme, da História da Britain, que poderá ser acompanhada pelas várias fontes citadas até aqui e outras não citadas, embora muito conhecidas; entretanto, adentrar essa área estaria fora do interesse principal do nosso trabalho.
Importante, entretanto, para o nosso assunto, embora tenha ocorrido muitos anos depois dos acontecimentos relatados, foi o importante acontecimento do ano 1066 DC, em que ocorreu a grande Invasão Normanda, que encerraria o período de dominação anglo-saxon e iniciaria, segundo muitos historiadores, a última invasão em grande escala da Britain. É também muito importante aqui lembrar, que esses invasores, embora não franceses em sua origem, partiram de uma região ao norte da França, denominada, até hoje, Normandia e eram formados por povos de origem escandinava ou vikings. Mencionada aqui, apenas de passagem, partiríamos de imediato ao nosso assunto principal, deixando aos mais interessados  - mas desta feita eu realmente recomendo uma olhada nesse texto - o “link” para uma rápida abordagem da Invasão Norman (para conhecer mais sobre a "Norman Invasion" ou Invasão Normanda, clique no link).

segunda-feira, 2 de maio de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (7) (Décima Quinta Parte)

III – OS ANGLO-SAXONS NA GREAT BRITAIN
É durante a dominação anglo-saxon que surge a figura lendária de Arthur. Por essa razão, esse período será descrito com maior detalhe que os anteriores; e antes de entrarmos na descrição da Britain ao tempo desses invasores, propriamente dita, faremos uma boa análise de como ocorreu a sua chegada à grande Ilha. A data da chegada dos primeiros colonizadores germânicos na Britain é matéria de considerável debate. É, contudo, crítica para datar eventos chaves entre a partida da autoridade romana em 410 DC e a chegada da missão de Santo Augustine em 597 DC. Exemplos desses eventos incluem: a ascensão de Vortigern ao poder e a duração do seu reinado; suas relações com Ambrosius; a revolta saxônica; o surgimento de Arthur e Badon. Esse influxo germânico é conhecido, historicamente, pela frase latina “Adventus Saxonum”, a chegada dos Saxons (Saxões). Pelo menos dois autores importantes são considerados dignos de confiança para testemunhar essa chegada, considerando-se a proximidade da época em que viveram: Bede e Nennius. Entretanto, um terceiro, de nome Gildas, aporta também significativas informações.

O Venerável Bede
A primeira tentativa de datar o “Adventus Saxonum” foi feita pelo insigne escritor e historiador eclesiástico, Bede (se desejar, clique aqui para chegar a uma curta biografia de Bede). A sua “Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum” (“História da Igreja e Povo Ingleses”), além de perseguir esse objetivo, fornece um sumário histórico do que foi tornar-se ‘England’, baseado nos registros que lhe eram disponíveis. Completada em 731 DC, ela é uma fonte primária dos primeiros eventos na estruturação da England. Não apenas um estudioso, Bede leva também os créditos por introduzir alguns conceitos notavelmente modernos em sua abordagem à história. Foi ele que popularizou o processo de datar conhecido por “Anno Domini” (A.D.) – Ano do Senhor -, em nossos dias, aceito incondicionalmente. Ele identificou suas fontes, em forma escrita e oral, e foi seletivo em seu uso. Sempre que possível e desejável, incrementava algumas de suas fontes primárias mais escassas com outro material. Um bom exemplo disso é o seu tratamento de “De Excidio Brittaniae” – Da Ruína da Britain -, de Gildas. Olhemos algumas referências relativas ao “Adventus Saxonum” encontradas em sua História.
No Capítulo 24, onde ele apresenta um sumário cronológico do seu livro, no ano 597 DC – chegada de Augustine e sua missão cristã – afirma que eles teriam chegado aproximadamente 150 anos após a chegada dos English. Isso nos dá como data de sua chegada, o ano 447 DC.
Em outro lugar, quando descrevendo eventos sobre o batismo do rei Edwin, em 627 DC, Bede diz que Edwin recebeu a fé e o renascimento no décimo primeiro ano do seu reinado, isto é, no ano 627 do Senhor e 180 anos após a chegada dos English à Britain. Por essa referência, novamente chegamos ao ano de 447 DC para o Adventus.
Um terceiro cálculo é encontrado na seção que conclui um sumário do estado da Britain no momento, 731 DC: “Este é o estado de toda a Britain no momento, em torno de 285 anos após a chegada dos English à Britain, no ano 731 do Senhor”. Nesse caso, chegamos a 446 DC como o ano do “Adventus Saxonum”, consistente com as duas datas precedentes.
Indo ao corpo principal de sua História, onde a chegada dos Saxons é realmente descrita, encontramos:
“No ano 449 DC, Marcian, o 46º depois de Augustus, tornou-se imperador com Valentinian e governaram por sete anos. Àquele tempo, a raça dos Angles ou Saxons, convidados por Vortigern, chegaram à Britain.”
Aqui, a cronologia de Bede está defasada de um ano visto que o governo conjunto de Marcian e Valentinian foi de 450 a 455 DC, durante o qual chegaram os Angles ou Saxons. Esta sequência é repetida novamente no sumário cronológico ao final da História de Bede e também em outro trabalho chamado “A Grande Crônica”, encontrado como um apêndice em algumas traduções da História.
As razões para a aparente discrepância – 446 ou 447 versus 450-455 – residem nas duas fontes primárias que Bede usou para datar o Adventus. A primeira delas confia na obra “De Excidio”, de Gildas, na seção onde um apelo feito a Aetius é registrado:
“Então os miseráveis remanescentes enviaram uma outra carta, desta vez ao comandante romano Aetius, nos seguintes termos: ‘A Aetius, três vezes cônsul, os gemidos dos British’. Posteriormente, chegou a queixa: ‘Os bárbaros nos empurram de volta ao mar, o mar nos empurra de volta aos bárbaros;  entre essas duas espécies de morte, ou seremos afogados ou seremos massacrados.’ Mas eles não obtiveram qualquer ajuda.”
Informado historiador dos tempos romanos, Bede sabia que o terceiro consulado de Aetius começara em 446 e por isso concluiu que o Adventus teria ocorrido após esse apelo, isto é, em 446-447 DC.
O segundo conjunto de datas, 450-455 DC, veio de uma velha tradição Kentish de que a sua dinastia havia sido fundada durante o governo conjunto de Mauricius e Valentinian. No prefácio de sua História, Bede alude a essa fonte, aparentemente idêntica à usada na Crônica Anglo-Saxon muitos anos mais tarde, com o nome Mauricius em lugar de Marcian, que era o Imperador do Oriente àquela época. A tradição Kentish certamente confundiu o imperador Marcian com o posterior imperador Maurice Tiberius Augustus, durante a missão de Augustine em Kent, em 597 DC.
 
A ‘Historia Brittonum’ – A História da Britain
A outra fonte escrita, que nos ajuda a datar o Adventus Saxonum, é a ‘Historia Brittonum’, atribuída ao monge Nennius (se desejar, clique aqui para chegar a uma curta biografia de Nennius
) e que reflete uma tradição British desses eventos, da mesma forma que a História de Bede a preserva. Em sua forma original, ela parece ter sido compilada em torno de 830 DC, mas foi sucessivamente editada nos últimos séculos. Várias versões latinas, no todo ou na parte, foram identificadas por toda a Great Britain e no resto da Europa.
A ‘Historia Brittonum’ contém várias referências à chegada inicial dos Saxons, mas uma, em particular, é mais exata, ao datar este evento. A partir de datas bem documentadas do início do reino de Vortigern e os consulados de Theodosius II e Valentinian III, ocorrido em 425 DC, além de dois outros consulados, Nennius chega à conclusão que Vortigern teria iniciado seu reinado em 425 DC e que o Adventus Saxonum seria datado de 428 DC.
Há várias outras seções da ‘Historia Brittonum’ relativas à nossa indagação; de uma delas, distinta e independente da seção anterior de Nennius, chega-se facilmente aos anos 423-428 e o reino de Vortigern. Em outro lugar lê-se algo que, corrigido de erros grosseiros de revisão no que se refere à numeração romana, conduziria à data de 425-429, que se ajusta muito bem aos cálculos prévios para Vortigern e o ‘Adventus Saxonum’.

Um Conto de Duas Culturas
Como reconciliar as duas diferentes tradições de Bede e Nennius? Embora separadas no tempo por algo em torno de 20 anos, elas compartilham pontos comuns:
•    ambos os relatos estabelecem que a sua vinda ocorreu a convite de Vortigern;
•    ambos relatos contam que o assentamento saxon inicial foi na ilha de Thanet (sudeste da England e a leste de Kent, hoje não mais uma ilha) e somente mais tarde na terra principal kentish (Kent);
•    a última revolta saxon ocorreu sob a instigação de Hengest e Horsa e iniciou em Kent.
Localização do Condado de Kent na England


 
A Ilha de Thanet (então uma ilha), a leste, no condado de Kent
Claramente, as tradições referem-se aos mesmos eventos. Será que eles diferem por causa da perspectiva cultural das partes envolvidas? Após a fase inicial dos saques e pirataria saxon, os British contra-atacaram. Um relato geral da guerra que se estendeu por vários anos é fornecido por Nennius:
“Finalmente Vortimer, o filho de Vortigern, valentemente lutou contra Hengist, Horsa e seus povos; empurrou-os à ilha de Thanet e três vezes confinou-os nela e sitiou-os pelo lado oeste. Os saxons então despacharam delegados à Germany para solicitar grandes reforços e um número adicional de navios; obtidos esses reforços, eles voltaram a lutar contra os reis e príncipes da Britain...”
Duas crônicas gallic relatam grandes seções da Britain cedendo sob controle saxon em 441. A data provável da revolta saxon é portanto 439/440. Após cerca de 10 anos de luta, como indicado pela ‘Crônica Anglo-Saxon’ e por Nennius, Vortimer obteve a vitória após rebelar-se contra a política anglo-saxon adotada por seu pai e fundar um reino paralelo. Aparentemente, a vitória global de Vortimer foi seguida por um período de paz em torno de 5 anos. Este foi seguido por invasões saxon ainda mais violentas, aparentemente defendidas por Ambrosius Aurelianus, após derrotar Vortigern, visto que, segundo a História de Nennius, Vortimer teria morrido logo após derrotar os saxons.
Esse período inicial de invasões renovadas e permanente assentamento, provavelmente ocorreram entre 450 e 455 DC, como estabelecido na velha tradição Kentish. Pode-se assim constatar que duas culturas podem selecionar um diferente ponto de partida, mas ainda estar falando do mesmo evento. Os British olhando para trás à inicial e fatal asneira de Vortigern em 428 DC, viram esse fato como a primeira vinda dos saxons, ao passo que seus contrapartidas Kentish viram o período de permanente assentamento (450-455 DC) como a fundação do seu reino.