Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (13) (Vigésima Primeira Parte)

O VERDADEIRO REI ARTHUR

Após todos os indícios confiáveis apresentados até então por vários historiadores, alguns dos quais tendo vivido praticamente à mesma época em que teria vivido Arthur, não podemos ter dúvidas de que as lendas do Rei Arthur foram baseadas num personagem histórico real e não uma mera invenção de vários autores. Nesse caso, por que o seu nome não aparece na genealogia dos Reis da Britain de todos os tempos, como História? Estaria faltando uma ligação entre o nome de Arthur e o nome de algum Rei da Britain que tivesse existido em sua história? Graham Phillips e Martin Keatman, em seu trabalho “King Arthur – The True Story” chegaram, através de laboriosa pesquisa, a um nome, que poderia muito bem atender a todas as demandas da História e da Lenda, para ser aceito como o Rei Arthur real.
Se o tão decantado guerreiro, por tantas fontes históricas, tivesse sido o Rei Arthur, deveríamos encontrar esse personagem real na família Cunedda de Powys, em torno do ano 490. Como os nomes dessa família que governou os West Midlands e Norte de Wales encontram-se preservados nas genealogias da Era Negra da Idade Média, por um processo de eliminação foi possível descobrir o nome real do Rei Arthur.
Como Cuneglasus e Maglocunus (todos nomes já citados anteriormente) pertenceram a gerações posteriores à época de Arthur, foi necessário examinar seus antepassados. Parece haver pouca dúvida de que Cunedda foi sucedido por seu filho Enniaun Girt - identificado nos “Annales Cambriae” como avô de Cuneglasus e Maglocunus, reis por direito, de acordo com Gildas -, que embora um rei de Gwynedd, como Cunerix, em Powys, era provavelmente subordinado a Ambrosius, o líder maior da Britain. Mas Enniaun Girt, embora filho de um rei de Gwynedd e podendo ter sucedido a Ambrosius como comandante das forças British, é registrado por Nennius como tendo chegado com seu pai cerca de 460, uma geração cedo demais para ser Arthur. Além disso, as genealogias mostram que Maglocunus e Cuneglasus sucederam ao filho de Enniaun e não ao próprio. Após a morte deste filho de Enniaun, forte e poderosa figura de unificação, em torno de 520, a unidade British deve ter-se rompido, causando a separação dos reinos de Powys e Gwynedd, com a ascensão de Maglocunus e Cuneglasus e o abandono de Viroconium, à mesma época. Seria Arthur o filho de Enniaun? A data da morte de Enniaun é desconhecida, mas como Cunorix morreu cerca de 480, o seu filho só poderia ter assumido o controle de Powis e Gwynedd alguns anos após essa data.
De Gildas, sabemos que Maglocunus sucedeu a seu tio e não a seu pai, pois ele o acusa textualmente “você esmagou o rei seu tio e suas bravas tropas com fogo e lança e espada”. Da mesma forma, Geoffrey of Monmouth e os romances subsequentes falam da morte de seu tio, Arthur, numa tentativa de assumir o trono. Teria sido o tio de Maglocunus o guerreiro que deu origem à lenda de Arthur? Se o sobrinho do Rei Arthur fosse Maglocunus, essa rebelião em Gwynedd poderia também ter sido interpolada por Geoffrey em sua história da revolta de Mordred.
Dolgellau, no Condado de Gwynedd. O vale de Camlan
encontra-se a 8 km a leste dessa cidade

Uma vez que as genealogias mostram que Gwynedd e Powys formavam um só reino antes da sucessão de Maglocunus em Gwynedd, a faixa de terra entre os dois reinos seria o local lógico para uma batalha em que Maglocunus teria desmembrado o seu reino de Gwynedd do reino de Powys. Um vale remoto e desolado, cerca de 8 km a leste de Dolgellau, no condado de Gwynedd, no Wales centro-oeste, é chamado de Camlan, com apenas um ‘n’ ao final. Está muito além da coincidência que o único local na Great Britain com esse nome, esteja precisa e estrategicamente colocada nessa faixa entre os dois reinos, como eles existiam no início do século VI.
Se o tio de Maglocunus tivesse dominado os reinos de Gwynedd e Powys, a derrubada desse tio teria dado a Maglocunus o poder sobre Gwynedd mas não sobre Powys, em que teria assumido o poder seu primo Cuneglasus. Nessas circunstâncias, o abandono de Viroconium poderia ser visto como estratégia de Cuneglasus para defende-lo de um futuro ataque por parte de Maglocunus. Embora Gildas não mencione o nome desse tio cujo trono Maglocunus usurpou matando-o, ele terá certamente sido o pai de Cuneglasus, já que ambos eram primos e as genealogias atestam que esses dois reis o sucederam. Em consequência, o pai de Cuneglasus é o mais provável guerreiro que possuía o título Arthur. Finalmente, na lista de genealogias compilada em torno de 955 de registros anteriores, anexada aos “Annales Cambriae” e contida no manuscrito Harley 3859 na Biblioteca British em London, o pai de Cuneglasus e tio de Maglocunus é identificado, de fato, como o filho de Enniaun Girt e seu nome era OWAIN DDANTGWYN, figura histórica que teria assumido o título de Rei Arthur!
No trabalho de Graham Phillips e Martin Keatman, “King Arthur – The True Story”, são relacionadas algumas evidências que indicam que Owain Ddantgwyn e Arthur eram a mesma e única pessoa:

•    Owain Ddantgwyn governava na última década de Século V, precisamente o período em que a “Historia Brittonum” localiza Arthur.
•    Owain Ddantgwyn era o filho de um dos reis de Gwynedd, conhecidos como “dragões líderes”, sabendo-se que “Uther Pendragon”, significando “o terrível dragão líder”, era o pai (Enniaun Girt) de “Arthur”.
•    Owain Ddantgwyn, como rei de Gwynedd e Powys, era o mais poderoso governante na Britain à época da Batalha de Badon, onde os British foram conduzidos à vitória por “Arthur”.
•    Owain Ddantgwyn era o pai de Cuneglasus, cujo predecessor era chamado o “Urso”, certamente a origem do nome “Arthur” (Arth + Ursus).
•    Owain Ddantgwyn pode ter morrido na Batalha do Vale de Camlan, próximo de Dolgellau, local onde os “Annales Cambriae” registram a morte de “Arthur”.

Ironicamente, nada mais se conhece além do nome Owain Ddantgwyn e de sua família imediata, o que justamente explicaria porque esse homem poderia ter feito Arthur tão famoso: se ele tivesse sido historicamente bem definido, não poderia, posteriormente, ser tão bem adaptado a tão diferentes idéias.
Identificada a figura histórica do Rei Arthur, como Owain Ddantgwynn, para concluir, o trabalho de Graham Phillips e Martin Keatman apresenta um sumário do que se acredita ter sido a vida dessa figura mítica.
Em torno de 460, enquanto a Britain estava sendo devastada pelos Anglo-Saxons, os Britons empenhavam-se em terrível guerra civil. Ambrosius Aurelianus, do seu trono nas montanhas de Gwynedd, marchava sobre o reino de Powis, derrotando o último dos reis Vortigern e, com seus guerreiros Votadini, ocupando a capital Viroconium e assumindo o comando das forças British. Desta fortaleza, Ambrosius iniciou a árdua tarefa de reorganizar os Britons para resistir à invasão estrangeira.
Foi provavelmente por esta época que teria nascido Owain Ddantgwyn, filho do rei Votadini Enniaun Girt, que governava o reino de Gwynedd enquanto Ambrosius combatia os Anglo-Saxons. Owain viveu seus primeiros vinte anos em meio a essa batalha e acabou lutando ao lado de Ambrosius quando provou ser excepcional guerreiro e estrategista. Com isso, logo recebeu o comando das forças British no leste da England, onde derrotou os Angles em uma série de batalhas decisivas em Lincolnshire e vizinhanças de Wash.
Com os Angles em retirada, seu aliado, o rei Saxon Hengist, despachou seu filho Octha ao norte da muralha de Hadriano, em busca de aliança com os Picts, onde Owain provavelmente teria lutado sua mais feroz batalha. Em 488 Hengist morreu e Octha retornou ao sul para tornar-se o rei de Kent. Com a ameaça Pict temporariamente eliminada, Owain também retornou ao sul, onde não mais reinava Ambrosius. Não sem batalhas ao sul de Wales, contra a família Vortigern que tentava recuperar poder, Owain acabou por triunfar como incontestável líder da aliança British de reis, demonstrando sua decisão de unificar a nação que adotara e recebendo o nome de guerra “o Urso”, ou Arthur. Em 493, com os Saxons avançando sobre a cidade de Bath e ameaçando repartir a nação British em duas, Arthur reuniu suas forças para uma decisiva defesa em Little Solsbury Hill (Monte Badon), onde foram sitiados no forte de colina fortificado, por forças superiores, durante três dias; num contra-ataque conduzido por Arthur as forças Saxon foram derrotadas, Sussex reocupado pelos British e os Saxons restantes empurrados para o sudeste.
Com a maior parte da Britain livre de invasão, Arthur enviou seu parente Cunomorus para governar Dumnonia, possivelmente para proteger a costa sudoeste de futuras invasões. Cunomorus, contudo, decidiu aliar-se com um novo líder Saxon, Cerdic, que ganhou o controle de Hampshire, em 508, ao derrotar o rei British Natanleod. Cerdic e Cunomorus estenderam sua influência sobre a costa sul até que Arthur resolveu marchar de Viroconium contra a aliança Wessex/Dumnonian, derrotando Cunomorus e abrindo uma cunha entre as forças inimigas, embora saindo muito enfraquecido de uma batalha em Certicesford. Logo após, ao retornar ao norte, Arthur é morto por seu sobrinho, Maglocunus, na batalha de Camlan, no centro-oeste de Wales, que assume o controle de Gwynedd, enquanto o filho de Arthur, Cuneglasus, assume o controle em Powys, abandonando Viroconium, com uma guerra civil total ameaçando toda a terra. Morre o homem Owain Ddantgwyn e nasce a mais famosa lenda da história British, o Rei Arthur.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (12) (Vigésima Parte)

NOVOS ELEMENTOS SOBRE O ARTHUR HISTÓRICO

Mais modernamente, muitos autores escreveram sobre o mesmo tema, procurando de todas as formas separar a história da lenda. Alguns, com má disfarçada intenção de demonstrar que o Rei Arthur realmente existiu, cercado de todo o mito com que hoje nos é apresentado, pesquisa que, de fato, até agora ainda não apresentamos. Seria impossível apresentar e discutir todos esses autores, razão pela qual vamos apenas discutir alguma coisa de uma dupla deles.
Em 1992, Graham Phillips e Martin Keatman publicaram um trabalho denominado “King Arthur – The True Story” (O Rei Arthur – A Verdadeira História), em que realizaram um profundo trabalho de pesquisa sobre o personagem e o mito, estudando durante muito tempo todas as obras mencionadas em nossa publicação, além de um sem número de outras pesquisas realizadas anteriormente por outros estudiosos do assunto. Gostaríamos de tocar em um ponto, que nos parece muito importante, do personagem Arthur, que é justamente a sua possível origem e a sua localização geográfica.
A tribo dos Votadini, já mencionada quando apresentamos as tribos nativas da Britain - gostaria de lembrar aos leitores que o nosso blog possui um mecanismo de busca ou pesquisa, que pode ser acionado sempre que os leitores tiverem interesse em algum assunto passado -, durante o domínio romano, era a tribo do norte mais favorável aos romanos, porque seu reino situava-se dentro de uma área que, de fato, nunca foi nem romana nem pictish, entre as Muralhas de Adriano e Antonina. Como já vimos anteriormente, a palavra Pict não denota uma tribo particular, mas era um termo romano – que significava “homens pintados” – usado para referir-se a qualquer das tribos British que ficasse fora dos limites do Império. Os Votadini e os Romanos mantinham ótimas relações: os romanos oferecendo-lhes apoio contra os hostis Picts e os Votadini ajudando os Romanos a policiarem a zona de conflito entre as duas muralhas.
Assim que as legiões romanas abandonaram a Britain, os Votadini passaram a sofrer ataques em três frentes: os Angles atacando sua linha costeira, os Picts saqueando do norte e os Scotti (da Ireland) tentando a invasão pelo oeste. Foram os Votadini, certamente, notáveis guerreiros, pois conseguiram suportar o assédio das forças combinadas até o início do século VII. Em consequência, não teria sido difícil, para Ambrosius, convencer os Votadini a se estabelecerem a noroeste de Wales, para contar com o seu apoio contra os Irish. A colonização do noroeste de Wales pelos Votadini, na segunda metade do século V, é comprovada por evidência cerâmica daquela tribo, descoberta em Gwynedd, o reino que teria sido então criado por seu líder Cunedda, durante o período de Ambrosius. A migração dos Votadini é também reconhecida pela Historia Brittonum, do Welsh Nennius, e pelos Annales Cambriae, como um evento histórico, apresentando enorme importância no que se refere ao levantamento da linhagem de Arthur. Teria o pai de Arthur sido um dos Votadini, talvez o seu próprio líder Cunedda ou um de seus filhos?
Gwynedd era, sem dúvida, o mais poderoso reino à época de Gildas (em torno de 545) - o que torna razoável supor que fosse um legado de Arthur – sendo quase certo admitir que Ambrosius daí emergiu; e como Arthur aparece como sucessor de Ambrosius e não um seu usurpador, tudo indica que fosse também do mesmo reino. Isso não conflitaria com o nome do pai de Arthur, segundo Geoffrey of Monmouth, em sua Historia Regum Britanniae, Uther Pendragon, considerando que este fosse um título e não o seu próprio nome, significando “terrível dragão chefe”. Além disso, Nennius menciona que Arthur não era um rei British, embora “um igual dos reis British”, uma descrição que caberia a um rei dos Votadini que, embora não bretões, eram um povo confiável, com inimigos comuns. Sendo Arthur um Votadini, seria um comandante em chefe ideal das forças British, vindo de uma raça de guerreiros com muita experiência original na luta não apenas contra os Anglo-Saxons, mas também contra os Scotti e os Picts e, mais importante que tudo, teria permanecido alheio às disputas que sempre haviam dividido os povos naturais da Britain.
Localização do Reino de Gwynedd, noroeste de Wales

Uma outra forte evidência de que Arthur era um dos Votadini de Gwynedd, vem daquela que pode ser a mais antiga de todas as referências Arthurianas, um antigo poema chamado Gododdin, aceito como composto ao final do século VI, originário dos Votadini e tratando de um grupo de guerreiros estabelecido no extremo norte para lutar contra os Anglo-Saxons. Em uma passagem o poeta louva a coragem de um herói que, embora lutando bravamente, “não chegava próximo de Arthur”, certamente indicando que ele era um membro estimado da mesma tribo.
Agora, se Arthur era da casa real de Gwynedd, porque o seu nome não aparece registrado nas genealogias? Possivelmente pela mesma razão que Vortigern e Uther, o nome Arthur teria sido apenas um título ou apelido. Na língua Brythonic, a primeira sílaba Arth significava urso, sendo prática comum à época, os senhores da guerra Celtic assumirem um nome de batalha de um animal. Inscrições remanescentes do século V atestam que os reinos pró Britain falavam o Brythonic, ao passo que simpatizantes dos romanos continuavam a falar o Latim. A palavra ursus, em latim, significa urso, o que indica que o seu título original possa ter sido Arthursus, mais tarde abreviado para Arthur. Ou seja, o líder de Britons divididos, para personificar a unidade, poderia ter adotado um nome formado pelas duas línguas, significando a mesma palavra “Urso”.
Em um discurso sobre Cuneglasus, primo de Maglocunus, Gildas, em sua obra já mencionada “De Excidio et Conquestu Britanniae”, o chama de condutor da “Fortaleza do Urso”. Como Cuneglasus era um rei de direito, ao tempo em que Gildas escrevia (cerca de 545), a passagem implica que ele estava no comando do que tinha sido, uma vez, a fortaleza do Urso, isto é, a capital do comando de Cuneglasus parece ter sido a fortaleza de Arthur. Ao tempo de Gildas, cinco reinos eram suficientemente poderosos para terem sido o reino de Cuneglasus, mas três deles podem ser descartados porque Gildas deixa muito claro por quem eram eles governados. Como um deles era Gwynedd, parece que, embora Arthur tenha se originado aí, ao tempo em que se tornou líder dos Britons, tivesse estabelecido sua base em outro lugar, restando apenas Gwent ou Powys para o reino de Cuneglasus. Como Powys limita com Gwynedd (ver mapa acima) e as inscrições e genealogias do período mostram que a família de Cunedda governava lá, tudo indica, que Powys seria a fortaleza de Arthur, o que possui senso histórico: o reino de Powys, fortaleza de Vortigern, líder da tribo vizinha dos Cornovii, teria sido conquistada pelas forças de Gwynedd, sob a liderança de Ambrosius.

Localização de Viroconium, nos limites entre Wales e England
As incursões dos invasores germânicos do leste, dos Picts ao norte e dos Irish ao oeste, enfraqueceram consideravelmente as fronteiras das tribos costeiras, fazendo com que a posição central dos Cornovii lhes tenha propiciado uma posição estratégica única de resistência, após a partida dos romanos, muito antes de todos os seus vizinhos, como reino autônomo. Foi assim que Vortigern tornou-se o chefe supremo das várias tribos satélites que se uniram à sua própria tribo, os Cornovii, constituindo o reino de Powys, cuja capital permaneceu sendo a antiga cidade romana de Viroconium, a quarta maior cidade da Britain romana. Situada no atual condado de Shropshire, tudo o que resta hoje de Viroconium, antiga metrópole com ruas calçadas, abastecimento de água e sistemas de drenagem, suas próprias cortes de justiça, mercado e outros prédios públicos, são ruínas descansando em terras agrícolas, muito próximas da diminuta vila de Wroxeter, a sudeste de Shrewsbury.

Vista aérea das ruínas de Viroconium, muito próximo de Wroxeter
Uma extensa escavação arqueológica iniciada ao final da década de 1960, mostrou que durante a primeira metade do século V a cidade de Viroconium foi totalmente reconstruída, de maneira altamente sofisticada, o que só poderia ter sido alcançado a custos altíssimos e com poderosa liderança. A época e local batem exatamente com o que se sabe sobre Vortigern, consubstanciando os escritos de Gildas, Bede, Nennius e as Crônicas, que registraram a existência do poderoso líder na Britain após o período romano. Além disso, evidência de que os Votadini governaram Viroconium ao final do século V é fornecida por uma lápide, datada de 480 DC e encontrada nas escavações de 1967, com o nome Cunorix, carregando o prefixo “Cun”, da família Cunedda. Finalmente, as escavações mostraram ainda que a cidade não foi abandonada em favor de um local mais seguro, até cerca de 520 DC, tendo permanecido como a capital do reino de Powys até essa data. Nesse caso é seguro admitir que, se a fortaleza de Arthur tivesse sido Powys, então Viroconium teria sido a sua capital, ou a Camelot real.

Ruínas em Viroconium (2)
Ruínas de casa de banhos em Viroconium (1)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (11) (Décima Nona Parte)

A HISTÓRIA DE ARTHUR E SEUS CAVALHEIROS (2)

Como introdução a este “post”, para reavivar a lembrança dos nossos leitores, apresentaremos um breve resumo do que aconteceu até aqui.
Os britons (bretões), povo de origem celta, habitantes da Britain (Bretanha), viviam em tribos rivais entre si, liderados por um chefe ou rei. Por sua falta de unidade política, essa população celta sofreu conquistas sucessivas.
No século I foram invadidos pelos romanos, que pouco interferiram na cultura celta, mas protegeram os bretões de outros atacantes, apesar de terem perseguido os druidas.
Com o fim da dominação romana, no início do Século V, os bretões passaram a sofrer ataques de outros povos que pretendiam conquistar a Ilha: Scots (da Ireland), Picts (da Scotland) – povos também de origem celta com os quais os bretões sempre estiveram em conflito - e os Anglo-Saxon que conseguiram dominar a Bretanha no Século VI.
No Século XI viria a ocorrer a invasão Norman (Normanda), a última em grande escala que acometeria a Ilha.
A fonte latina mais antiga sobre os bretões (540 DC) é a obra “De Excidio et Conquestu Britanniae” - “Sobre a Destruição e Conquista da Bretanha” -, do clérigo bretão Gildas, cujo objetivo principal foi chamar a atenção para os pecados morais do povo, razão principal da sua decadência. O autor menciona a vitória dos bretões no Monte Badon, contra os anglo-saxon, atribuindo-a ao descendente de romanos Aurelius Ambrosius, sem mencionar uma só vez o nome de Arthur.
A “Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum” – “História Eclesiástica da Nação Inglesa” -, (731 DC), do monge saxon nascido na Bretanha, o Venerável Bede, exerceu grande influência por toda a Idade Média, mas também nunca mencionou o nome de Arthur.
A “Historia Brittonum” (História da Britain), cerca de 800 DC, do historiador Nennius, foi a primeira fonte latina a mencionar o nome de Arthur, apresentado com “dux bellorum” (senhor das guerras). Segundo Nennius, Aurelius Ambrosius, enquanto ainda jovem, teria tido com Vortigern um encontro e aí lhe teria revelado seu nome e também ser filho de um Cônsul Romano (certamente Constantine, também pai de Constans e Uther Pendragon, futuro pai de Arthur). Também a morte de Vortigern e a morte de Vortimer, seu irmão, são narradas por Nennius. Logo em seguida, surge a figura de Aurelius Ambrosius já adulto e denominado de Grande Rei entre os Reis da Britain. E surge, finalmente, a figura de Arthur e Nennius narra, de imediato, as doze batalhas contra os saxões vencidas pelos bretões sob o seu comando, culminando com a Batalha de Monte Badon - um lugar talvez em Sussex ou, possivelmente, próximo de Bath, embora haja muitos candidatos à sua localização -, batalha que teria retardado o avanço Saxon por meio século, pelo menos. Nennius nada comenta sobre a morte de Arthur.

Solsburi Hill, um Forte de Colina da idade do Bronze e uma das possíveis localizações da Batalha de Monte Badon, segundo Gildas e Nennius, condado de Somerset
 
Condado de Somerset na England
 A “Anglo Saxon-Chronicle” – Crônica Anglo Saxon – foi originalmente compilada sob as ordens do Rei Alfred, o Grande, cerca de 890 DC e subsequentemente mantida por gerações de escrivães anônimos até meados do Século XII, na língua Anglo-Saxon (Old English). Considerada como um todo, a Chronicle é a fonte histórica mais importante para o período da England entre a partida dos Romanos e as décadas que se seguiram à conquista Normanda, sendo que a maior parte da informação nela fornecida não é registrada em qualquer outro lugar. Infelizmente, a Chronicle, em lugar algum faz qualquer referência ao nome de Arthur, visto que o seu objetivo principal era exaltar os feitos Anglo-Saxon.
Por volta de 950 DC, os “Annales Cambriae” (para quem tiver maior interesse, seguir o link) confirmam as vitórias de Arthur e afirmam que Arthur e Mordred teriam morrido na Batalha de Camlan. É a primeira menção do que se tornará mais tarde a última batalha entre Arthur e Mordred, sem que se saiba se, para os autores dos “Annnales Cambriae”, os dois eram adversários e mataram um ao outro, como contará Geoffrey de Monmouth, ou se morreram lutando juntos.
Somerset onde se encontra Solsbury Hill, na Vila de Batheaston, próximo a Bath

A obra de William of Malmesbury (siga o link para uma curta biografia), “Gesta Regum Anglorum” – “Os Feitos dos Reis dos English” – também apresenta Arthur como o guerreiro vencedor da batalha de Monte Badon. Menciona o túmulo de Walwen (Sir Gawain), sobrinho de Arthur, mas diz que o seu túmulo não foi encontrado e escreve, literalmente: “como o túmulo de Arthur não é encontrado em lugar algum, as velhas lendas dizem que ele voltará”. À época em que William escrevia a sua Gesta, cerca de 1125 DC, havia uma grande quantidade de contos Arthurianos sendo oralmente espalhados por todo o país. William menciona o fato e, bem mais sensatamente, simplesmente os descarta como puro mito. O trabalho de William é provavelmente a primeira vez em que os contos Arthurianos foram reunidos e a última vez em que o folclore foi separado do que era então aceito como fato histórico. A Gesta identifica Arthur na ajuda a Ambrosius Aurelianus na luta contra os Anglo-Saxons e refere ao seu triunfo na batalha de Monte Badon, onde Arthur portava a imagem da Virgem Maria por toda a batalha. Como William não menciona Camlann, suspeita-se que ele não tenha consultado os Annales Cambriae, seu contemporâneo, ao passo que Geoffrey certamente o fez.
A obra que realmente favoreceu a difusão das lendas Arthurianas na Europa Ocidental, foi a “Historia Regum Britanniae” – História dos Reis da Britain - (escrita entre 1135 e 1138), do clérigo Geoffrey of Monmouth. Na verdade o texto mistura ficção com história, mas cita as obras de Gildas, Bede e Nennius. O objetivo maior da obra foi a exaltação dos “britons”, criando uma genealogia que exaltasse e legitimasse a nobreza British , identificando-a à Normanda, como sua continuadora, através do seu representante mais legítimo que seria Arthur. Esse personagem briton portava elementos pagãos e cristãos: uma espada – Caliburn (Excalibur) –, forjada no outro mundo, e um escudo – Pridwen – a quem sempre apelava nas batalhas, contendo a imagem da Virgem Maria. Até então invencível, Arthur é mortalmente ferido por seu sobrinho Mordred – que é morto por ele – indo à Ilha de Avalon para curar seus ferimentos. A “História dos Reis da Britain” é composta por doze Livros. Do Livro VIII ao Livro XI, Geoffrey faz um relato completo sobre Aurelius Ambrosius, a continuação do seu reinado sob seu irmão Uther Pendragon e o nascimento de Arthur e sua irmã Anne, de Uther Pendragon e sua esposa Igerna. Aqui ele relata um episódio interessante sobre como Uther teria se apaixonado por Igerna, esposa de Garlois, Duque da Cornwall, e como sendo impossível concretizar seus desejos por ela, Merlin o teria transformado, por mágica, à semelhança de Garlois e assim ele teria feito amor com Igerna, de onde teria nascido Arthur e Anne. Posteriormente, com a morte de Garlois, Uther se casaria com Igerna. Geoffrey também relata como Arthur teria sucedido a Uther Pendragon, com a idade de apenas 15 anos, mas “uma juventude com coragem e generosidade tão sem paralelo, unida com uma tal doçura de temperamento e bondade inata, que lhe granjearam um amor universal”.
A obra de Geoffrey of Monmouth também cita, textualmente, a Ilha de Avalon e a espada Excalibur (Caliburn): “E então, cingindo sua Caliburn, que era uma espada excelente, feita na Ilha de Avalon, ele agraciou seu braço direito com sua lança, que era forte, longa e adequada para matar”. Além disso, em certo ponto de sua narrativa menciona também as figuras de Mordred e de Guinevere (Guanhumara). Mordred como sendo seu primo, filho de Aurelius Ambrosius, a quem teria deixado encarregado do governo do reino quando seguindo para uma de suas batalhas, e Guanhumara com sendo a sua esposa descendente de uma nobre família de romanos, educada pelo Duque Cador e considerada como de uma beleza não ultrapassada por nenhuma outra mulher. Mais tarde ele demonstraria os desencontros de Arthur com Mordred, através do texto: “Mas no início do verão seguinte, quando seguia para sua marcha contra Roma, iniciando a passagem pelos Alpes, Arthur teve notícias de que seu sobrinho Mordred, sob cujo cuidado havia deixado a Britain, havia, por práticas tirânicas e traiçoeiras, colocado a sua coroa sobre a sua própria cabeça, e que a rainha Guanhumara, violando seu primeiro casamento havia, pecaminosamente, se casado com ele.
Todas as conquistas de Arthur, que incluem Iceland, Dinamarca, França e uma guerra prolongada contra os romanos, da qual sai vencedor, são então detalhadamente narradas, até a sua luta contra Mordred, em que o mata, mas é por ele ferido mortalmente, sendo transportado à Ilha de Avalon para ser curado de suas feridas. E transfere o controle do seu reino a Constantine, Duque da Cornwall, no ano de 542 DC.
O primeiro dos trabalhos de Monmouth foi “As Profecias de Merlin”, que apareceu, primeiro, independentemente, e depois incorporado à “História dos Reis da Britain”. Essa obra consistiu, basicamente, de uma série de obscuras declarações proféticas atribuídas a Merlin, segundo ele, traduzida de língua não especificada. A sua “História” é o primeiro trabalho que apresenta uma ligação entre Merlin e o Rei Arthur. Monmouth ainda teria escrito outra obra, intitulada “A Vida de Merlin”, também composta em latim, em torno do ano 1150 DC, em que ele reconta incidentes da vida do mago bretão, baseada em material tradicional. No texto, Merlin é descrito como um profeta, muito mais fiel às tradições Welsh sobre Myrddin Wilt, o original que teria inspirado a complexa figura de Merlin criada por Monmouth; e o trabalho é o primeiro a apresentar a feiticeira Arthuriana, Morgan le Fay, como Morgana.

terça-feira, 21 de junho de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (10) (Décima Oitava Parte)

A HISTÓRIA DE ARTHUR E SEUS CAVALHEIROS (1)

Embora em nossa última publicação sobre esse assunto tenhamos dito que o que ocorreu a partir do ano 570 DC não interessasse diretamente ao nosso assunto específico, ainda para o completo entendimento da participação do personagem Arthur na época em que viveu, faremos um breve relato sobre a consolidação plena do domínio Anglo-Saxon sobre a Britain.
Na verdade, logo após 550 os Saxons reiniciaram sua ofensiva em direção ao oeste, com uma vitória importante em Old Sarum, próximo a Salisbury (Sorviodunum dos romanos e Searoburh após a batalha). Em 577 os Britons do sudoeste foram totalmente separados do resto da Britain após um triunfo Saxon na batalha de Dyrham, quando Bath, Cirencester e Gloucester foram perdidas.
Salisbury (em verde, ao sul), Bath (em negro, noroeste), Cirencester (em azul, no centro da figura) e Gloucester (em vermelho, mais ao norte)
 Por algum tempo, os Britons parecem ter se embrenhado nos pântanos de Somerset (a oeste da área anterior), mas em 614 os Saxons se moveram para Devon e em torno de 682 tinham o efetivo controle de todo o sudoeste peninsular, com exceção da Cornwall, que permaneceu independente até 962.
Cornwall no contexto da Britain e detalhe
 Numa escala macroscópica, ao sul do rio Thames os invasores eram, predominantemente, Saxons, enquanto que ao norte eles eram Angles. Nessas últimas áreas, Midlands e o Norte da England, os Angles moveram-se em direção ao oeste um pouco mais tarde do que os Saxons, em torno do início do Século VII. No extremo norte, o poderoso reino da Northumbria rapidamente emergiu dos reinos Anglian menores da Bernicia e Deira. Contudo, no Século VIII, a Northumbria foi eclipsada pelo reino central English da Mercia, que cresceu sob o seu famoso líder Offa, empurrando os Britons remanescentes para as montanhas Welsh. A fase final Anglo-Saxon viu o crescimento do reino Saxon de Wessex, que alcançou notoriedade sob Alfred, o Grande, no Século IX. Foi o seu sucessor, Athelstan, que efetivamente uniu os Anglo-Saxons em um só reino, em torno de 927 DC. Essa enorme nação Anglo-Saxon, primeiro chamada de Angelcynn e então Englaland, tornou-se finalmente conhecida por England.
Os Reinos da Bernicia, Deira e Mercia  e o Reino unificado da Northumbria, pela união dos dois primeiros
 Os British nativos foram gradualmente empurrados para fora da England, reduzidos a três remanescentes da civilização Celtic: Wales, Cornwall e o Noroeste, ao passo que outros fugiram através do English Channel, estabelecendo-se na Bretagne. Ao final, mesmo a Cornwall e o Noroeste foram dominados pelos Anglo-Saxons, deixando apenas a área que hoje chamamos Wales como o lar sobrevivente dos nativos Britons. Do Século X para a frente, não se tratava mais de uma questão de Britain Anglo-Saxon e nativa, mas de dois países separados, England e Wales.
Foi esta divisão que permitiu a sobrevivência das histórias do Rei Arthur, primariamente, no Wales e Cornwall. Isso explicaria porque os “Annales Cambriae” (Anais de Wales) mencionam Arthur, ao passo que o English “Anglo-Saxon Chronicle” (Crônica Anglo-Saxon) não o menciona; e também porque o monge Welsh Nennius faz menção a Arthur, enquanto que ele é omitido da obra do monge English Bede. É certamente nas áreas de Cornwall e Wales que o folclore do Rei Arthur é mais evidente, onde o seu nome e feitos heroicos parecem ter sobrevivido até o período dos romancistas medievais. Como veremos adiante, isso bem poderia explicar porque Geoffrey of Monmouth coloca o nascimento e morte de Arthur em Cornwall e sua corte em Wales.
A partir desse momento, contamos com todos os elementos necessários para um bom entendimento da História da England, desde as suas origens, sumamente importantes, para que possamos passar a discutir o nosso assunto principal, que é a história/mito do Rei Arthur e seus Cavalheiros.

domingo, 29 de maio de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (9) (Décima Sétima Parte)

CONSOLIDAÇÃO DO DOMÍNIO ANGLO-SAXON
A história do Rei Arthur se confunde com o início da dominação anglo-saxon na Britain. Por essa razão, iniciaremos a sua narrativa, pelo rei bretão Vortigern, o grande facilitador da entrada dos invasores anglo-saxon.

O REI VORTIGERN VORTENEU
As estimativas sobre o período em que Vortigern teria reinado na Britain, variam drasticamente: possivelmente em torno de 425 DC, talvez cerca de 440-445 DC. Ele pode ter sido um “alto rei” e Vortigern pode não ter sido o seu nome, mas apenas um título significando “over king” (um rei superior). De acordo com fontes disponíveis, Vortigern era um homem fraco e de pouco caráter, com poucas qualidades pessoais comprovadas. Sendo essas fontes corretas, é difícil imaginar que sua ascensão ao trono tenha sido por aclamação dos membros do conselho reinante na Britain, sendo mais fácil acreditar que ele assumiu o poder por força de traição e crimes.
Em sua “História dos Reis da Britain”, Geoffrey of Monmouth (para uma curta biografia de Geoffrey of Monmouth, siga o link) fala de um rei Constantine, com três filhos: Constans, Aurelius Ambrosius (Ambrosius Aurelianus da história real) e Uther Pendragon (o lendário futuro pai do rei Arthur). Segundo Geoffrey, Constantine foi assassinado por um pictish, deixando seu filho mais velho, Constans, como rei.
Vortigern teria achado seu caminho casando-se com Severa, a filha do herói nacional e antecessor de Constantine, Magnus Maximus, e se instalado como conselheiro do rei Constans, então muito jovem; em seguida teria conspirado para matar o jovem rei. Com o rei fora do caminho e sendo Aurelio Ambrosius e Uther Pendragon apenas bebês, sem qualquer poder para frustrar seus projetos, Vortigern deteve para si a coroa. Felizmente para os jovens irmãos, eles teriam sido agasalhados e enviados à corte de seu primo, Budic I, na Brittany (região noroeste da França).
De acordo com a “Historia Brittonum” de Nennius, Vortigern subiu ao poder sob três fortes ameaças: os Picts e Scots, uma nova invasão romana e o temível Ambrosius. O medo dos Picts e Scots era perfeitamente natural uma vez que as defesas British do norte eram ineficazes e em total desordem. O medo de uma invasão romana sugere uma grande paranoia da parte de Vortigern – já que os romanos há anos não tinham presença na Britain – ou que havia uma boa razão para se preocupar com o reaparecimento de soldados romanos nas costas da Britain, das quais somos hoje ignorantes. O medo de Ambrosius teria fatais consequências, em alguns anos, já que ele era ainda jovem para reações imediatas. Mesmo com o apoio de seus cunhados, então poderosos governantes em Wales, o poder de Vortigern no país era ainda inseguro, piorando com a morte de Severa.
Para ajudar na defesa contra os ataques crescentemente brutais das tribos do norte, Vortigern autorizou o uso de mercenários Saxon e Jutish, liderados pelos príncipes Hengist e Horsa, que chegaram com uma pequena frota, em Kent, através da mesma prática adotada pelos romanos, qual seja, a cessão de terras para assentamentos em troca dos seus serviços. E assim foi feito.
A estratégia anti Pict/Irish adotada por Vortigern provou ter sucesso, dado que essas tribos nunca voltaram a ser problema e os arranjos entre os Saxons e Vortigern foi agradável por algum tempo. Contudo, mais tarde, os saxons mais uma vez enganaram Vortigern: bêbado durante uma celebração, Vortigern apaixonou-se por Rowena, filha de Hengist que lhe concedeu casar-se com ela se lhe entregasse o sub-reino de Ceint (Kent), com o que ele concordou. As Crônicas Anglo-Saxon registram a ascenção de Hengist ao trono de Kent em 455 DC e embora registre também a fuga dos Britons daquele reino para o de London, provavelmente refere-se a um exército e não a um povo. Os invasores, Jutes, chamaram a capital do novo reino de Canterbury, o burgo do povo do Cantii.
Localização de Canterbury no Reino de Kent

O Reino de Kent na England
 


















VORTIMER E AMBROSIUS AURELIANUS
Ameaçado pela traição de seus patrícios, Vortimer, o filho mais velho de Vortigern, declara-se um líder British rival, forma um exército e, por um curto período, consegue impedir o avanço saxon; contudo, ferido em batalha, é envenenado por sua madrasta. De sua base fortificada, os saxons então demandam mais alimentos e roupas para suprir o número sempre crescente de soldados, o que Vortigern recusa; a resposta não é aceita pelos saxons, que rasgam a terra, deixando devastação por onde passam. Muitos morrem nas batalhas que se seguem, entre eles, Horsa e o filho de Vortigern, Catigern. Finalmente Hengist pede por uma conferência de paz em Salisbury Plain, dizimando os British onde estavam, assim que chegam. Essa atitude dos Saxons resultaria em várias gerações de guerra contra os Britons.
Desiludidos, os British finalmente se rebelam contra o alto-rei. Ambrosius Aurelianus, retornando do seu exílio na Brittany e agora transformado num jovem corpulento, toma seu lugar nos eventos da época, para liderar o seu conflito. Merlin lhe teria legado o sítio montanhoso onde Vortigern não havia logrado construir o seu castelo e lá constrói seu forte de Dinas Emrys. Vortigern refugia-se no reforçado forte de colina de Ter’r Ceiri em Yr Eifl (Os Rivais), em Lleyn, mas Ambrosius persegue-o e expulsa-o para o sul, via Nant Gwrtheyrn e o mar, para Ergyng e um castelo de madeira no velho forte de colina de Caer-Guorthigirn. Aí o castelo teria sido atingido por um raio e Vortigern queimado até a morte. Posteriormente ele teria sido enterrado em uma pequena capela em Nant Gwrtheyrn.
Com isso, passa para Ambrosius Aurelianus a tarefa de impedir o avanço dos saxons, como líder da facção pro-romana na Britain. Logo (460-470 DC) ele tem o completo controle da Britain, liderando os britons por anos de luta contra os saxons.
Assim, o primeiro reino Anglo-Saxon na Britain, foi na verdade um reino Anglo-Celtic, povoado por Anglo-Celtas. A dinastia fundada por Hengist, durou por três séculos, mas apenas trinta anos passados de sua chegada, outro líder chamado Aelle veio para estabelecer-se, tornando-se o líder dos South-Saxons no reino chamado Sussex. Outros reinos surgiram: Essex, o dos West-Saxons, Middlesex, o dos Middle-Saxons e Wessex, dos West-Saxons, este destinado a tornar-se o mais poderoso de todos e que acabaria por reunir os diversos povos da England (nome vindo dos Angles) em uma só nação. Nossa história não pretende avançar tanto.
A partir do ano 460-470 DC, além das fontes já mencionadas de Gildas, Bede e Nennius, tudo com que podemos contar, sobre a história da Anglo-Saxon Britain, para o objetivo que nos interessa, são linhas esparsas, fornecidas pela “Anglo-Saxon Chronicle”. Trata-se de um relato de autor desconhecido, elaborado por ordem do Rei Alfred, O Grande, aproximadamente pelo ano 890 DC.
Após a morte de Vortigern, Ambrosius mostrou-se conciliatório com relação aos seus filhos e deixou-os manter suas propriedades em Buelt, Gwerthrinyon, Gwent e Powys. A despeito dessa magnanimidade, o rei Pasgen, de Buelt e Gwerthrinyon, mais tarde rebelou-se contra Ambrosius e duas vezes tentou destruir a Britain, com ajuda dos Saxons e Irish. As principais forças Anglo-Saxon haviam se retirado ao norte do Humber e Ambrosius encontrou Hengist na batalha em Maesbeli e então Conisburgh (Caer-Conan). Mais tarde ele sitiou Octa e Osla em York (Caer-Ebrauc). Todos foram derrotados, mas Ambrosius deixou-os assentar o seu povo em Bryneich (Bernicia).
Apenas para constar, Geoffrey of Monmouth (do qual ainda muito falaremos) conta que Ambrosius teria construído um monumental círculo de pedras, o “Círculo do Gigante” (possivelmente Stonehenge ou Avebury), no Monte Ambrius, como um memorial aos massacrados pelos Saxons na “Noite das Longas Facas”, durante o reinado de Vortigern. O próprio Ambrosius teria sido enterrado aí após ser envenenado por um Saxon em Winchester.
Ambrosius foi, certamente, uma figura histórica, como registrado por seu narrador contemporâneo próximo, São Gildas. Em sua “Sobre a Ruína e Conquista da Britain”, o monge descreve como os Saxons violentaram o país antes de retornar para casa:
“Os sobreviventes (dos British) ... pegam nas armas e desafiam seus vencedores à batalha, sob Ambrosius Aurelianus. Era um homem de caráter modesto que, sem par na raça romana, teve a sorte de sobreviver à tempestade em que seus pais, pessoas sem dúvida vestidas de púrpura, haviam sido mortos. Sua descendência em nossos dias grandemente degenerou da sua nobreza ancestral. Depois daquele tempo, os cidadãos foram algumas vezes vitoriosos, algumas vezes o inimigo ... até o ano do Cerco do Mons Baudonicus”.
Adicione-se a isso os comentários do cronista do século IX, Nennius, que, alinhado com Geoffrey, registrou Ambrosius como um dos principais pavores de Vortigern. Nennius também descreve Ambrosius como um jovem sem um pai, chamado a auxiliar Vortigern. Ele amarra o período admitindo que o reino de Vortigern começou, pelo menos, em 425 e que Ambrosius lutou em Guoloph, doze anos mais tarde. Isso é muito interessante porque cria um grande problema. Muita gente considera a referência de Gilda a Mons Badonicus para deduzir que foi Ambrosius, e não o Rei Arthur, o comandante da famosa batalha de Monte Badon, a vitória decisiva British sobre os Saxons, em torno de 495-500. No ano 495, Ambrosius teria, pelo menos 74 anos de idade e seria, de fato, difícil imaginar um homem desse período vivendo até essa idade, deixado só a brandir uma pesada espada como as da época, conduzindo uma carga a cavalo contra as posições dos Saxons. Nesse caso, qual seria a solução?
Não há uma solução definitiva, mas alguns resolveram o problema postulando dois homens chamados Ambrosius: o mais velho, que apavorava Vortigern e o mais moço, herói da resistência British da segunda metade do século V e o vitorioso de Mount Badon. Isso é certamente possível, visto que havia muitas pessoas com o mesmo nome naqueles dias; por que não dois Ambrosii?
Entretanto, a mais provável possibilidade, é que havia apenas um Ambrosius. Arthur poderia, nesse caso, ter sido o real comandante da vitória de Mount Badon; ou, talvez, “o grande rei entre os reis da nação British”, Ambrosius Aurelianus, pudesse ter sido o idoso comandante supremo do batalha, deixando a função de líder da linha de frente da batalha para um homem mais jovem, que poderia ser Arthur.
Após a batalha de Monte Badon, cerca do ano 500 DC, teriam transcorrido quarenta e quatro anos de relativa paz, durante cujo período, os bretões dividiram-se em cinco ou mais reinos tribais na região ocidental.
Enquanto isso os reinos e a instabilidade aumentavam entre os anglo-saxões no Leste. Por sua vez, os jutes, a partir de Kent, tomavam a ilha de Wight. Só em 570 DC haveria uma nova forte invasão dos anglo-saxons.


A ilha de Wight no contexto da England e vista em detalhe, ao lado.









Daí para a frente, a dominação anglo-saxon se consolidaria com reis de várias dinastias se sucedendo, no prosseguimento, mais ou menos uniforme, da História da Britain, que poderá ser acompanhada pelas várias fontes citadas até aqui e outras não citadas, embora muito conhecidas; entretanto, adentrar essa área estaria fora do interesse principal do nosso trabalho.
Importante, entretanto, para o nosso assunto, embora tenha ocorrido muitos anos depois dos acontecimentos relatados, foi o importante acontecimento do ano 1066 DC, em que ocorreu a grande Invasão Normanda, que encerraria o período de dominação anglo-saxon e iniciaria, segundo muitos historiadores, a última invasão em grande escala da Britain. É também muito importante aqui lembrar, que esses invasores, embora não franceses em sua origem, partiram de uma região ao norte da França, denominada, até hoje, Normandia e eram formados por povos de origem escandinava ou vikings. Mencionada aqui, apenas de passagem, partiríamos de imediato ao nosso assunto principal, deixando aos mais interessados  - mas desta feita eu realmente recomendo uma olhada nesse texto - o “link” para uma rápida abordagem da Invasão Norman (para conhecer mais sobre a "Norman Invasion" ou Invasão Normanda, clique no link).

segunda-feira, 7 de março de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (1) (Nona Parte)

INTRODUÇÃO
Essa pretensiosa idéia de escrever uma história da Inglaterra foi motivada pela minha curiosidade sobre a figura histórico-lendária de um dos seus personagens mais ilustres, o Rei Arthur. Desde muito jovem peguei gosto pela literatura Arthuriana e só depois de velho consegui o almejado direito ao “ócio produtivo”, para poder dedicar-me a uma pesquisa mais aprofundada sobre a vida desse personagem. Ora, a vida do Rei Arthur está diretamente ligada à vida da Great Britain que, por sua vez, é um dos países de história mais complexa do mundo, por pelo menos dois motivos principais: (1) trata-se de uma grande ilha, permanentemente (bem, tudo tem o seu limite) socialmente separada do continente europeu, por própria e veemente opção; (2) a sua peculiar origem e a forma de colonização que sofreu ao longo do seu estabelecimento como uma só nação. Uma coisa leva a outra e chegamos à conclusão que, para contar uma pequena história do Rei Artur, deveríamos contar um pouco da história da Inglaterra, que não é pequena e começou há muito, mas muito tempo atrás. Ora, o assunto começou a ficar muito mais longo do que eu imaginava (e gostaria) que ficasse, é muito fácil de imaginar. Em consequência, transformou-se em mais uma das minhas tarefas que, possivelmente, não verei concluída antes do encerramento do meu curto estágio neste nosso mundo. O que não quer dizer que não iremos persegui-la até o nosso próprio limite.
Desse reconhecimento, algumas consequências brotaram imediatamente. Uma delas é que a matéria que eu pretendia fosse uma simples crônica para o meu “blog”, transformou-se numa missão de aprendizado particular – meu aprendizado -, que estarei publicando, periódica, parcelada e parcimoniosamente, à medida que consiga ir fechando as partes que comporão o todo pretendido; principalmente porque há outros assuntos pelos quais tenho interesse e dos quais não abdicarei de ir, também, publicando. Uma segunda consequência é que o trabalho jamais será desenvolvido com a profundidade desejável e servirá então para satisfazer à curiosidade daqueles que nada sabem - e aqui me incluocomo eu próprio-, sobre assunto, podendo ter, para eles, algum interesse semelhante; muitas partes serão pinceladas aqui e ali, de pesquisa realizada nas fontes disponíveis.
Esta etapa do nosso trabalho foi dividida em três partes, em ordem cronológica, para bem situar o leitor. Na primeira delas descrevemos, superficialmente, o período que vai do ano 8.000 AC até o início da Era Cristã, que coincide com a invasão da Britain pelo poderoso Império Romano, englobando a Idade da Pedra Polida (Neolítico), a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. Na segunda etapa, descrevemos aquilo que chamamos de “England Romana”, período de aproximadamente 400 anos, em que a Ilha esteve ocupada pelos soldados romanos. Finalmente, na terceira parte, com mais detalhes que nas anteriores, descrevemos a “England Anglo-Saxônica”. Evidentemente, e por razões óbvias, é nesse período que concentraremos nossos maiores esforços; no período que descreve a chegada e dominação dos povos anglo-saxons, época durante a qual teria vivido o nosso herói, o Rei Arthur, que merece um capítulo todo especial. Antes disso, terão sido breves referências, necessárias para localizar o leitor sobre as origens dos povos da Britain.
À guisa de “introdução”, para um assunto tão amplo quanto o escolhido, é o que basta. Seria tolice uma apresentação mais volumosa, quando o futuro reserva um material que, para muitos, já poderá constituir um tremendo exagero. Vamos, portanto, ao que de fato interessa...

 
I -DA IDADE DA PEDRA AO INÍCIO DA ERA CRISTÃ


Do Neolítico à Idade do Bronze, 8.000 - 800 AC
O alvorecer da exploração agrícola 

A Terra existe há uns cinco bilhões de anos, mas na imensa maior parte desse longuíssimo tempo não houve sinal de vida sobre o planeta. As primeiras formas de vida que surgiram através de milhões de anos (já dividimos a coisa por mil!) foram se tornando mais completas e evoluídas, até chegarem aos grandes animais e ao aparecimento dos grandes “hominídeos” - todas as espécies de primatas em que se inclui o homem moderno -, por volta de 2 milhões de anos atrás. Os cientistas pensam que foi, aproximadamente, há um milhão e meio de anos que algumas espécies de hominídeos começaram a se distinguir dos outros animais por sua capacidade de fabricar armas rudimentares, de pau e pedra (para se defenderem e para caçar), e descobriram que certas coisas da natureza podiam ser utilizadas como utensílios.
O mais antigo hominídeo, com sinais de inteligência, foi descoberto no sul da África, numa gruta onde se encontravam ossadas fósseis, de vários hominídeos da mesma espécie, dando a entender que já viviam em grupo. Juntamente foram recolhidas pedras que tinham sido trazidas de rios bem distantes, já com intenção de aproveitá-las como utensílios. Em 1868, foram descobertos esqueletos na França, em Cro-Magnon.
 
 Abri de Cro-Magnon, local da primeira descoberta em 1868
Foram encontrados também fósseis do mesmo estágio de civilização numa gruta em Grimaldi (Itália), na República Tcheca e em muitos outros lugares. Trata-se do nosso ancestral mais direto, que apareceu por volta de 40.000 anos atrás (já dividimos novamente por mil!). Pelos utensílios e sinais de civilização que deixou, já demonstrava uma inteligência mais evoluída. Por isso foi também chamado de “Homo Sapiens” ("homem sábio"). Este teria fabricado mais de uma centena de objetos diferentes com as mais variadas utilidades, inclusive ornamentais. Usava sepulturas coletivas, tendo sido grande pescador e caçador. Daí por diante, os seres-humanos foram se aperfeiçoando, melhorando suas técnicas de domínio sobre a natureza, desenvolvendo sua cultura e se organizando em sociedades que foram as civilizações antigas.
A Pré-história corresponde ao período da história que antecede à invenção da escrita, evento que marca o começo dos tempos históricos registrados e que terá ocorrido, aproximadamente, em torno do ano 4000 AC. Assim definido, seu término torna-se muito elástico, pois ele também pode ser contextualizado, para um determinado povo ou nação, como o período da história desse povo ou nação sobre o qual não haja documentos escritos. Assim, no Egito, a pré-história terminou aproximadamente em 3500 AC, enquanto que no Brasil terminou em 1500 DC e na Nova Guiné, ela terminou, aproximadamente, em 1900 DC. Para muitos historiadores o próprio termo "pré-história" é errôneo, pois não existe uma anterioridade à História e sim à Escrita.
A Idade da Pedra é o período da Pré-História, durante o qual os seres humanos criaram ferramentas de pedra, tornando então a tecnologia mais avançada. A madeira, os ossos e outros materiais também foram utilizados nesse período, mas a pedra foi utilizada para fabricar ferramentas e armas, de corte ou percussão. Contudo, esta é uma circunstância necessária, mas insuficiente para a definição deste período, já que nele tiveram lugar fenômenos fundamentais para o ser humano, no que se refere às aquisições tecnológicas (fogo, ferramentas, moradia, roupa, etc), à evolução social, às mudanças do clima, à diáspora do ser humano por todo o mundo habitável, desde o seu berço africano, e à revolução econômica de um sistema caçador-coletor até um sistema, parcialmente, produtor (entre outras coisas). O intervalo de tempo que abrange a Idade da Pedra é ambíguo, disputado e variável segundo a região em questão. Por exemplo, escavações mostraram que enquanto em certos lugares, como a Grã-Bretanha, se vivia na Idade da Pedra, em outros, como Roma, Egito e China, já se usavam os metais e conhecia-se a escrita. Alguns grupos humanos nunca desenvolveram a tecnologia do metal fundido e, portanto, ficaram numa “idade de pedra” até se encontrarem com culturas tecnologicamente bem mais desenvolvidas.
Tradicionalmente, a Idade da Pedra é dividida em Paleolítico (ou Idade da Pedra Lascada), com um sistema econômico de caça-coleta e Neolítico (ou Idade da pedra Polida), em que se produz a revolução para o sistema econômico produtivo: agricultura e pecuária.
O Neolítico, também chamado de Idade da Pedra Polida, é período da Pré-História que começa em 8000 AC. Durante este período surge a agricultura; a fixação, resultante do cultivo da terra e domesticação de animais para o trabalho, cria o sedentarismo (moradia fixa em aldeias).
Seres humanos têm vivido no local ao norte da Europa, atualmente chamado de Grã-Bretanha, por cerca de 750.000 anos. Durante a maior parte deste tempo eles sobreviveram através da coleta de alimentos como nozes, bagas, folhas e frutas de origem selvagem, bem como da caça. Por milênios, ocorreram fases de frio extremo, quando vastas áreas da Grã-Bretanha ficaram cobertas com gelo, seguidas de períodos mais quentes. Após o final da Era Glacial, ocorrida a cerca de 10.000 anos atrás, os níveis do Mar do Norte começaram a subir a partir do momento em que as águas anteriormente represadas em enormes lençóis de gelo começaram a derreter. Em algum momento após 8.200 AC, a última “ponte de terra” seca, ligando Lincolnshire e East Anglia à Holanda (futuro British Channel), foi inundada pelo brejo de água salgada. Em torno de 6.000 AC até mesmo os brejos já haviam terminado em sua maior parte, submersos pelo mar, e a Great Britain então separou-se do continente europeu.
As pessoas que viviam nas novas ilhas da Great Britain eram descendentes dos primeiros humanos modernos ou “Homo Sapiens”, que chegaram ao norte da Europa em torno de 30.000 a 40.000 anos atrás. Como seus ancestrais, viviam da caça e da coleta. A introdução da exploração agrícola, quando os povos aprenderam a produzir ao invés de adquirir sua alimentação, é vista, pela maioria dos cientistas, como uma das maiores mudanças na história da humanidade. Essa mudança ocorreu em várias épocas em diferentes locais ao redor do mundo. No Paleolítico os povos eram nômades, caçando e coletando plantas selvagens. Em torno da metade do quinto milênio AC, uma nova forma de vida, baseada na exploração agrícola e de animais, foi introduzida através do continente. A substituição da caça e da coleta foi gradativa e não se completou até o final do terceiro milênio AC na Grã-Bretanha. Assim que a exploração agrícola foi estabelecida, as comunidades começaram a se instalar. O conceito de cultura que alcançou a Grã-Bretanha entre 5.000 AC e 4.500 AC, havia se espalhado pela Europa, com origem na Síria e Iraque, entre cerca de 11.000 AC e 9.000 AC.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - LINHA TEMPORAL BRITÂNICA (5) (Oitava Parte)

VIKINGS E ANGLO-SAXONS
410 DC – 1066 DC

430 DC
Ninian torna-se o primeiro missionário cristão na Scotland
Ninian provavelmente era filho de soldado romano estacionado na Muralha de Adriano que, após estudar em Roma e na Gaul, viajou para Galloway para difundir o evangelho cristão. Pelo ano 430 DC seus seguidores haviam construído a primeira igreja cristã na Scotland, em Whithorn.
A crônica que registra a ordem do Papa Celestino I a Palladius é a primeira evidência de comunidades cristãs na Ireland. Há algumas indicações de que Palladius alcançou a Ireland e lá desenvolveu trabalho missionário, mas a fama posterior de St. Patrick eclipsou a de Palladius.
Invasores irlandeses subjugaram Patrick, um Roman-Briton, filho e neto de padres cristãos. Ele escapou após alguns anos, mas retornou posteriormente para tornar-se o primeiro missionário cristão conhecido a atuar na Ireland. Cronistas posteriores dataram o seu retorno em 432 DC, provavelmente porque pensaram que não poderia ser antes de Palladius, o primeiro homem indicado como bispo dos cristãos vivendo na Ireland. Hoje ele é o santo patrono da Ireland.

449 DC
Angles e Saxons chegam ao sudeste da Britain
Essa data tradicional para marcar a chegada dos Anglo-Saxons invasores na Britain é tirada da ‘História Eclesiástica dos English’, completada pelo Venerável Bede, um monge Beneditino, em 731 DC. Isso é errado, com quase toda a certeza e outras fontes sugerem que a chegada dos angles e saxons foi parte de um processo de conquista e instalação que começou antes e prosseguiu até mais tarde.

516 DC
Britons, sob o comando de um líder desconhecido, derrotam os Angles e Saxons em Mount Badon
Gildas, um monge british (entre 504 e 570 DC), escreveu que os angles e saxons sofreram um revés em Mount Badon, possivelmente em algum lugar na Britain Suduoeste, derrotados pelos britons. Gildas não menciona o nome do líder dos britons, mas séculos mais tarde a batalha foi associada com o nome do mítico REI ARTHUR. Ao passo que a batalha em si é um evento praticamente real, a data de 516 DC é totalmente incerta.

540 DC
Gildas escreve sobre a chegada dos anglo-saxons
Gildas escreve ‘A Ruína da Britain’ (em latim: ‘De Excidio et Conquestu Britanniae’; em inglês: ‘On the Ruin and Conquest of Britain’), a única fonte contemporânea sobre o colapso da Britain romana e a chegada dos anglo-saxons. Infelizmente não pode ser considerado documento histórico, pois Gildas apenas viu o episódio como uma punição de Deus pelos pecados dos Britons.

565 DC
Columba funda um monastério na ilha Scottish de Iona
Após fundar os monastérios de Derry e Durrow na Irlanda, Columba, um missionário cristão, exila-se da Irlanda, possivelmente como penitência por alguma falta leve. Funda um monastério em Iona, uma ilha ligada à ilha de Mull, oeste da Scotland. Missionários treinados em Iona e suas afiliadas converteram muito da Scotland e England à cristandade. Pelos dois séculos seguintes, Iona tornou-se o mais famoso centro de aprendizado do cristianismo no mundo celta e Columba foi feito santo.

575 DC
Reis irish reúnem-se em Druim Cett para discutir o relacionamento com a Scotland
A convenção de Druim Cett foi realizada para estabelecer as relações entre o rei de Dál Riata, a colônia irish em que se situa agora o oeste da Scotland, e os reis irish do norte da Ireland. Dál Riata era a pequena colônia a partir da qual começou a conquista e colonização Gaelic de grande parte da Scotland.

590 DC
Columbanus inicia trabalho missionário exilando-se da Ireland
Originário de Leinster, onde viveu muitos anos no monastério de Bangor, como outros monges de seu tempo, acabou também por abandonar  a Ireland e embarcar em trabalho missionário no exterior. Esteve na Gaul com 12 companheiros e depois fundou vários monastérios nos reinos Frankish e Italian. Foi feito Santo.

597 DC
Augustine chega em Kent e inicia a conversão da England
A pedido do Papa Gregório I, Augustine conduz uma missão à England em 596 DC, provavelmente a pedido de Æthelberht, rei de Kent, cuja esposa era cristã. Chega em 597 e Æthelberht dá-lhe terras em Canterbury para construir uma igreja. Æthelberht torna-se o primeiro rei anglo-saxon a abandonar o paganismo e tornar-se cristão. Augustine é feito Santo, algumas vezes chamado “Augustine o Inferior” para diferenciá-lo do seu antecessor Santo Augustine

616 DC
Æthelberht morre em Kent
Um dos mais poderosos reis da England, pelo ano 600 DC, ao tempo de sua morte Æthelberht estava perdendo poder para Redwald, rei dos East Angles. Um de seus últimos legados foi o seu código legal, o primeiro escrito em inglês.

627 DC
Edwin of Northumbria torna-se o primeiro rei cristão no norte da England
Influenciado por sua esposa cristã Æthelburh, Edwin levou para a Northumbria (norte da England e sudeste da Scotland), Paulinus, o último dos missionários enviados à Britain pelo Papa Gregório I, que construiu uma igreja de madeira no antigo quartel general legionário romano, em York, e lá batizou Edwin, primeiro rei cristão no norte da England.

633 DC
Aidan funda o monastério de Lindisfarne, Northumbria
Ao morrer Edwin, em batalha, a missão cristão em suas terras sucumbiu. A pedido de Oswald, o novo rei, o abade de Iona enviou o missionário irish Aidan, como o novo bispo. Próximo do castelo real de Bamburgh, ele fundou o monastério de Lindisfarne, onde foram treinados muitos dos missionários que converteram o resto da England. Aidan foi feito Santo.

642 DC
Oswald da Northumbria morre como mártir cristão em batalha
Oswald enfrenta seu inimigo Penda, rei da Mercia, em Oswestry (Shropshire). Como seu predecessor Edwin, Oswald morre em batalha, combatendo o pagão Penda e é por isso visto como mártir cristão. Diz-se que suas relíquias operavam milagres até o sul da Alemanha.

664 DC
É estabelecido o sínodo de Whitby para estabelecer as diferenças entre os cleros romano e celta
Oswiu, rei da Northumbria, realiza reunião em Whitby para estabelecer as práticas religiosas a serem adotadas neste reino – as da igreja celta (Wales, Scotland e norte da England), tal como pregada pelos missionários irish ou as da igreja romana (do sul da England). As matérias incluíram como calcular a data da Páscoa. Ficou decidido seguir a prática de Roma, o que causou a saída de muitos religiosos irish da Northumbria para a Ireland.

668 DC
Theodore é consagrado Arcebispo de Canterbury
O primeiro inglês a ser escolhido Arcebispo de Canterbury, Wighard, havia viajado a Roma para a sua sagração e lá morreu. Para o seu lugar, o Papa Vitalian escolheu Theodore, um pregador grego de Tarsus. Embora em idade avançada, Theodore trabalhou no cargo por 21 anos e muito realizou para fortalecer a Igreja English, tornando Canterbury o maior centro de aprendizado.

678 DC
O Bispo Wilfrid de York é expulso de sua diocese
Wilfrid tornou-se bispo da Northumbria logo após o sínodo de Whitby, em 664 DC. Sua diocese era uma das maiores da cristandade, estendendo-se de Humber a Edinburgh e além. Sua recusa em concordar com a divisão da sua diocese foi, provavelmente, a razão da sua expulsão por Ecgfrith, rei da Northumbria e o arcebispo de Canterbury, Theodore.

685 DC
Ecgfrith da Northumbria e suas forças são expulsas da Scotland
Ecgfrith da Northumbria invadiu o norte da Scotland, numa tentativa de finalmente subjugar as tribos nas fronteiras mais ao norte do seu reino. O exército dos Picts, sob o comando do rei Bruide (primo de Ecgfrith) encontra-o em Dunnichen Moss (Forfarshire) e inflige-lhe derrota devastadora. Com isso, a dominação Anglo-Saxon na Scotland chega a um abrupto fim.

690 DC
Começa o trabalho entre os pagãos Frisians
Willibrord, de Yorkshire, inspirado por St. Egbert, um padre English vivendo na Ireland, inicia seu trabalho missionário em 690 DC entre os pagãos frisians. O Papa Sergius o faz bispo da nova diocese de Utrecht onde trabalha como missionário por 49 anos.

704 DC
Loingsech Mac Óengusso, “Rei da Ireland”, é morto quando invadindo Connacht
Loingsech e seu avô Domnall Mac Áedo, foram os únicos dois reis, antes do século IX, a serem chamados “Reis da Ireland” por historiadores Irish. Eles vinham do grupo Ui Neill (O’Neill) das dinastias de Ulster. Suas forças foram desbaratadas e ele foi morto durante uma invasão de Connacht, província histórica localizada a oeste da Ireland.

Até 1066 DC a linha temporal prossegue com a Britain sob o domínio Anglo-Saxon, quando passa ao domínio da Normandia, até o ano 1154 DC, que marca o início da Idade Média, encerrando-se em 1485.
Se retornarmos às origens desse imenso trabalho cujo título resumido seria uma “História da Great Britain”, lembraremos que o seu grande motivador é o Rei Arthur e seus cavaleiros da “távola redonda”. Para os leitores interessados, que já tiveram a paciência de aguentar esse imensa história, até aqui, podemos nesse ponto interromper essa linha temporal, visto que a figura do Rei Arthur aparece justamente pouco antes dessa época, como um dos lendários defensores do solo da Britain da dominação estrangeira; no caso, da dominação anglo-saxon.
A partir desse momento, para alegria dos meus leitores, entraremos no assunto específico que nos propusemos apresentar, qual seja, a “história” do Rei Arthur e seus Cavaleiros. Para isso, nos restringiremos, temporalmente, ao período em que, supostamente teria vivido esse famoso personagem da história das ilhas britânicas. Mas todas as postagens precedentes, terão servido para fornecer aos leitores informações importantes quanto ao cenário, terminologia e acontecimentos importantes, prévios e ao tempo da vida do nosso personagem principal. Pelo menos é o que espera o autor.