Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

terça-feira, 17 de novembro de 2009

BOA NOITE, MRS. CALABASH, ONDE QUER QUE ESTEJA

Uma vez eu escutei, não lembro mais onde, nem quando (já tudo começa a perder-se, nas brumas do tempo ...), uma melodia maravilhosa, cantada por uma voz e uma interpretação únicas. Não se tratava, de forma alguma, de uma grande voz, uma voz maravilhosa, mas apenas uma voz inesquecível, como também a melodia, diga-se de passagem. Não descansei mais enquanto não descobri a canção e o seu intérprete: tratava-se da antiga “Make someone happy”, interpretada por Jimmy Durante. Não demorou muito e consegui importar um CD inteiro – The Best of Jimmy Durante - gravado por ele; e foi com agradável surpresa que, nesse disco, além da música que eu buscava, descobri um conjunto de outras jóias raras. O disco inteiro é uma jóia só, mas quero, nesse artigo, tocar levemente na primeira canção mencionada acima, que foi o grande motivo da minha busca, mencionar de passagem uma segunda, “I’ll be seeing you” e dedicar, a maior parte do texto, a uma terceira do mesmo CD, chamada “I’ll see you in my dreams”.
Pelo menos as duas últimas músicas não são, absolutamente, do meu tempo, como a gente costuma dizer, toda vez que não quer parecer tão velho como é, em realidade. Lembro-me, vagamente, de minha mãe mencionar o nome do intérprete algumas vezes, não como cantor, propriamente dito, mas como ator de cinema, meio cômico, no mais das vezes.
“Make someone happy” (“Faça alguém feliz”) é uma canção popular que ficou famosa, (relativamente) recentemente, através do filme de 1993, “Sleepless in Seattle”, interpretada pelo mesmo Jimmy Durante. A letra e a música dessa canção foram criadas por Betty Comden, Adolph Green e Jule Styne e ela foi originalmente criada para o musical, de 1960, “Do, Re, Me”, estrelada por Phil Silvers, Nancy Walker, David Burns, John Reardon, Nancy Dussault e interpretada por Nancy Walker.
“I’ll be seeing you” – “Estarei vendo você” - é uma canção popular criada para o musical da Broadway “Right This Way” – “Exatamente dessa forma” -, que fechou após quinze apresentações, apenas. A música foi escrita por Sammy Fain, a letra por Irving Kahal e a canção foi publicada em 1938. Já vêm que eu tinha razão quando dizia que as músicas não eram do meu tempo, visto ter eu nascido em 1944. O tema musical tem forte poder emocional e foi muito apreciada durante a Segunda Guerra Mundial. Apresentada ao longo de todo o filme de 1944, também intitulado “I’ll be seeing you”, estrelado por Ginger Rogers e Joseph Cotten, a sua gravação por Bing Crospby tornou-se um sucesso naquele ano (oh, ano do meu nascimento!), chegando a número um na segunda semana de julho. Mais tarde a canção tornou-se notavelmente associada ao pianista Liberace, como o tema do seu espetáculo de televisão na década de 1950.
“I’ll see you in my dreams” – “Verei você em meus sonhos” -, também uma canção popular, das mais famosas e cantadas dos seus dias, foi escrita por Isham Jones, com letra de Gus Kahn. Essa, ainda mais antiga que as anteriores, foi publicada em 1924 e originalmente gravada pelo próprio Isham Jones e a Orquestra de Ray Miller. Permaneceu no quadro das mais tocadas por dezesseis semanas durante o ano de 1925 e por sete semanas como a número 1. A canção foi escolhida como a canção título do filme de mesmo nome, uma biografia musical de Gus Kahn. Posteriormente, foi gravada por muitas vozes famosas, que incluíram Mario Lanza, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, além de Jimmy Durante e ainda outros. Mais tarde, a canção tornou-se a trilha sonora do filme “Kitty Foyle”, de 1940, que premiou Ginger Rogers com o seu único Oscar como melhor atriz principal.
Desde que ouvi essa melodia pela primeira vez, fiquei muito curioso com a frase com que Jimmy Durante encerra a sua interpretação de “I’ll see you in my dreams”: Good night, Mrs. Calabash, wherever you are (Boa noite, Senhora Calabash, onde quer que esteja). Como a música é muito romântica, pus-me a conjeturar sobre o objetivo da despedida, ao final da música. Vamos às possibilidades!
James Francis “Jimmy” Durante, nascido a 10 de fevereiro de 1893 e falecido a 29 de janeiro de 1980, nas vésperas de celebrar 87 anos, era um cantor e ícone do cinema americano, pianista, comediante e ator, cuja distintiva ironia, linguagem cômica pesada, canções com influência no jazz e o enorme nariz – suas freqüentes piadas sobre o próprio apêndice criaram uma espécie de auto referência que tornou-se o seu apelido: “Schnozzola”, mistura de “nose” (nariz em inglês) com a sua descendência italiana – ajudaram-no a torná-lo uma das personalidades mais familiares e populares entre os anos 1920’s e os anos 1970’s.

Jimmy Durante trabalhou, por muitos anos, em shows de rádios e suas apresentações eram tradicionalmente reconhecidas por duas marcas registradas: “Inka Dinka Doo” como seu tema de abertura e a sua invariável assinatura de despedida “Good night, Mrs. Calabash, wherever you are”. Por anos, Jimmy Durante preferiu manter vivo o mistério, mas acabou condescendendo.
Uma das teorias é de que a frase referir-se-ia à proprietária de um restaurante da cidade de Calabash, na Carolina do Norte, onde Jimmy e sua trupe haviam parado uma vez para comer. Ele teria sido tão tocado pela comida servida e pelo bate-papo que teria dito à proprietária que a faria famosa; como não soubesse o seu nome, ele se referia a ela como Mrs. Calabash. De fato, ao momento do encontro, a proprietária não fazia a menor idéia da pessoa com quem estava falando. Residentes de longa data de Calabash confirmam que ela era uma pessoa real com um nome real, Lucille “Lucy” Coleman. Em 1940, Lucy teria 28 anos de idade e gerenciava um restaurante na cidade, à época uma minúscula comunidade a beira-mar, limitando com a Carolina do Sul. A filha de Lucy, Clarice Holden, disse que jamais esqueceria o que aconteceu após a conversa entre os dois. “Quando Mr. Durante e seu grupo estavam se encaminhando para a saída, após a refeição, ele voltou-se para a minha mãe e disse: boa noite Mrs. Calabash.” Lucy Coleman morreu em 1989, quase 50 anos  após seu encontro  com Jimmy Durante; os residentes de Calabash acreditam que a saudação de boa noite de Jimmy Durante era a sua maneira de dizer a Mrs. Coleman: “Olá, Lucy, eu lembro de você, se você ainda estiver por aí, agora.” Aparentemente, a popularidade de Jimmy Durante era tão grande que ele podia imortalizar a proprietária de um pequeno restaurante do Sul.
A outra teoria – sou mais simpático a essa – é de que esse “boa noite”, de despedida, seria a sua saudação pessoal à sua falecida primeira esposa, Jeanne Olsen, que ele desposou em 19 de junho de 1921 e perdeu no Valentine’s Day (espécie de Dia dos Namorados e/ou dos Amigos, festejado nos EUA) de 1943. A palavra “Calabash” pode ter sido uma típica mutilação de Jimmy Durante com relação à palavra “Calabasas”, o local do Sul da Califórnia onde o par teria constituído o seu lar durante os últimos dias da vida de Jeanne. Num encontro do “National Press Club”, em 1966 (transmitido no programa “NBC’s Monitor”), Jimmy Durante revelou que a saudação era, de fato, um tributo à primeira Mrs. Durante. Certa vez, enquanto dirigindo pelo interior, eles pararam numa pequena cidade chamada Calabash, pela qual Mrs. Durante teria se apaixonado. Ele se lembrava que a cidade situava-se próximo de Chicago. Assim, “Mrs. Calabash” tornou-se o seu apelido íntimo; anos mais tarde ele passou a assinar a sua despedida do programa de rádio com a saudação “Good Night, Mrs. Calabash”. Ele adicionou o resto “... wherever you are”, ao final do primeiro ano do programa.
Não é muito importante saber qual das duas versões seria a verdadeira; ambas são muito bonitas e é emocionante ouvi-lo dizer a frase ao final da música. Se vocês nunca a ouviram, convido-os a escutar agora, não apenas “I’ll see you in my dreams”, mas também as duas primeiras mencionadas: “Make someone happy” e “I’ll be seeing you”, pelas quais tenho um especial carinho. Mas prestem muita atenção à terceira, “I’ll see you in my dreams” e, principalmente, ao seu final, quando ele diz “Good night, Mrs. Calabash, wherever you are”, e vocês hão de concordar que é impossível ouvir essas canções sem se apaixonar pelo fantástico romântico “narigudo”, Jimmy Durante.

2 comentários:

Gilda Souto disse...

Juntas as tres melodias abrangem uma mensagem bem emocional , como o são todas as melodias:música momento e emoção .Lindas,sendo a mais linda a última, e mais forte é o resgate do autor do seu momento emoção.Transparente a descrição de seu encantamento . Parabéns

Nelson Azambuja disse...

Obrigado pelo teu comentário. São lindas, não? E o teu blog, quando sai?